segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A casa de papel

Domínguez, Carlos María. A Casa de Papel. Editora Francis; 2006; 104 páginas.

Dados da obra:

Na primavera de 1998, Bluma Lennon, uma professora de Cambridge, está lendo um livro de poemas de Emily Dickinson quando é atropelada. Após a sua morte, um colega e ex-amante recebe um exemplar de A linha da sombra, de Joseph Conrad, em que Bluma escrevera uma misteriosa dedicatória e que lhe era agora devolvido. Intrigado, ele parte numa busca que o leva a Buenos Aires com o objetivo de procurar pistas sobre a identidade e o destino de um obscuro, mas dedicado bibliófilo e a sua intrigante ligação com Bluma. A casa de papel é uma fábula sedutora sobre o amor desmesurado pelas bibliotecas e pela literatura.

Breve relato do autor:

Carlos María Dominguez nasceu em 1955, em Buenos Aires, na Argentina. Desde 1989 vive em Montevidéu, onde trabalha como jornalista. Publicou dois romances e uma biografia do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti.

Passagens:

“Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram O tigre da Malásia e se transformaram em professores de literatura em remotas universidades. Sidarta levou milhares de jovens ao hinduísmo, Hemingway transformou-os em esportistas, Dumas transformou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi sua vítima.
Mas não a única. O velho professor de línguas antigas Leonard Wood ficou hemiplégico ao receber na cabeça cinco tomos da Enciclopédia britânica, que se soltaram de uma prateleira de sua estante; meu amigo Richard quebrou uma perna ao tentar alcançar Absalão, Absalão!, de William Faulkner, mal localizado numa prateleira que o levou a cair da escada. Outro amigo de Buenos Aires pegou tuberculose nos porões de um arquivo público e conheci um cachorro chileno que morreu de indigestão com Os irmãos Karamázov, depois de devorar suas páginas numa tarde de fúria.”

“Todos os anos dou de presente não menos que cinquenta exemplares aos meus alunos, mas não consigo deixar de adicionar uma nova estante, outra fileira dupla; avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los.
Perguntei-me muitas vezes por que conservo livros que só num futuro remoto poderiam auxiliar-me, títulos afastados dos percursos mais habituais, aqueles que li uma vez e não voltarão a abrir suas páginas em muitos anos. Talvez nunca! Mas como desfazer-me, por exemplo, de O chamado da selva sem apagar um dos tijolos da minha infância, o Zorba, que selou com um choro minha adolescência, A vigésima Quinta hora, e tantos outros há anos relegados às prateleiras mais altas, inteiros, sem dúvida, e mudos, na sagrada fidelidade que nós atribuímos.”

“Frequentemente, é mais difícil desfazer-se de um livro do que obtê-lo. Aderem-se a nós com um pacto de necessidade e esquecimento, tal como se fossem testemunhas de um momento de nossas vidas ao qual não regressaremos. Mas, enquanto permanecerem ali, acreditamos somá-los. Vi que muitos marcam o dia, o mês e o ano da leitura; traçam um discreto calendário. Outros escrevem seu nome na primeira página, antes de emprestá-los, anotam numa agenda o destinatário e acrescentam a data. Vi tomos carimbados, como os das bibliotecas públicas, ou com um delicado cartão do proprietário deslizado para o seu interior. Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio, o guarda-chuva do que o livro cujas páginas já não leremos mas que conservam, na sonoridade de seu título, uma antiga e talvez perdida emoção.”

“– Para dizer a verdade, já não conto mais. Mas presumo que em torno de dezoito mil. Desde que me lembro, comecei a comprar um livro ou outro. A biblioteca que se forma é uma vida. Nunca, digamos, uma soma de livros soltos.
– Explique melhor essa ideia – pedi-lhe.
– O senhor os acumula nas prateleiras e parece uma soma, mas, se me permite, trata-se de uma ilusão. Seguimos certos assuntos e, ao fim de um tempo, acabamos por definir mundos; por desenhar, se prefere, o percurso de uma viagem, com a vantagem de que conservamos suas marcas...”

“Já fazia dois meses, haviam me dito, que Carlos se dava o gosto de ler os franceses do século XIX à luz de velas, para o que utilizava um candelabro de prata. Tempos atrás, havíamos conversado sobre isso, porque também eu desfruto ler Goethe enquanto uma ópera de Wagner toca no aparelho de som ou, digamos, acompanhar Baudelaire com Debussy. É parte da viagem e posso lhe assegurar que o gozo é superior, em todos os sentidos...”

“E novamente me suplicou que lhe prometesse não deixá-lo em terra. Tive firmeza suficiente para não lhe prometer nada, embora mais tarde tenha me parecido criminosa essa firmeza, pois já havia tomada uma resolução, havia dito o capitão diante do marinheiro que delirava na liteira do camarote, presa de um pânico contagioso. Parecia-me ouvir nessas suas palavras o apelo tácito que, de um modo ou de outro, o livro me havia feito desde o início.”

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A água e a galinha

Boff, Leonardo. A água e a galinha. Editora Vozes; São Paulo / SP; 2003; 208 páginas.

