terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Viagem do Elefante

Saramago, José. A Viagem do Elefante. Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2008. 264 páginas.

Dados da obra:

A Viagem do Elefante é uma ideia que Saramago elaborava desde que, numa viagem a Salzburgo, na Áustria, entrou por acaso num restaurante chamado 'O Elefante'. A narrativa se baseia na viagem de um elefante chamado Salomão, que no século XVI cruzou metade da Europa, de Lisboa a Viena, por extravagâncias de um rei e um arquiduque.

Breve relato do autor:

José Saramago foi um escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efectivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.

Passagens:

“O rei fez um gesto a impor silêncio, e finalmente disse, Salomão, que assim continuará a chamar-se enquanto aqui estiver, não imagina as perturbações que tem originado entre nós a partir do dia em que decidi dá-lo ao arquiduque, creio que, no fundo, ninguém aqui quer que ele se vá, estranho caso, não é gato que se roce nas nossas pernas, não é cão que nos olhe como se fossemos o seu criador, e, no entanto, aqui estamos aflitos, quase em desespero, como se algo nos estivesse a ser arrancado,...”

“A hora, tão matutina, e o segredo com que havia sido organizada a saída, explicavam a ausência de curiosos e outras testemunhas, havendo que ressalvar, no entanto, a presença de uma carruagem do paço que se pões em movimento na direção de lisboa quando elefante e companhia desapareceram na primeira curva da estrada. Dentro, iam o rei de portugal, dom joão, o terceiro, e o seu secretário de estado, pero de alcáçova carneiro, a quem talvez não vejamos mais, ou talvez sim, porque a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginamos silêncios, e súbitos regressos quando pensamos que não voltaríamos a encontrar-nos.”

“... A experiência dos lobos deve mudar muito as pessoas, Não creio que a causa tenham sido eles, Então o elefante, É mais provável, se bem que, podendo compreender mais ou menos um cão ou um gato, não consigo entender um elefante, Os cães e os gatos vivem ao nosso lado, isso facilita muito a relação, mesmo que nos equivoquemos, a contínua convivência resolverá a questão, já eles não sabemos se se equivocam e disso têm consciência, E o elefante, O elefante, já lho disse no outro dia, é outra coisa, em um elefante há dois elefantes, um que aprende o que se lhe ensina e outra que persistirá em ignorar tudo, Como sabes tudo isso, Descobri que sou tal qual o elefante, uma parte de mim aprende, a outra ignora o que a outra parte aprendeu, e tanto mais vai ignorando quanto mais tempo vai vivendo, Não sou capaz de te seguir nesses jogos de palavras, Não sou eu quem joga com as palavras, são elas que jogam comigo, ...”

“É possível que o nosso elefante pense, se aquela enorme cabeça é capaz de semelhante proeza, pelo menos espaço não lhe falta, ter razões para suspirar pelo antigo far niente, mas isso só poderia suceder graças à sua ignorância natural de que a indolência é o mais prejudicial que há para a saúde. Pior que ela só o tabaco, como lá mais para diante se há-de ver. Agora, porém, depois de trezentas léguas a andar, grande parte delas por caminhos que o diabo, apesar dos seus pés de bode, se negaria a pisar, solimão já não merece que lhe chamem indolente. Tê-lo-ia sido durante a permanência em portugal, mas isso são águas passadas, bastou-lhe ter posto o pé nas estradas da europa para logo ver acordarem em si energias de cuja existência nem ele próprio havia suspeitado. Tem-se observado com muito frequência este fenômeno nas pessoas que, pelas circunstâncias da vida, pobreza, desemprego, forma forçadas a emigrar.”

“Realmente, o maior desrespeito à realidade, seja ela, a realidade, o que for, que se poderá cometer quando nos decidimos ao inútil trabalho de descrever uma paisagem, é ter de fazê-lo com palavras que não são nossas, que nunca foram nossas, repare-se palavras que já correram milhões de páginas e de bocas antes que chegasse a nossa vez de as utilizar, palavras cansadas, exaustas de tanto passarem de mão em mão e deixarem em cada uma parte da sua substância vital.”

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A Trégua

Benedetti, Mario. A Trégua. Editora Brasiliense. São Paulo / SP; 1989; 132 páginas.

Dados da obra:

Mais famoso romance de Mario Benedetti, A Trégua foi publicada em 1960. Escrito em formato maduro, prestes a completar 50 anos, viúvo há mais de 20, com os três filhos. No diário, conta os dias que faltam para a aposentadoria, até que seu destino muda quando conhece Laura Avellaneda, uma jovem discreta e tímida contratada para ser sua subalterna.

