quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Harry Potter 6

Rowling, J. K. Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Editora Rocco; São Paulo / SP; 2005; 512 páginas.

Dados da obra:

Considerado, por alguns, o mais sombrio da série, o livro dá continuidade à saga de Harry Potter, que acabou de completar 16 anos, partindo assim para o sexto ano na escola de Hogwarts. Animado e ansioso, Harry terá aulas particulares com Dubledore.

Breve relato da autora:

Joane Kathleen Rowling, ou simplesmente JK Rowling é uma escritora britânica de ficção, autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter e de três outros pequenos livros relacionados ao mundo dele.

Passagens:

“– Mas enquanto estava na casa dos Dursley – interrompeu Harry, sua voz tornando-se mais firme – percebi que não posso me isolar de tudo, senão vou ficar maluco. Sirius não teria gostado disso, não é? De qualquer jeito, a vida é curta demais... vê a Madame Bones, vê a Emelina Vance... eu poderia ser o próximo, não é? Mas, se eu for – disse com ferocidade, agora encarando os olhos azuis de Dumbledore, brilhando à luz da varinha –, vou fazer questão de levar comigo o maior número de Comensais da Morte que puder, e Voldemort também, se tiver forças.”

“Era bem estranho, visto que tinha sido um Comensal da Morte disfarçado quem dissera pela primeira vez que Harry daria um bom auror, que a ideia o tivesse conquistado e ele não conseguisse realmente pensar em outra profissão futura. Além disso, tinha lhe parecido o destino certo para ele desde que ouvira a profecia há um mês... nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver... não estaria assim cumprindo a profecia e dando a si mesmo a melhor chance de sobreviver, se entrasse para o grupo de bruxos altamente treinados cuja função era encontrar e matar Voldemort? ”

“A infância de Neville fora arruinada por Voldemort tal como a de Harry, mas o amigo não fazia a menor ideia de como chegara perto de ter o destino dele. A profecia poderia ter se referido a qualquer um dos dois, contudo, por razões próprias e insondáveis, Voldemort preferira acreditar que se referia a Harry.
Se Voldemort tivesse escolhido Neville, ele é quem estaria sentado diante de Harry com a cicatriz em forma de raio e o peso da profecia... ou será que não? Será que a mãe de Neville teria morrido para salvá-lo, como Lílian morrera por Harry? Com certeza que sim... mas e se não tivesse conseguido se interpor entre Voldemort e o filho? Então, será que não haveria ‘Eleito’ algum? Só um banco vazio onde Neville se sentava agora e um Harry sem cicatriz que teria recebido um beijo de despedida de sua mãe e não da de Rony? “

“– As pessoas acreditam que você é o ‘Eleito’, entende? Acham que você é um herói, o que é claro, você é, Harry, eleito ou não! Quantas vezes você enfrentou Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado até agora? Bem, seja como for – ele prosseguiu sem esperar resposta –, a questão é que você é um símbolo de esperança para muitos, Harry. A ideia de que tem alguém de sentinela que talvez possa, ou até talvez esteja destinado a destruir Aquele-que-Não-Deve-Ser-Nomeado... bem é natural que isto revigore as pessoas. E não posso deixar de sentir que, quando perceber isto, você talvez considere, bem, quase como um dever, apoiar o Ministério e dar alento a todos.”

“– Dumbledore nos contou como você salvou Rony com o bezoar – soluçou a bruxa. – Ah, Harry, que podemos dizer? Você salvou Gina... salvou Arthur... agora salvou Rony...
– Não precisa... eu não... – murmurou Harry sem jeito.
– Parece que metade da nossa família lhe deve a vida, agora que paro para pensar – falou o sr. Weasley com a voz embargada. – Bem, só o que posso dizer é que foi um dia de sorte para os Weasley quando Rony resolveu sentar no seu compartimento no Expresso de Hogwarts, Harry.”

“A expressão de Voldemort não se alterou ao responder:
– A grandeza inspira a inveja, a inveja engendra o despeito, o despeito produz a mentira. Você deve saber disso, Dumbledore.”

.”– Acho que sim – respondeu Dumbledore. – Sem as Horcruxes, Voldemort será um homem mortal, com uma alma mutilada e diminuída. Mas não se esqueça jamais que, embora a alma dele esteja irrecuperavelmente danificada, seu cérebro e seus poderes mágicos permanecem intactos. Serão necessários perícia e poder incomuns para matar um bruxo como Voldemort, mesmo sem as Horcruxes.”