Dados da obra:

O livro apresenta uma metáfora da condição humana através da história de uma águia que, tendo sido capturada por um camponês, era criada junto às galinhas. Com o passar dos anos ela vai se acostumando a essa condição e passa a acreditar que era uma galinha de verdade, até o dia que aparece um naturalista e a faz enxergar quem ela realmente era.

Breve relato do autor:

Leonardo Boff, pseudônimo de Genézio Darci Boff é um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos.

Passagens:

“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura.”

“A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, que experiências têm, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação. Sendo assim, fica evidente que cada leitor é coautor. Porque cada um lê e relê com os olhos que têm. Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita.”

“Dentre todos os animais não havia nenhum que pudesse ser para Adão um interlocutor adequado. Então Deus criou Eva a partir do lado de Adão. Comumente se fala de forma errônea que Deus criou Eva da costela de Adão. Em hebraico se usa a palavra zela que significa propriamente lado e não costela. É uma metáfora para significar que Eva foi tirada não da cabeça de Adão, para ser sua senhora. Nem dos pés, para ser sua escrava. Mas do seu lado, do lado do coração, para ser sua companheira. Ela sim é e poderá ser a interlocutora de Adão, conforme ele mesmo exclama ao vê-la diante de si: ‘eis o osso dos meus ossos, a carne da minha carne...’ por isso o homem-varão deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher; serão uma só carne (Gênesis, 2, 23-24).”

“– ... Os olhos são tudo para uma águia. Seu olhar penetrante vê oito vezes mais que o olho humano. A retina é em parte monocular, orientada para coisas de perto, e em parte binocular, dirigida para as coisas de longe. Vê e controla tudo porque consegue girar a cabeça em 180º. Discerne o focinho de um coelho que espia da toca ou uma gazela no meio dos arbustos a mais de 1.600 metros de distância. Então arremete como uma flecha.”

“Ai de nós, se nos contentarmos em ser somente galinhas, se permitirmos que nos reduzam a simples galinhas: encerrados em nosso pequeno mundo, de interesses feitos e de parcos desejos, com um horizonte que não vai além de cerca mais próxima. Não disse o poeta Fernando Pessoa: ‘eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho de minha altura’.”

“O que efetivamente conta não são as coisas que nos acontecem. Mas, sobretudo, a nossa reação frente a elas. Nessa reação irrompe a força irradiadora dos arquétipos...”

“No processo de resgate e de realização de sua identidade, a águia viveu todas as estações desta jornada. Realizou plenamente o arquétipo herói/heroína: do aguente, do caminhante, do lutador, do mártir, do sábio e do mago. No termo do caminho encontrou o céu, o lar e a pátria da identidade.”

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O monge e o executivo

Hunter, James C. O Monge e o Executivo - Uma história sobre a essência da liderança, Editora Sextante; Rio de Janeiro / RJ; 2004; 144 páginas.

Dados da obra:

Leonard Hoffman, um famoso empresário que abandonou sua brilhante carreira para se tornar monge em um mosteiro beneditino, é o personagem central desta envolvente história criada por James C. Hunter para ensinar de forma clara e agradável os princípios fundamentais dos verdadeiros líderes.

Breve relato do autor:

James C. Hunter é consultor-chefe norte-americano da empresa J.D. Hunter Associates, LLC, uma empresa estadunidense de consultoria de relações de trabalho e treinamento, instrutor e palestrante na área de liderança funcional e organização de grupos comunitários.

Passagens:

“Era Len Hoffman, mais velho do que na foto da Internet, com o rosto enrugado, maçãs do rosto salientes, queixo e nariz proeminentes e cabelos brancos um pouco compridos. Um corpo firme e enxuto, a face ligeiramente rosada. Mas o que mais me impressionou foram seus olhos. Claros, penetrantes, de um azul profundo. Eram os olhos mais acolhedores e cheios de compaixão que eu já vira. O rosto enrugado e os cabelos brancos eram de um velho, mas os olhos e o espírito cintilavam e emanavam uma energia que eu só experimentara quando criança.”

“– Quando você interrompe as pessoas no meio de uma frase, John, você envia algumas mensagens negativas. Número um, se você me interrompeu, é porque não estava prestando muita atenção ao que eu dizia, já que sua cabeça estava ocupada com a resposta. Número dois, se você se recusa a me ouvir, não está valorizando a minha opinião. Finalmente, você deve acreditar que o que tem a dizer é muito mais importante do que o que eu tenho a dizer. John, essas mensagens são desrespeitosas, e como líder você não pode enviá-las.”

“...Simeão continuou. – Por isso, é importante que desafiemos continuamente os paradigmas a respeito de nós mesmos, do mundo em torno de nós, de nossas organizações e das outras pessoas. Lembrem-se de que o mundo exterior entra em nossa consciência através dos filtros de nossos paradigmas. E nossos paradigmas nem sempre são corretos.
Eu acrescentei: – Li em algum lugar que não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos. O mundo parece muito diferente dependendo de nossa perspectiva. Ele parece diferente se sou rico ou pobre, doente ou saudável, jovem ou velho, negro ou branco...”