Breve relato do autor:

Mario Benedetti foi um poeta, escritor e ensaísta uruguaio, tendo iniciado a carreira literária em 1949, mas só ficou famoso em 1956, ao publicar "Poemas de Oficina", uma de suas obras mais conhecidas. Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema.

Passagens:

“Eu próprio fabriquei minha rotina, mas pela via mais simples: a da acumulação. A segurança de saber-me capaz de algo melhor colocou-me nas mãos o adiamento, que no fim das contas é uma arma terrível e suicida. Daí que minha rotina nunca haja adquirido caráter ou definição; sempre foi provisória, sempre constitui-se em rumo precário, continuando apenas o suficiente para suportar o dever da jornada durante esse período de preparação que ao que parece eu considerava imprescindível, antes de lançar-me definitivamente a assumir meu destino. Que tolice, não?”

“... Mas o tempo corre, deixemos ou não, o tempo corre e torna-a a cada dia mais atraente, mais madura, mais suave, mais mulher; a mim, em troca, ameaça tornar-me a cada dia mais indisposto, mais desgastado, menos valente, menos vital. Temos que nos apressar para o encontro, porque em nosso caso o futuro é um inevitável desencontro. Todos os seus ‘mais’ correspondem aos meus ‘menos’. Compreendo que para uma mulher jovem pode ser atraente saber que a gente é alguém que viveu, que há muito trocou a inocência pela experiência, que pensa com a cabeça bem colocada sobre os ombros. É possível que isso seja atraente mas é efêmero. Porque a experiência é boa quando vem de mãos dadas com o vigor; depois, quando o vigor se esvai, a gente passa a ser uma peça decorativa de museu, cujo único valor é ser uma lembrança do que já se foi. A experiência e o vigor são coetâneos por muito pouco tempo. Eu estou agora nesse pouco tempo. Mas não é uma sorte invejável.”

“... Nos escritórios não há amigos, há pessoas que se veem todos os dias, que sofrem juntas ou separadas, que brincam e se divertem, que trocam suas queixas e transmitem seus rancores, que resmungam sobre a Diretoria em geral e adulam cada diretor em particular. Isso se chama convivência, mas somente por ilusão se pode achar que convivência se parece com amizade.”

“... Na segunda parte do meu festim entram os jornais. Há dias em que compro todos. Gosto de reconhecer suas tendências. O estilo de saltos sintáticos nos editoriais do El Debate; a civilizada hipocrisia do El País; a maçaroca informativa do El Dia, interrompida apenas por um outro aceno anticlerical; a robusta compleição de Le Mañana, pecuarista como ele só. Tão diferentes e tão iguais! Jogam entre eles uma espécie de truco, enganando-se uns aos outros, trocando sinais, trocando de par. Mas servem-se do mesmo porrete, todos alimentam-se da mesma mentira. E nós lemos, e a partir dessa leitura acreditamos, votamos, discutimos, perdemos a memória, esquecemos generosa, cretinamente de que hoje dizem o contrário de ontem, que hoje defendem ardorosamente aquele de quem ontem falaram cobras e lagartos, e, o pior de tudo: que hoje esse mesmo Aquele aceita, orgulhoso e arrogante, essa defesa.”

“É evidente que Deus concedeu-me um destino obscuro. Nem mesmo cruel. Simplesmente obscuro. É evidente que me concedeu uma trégua. No começo, resisti a achar que aquilo pudesse ser a felicidade. Resisti com todas minhas forças, depois dei-me por vencido e acreditei. Mas não era a felicidade, era apenas uma trégua. Agora estou outra vez metido em meu destino. E é mais obscuro do que antes, muito mais.”

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Livros - Ilha Deserta

Vários. Livros - Ilha Deserta. PubliFolha. São Paulo / SP; 2003; 187 páginas.

Dados da obra:

Sete autores, cada um com direito a dez livros. Uma biblioteca e tanto para a ilha deserta - mais um epílogo, sobre o maior de todos os náufragos: Robinson Crusoé

Autores:

Bernardo Ajzenberg, Carlos Heitor Cony, Contardo Calligaris, Manuel da Costa Pinto, Maria Rita Kehl, Moacyr Scliar, Nina Horta e Nuno Ramos.