“– Isso mesmo... apenas amor. Mas, Harry, nunca esqueça que os dizeres da profecia só têm significação porque Voldemort fez com que tivessem. Eu lhe disse isto no final do ano passado. Voldemort destacou você como a pessoa que ofereceria maior perigo para ele; e, ao fazer isso, transformou-o na pessoa que ofereceria maior perigo para ele!”

“– Claro que sim! – exclamou Dumbledore. – A profecia não significa que você tem de fazer nada, entende! Mas a profecia levou Lord Voldemort a marcá-lo como seu igual... em outras palavras, você é livre para escolher o próprio caminho, livre para dar as costas à profecia! Voldemort, no entanto, continua a valorizar a profecia. E continuará a persegui-lo... o que de, fato, transforma em certeza que...
– Que um de nós vai acabar matando o outro – completou Harry. – Eu sei.”

“O garoto percebera que não havia esperança no instante em que o Feitiço do Corpo Preso que Dumbledore lançara sobre ele cessara; percebera que aquilo só poderia ter acontecido porque quem lançara o feitiço estava morto; contudo, ainda não tinha se preparado para vê-lo ali, de braços e pernas abertos, quebrado: o maior bruxo que Harry conhecera ou jamais conheceria.”

“Ao Lorde das Trevas
Sei que há muito estarei morto quando ler isto, mas quero que saiba que fui eu quem descobriu o seu segredo. Roubei a Horcrux verdadeira e pretendo destruí-la assim que puder. Enfrento a morte na esperança de que, quando você encontrar um adversário à altura, terá se tornado outra vez mortal. R.A.B”

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Harry Potter 5

Rowling, J. K. Harry Potter e a Ordem da Fênix. Editora Rocco; São Paulo / SP; 2003; 704 páginas.

Dados da obra:

Quinto livro da série, Harry Potter e a Ordem da Fênix é uma obra marcada pela tensão e pela complexidade. Potter já é um adolescente e aos poucos vai amadurecendo, tem crises e ataques de mau humor. O título faz menção a uma sociedade secreta envolvendo parte dos professores da Escola de Magia. Hogwarts se transforma em um horror e Harry terá de enfrentar as investidas de Voldemort sem a proteção de Dumbledore, já que o diretor é afastado da escola.

Breve relato da autora:

Joane Kathleen Rowling, ou simplesmente JK Rowling é uma escritora britânica de ficção, autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter e de três outros pequenos livros relacionados ao mundo dele.

Passagens:

“Era estranho estar parado ali na cozinha cirurgicamente limpa da tia Petúnia, ao lado de uma geladeira de último tipo e uma enorme tela de televisão, conversando calmamente com o tio sobre Lord Voldemort. A chegada de dementadores a Little Whinging parecia ter rompido o grande muro invisível que separava o mundo implacavelmente não-mágico da rua dos Alfeneiros e o mundo além. As duas vidas de Harry de alguma forma haviam se fundido e tudo virara de cabeça para baixo; os Dursley estavam pedindo detalhes sobre o mundo mágico, e a Sra. Figg conhecia Dumbledore; os dementadores estavam circulando por Little Whinging, e ele talvez nunca mais voltasse a Hogwarts. Sua cabeça latejou com mais força, doendo ainda mais.”

“Cada pensamento amargurado e cheio de rancor que Harry tivera no último mês foi saindo de dentro dele; sua frustração com a falta de notícias, a mágoa de que todos tinham estado juntos sem ele, sua fúria por estar sendo seguido e ninguém lhe informar – todos os sentimentos de que sentia uma certa vergonha extravasaram. Edwiges assustou-se com a gritaria e tornou a voar para cima do armário; Pichitinho, alarmado, soltou vários pios e voou ainda mais depressa ao redor das cabeças dos garotos.”

“Harry amarrou a cara e enterrou-a nas mãos. Não podia mentir para si mesmo; se tivesse sabido que o distintivo de monitor estava a caminho, teria esperado que viesse para ele e não para Rony. Será que isto o fazia tão arrogante quanto Draco Malfoy? Será que se achava superior a todos? Será que realmente acreditava que era melhor do que Rony?
Bom, Rony e Hermione estiveram comigo na maior parte do tempo, disse a voz na cabeça de Harry.
Mas não o tempo todo, argumentou Harry. Eles não lutaram contra Quirrell. Eles não enfrentaram o Riddle nem o basilisco. Eles não se livraram dos dementadores na noite em que Sirius fugiu. Eles não estiveram no cemitério, na noite em que Voldemort voltou...”
Mas talvez, disse a vozinha com imparcialidade, talvez Dumbledore não escolha os monitores porque eles vivam se metendo em situações perigosas... talvez ele os escolha por outras razões... Rony deve ter alguma coisa que você não tem...”