“Bem, não conheço ninguém, vivo ou morto, que possa chegar perto de Jesus Cristo na personificação dessa descrição. Vamos olhar os fatos. Hoje, mais de dois bilhões de pessoas, um terço dos seres humanos deste planeta, se dizem cristãos. A segunda maior religião do mundo, o islamismo, é menos da metade menor do que o cristianismo. Dois dos maiores dias santos deste país, Natal e Páscoa, são baseados em eventos da vida de Jesus, e nosso calendário até conta os anos a partir do nascimento dele, há dois mil anos. Não me importa se você é budista, hinduísta, ateu ou da ‘igreja da moda’, ninguém pode negar que Jesus Cristo influenciou bilhões, hoje e ao longo da História. Ninguém está próximo do segundo lugar.”

“...Se bem me lembro, uma dessas palavras era eros, da qual se deriva a palavra erótico, e significa sentimentos baseados em atração sexual e desejo ardente. Outra palavra grega para amor, storgé, é afeição, especialmente com a família e entre os seus membros. Nem eros nem storgé aparecem nas escrituras do Novo Testamento. Outra palavra grega para amor era philos, ou fraternidade, amor recíproco. Uma espécie de amor condicional, do tipo ‘você me faz o bem e eu faço o bem a você’. Finalmente, os gregos usavam o substantivo agapé e o verbo correspondente agapaó para descrever um amor incondicional, baseado no comportamento com os outros, sem exigir nada em troca. É o amor da escolha deliberada. Quando Jesus fala de amor no Novo Testamento, usa a palavra agapé, um amor traduzido pelo comportamento e pela escolha, não o sentimento do amor.”

“– Precisamos uns dos outros – a enfermeira disse tranquilamente. – Os arrogantes e orgulhosos fingem que não precisam. O individualismo que predomina em nosso país é mentiroso e cria a ilusão de que não somos e não devemos ser dependentes de outras pessoas. Que piada! Um par de mãos me tirou do útero de minha mãe ao nascer, outro trocou minhas fraldas, me alimentou, me nutriu, outra ainda me ensinou a ler e escrever. Agora, outros pares de mãos cultivam minha comida, entregam minha correspondência, coletam meu lixo, fornecem-me eletricidade, protegem minha cidade, defendem minha nação. Um par de mãos cuidará de mim e me confortará quando eu ficar doente e velha, e, por fim, outro par de mãos me levará de volta a terra quando eu morrer.”

“– Eu defino motivação como qualquer comunicação que influencie as escolhas. Como líderes, podemos fornecer todas as condições, mas são as pessoas que devem fazer as próprias escolhas para mudar. Lembrem-se do princípio do jardim. Não fazemos o crescimento ocorrer. O melhor que podemos fazer é fornecer o ambiente certo e provocar um questionamento que leve as pessoas a se analisarem para poderem fazer suas escolhas, mudar e crescer.”

“– Mas – o pregador alegou – se admitimos que o conceito de causa e efeito é verdadeiro, chegamos ao paradoxo da criação do mundo, não é mesmo? Isto é, se levarmos o universo de volta ao primeiro segundo do tempo, a fração de segundo que precedeu a grande explosão, qual seria a causa? O que criou o primeiro átomo de hélio, hidrogênio ou o que seja? O paradoxo é que em algum lugar ao longo do caminho algo deve ter vindo do nada. Nós religiosos acreditamos que Deus é a primeira causa

“– Eu falo de alegria, Greg, não de felicidade, porque felicidade é baseada em acontecimentos. Se coisas boas acontecem, estou feliz. Se acontecem coisas más, estou infeliz. A alegria é um sentimento muito mais profundo, que não depende de circunstâncias externas. A maioria dos grandes líderes que se apoiaram na autoridade tem falado dessa alegria – Buda, Jesus Cristo, Gandhi, Martin Luther King, até Madre Teresa. Alegria é satisfação interior e a convicção de saber que você está verdadeiramente em sintonia com os princípios profundos e permanentes da vida. Servir aos outros nos livra das algemas do ego e da concentração em nós mesmos que destroem a alegria de viver.”

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A invenção de Morel

Bioy Casares, Adolfo. A Invenção de Morel. Editora Rocco; São Paulo / SP; 1986; 136 páginas.

Dados da obra:

Na trama, o leitor acompanha a trajetória de um homem que, condenado por motivos políticos, foge para uma ilha deserta do Pacífico conhecida por ser foco de uma epidemia letal. Lá encontra máquinas misteriosas e um grupo de turistas, que se diverte sem tomar conhecimento de sua presença. O refugiado apaixona-se por uma das mulheres do grupo e então descobre Morel, inventor de uma máquina de imagens que reproduz realidades passadas.

Breve relato do autor:

Foi um escritor argentino. Sua obra mais conhecida é La invención de Morel. A narrativa de Adolfo Bioy Casares criou um mundo de ambientes fantásticos regidos por uma lógica peculiar e marcados por um realismo de grande verossimilhança.

Passagens:

“Agora, a mulher do lenço me é imprescindível. Talvez todo esse escrúpulo de não esperar seja um pouco ridículo. Nada esperar da vida, para não arriscá-la; fazer-se de morto, para não morrer. De repente, isto me pareceu um letargo horrível, inquietíssimo; quero que termine. Depois da fuga, depois de ter vivido sem ligar para o cansaço que me destruía, alcancei a calma; minhas decisões talvez me devolvam a esse passado ou aos juízes; prefiro-os a este longo purgatório.”