Passagens:

"Há quem não consiga escovar os dentes sem antes estourar um cravo ou uma espinha do rosto. Há quem fume seu cigarro, infalivelmente, depois de um cafezinho. Como todo mundo, também acumulo pequenos vícios de tipo semelhante. Mas aqui cabe destacar um outro, de gênero diferente: antes de dormir, mesmo se fiquei horas absorvido por outra leitura, dou sempre uma espiadela na Recherche..., uma página qualquer, por sorteio. Às vezes, duas frases bastam: às vezes, uma. É a minha forma de oração." (Bernardo Ajzenberg)

"Só as crianças acreditam na existência das ilhas desertas. Uma ilha inteira à disposição. Desabitada, sem adultos. Sem inverno, sem mosquitos. Entre o mar e o mato, com água fresca abundante, frutas acessíveis, abrigo contra as intempéries. Tendo a sobrevivência garantida, o resto é pura aventura. Liberdade e aventura. E todo o tempo do mundo para ler e reler os mesmos livros adorados." (Maria Rita Kehl)

"Tudo começava na volta das férias. Como era triste o dia de volta das férias. O enfrentamento com a realidade sem fantasias da vida em família e da vida escolar. Só Monteiro Lobato podia me salvar da melancolia da volta para casa depois de um mês no mar ou no mato, um mês inteiro em que a vida era outra e me permitia inventar-me, dia a dia, como personagem de minha literatura particular." (Maria Rita Kehl)

"Loucura, solidão, difícil sobrevivência: estes são os elementos da síndrome da ilha deserta. Por isso adquire especial significação a clássica pergunta: que livros a gente levaria para uma ilha deserta? Esses livros não serão simples entretenimento: na ilha deserta eles se tornam a condição de nossa sobrevivência espiritual." (Moacyr Scliar)

"Kafka não perde tempo com isso; aliás, síntese é sua marca registrada. O viajante comercial Gregor Samsa transformou-se em inseto, e pronto. E agora? O que vai acontecer?
O que acontece é o objeto dessa sombria narrativa. Gregor Samsa (notar a semelhança desse sobrenome com 'Kafka') vive com a família, mas não recebe desta o menor apoio; ao contrário, tratam-no com hostilidade, e é com alívio que o vêem morrer. Ao final chegamos a uma dolorosa conclusão para aqueleas pessoas, Samsa já era um inseto, insignificante e repulsivo como um inseto. Kafka não está falando de baratas gigantes. Está falando da condição humana." (Moacyr Scliar)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A mulher que matou os peixes

Lispector, Clarice. A mulher que matou os peixes. Editora Sabiá Ltda. Rio de Janeiro / RJ; 1968; 64 páginas.

Dados da obra:

Com muita delicadeza e sensibilidade, Clarice Lispector narra a história em que confessa ter matado, sem querer, os peixinhos de seu filho, e pede perdão por isso. Antes de contar o fato como realmente aconteceu ela fala sobre todos os bichos de estimação que já viveram em sua casa, convidados ou não, além de outros animais de amigos e conhecidos. Por essa história a criança compreende que a mãe também erra, como todos os seres humanos.

Breve relato da autora:

Clarice Lispector, cujo nome de batismo é Haia Pinkhasovna Lispector, nasceu na Ucrânia, mas chegou ao Brasil quando tinha dois meses, por isso é considerada uma escritora e jornalista brasileira. Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania – irmã, todos mudaram de nome em terras brasileiras.

Passagens:

“Vocês ficaram tristes com essa história: Vou fazer um pedido para vocês: todas as vezes que vocês se sentirem solitários, isto é, sozinhos, procurem uma pessoa para conversar. Escolham uma pessoa grande que seja muito boa para crianças e que entenda que às vezes um menino ou uma menina estão sofrendo. Ás vezes de pura saudade, como os periquitos australianos. Conheço uma moça que toca piano muito bem nos teatros. Essa moça ganhou de presente no dia do seu aniversário um periquito australiano. Só ganhou a fêmea. O pior é que as pessoas que dão um periquito australiano têm que comprar dois: um macho e uma fêmea que, por causa da raça deles, são tão amorosos que passam o dia se beijando e não podem ser separados. A periquita até adoeceu de tanta saudade do macho dela.”

“Eu fico muito ofendida quando um bicho tem medo de mi, pois sou corajosa e protejo os animais. Quem de vocês tiver medo, eu cuido e consolo. Porque sei o que é o medo que as crianças têm porque já fui criança. Até hoje ainda tenho medo de certas coisas.”