“Rony não pedira a Dumbledore para lhe dar o distintivo de monitor. Não era culpa de Rony. Será que ele, Harry, o melhor amigo de Rony no mundo, ia ficar emburrado porque não ganhara um distintivo, ia rir com os gêmeos às costas do amigo, estragar, para Rony, este momento em que, pela primeira vez, ele levava a melhor sobre Harry em alguma coisa?”

“Era estranho como os pertences dos dois pareciam ter-se espalhado desde que haviam chegado ali. Levaram quase a tarde inteira para reunir os livros e outras coisas largadas pela casa e guardá-las de volta nos malões de escola. Harry reparou que o amigo não parava de mexer no distintivo, primeiro colocou-o sobre a mesa-de-cabeceira, depois guardou-o no bolso da jeans, por fim tirou-o e ajeitou-o sobre as vestes dobradas, como se quisesse ver o efeito do vermelho sobre o negro. Somente quando Fred e Jorge apareceram e se ofereceram para prendê-lo à testa dele com um Feitiço Adesivo Permanente, é que ele o embrulhou carinhosamente nas meias castanhas e trancou-o no malão.”

“Harry não disse nada. Atirou a varinha sobre a sua mesa-de-cabeceira, despiu as vestes, enfiou-as com raiva no malão e vestiu o pijama. Estava farto daquilo; farto de ser a pessoa para quem todos olham e de quem falam o tempo todo. Se algum deles soubesse, se algum deles tivesse a mais pálida ideia do que era se sentir a pessoa a quem todas aquelas coisas aconteciam... A Sra. Finningan não fazia ideia, aquela burra, pensou com ferocidade.”

“Conhecera essa sala à época dos seus três ocupantes anteriores. Quando Gilderoy Lockhart a usara, tinha as paredes cobertas de fotos dele sorridente. Quando Lupin a ocupara, parecia que a pessoa ia deparar com alguma fascinante criatura das trevas em uma gaiola ou em um tanque, se aparecesse para visitá-lo. Na época do Moody impostor, a sala se enchera de instrumentos e artefatos para a detecção de malfeitos e dissimulações.
Agora, porém, estava completamente irreconhecível. As superfícies tinham sido protegidas por capas de rendas e tecidos. Havia vários vasos de flores secas, cada um sobre um paninho, e, em uma parede, havia uma coleção de pratos decorativos, estampados com enormes gatos em tecnicolor, cada um com uma laço diferente ao pescoço. Eram tão hediondos que Harry ficou mirando-os, paralisado, até a Profª Umbridge tornar a falar.”

“A mãe de Neville viera andando lentamente pela enfermaria de camisola. Já não tinha o rosto cheio e feliz que Harry vira na velha fotografia de Moody com os participantes da Ordem da Fênix inicial. Seu rosto estava fino e cansado agora, os olhos pareciam grandes demais e seus cabelos tinham ficado brancos, ralos e sem vida. Ela não pareceria querer falar, ou talvez não fosse capaz, mas fez gestos tímidos em direção a Neville, segurando alguma coisa na mão estendida.”

“– Somente os trouxas falam de ler mentes. A mente não é um livro que se abre quando se quer e se examina ao bel-prazer. Os pensamentos não estão gravados no interior do crânio, para serem examinados por qualquer invasor. A mente é algo complexo e multiestratificado, Potter, ou pelo menos a maioria das mentes é. – Deu um sorrisinho. – Mas é verdade que aqueles que dominam a Legilimência são capazes, sob determinadas condições, de penetrar as mentes de suas vítimas e interpretar suas conclusões corretamente. O Lorde das Trevas, por exemplo, quase sempre sabe quando alguém está mentindo para ele. Somente os peritos em Oclumência podem ocultar os sentimentos e lembranças que contradiriam a mentira, e conseguem dizer falsidades em sua presença sem serem apanhados.”