“... Que devo pensar? Sem dúvida é uma mulher detestável. Mas, que será que ela quer? Talvez brinque comigo e com o barbudo; mas também é possível que o barbudo não seja mais do que uma ênfase no seu prescindir de mim, e um sinal de que esse prescindir atingiu o seu ponto máximo e chega ao fim.”

“Havia muito que pensava nisto, de modo que já estava um pouco farto e continuei com menos lógica: não morrera enquanto não tinham aparecido os intrusos; na solidão, é impossível estar morto. Para ressuscitar, devo suprimir as testemunhas. Será um extermínio fácil. Não existo: não suspeitarão de sua destruição.”

“Tive uma surpresa: depois de muito trabalho, ao congregar harmonicamente esses dados, encontrei-me com pessoas reconstituídas, que desapareciam se eu desligava o aparelho projetor, só viviam os momentos passados quando da tomada de cena e, ao terminá-los, voltavam a repeti-los, como se fossem partes de um disco ou filme que, ao terminar, voltasse a começar, mas que não se podiam distinguir das pessoas vivas (veem-se como que circulando em outro mundo, fortuitamente abordado pelo nosso). Se conferirmos consciência, e tudo o que nos distingue dos objetos, às pessoas que nos rodeiam, não poderemos negá-la às criadas pelos meus aparelhos, com nenhum argumento válido e exclusivo.”

“Congregados os sentidos, surge a alma. Era preciso esperá-la. Madeleine existia para a vista, Madeleine exista para o ouvido, Madeleine existia para o paladar, Madeleine existia para o olfato, Madeleine existia para o tato: Madeleine existia.”

“Por acaso, recordei que o fundamento do horror, que alguns povos sentem, de que se verem representados em imagens, é a crença de que, ao se formar a imagem de uma pessoa, a alma passa para a imagem e a pessoa morre.”

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Joe Gould

Mitchell, Joseph. O Segredo de Joe Gould. Companhia das Letras; São Paulo /SP; 2003; 160 páginas.

Dados da obra:

A reportagem 'O segredo de Joe Gould', de 1964, conta a história de um homem que vivia como um mendigo – perambulando pelo Greenwich Village bairro boêmio de Nova York – e planejava publicar um livro monumental: 'História oral do nosso tempo'. É um exemplo de Jornalismo Literário.

Breve relato do autor:

Colaborador da revista 'The New Yorker', Mitchell foi um dos maiores jornalistas norte-americanos do século XX. Ficou conhecido por seus retratos cuidadosamente escritos de excêntricos e pessoas à margem da sociedade.

Passagens:

“Gould sofre de memória perfeita e de vez em quando resolve anotar em minúcias tudo que fez de relativa importância num determinado período do passado recente, que pode ser um dia, uma semana ou um mês. Às vezes escreve um capítulo em que monotonamente amaldiçoa alguém ou uma instituição. Volta e meia divaga sobre temas como a pulga de albergue, o espaguete, o zíper como sinal da decadência da civilização, a dentadura postiça, a insanidade, o sistema de júri, o remorso, a comida de lanchonete e o efeito castrador da máquina de escrever sobre a literatura. ‘William Shakespeare não ficava martelando um maldito troço nojento de 95 dólares, e Joe Gould também não fica’, escreveu.”

“Até hoje não li mais nada de Joe Gould, escreveu (Saroyan) entre outras coisas. No entanto, ele continua sendo para mim um dos poucos autores americanos autênticos e originais. Ele era fácil e despojado, e quase tudo o que se escrevia no país era difícil e empolado. Nada tinha a ver com nada; tudo era burilado demais; tudo era miserável; tudo era meio doentio; tudo era literário; e não se conseguia dizer nada com simplicidade. Toda a literatura americana tentava se encaixar numa forma ou noutra, e nenhum escritor, exceto Joe Gould, demonstrava imaginação suficiente para compreender que, quando o ruim chegou ao pior, não havia mais necessidade de forma nenhuma. Não era preciso colocar o que se tinha a dizer num poema, num ensaio, num conto, numa novela. Bastava dizer.”

“Certa manhã do verão de 1917, depois de trabalhar como repórter por um ano, estava tomando sol (e tentando superar uma ressaca) nos fundos da chefatura de polícia, quando lhe ocorreu a ideia da História Oral. Imediatamente abandonou o emprego e começou a escrever. Num momento de exaltação declarou: ‘Desde essa manhã fatídica, a História Oral tem sido minha corda e minha forca, minha cama e minha comida, minha esposa e minha puta, minha ferida e o sal em cima dela, meu uísque e minha aspirina, minha rocha e minha salvação. É a única coisa que tem algum valor para mim. O resto é lixo’.”

“... até chegar a Nova York sempre se sentiu deslocado. ‘Em minha cidade natal, nunca me senti à vontade’, escreveu certa vez. ‘Eu destoava. Nem em minha própria casa eu me sentia em casa. Em Nova York, principalmente no Greenwich Village, entre os maníacos, os desajustados, os que têm só um pulmão, os que já foram alguma coisa na vida, os que poderiam ter sido, os que gostariam de ser, os que nunca serão e os que só Deus sabe, sempre me senti à vontade’.”