“Devem ter passado fome, igual a gente. Mas nós falamos e reclamamos, o cachorro late, o gato mia, todos os animais falam por sons. Mas o peixe é tão mudo como uma árvore e não tinha voz para reclamar e me chamar. E quando fui ver, estavam parados, magros, vermelhinhos – e infelizmente já mortos de fome.”

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Rimbaud

White, Edmund. Rimbaud: a vida dupla de um rebelde. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2010; 190 páginas.

Dados da obra:

Ensaio bibliográfico que refaz o trajeto de Arthur Rimbaud, da infância sob a vigília de uma mãe dominadora à descoberta da boemia parisiense, da paixão tórrida pelo também poeta Paul Verlaine, ao tráfico de armas no continente africano.

Breve relato do autor:

Edmund White é um romancista, escritor de contos e crítico literário, nascido em Cincinnati, Ohio, nos Estados Unidos. Sua obra mais conhecida é, provavelmente, A vida privada de um rapaz, o primeiro volume de uma trilogia autobiográfica que tem continuação com Um belo quarto vazio e Sinfonia a despedida.

Passagens:

“Alguma coisa naquele professor sem papas na língua deve ter atraído o jovem Rimbaud – e assim que ouviu falar da biblioteca de Izambard o menino também se sentiu fortemente atraído por ela. Izambard tinha uma grande coleção de todos os livros mais recentes de poesia francesa e de revistas literárias, bem como muito dos clássicos, e estava disposto a emprestar aqueles volumes ao ávido aluno. Numa cidade pequena, e numa época anterior à difusão das bibliotecas públicas, a simples possibilidade de pôr a mão em livros podia ser um problema quase intransponível.”

“Tal como diversos escritores daquela época (incluindo Marx um pouco antes), Rimbaud adquiriu um ‘bilhete de leitor’ no Museu Britânico. Assim como os escritores picaretas retratados no romance New Grub Street (1891), de George Gissing, sobre a empobrecida classe dos escrevinhadores, Rimbaud passava seus dias na biblioteca pública, onde o calor e a luz eram de graça – um pouco como os cafés de Paris, onde se podia ficar sentado sem ser perturbado ao preço de uma xícara de café. Além disso, Rimbaud podia mergulhar nas amplas coleções de livros do Museu Britânico – incluindo livros escritos pelos communards e indisponíveis na França. Tentou consultar livros pornográficos em francês de autoria do marquês de Sade, mas não lhe deram permissão – tais livros só eram acessíveis a uns poucos ‘especialistas’”.

“Rimbaud sempre insistira com Verlaine para que escrevesse em versos de onze sílabas, o que confere ao poema um andamento estranho, trôpego, que um poeta suave (como Verlaine) ou alquímico (como Rimbaud) poderia disfarçar tensionando o pensamento ou a sintaxe. Por estranho que pareça, tanto Rimbaud quanto Verlaine, nessa fase inicial de separação, aceitaram o desafio do verso de onze sílabas, como se permanecessem fiéis um ao outro na própria pulsação da poesia, muito mais profunda do que as imagens ou o tema.”

“Embora tivesse dado as costas de vez à literatura, Rimbaud permanecia obcecado por livros. Tal como os dois comoventes mas absurdos autodidatas do ‘romance tragicômico’ de Flaubert, Buvard e Pécuchet, Rimbaud queria aprender tudo de cada área de conhecimento prático. Fez vir da França livros sobre metalurgia, hidráulica, funcionamento de barcos a vapor, arquitetura naval, mineralogia, como instalar um depósito de madeira, um guia de bolso sobre carpintaria, alvenaria e assim com diante... Ele, que tinha desejado transformar o mundo por meio da alquimia da linguagem, estava agora reduzido a estudar as verdadeiras técnicas práticas. E, no entanto, o objetivo – saber tudo e controlar tudo – permanecia o mesmo.”