“Mas uma parte dele compreendia, mesmo enquanto lutava para se desvencilhar de Lupin, que Sirius nunca o deixara esperando antes... Sempre arriscara tudo para ver Harry, para ajudá-lo... se não saía do arco quando gritava por ele como se sua vida dependesse disso, a única explicação possível era que não podia voltar... era que realmente estava...”

“A sensação de culpa que enchia o peito de Harry como um parasita monstruoso e pesado agora se torcia e virava. Harry não conseguia suportar isso, não conseguia mais suportar ser quem era... nunca se sentira tão encurralado dentro do próprio corpo, nunca desejara tão intensamente poder ser outra pessoa, qualquer pessoa, ou...”

“Harry deu as costas ao diretor e ficou olhando decidido pela janela. Via o campo de quadribol ao longe. Sirius aparecera ali uma vez, disfarçado de cachorro preto e peludo, para poder vê-lo jogar... provavelmente viera ver se o filho era tão bom quanto o pai fora... Harry nunca lhe perguntara...”

“Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima... nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês... e o Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece... e um dos dois deverá morrer na mão do outro pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver... aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas nascerá quando o sétimo mês terminar...”

“– Há uma sala no Departamento de Mistérios – interrompeu-o Dumbledore – que está sempre trancada. Contém uma força mais maravilhosa e mais terrível do que a morte, do que a inteligência humana, do que as forças da natureza. E talvez seja também o mais misterioso dos muitos objetos de estudo que são guardados lá. É o poder guardado naquela sala que você possui em grande quantidade, e que Voldemort não possui. Esse poder o levou a tentar salvar Sirius hoje à noite. Esse poder também o salvou de ser possuído por Voldemort, porque ele não poderia suportar residir em um corpo tomado por uma força que ele detesta. No fim, não teve importância que você não pudesse fechar sua mente. Foi o seu coração que o salvou.”

“Talvez a razão pela qual queria estar só fosse a sensação de isolamento desde a sua conversa com Dumbledore. Uma barreira invisível o separava do resto do mundo. Era – e sempre fora – um homem marcado. Apenas nunca entendera realmente o que isto significava...
E, no entanto, sentado ali à beira do lago, com o peso terrível da dor a oprimi-lo, com a perda de Sirius ainda tão sangrenta e recente em seu peito, ele não conseguia sentir nenhum grande temor. Fazia um dia ensolarado, os jardins à sua volta estavam cheios de gente que ria e, embora se sentisse distante deles como se pertencesse a uma raça à parte, ainda era muito difícil acreditar que sua vida tinha de incluir o assassinato ou nele terminar...
Ficou sentado ali muito tempo, contemplando a água, tentando não pensar no padrinho, nem lembrar que fora na outra margem diretamente oposta que Sirius uma vez tombara, tentando afastar cem Dementadores...
O sol já se pusera quando ele percebeu que sentia frio. Levantou-se e voltou ao castelo, enxugando o rosto na manga pelo caminho.”

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A revolução dos bichos

Orwell, George. A revolução dos bichos. Editora Globo; São Paulo / SP; 1996; 98 páginas.

Dados da obra:

O livro trata-se de um romance alegórico, uma sátira feita à União Soviética comunista. Narra uma história de corrupção e traição e recorre a figuras de animais para retratar as fraquezas humanas e demolir o “paraíso comunista” proposto pela Rússia na época de Stalin. A revolta dos animais da fazenda contra os humanos é liderada pelos porcos Bola-de-Neve e Napoleão. Os animais tentam criar uma sociedade utópica, porém Napoleão é seduzido pelo poder e estabelece uma ditadura tão corrupta quando a sociedade humana.

Breve relato do autor:

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, foi jornalista, ensaísta e romancista britânico. Sua escrita é marcada por descrições concisas de eventos e condições sociais e o desprezo por todos os tipos de autoridade.

Passagens:

“Então, camaradas, qual é a natureza da nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo de alimento necessário para continuar respirando e os que podem trabalhar são forçados a fazê-lo até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal, na Inglaterra, sabe o que é felicidade ou lazer, após completar um ano de vida. Nenhum animal, na Inglaterra, é livre. A vida de um animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua”.

“Eis aí, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se em uma só palavra – Homem. O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre. O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o suficiente para alcançar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a trabalhar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante”.

“Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo, qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo. Lembrai-vos também de que na luta contra o Homem não devemos assemelhar-nos a ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai seus vícios. Animal nenhum deve morar em casas, nem dormir em camas, nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar, nem tocar em dinheiro, nem fazer comércio. Todos os hábitos do Homem são maus. E, principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Todos os animais são iguais”.