”Fomos para a mesa e a garçonete trouxe o café de Gould. Servido nunca caneca branca e grossa, estilo taberna, o café estava tão quente que fumegava. Mesmo assim, Gould inclinou a caneca ligeiramente em sua direção, sem levantá-la da mesa, debruçou-se e se pôs a tomar o café em pequenos goles cautelosos e rápidos, como um passarinho, entremeando-os de gemidos que indicavam prazer ou alívio, e quase de imediato seu rosto recuperou a cor, seus olhos se tornaram mais brilhantes e o movimento involuntário da boca desapareceu. Eu nunca tinha visto um café provocar em alguém uma reação tão instantânea e visível; provavelmente um conhaque não teria feito mais por ele, nem um dose de cocaína, nem uma tenda de oxigênio, nem uma transfusão de sangue. Gould tomou a caneca inteira dessa forma e depois se aprumou, pendeu a cabeça para um lado e olhou para mim.”

“...No trem, a caminho de Nova York, senti tanta saudade de Norwood que precisei me controlar para não descer e voltar atrás. Mesmo hoje ainda sofro, às vezes, com saudade de Norwood. Um cheiro azedo, como o de um porão onde um velho italiano esteja fabricando vinho, lá no setor italiano do Village, me lembra os curtumes e desperta a saudade. Essa é uma das piores coisas que descobri sobre as emoções humanas e como elas podem ser muito traiçoeiras – o fato de que é possível odiar um lugar de todo o coração e com toda a alma e ainda sentir saudade. Sem falar que é possível odiar uma pessoa de todo o coração e com toda a alma e ainda suspirar por ela.”

“...Eu considero o mais são dos homens aquele que melhor compreende o trágico isolamento da humanidade e prossegue calmamente na busca de seus propósitos essenciais”, escreveu. “Acho que penso dessa forma porque sofro de delírio de grandeza. Acho que sou Joe Gould.”

“... “O pessoal do Minetta me trata bem agora, mas pode se cansar de mim a qualquer momento e me enxotar, e, se fizer isso, eu não vou gostar de ir lá perguntar se chegou carta para mim.” E então disse uma coisa que me deixou sem palavras: ‘Escute aqui, foi você que começou tudo isto. Eu não procurei você. Você é que me procurou. Você queria escrever um artigo sobre mim e escreveu e agora tem de arcar com as consequências’.”

“Eu estava furioso. Assim que Pearce saiu, voltei-me para Gould. ‘Você me disse que levou braçadas da História Oral a catorze editoras’, falei. ‘Por que diabos teve todo esse trabalho se havia decidido no fundo de você mesmo que a História Oral seria uma obra póstuma? Estou começando a crer que a História Oral não existe’. Essa frase saiu de meu inconsciente, e eu não tinha muita noção do que estava dizendo – só estava desabafando minha raiva –, mas no momento seguinte, ao olhar para Gould, tive certeza de que havia descoberto a verdade sobre a História Oral.
‘Meu Deus!’, exclamei. ‘Ela não existe’. Eu estava estarrecido. ‘A História Oral não existe. Não existe’
Encarei Gould, e ele me encarou. Seu rosto não tinha expressão nenhuma.”

“Voltei para minha sala, sentei-me e apoiei os cotovelos na escrivaninha e a cabeça nas mãos. Sempre tive horror de ver alguém desmascarado, flagrado numa mentira ou pego com a boca na botija, e agora, com tempo para refletir, senti vergonha de mim mesmo por ter perdido a calma e me enfurecido com Gould. A raiva começou a se dissipar, e eu fui ficando deprimido. Gould me enganara – não havia muita dúvida em relação a isso –, assim como enganara inúmeras pessoas ao longo dos anos. Havia me engabelado, assim como havia engabelado inúmeras pessoas. No entanto não precisei refletir muito sobre o assunto para chegar à conclusão de que ele não andara discorrendo sobre a História Oral todos aqueles anos e fazendo grandes declarações sobre sua extensão, seu volume, sua importância para a posteridade e comparando-a com obras como A história do declínio e queda do Império Romano só para enganar gente como eu, mas também para enganar a si próprio. Com certeza descobrira, muito tempo atrás, que não tinha o gênio, o talento ou, talvez, a segurança, o empenho, a determinação para produzir uma obra tão imensa e grandiosa como imaginara e se contentara com escrever os tais capítulos de ensaios. Escrever e reescrever. E, ou por ser preguiçoso demais, ou por ser perfeccionista demais, nem esses capítulos conseguira terminar. Contudo, em boa parte do tempo provavelmente acreditava, de modo nebuloso, iludindo-se e protegendo a si mesmo, que a História Oral de fato existia – os capítulos orais e os capítulos de ensaios. A parte oral podia não estar no papel, mas ele a tinha inteira na cabeça e um dia qualquer começaria a escrevê-la.”

“Passei mais de um ano pensando nesse romance. Sempre que tinha uma folga, punha-me a escrevê-lo mentalmente. Ás vezes, numa viagem de metrô, escrevia três ou quatro capítulos. Quase todo dia descartava e criava personagens. Mas a verdade é que nunca escrevi de fato uma só palavra. O tempo passou, outros assuntos me ocuparam. E, mesmo assim, durante alguns anos eu frequentemente devaneava, e nesses devaneios terminava de escrever meu romance e o via publicado. Via o frontispício. Via a capa – verde com letras douradas. Essas lembranças me causaram um constrangimento quase insuportável, e passei a me sentir cada vez mais solidário com Gould.”