“– A asa de uma ave, camaradas, é um órgão de propulsão e não de manipulação. Deveria ser olhada mais como uma perna. O que distingue o Homem é a mão, o instrumento com que perpetra toda a sua maldade”.

“Os animais dividiram-se em duas facções que se alinhavam sob os slogans: 'Vote em Bola-de-Neve e na semana de três dias' e 'Vote em Napoleão e na manjedoura cheia'. Benjamin foi o único animal que não aderiu a lado nenhum. Recusava-se a crer, tanto em que haveria fartura de alimento, como em que o moinho de vento economizaria trabalho. Moinho ou não moinho de vento, dizia ele, a vida prosseguiria como sempre fora – ou seja, mal”.

“Repetiu inúmeras vezes: 'Tática, camaradas, tática!', saltando à roda e sacudindo o rabicho com um riso jovial. Os bichos não estavam muito certos do significado da palavra, mas Garganta falava tão persuasivamente e três cachorros – que por coincidência estavam com ele – rosnavam tão ameaçadoramente, que aceitaram a explicação sem mais perguntas”.

“Quando tudo acabou, os bichos sobreviventes, com exceção dos porcos e dos cachorros, retiraram-se furtivamente, trêmulos e angustiados. Não sabiam o que era mais chocante, se a traição dos animais que se haviam acumpliciado com Bola-de-Neve, ou se a cruel repressão recém-presenciada. Nos velhos tempos eram frequentes as cenas sangrentas, igualmente horripilantes, entretanto agora lhes parecia ainda piores, uma vez que ocorriam entre eles mesmos. Desde o dia em que Jones deixara a fazenda até aquele dia, nenhum animal matara outro animal. Nem sequer um rato fora morto”.

“Olhando pela encosta da colina, Quitéria ficou com os olhos cheios d´água. Se pudesse exprimir seus pensamentos, diria que aquilo não era bem o que pretendiam ao se lançarem, anos atrás, ao trabalho de derrubar o gênero humano. Aquelas cenas de terror e sangue não eram as que previra naquela noite em que o velho Major, pela primeira vez, os instigara à rebelião. Se ela própria pudesse imaginar o futuro, veria uma sociedade de animais livres da fome e do chicote, todos iguais, cada qual trabalhando de acordo com sua capacidade, os mais fortes protegendo os mais fracos, como ela protegera aquela ninhada de patinhos na noite do discurso do Major. E, em vez disso – não podia compreender por quê – haviam chegado a uma época em que ninguém ousava dizer o que pensava, em que os cachorros rosnantes e malignos perambulavam por toda parte e a gente era obrigada a ver camaradas feitos em pedaços após confessarem os crimes mais horríveis. Não tinha em mente ideias de rebelião ou desobediência. Sabia que, por piores que fossem, as coisas estavam muito melhores do que nos tempos de Jones e que antes de mais nada era preciso evitar o retorno dos seres humanos. Acontecesse o que acontecesse, ela permaneceria fiel, trabalharia bastante, cumpriria as ordens recebidas e aceitaria a liderança de Napoleão. Mesmo assim, não fora por aquilo que haviam construído o moinho de vento e enfrentado as balas da espingarda de Jones. Tais eram os seus pensamentos, embora ela não tivesse palavras para expressá-los”.

“Coxearam até o pátio. As balas, sobre o couro de Sansão, aferroavam dolorosamente. Ele enxergava à sua frente a pesada tarefa de reconstruir o moinho de vento e, mesmo em imaginação, já se atirava ao trabalho. Pela primeira vez, entretanto, ocorreu-lhe a lembrança de que já tinha onze anos de idade e que talvez seus músculos já não tivessem a mesma força de antes”.

“Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns juntos aos outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente em redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o primeiro choque e a despeito de tudo – a despeito do terror dos cachorros e do hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco importava o que sucedesse – poderiam lançar uma palavra de protesto. Porém exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas, em uníssono, estrondaram num espetacular balido:
– Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!”.

“Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A febre de Urbicanda

Schuiten, François; Peeters, Benoit. A febre de Urbicanda. Edições 70; Lisboa / Portugal; 1985.