“Desde sua criação, em 1925, a New Yorker cultivava manias que desafiavam todo bom senso editorial. Por exemplo: tanto na gestão de Haroldo Ross, seu fundador e editor até 1951, como na de William Shawn, à frente da publicação de 1951 a 1987, a New Yorker manteve o princípio de jamais pautar seus escritores. Num livro-homenagem a Shawn, Remembering mr. Shawn´s “New Yorker”, o escritor Ved Mehta cita o próprio Shawn a esse respeito: `Somos uma revista de escritores e de artistas gráficos, e é fundamental que nossos colaboradores possam escrever e desenhar o que bem entenderem. Um dos problemas com a encomenda de matérias é que elas transformam colaboradores em empregados.”

“...Como escreveu o poeta e ensaísta Joseph Brodsky, outro colaborador da revista, entre os anjos não existe hierarquia. A partir de certo grau de excelência é bobagem comparar escritores para determinar quem é superior a quem. O melhor elogio que se pode fazer a Mitchell é dizer que até hoje ele representa o paradigma da grande tradição do jornalismo literário americano. É o exemplo a ser seguido. Mitchell é o escritor dos escritores. Quem entende do riscado gostaria de ser igual.”

“... A revista de Haroldo Ross e William Shawn criara as condições institucionais para o tipo de jornalismo praticado por ele. Só ela combinava quatro predicados essenciais: tempo (para apurar e escrever), espaço (quando a matéria era grande demais, o editor simplesmente dividia o artigo em duas ou mais partes), apoio financeiro e liberdade editorial. Mitchell podia levar dois anos escrevendo a matéria que bem quisesse. O salário pingava todo mês.”

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Harry Potter 1

Rowling, J. K. Harry Potter e a Pedra Filosofal. Editora Rocco; São Paulo / SP; 1997; 263 páginas.

Dados da obra:

É o primeiro livro da série, em que o leitor é apresentado a Harry, filho de Tiago e Lílian Potter, feiticeiros que foram assassinados por um poderosíssimo bruxo, quando ele ainda era um bebê. Com isso, o menino acaba sendo levado para a casa dos tios, sendo maltratado por estes. No dia de seu aniversário de 11 anos, sua vida muda ao descobrir sua verdadeira história e seu destino: ser um aprendiz de feiticeiro até o dia em que terá que enfrentar a pior força do mal, o homem que assassinou seus pais, o terrível Lorde das Trevas.

Breve relato da autora:

Joane Kathleen Rowling, ou simplesmente JK Rowling é uma escritora britânica de ficção, autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter e de três outros pequenos livros relacionados ao mundo dele.

Passagens:

“Você não vai querer isso, é muito seco. Ela não tem muito tempo – acrescentou depressa. – Você sabe, somos cinco.
– Tome, como um pastelão – disse Harry, que nunca tivera nada para dividir com alguém antes, aliás, nem ninguém com quem dividir. Era uma sensação gostosa, sentar-se ali com Rony, acabar com todas as tortas e bolos de Harry (os sanduíches ficaram esquecidos).”

“– Vocês estão aqui para aprender a ciência sutil e a arte exata do preparo de poções – começou. Falava pouco acima de um sussurro, mas eles não perderam nenhuma palavra. Como a Profa. Minerva, Snape tinha o dom de manter uma classe silenciosa sem esforço. – Como aqui não fazemos gestos tolos, muitos de vocês podem pensar que isto não é mágica. Não espero que vocês realmente entendam a beleza de um caldeirão cozinhando em fogo lento, com a fumaça a tremeluzir, o delicado poder dos líquidos que fluem pelas veias humanas e enfeitiçam a mente, confundem os sentidos... Posso ensinar-lhes a engarrafar fama, a cozinhar glória, até zumbificar, se não forem o bando de cabeças-ocas que geralmente me mandam ensinar.”

“A sala comunal estava cheia e barulhenta. Todo o mundo estava comendo o jantar que fora mandado para lá. Hermione, porém, estava parada sozinha do lado da porta, esperando por eles Houve um silêncio constrangido. Depois, sem se olharem, todos disseram ‘Obrigado’ e correram para apanhar os pratos.
Mas daquele momento em diante, Hermione Granger tornou-se amiga dos dois. Há coisas que não se pode fazer junto sem acabar gostando um do outro, e derrubar um trasgo montanhês de quase quatro metros de altura é uma dessas coisas.”

“Harry pensou. Então respondeu lentamente:
– Ele nos mostra o que desejamos... seja o que for que desejemos...
– Sim e não – disse Dumbledore. – Mostra-nos nada mais nem menos do que o desejo mais íntimo, mais desesperado de nossos corações. Você, que nunca conheceu sua família, a vê de pé à sua volta. Ronald Weasley, que sempre teve os irmãos a lhe fazerem sombra, vê-se sozinho, melhor que todos os irmãos. Porém, o espelho não nos dá nem o conhecimento nem a verdade. Já houve homens que definharam diante dele, fascinados pelo que viram, ou enlouqueceram sem saber se o que o espelho mostrava era real ou sequer possível.”