Dados da obra:

A trama gira em torno de um pequeno objeto com hastes formando um cubo, que começa a crescer e se multiplicar, envolvendo toda uma cidade, atravessando paredes e pessoas, mudando a vida de todos. Um elemento arquitetônico se impondo e modificando o dia a dia. Este álbum integra a série em quadrinhos "As Cidades Obscuras", idealizada em 1980.

Breve relato dos autores:

François Schuiten é um quadrinista belga.
Benoit Peeters é um roteirista francês, teórico e crítico de quadrinhos.

Passagens:

"Acredite que está em jogo mais do que simetrias e alinhamentos.
Uma nova passagem gera novas brechas e exige novos controles. É um risco que não podemos assumir."

"As coisas não são assim tão claras, Thomas... O contraste, não esqueças o contraste!
Quem sabe se a arte monumental não tem necessidade de traços ligeiramente discordantes que possam valorizar os conjuntos mais amplos..."

"A única coisa a fazer é deixar as coisas acontecer normalmente. Qualquer intervenção exterior agravaria a situação... Creiam-me, os nossos problemas acabarão por se resolver. O tempo vela por tudo. Trará a solução."

"A esta mesma hora, a estrutura continua a crescer em torno desta cidade, desta casa, desta sala de onde saiu. Estabelecer laços entre astros separados entre si. Graças a mim tudo isso poderá recomeçar.
O caminho será longo e semeado de escolhas, mas sei que um dia conseguirei, e que nesse dia, poderemos verdadeiramente viver de novo."

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O poder da mensagem

Ribeiro, Hélio. O poder da mensagem. Sorvil - Distribuidora e Editora de Livros Ltda.; ~São Paulo / SP; 1976; 140 páginas.

Dados da obra:

Mensagens, textos e frases para refletir sobre o homem e a vida.

Breve relato do autor:

Hélio Ribeiro foi advogado, jornalista, publicitário, radialista e professor. Fez grande sucesso na década de 1970 na rádio Bandeirantes com o programa O Poder da Mensagem.

Passagens:

"Antes do silêncio total ainda serão necessárias muitas palavras inúteis."

"O grande sofrimento do criador: tirar tudo de um nada qualquer, e depois ser julgado por qualquer um que nem com todos os tudos do mundo seria capaz de fazer um simples quase."

"... é preciso colocar amor nas coisas que se quer fazer e procurar amar as que se devem fazer, e nunca dizer que se fará amanhã o que não se achou justo fazer hoje.
... é de caráter não dizer de ninguém na sua ausência o que não se teria coragem de dizer frente a frente.
... é preciso aprender o que é bom, venha de onde vier, e distingui-lo do mau mesmo que venha endossado por gente do mundo inteiro."

"A Ciência consegue fazer nascer uma criança em um tubo de ensaio e acha que é um grande feito. A Ciência consegue inventar uma pílula e mil métodos de manter as crianças no ventre da mãe e acha que é um grande feito. No dia em que a Ciência parar de perder tempo contrariando a inteligêngica da natureza, terá conseguido o seu maior feito. Feito?"

"Não sei o que há com a minha caneta. Cada vez que coloco um papel à sua frente e tento escrever uma poesia, imediatamente ela começa a fazer conta$.
40%
dou 30
sobra 0,5
entro com 100
faltam 40."

"Aí, o justo, aquele, desabafou:
– Não fico triste quando julgam contra mim. Quem me entristece são aqueles que julgam contra a verdade só porque são contra mim."

"E=mc2
Não é o tamanho das coisas que a gente escreve que lhes dá valor ou importância. O que importa é o conteúdo. Albert Einstein pegou um papelzinho beeemmm pequenino e escreveu: E=mc2. E mudou tudo."

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Pássaros feridos

McCullough, Colleen. Pássaros Feridos. Ed. Círculo do Livro S.A.; São Paulo / SP; 1977; 611 páginas.

Dados da obra:

Uma história de amor, de heroísmo e de baixezas. Uma epopeia familiar inspirada na poética lenda australiana de um pássaro que se crava num espinho, para nele morrer cantando. As figuras centrais são a corajosa Meggie, única mulher dos oito filhos de um casal irlandês radicado na Austrália, e o homem que ela amou por toda a vida, o padre Ralph de Bricassart.

Breve relato da autora:

Colleen McCullough é uma romancista australiana, aclamada internacionalmente pelos sucessos "Pássaros Feridos", "Tim", entre outros.