“– Harry Potter, você sabe para que se usa o sangue de unicórnio?
– Não – disse Harry surpreendido pela estranha pergunta. – Só usamos o chifre e a cauda na aula de Poções.
– Porque é uma coisa monstruosa matar um unicórnio. Só alguém que não tem nada a perder e tudo a ganhar cometeria um crime desses. O sangue do unicórnio mantém a pessoa viva, mesmo quando ela está à beira da morte, mas a um preço terrível. Ela matou algo puro e indefeso para se salvar e só terá uma semivida, uma vida amaldiçoada, do momento que o sangue lhe tocar os lábios.”

“– E DAÍ? – gritou Harry. – Vocês não percebem? Se Snape apanhar a pedra, Voldemort vai voltar! Vocês não ouviram contar como era quando ele estava tentando conquistar o poder? Não vai haver Hogwarts para nos expulsar! Ele vai arrasar Hogwarts, ou transformá-la numa escola de magia negra! Perder pontos não importa mais, vocês não entendem? Acham que ele vai deixar vocês e suas famílias em paz, se Grifinória ganhar o campeonato das casas? Se eu for pego antes de conseguir a pedra, bem, vou ter que voltar para os Dursley e esperar Voldemort me encontrar lá. É só uma questão de morrer um pouquinho depois do que teria morrido, porque eu nunca vou me aliar aos partidários da magia negra! Vou entrar naquele alçapão hoje à noite e nada que vocês dois disserem vai me impedir! Voldemort matou meus pais, estão lembrados?”

“Alguém que estivesse do lado de fora do salão principal poderia ter pensado que ocorrera uma explosão, tão alta foi a barulheira que irrompeu na mesa da Grifinória. Harry, Rony e Hermione se levantaram para gritar e dar vivas enquanto Neville, branco de susto, desaparecia debaixo de uma montanha de gente que o abraçava. Jamais ganhara um único ponto para Grifinória antes. Harry, ainda gritando, cutucou Rony nas costelas indicando Malfoy, que não poderia ter feito uma cara mais perplexa e horrorizada se tivesse acabado de ser encantado com o Feitiço do Corpo Preso.”

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A sangue frio

Capote, Truman. A Sangue Frio. Editor Victor Civita; São Paulo / SP; 1975; 416 páginas.

Dados da obra:

Publicado em 1966, A Sangue Frio é a história real do brutal assassinato de uma família na cidade de Holcomb, localizada no interior do estado do Kansas, nos EUA, da ideia inicial do crime até a execução dos assassinos. O livro é um marco no jornalismo literário. Para escrevê-lo, Capote mergulhou fundo na história e conviveu com os assassinos, conseguindo extrair destes a confissão do crime.

Breve relato do autor:

Truman Streckfus Persons, mais conhecido como Truman Capote foi um escritor norte-americano e pioneiro do jornalismo literário.

Passagens:

“Nomes assinalados a tinta povoavam o mapa. Cozumel, uma ilha na costa do Iucatã, onde, conforme lera numa revista para homens, as pessoas poderiam ‘tirar a roupa, rir descansadas, viver como um marajá e ter todas as mulheres que quisessem com apenas cinquenta dólares por mês!’ ... Acapulco significava pescaria em alto-mar, cassinos, mulheres ricas e nervosas; Sierra Madre era ouro e outro era O Tesouro de Sierra Madre, filme que já vira oito vezes.”

“...Estudando outras fotografias do local do crime, Dewey descobria outros detalhes que pareciam apoiar sua teoria do assassino ocasionalmente levado por impulsos de consideração. ‘Ou’, quase nunca conseguia a palavra desejada, ‘cheio de cuidados’. Aquelas cobertas. Que tipo de pessoa faria isso: amarrar duas mulheres, como Bonnie e a menina foram amarradas, e então erguer as cobertas, aconchegá-las dentro delas, quase como a desejar uma boa noite e que dormissem bem? Ou o travesseiro debaixo da cabeça de Kenyon... Primeiro pensei que o travesseiro tivesse sido colocado para fazer da cabeça um alvo melhor. Agora acho que não, foi pelo mesmo motivo que puseram a caixa no chão: para dar mais conforto às vítimas.”

“Nossa, que frio! Papai e eu dormíamos abraçados, envoltos em cobertores e peles de urso. Antes que o sol raiasse, de manhã, eu arrumava café, biscoitos e mel, carne frita. Depois a gente ia cavar a vida. Teria sido bom, se eu não tivesse crescido. Quanto mais velho ficava, menos apreciava papai. Sabia tudo, por um lado, mas por outro não sabia nada. Papai não sabia nada de uma porção de coisas a meu respeito. Não compreendia um til. Como eu consegui tocar logo da primeira vez que peguei numa gaita. E guitarra também. Eu tinha um jeito enorme para música. Papai não reconhecia isso. Nem se importava. Eu gostava de ler. Melhorar meu vocabulário. Compunha canções...”

“... Dissera que tinha medo de Perry, e tinha: mas seria de Perry apenas ou seria de uma configuração de que ele era apenas parte no destino terrível que coubera aos quatro filhos de Florence Buckskin e Tex John Smith? O mais velho – o irmão que amara – matara-se com um tiro. Fern caíra, ou se jogara, de uma janela. E Perry entregara-se à violência: um criminoso. Portanto, num certo sentido, era ela a única sobrevivente e o que a atormentava era pensar que, com o tempo, ela, também, seria arrastada: enlouqueceria, contrairia uma doença incurável, ou perderia tudo que amava num incêndio: lar, marido, filhos”.

“... Até a morte de Nancy não apreciara Sue, nunca se sentira à vontade com ela. Ela era diferente – levava a sério mesmo coisas que as moças não deveriam levar a sério: pintura, poemas, a música que tocava no piano. E, é claro, tinha ciúmes dela; sua posição, no conceito de Nancy, embora fosse de outro tipo, havia sido idêntica à dele, no mínimo. Mas por isso mesmo ela compreendia sua perda. Sem Sue, sem a sua presença quase constante, como poderia ter suportado aquela avalancha de choques – o crime, suas entrevistas com o Sr. Dewey, a ironia patética de ser o principal suspeito?
Depois de um mês, a amizade esfriou. Bobby passou a frequentar menos a pequena e acolhedora sala de visitas dos Kidwell e, quando ia, Sue não parecia tão acolhedora. O mal estava em que ambos se esforçavam a lamentar e lembrar aquilo que, na realidade, queriam esquecer...”

“...O potencial assassino pode ser ativado, especialmente se algum desequilíbrio já se encontra presente, quando a futura vítima é inconscientemente percebida como figura-chave de alguma configuração traumática de seu passado. O comportamento, ou mesmo a simples presença desta figura, acrescenta uma tensão ao equilíbrio de forças que resulta numa súbita e extrema descarga de violência, semelhante à explosão de uma espoleta numa carga de dinamite...”

“...Três dos assassinatos de Smith, obviamente, foram motivados pela lógica: Nancy, Kenyon e a mãe deles tinham de ser mortos porque o Sr. Clutter fora morto. Mas o Dr. Satten argumenta que, do ponto de vista psicológico, só o primeiro assassinato conta, e que, quando Smith atacou o Sr. Clutter, estava em ‘eclipse mental’, dentro de uma profunda escuridão esquizofrênica, pois não era um homem de carne e osso que ‘se descobrira subitamente destruindo’, mas uma ‘figura-chave em alguma configuração dramática em seu passado’: o pai?, as freiras no orfanato que o ridicularizavam e surravam? O sargento tão odiado? O encarregado do livramento condicional que lhe dera ordens de ‘não aparecer no Kansas?’ Um deles, ou todos eles”.

“Na confissão, Smith dissera: ‘Não queria fazer mal. Me parecia um cavalheiro muito distinto. De fala macia. Até a hora de cortar o pescoço dele eu achava isso’. Ou então para o amigo Don Cullivan: ‘Não foi nada que os Clutter tivessem feito. Nunca me fizeram nada. Como os outros fizeram. Como fizeram comigo a vida inteira. Vai ver os Clutter é que tinham de pagar por tudo’.”

“– Mas pra idade dele nunca conheci ninguém tão inteligente. Uma verdadeira enciclopédia ambulante. Quando aquele menino lia um livro era pra valer. Claro que não sabia nada da vida. Eu sou um cara ignorante, menos no que diz respeito à vida. Já andei em cada rua que não era brincadeira não. Já vi homem branco ser açoitado. Vi criança nascer. Vi uma garota com menos de catorze anos ir pra cama com três caras ao mesmo tempo e merecer o dinheiro tirado deles todos. Uma vez caí de um navio a cinco milhas da costa: nadei cinco milhas vendo minha vida passar diante de mim a cada braçada. Uma vez apertei a mão do Presidente Truman no saguão do Hotel Muehlebach. Harry S. Truman. Quando trabalhava pro hospital dirigindo ambulância, vi todos os lados da vida – coisas de fazer um cachorro vomitar. Mas Andy? Não sabia nada: a não ser o que lia nos livros.”

“Passo, laço, máscaras. Mas antes de lhe ajeitarem a máscara, o prisioneiro cuspiu fora o chiclete na mão estendida do capelão. Dewey fechou os olhos. Manteve-os fechados até que ouviu o baque surdo anunciando um pescoço quebrado por corda. Como a maior parte dos agentes da lei dos Estados Unidos, Dewey tem certeza de que a pena de morte é um meio de intimidação ao crime violento. A execução anterior não o perturbara, pois nunca dera muita importância a Hickock, que lhe parecia apenas ‘um ladrãozinho ordinário’ que saíra da sua categoria, vazio, não valia nada. Mas Smith, embora fosse o verdadeiro assassino, despertava outra espécie de reação, pois Perry possuía a aura do animal ferido, da criatura exilada que o detetive não podia menosprezar. Lembrou-se do primeiro encontro com Perry, na sala de interrogatórios em Las Vegas: o menino-homem, quase anão, sentado na cadeira de metal, os pés em botas mal tocando no solo.
E foi o que viu, quando abriu de novo os olhos: os mesmos pés infantis, tortos, balançando.”