Passagens:

"Aterrorizada, Meggie observou as mãos firmes de Bob, viu a chibata descer assobiando, quase mais depressa do que a vista podia acompanhá-la, e estalar no centro das palmas dele, onde a pele era mole e tenra. Um vergão purpurino apareceu incontinenti; a lambada seguinte pegou na junção dos dedos com a palma, mais sensível ainda, e a última, na ponta dos dedos, onde o cérebro acumula mais sensações do que em qualquer outro lugar, exceto os lábios."

"Ele voltou-se a fim de olhar primeiro para a mãe, os olhos negros penetrando os olhos cor de cinza, numa escura e amarga comunhão que nunca foi expressa e nunca o seria. Desdenhoso e causticante, o olhar azul e feroz de Paddy quebrantou-o, como se fosse o que ele já esperava, e as pálpebras abaixadas de Frank reconheceram-lhe o direito de estar zangado. A partir desse dia, Paddy nunca mais dirigiu ao filho palavras que não fossem as da mais estrita civilidade. Entretanto não foi ele, foram as crianças que Frank achou mais difíceis de encarar, envergonhado e desconcertado, pássaro brilhante trazido de volta para casa sem ter explorado e conhecido o céu, as asas cortadas rente e o canto afogado no silêncio."

"O Padre Ralph não sabia exatamente por que gostava tanto de Meggie e, aliás, não perdia muito tempo pensando nisso. O sentimento começara pela piedade, naquele dia no pátio empoeirado da estação da estrada de ferro, quando a notara atrás dos outros, separada do resto da família em virude do sexo, conjeturara ele com sagacidade."

"... É possível que, se tivesse olhado mais profundamente para dentro de si mesmo, ele tivesse visto que o que sentia por ela era o curioso resultado do tempo, do lugar e da pessoa. Ninguém a julgava importante, o que significava que havia um espaço em sua vida em que ele poderia encaixar-se e ter a certeza do seu amor; ela era uma criança e, portanto, não representava perigo para o seu estilo de vida nem para a sua reputação sacerdotal; ela era bela, e ele apreciava a beleza; e, o que ele menos admitia, Meggie enchia um espaço vazio em sua vida que o seu Deus não poderia preencher, pois possuía calor e solidez humana."

"... Mas ainda sem notícias de Frank, cuja lembrança foi se esvaindo aos poucos, como fazem as lembranças, até as que vivem envoltas em muito amor; como se existisse um processo curativo inconsciente em nossa mente, que nos faz arribar, apesar da nossa desesperada determinação de nunca esquecer."

"Aquilo aconteceu tão discretamente que ninguém notou. Pois Fee se mantinha recolhida em quietude e numa falta absoluta de expressividade; a substituição foi um coisa interior; que ninguém teve tempo de ver, exceto o novo objeto do seu amor, que não fez nenhum sinal externo. Uma coisa oculta, não expressa, entre eles, para amortecer-lhes a solidão.
Talvez fosse inevitável, pois de todos os seus filhos era Stuart o único que se parecia com ela."

"Às vezes, quando ele não se sabia observado, Meggie espreitava-o e tentava desesperadamente imprimir-lhe o rosto no cérebro, lembrando-se de que, apesar do amor que dedicara a Frank, a imagem dele, o jeito dele, se toldara com o passar dos anos. Havia os olhos, o nariz, a boca, as assombrosas asas brancas no cabelo preto, o corpo longo e rijo que conservara a esbeltez e a tensão da mocidade, embora estivesse um pouco mais duro, menos elástico. E ele se voltava e a surpreendia a observá-lo com uma expressão de pesar acossado, um olhar condenado. Ela compreendeu a implícita mensagem, ou supôs havê-la compreendido; ele precisava ir, voltar à Igreja e às suas obrigações. Nunca mais com o mesmo espírito, talvez, porém mais capaz de servir. Pois só os que tropeçam e caem conhecem as vicissitudes do caminho."

"Dane ajoelhou-se, premiu os lábios no anel; por cima da cabeça inclinada, de um amarelo ouro, o olhar do Cardeal Vittorio procurou o rosto de Ralph, examinou-o com mais atenção do que o fazia habitualmente. Mas relaxou-se de maneira imperceptível, era evidente que ela nunca lhe contara. E está visto que ele jamais suspeitaria da primera coisa que acudia à mente de quem quer que os visse juntos. Não uma relação entre pai e filho, naturalmente, mas um estreito parentesco consanguíneo. Pobre Ralph! Ele nunca se vira andando, nunca observara as expressões do próprio rosto, nunca surpreendera o alçamento da sua sombrancelha esquerda. Deus era realmente bom tornando os homens tão cegos."

"– Como vamos viver sem ele?
Como realmente? Era isso viver? Eras de Deus, a Deus voltaste. O pó ao pó. A vida é para nós que falhamos. Deus cupido, juntando os bons, deixando o mundo aos outros, a nós, para apodrecer."

" ...– Dane era um homem adulto, não era uma criancinha indefesa. Eu o deixei partir, não deixei? Se me permitisse sentir o que você está sentindo, estaria aqui sentada a censurar-me e achando que devia estar num asilo para doentes mentais porque o deixei viver a própria vida. Mas não estou aqui sentada a censurar-me. Nenhum de nós é Deus, embora eu creia que tive mais oportunidade para aprendê-lo do que você."

"O pássaro com o espinho cravado no peito segue uma lei imutável; impelido por ela, não sabe o que é empalar-se, e morre cantando. No instante em que o espinho penetra não há consciência nele do morrer futuro; limita-se a cantar e canta até que não lhe sobra vida para emitir uma única nota. Mas nós, quando enfiamos os espinhos no peito, nós sabemos. Compreendemos. E assim mesmo o fazemos. Assim mesmo o fazemos."

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A história de Oliver

Segal, Erich, A história de Oliver. Círculo do Livro S.A.; São Paulo / SP; 265 páginas.

Dados da obra:

Continuação de "Love Story", o livro narra a história do jovem advogado Oliver depois da morte de sua esposa, Jenny. Desolado, ele acaba conhecendo uma bela e misteriosa mulher. O romance retoma o ciclo da vida e do amor, e toca nos elos profundos que ligam o homem e a mulher, com a mesma carga de emoção e ternura do livro anterior.

Breve relato do autor:

Erich Segal é um autor norte-americano, que foi também roteirista e educador. Ficou famoso pela novela História de Amor, que se tornou best-seller, e também pelo filme do mesmo nome, que alcançou grande sucesso na década de 1970.

Passagens:

"A morte põe fim a uma vida, mas não termina com um relacionamento que se debate na mente daquele que sobreviveu rumo a alguma decisão que talvez seja encontrada."
– Robert Anderson - I never sang for my father.

"Na última gaveta da escrivaninha lá de casa estão os óculos de Jenny. Sim. Os óculos de Jenny. Porque uma olhadela neles faz-me recordar seus encantadores olhos, que olhavam através deles para olhar através de mim."

"– Como está se sentindo?
– Muito bem – respondi, pegando a sua mão. Entretanto, tinha consciência de que meus olhos e minha voz revelavam um traço de tristeza.
– Está se sentindo... sem jeito, Oliver?
Fiz um gesto afirmativo.
– Por que se lembrou de... Jenny?
– Não – respondi. e olhei na direção do lago. – Porque não me lembrei."

"Apesar das estranhas coisas que nos cercavam, sentia-me estranhamente feliz. Se não fosse por qualquer outra razão, seria pela proximidade... de uma outra pessoa. Tinha-me esquecido do que a mera vizinhança das batidas do coração de alguém pode desperatar em nós."

"É verdade que comemos juntos, falamos juntos, rimos (e não concordamos) juntos, dormimos juntos sob o mesmo teto (isto é, no meu subsolo). Todavia, nenhum dos dois fez um arranjo. E nenhuma obrigação, certamente. Tudo acontece no dia a dia. Muito embora procuremos estar juntos o máximo que nos é possível. Acho que possuímos uma coisa que é bastante rara. Uma espécie de... amizade. E que é ainda bem mais extraordinária por não ser platônica."

"Confesso que me sinto muito só quando ela está fora da cidade. Principalmente no verão, com todos os casais de namorados passeando no parque. O telefonema é um substituto muito deficiente: tão logo a gente desliga, está com as mãos vazias."

"Freud – sim, o próprio Freud – afirmou certa vez que, diante das pequenas coisas da vida, devíamos, é claro, reagir de acordo com o nosso raciocínio. Contudo, quando se tratasse de grandes decisões, deveríamos prestar atenção ao que o nosso inconsciente nos diz."

"Volto correndo no meio da escuridão, recordando, apenas para passar o tempo. Às vezes, pergunto a mim mesmo o que eu seria se Jenny estivesse viva. E então respondo: – Também estaria vivo."