“Verlaine, apesar da falta de contato com Rimbaud, permaneceu fiel a seu gênio. Em 1883, publicou três livretos chamados Les poetes maudits sobre Rimbaud, Mallarmé e Tristan Corbière. Todos os três, hoje reconhecidos entre os maiores de seu tempo, eram desconhecidos quando Verlaine decidiu escrever sobre eles. O texto dedicado a Rimbaud era especialmente corajoso, já que deve ter trazido à tona os escândalos do passado: o julgamento, a prisão, suas relações imorais com Rimbaud, o divórcio. Amargurado e furioso com Rimbaud nos anos de 1875 a 1880, Verlaine agora só falava dele com afeto e admiração. No panfleto, Verlaine reproduzia vários poemas de Rimbaud, que muitos do meio literário parisiense estava lendo pela primeira vez. Ficaram estupefactos. Conforme escreveu Edmond Lepelletier, ninguém tinha lembranças muito favoráveis do garoto que tinham conhecido quinze anos antes. Tudo o que recordavam eram seus modos grosseiros e que se tinha em alta conta: “As citações feitas por Verlaine foram como uma revelação”. Sem os esforços de Verlaine, Rimbaud seria apenas uma nota de rodapé na história de um movimento literário esquecido, o Zutismo.”

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Ilha de Nim

Orr,Wendy. A Ilha de Nim. Brinque-Book; São Paulo / SP; 2008; 72 páginas.

Dados da obra:

Nim é uma menina que vive feliz em uma ilha no meio do grande mar azul, com seu pai Jack, um iguana-marinho chamado Fred, uma leoa-marinha conhecida como Selkie, uma tartaruga de nome Chica e uma antena parabólica para seu e-mail. Um belo dia Jack viaja e desaparece com seu barco a vela, obrigando Nim a ser mais valente do que nunca e contar ainda mais com a ajuda de seus velhos e novos amigos.

Breve relato da autora:

Wendy Orr é uma autora de origem canadense, com vários títulos infantis e juvenis publicados. Cresceu com vários animais de estimação, em diferentes lugares da América do Norte e da França.
O livro conta com ilustrações de Kerry Millard, canadense, que cresceu cercada de todo tipo de animais. Tornou-se veterinária e mais tarde começou nova carreira como ilustradora, cartunista e autora premiada.

Passagens:

“O que Nim mais gostava ao fazer pão era de observar a massa que havia feito com farinha seca de trigo, fermento e água transformar-se em pão quentinho. ‘Ciência’, Jack dizia, mas Nim achava que era magia.
Nesse dia não era nada.
Nesse dia, quando o pão borbulhou e inchou no meio, ela nem sorriu. Quando o pegou rapidinho com seu espeto de bambu e o arrumou de volta na folha de bananeira, era apenas pão, porque fazer pão era o que Nim tinha que fazer nesse dia. E se ela fizesse tudo o que tinha para fazer, Jack voltaria para casa à noite e tudo ficaria bem.”

“De repente, ela estava cansada demais para qualquer outra coisa. Fez um sanduíche de banana e se aninhou na rocha entre Selkie e Fred para ler o último capítulo do livro.
Quando terminou ficou feliz e triste ao mesmo tempo, porque o final a fez sentir-se aquecida e sorridente, mas ela não queria dizer adeus às pessoas do livro.
– Vou ler outra vez! – decidiu, e leu o título em voz alta, como se nunca o tivesse visto antes: A Loucura da Montanha, por Alex Rover.”

“Quando a manhã esquentou, eles ficaram descansando nos bancos rasos de areia da Praia da Tartaruga. Chica estava cansada porque tinha nadado centenas de quilômetros e botado noventa e nove ovos. Nim estava cansada porque tinha ficado acordada até tarde vendo Chica botar os ovos. Selkie estava cansada porque tinha ficado preocupada por Nim ter ido dormir tão tarde. Fred não estava cansado, mas ele não se importava de ficar com preguiça se todos estavam.“

“O caniço era de bambu, forte e elástico. Fora feito por Jack para o aniversário de Nim, e ele é que a tinha ensinado a jogar a linha em um arco que assobiava – a melhor parte de uma pescaria, Nim achava.
Era por isso que ela detestava pegar um peixe logo de cara: era como terminar um jogo de bola depois da primeira jogada. Sete tentativas desta vez, e então um peixe prateado dançou na ponta da sua linha. Era bom de comer, do tamanho certo... – Lamento, Peixe – disse Nim, e rapidamente o matou. Essa era a parte de que não gostava.”

“Alex olhou pela janela. Do quadragésimo quarto andar, podia ver a uma longa distância, porém, por mais que se esforçasse, não conseguia ver a Enseada do Buraco da Fechadura ou um Herói em uma jangada de coco.
E só por um momento, Alex desejou ser uma pessoa que fazia coisas em vez de escrever sobre elas... Que pudesse velejar pelos mares ou viver alegremente em uma ilha tropical.
Mas Alexandra Rover era uma sonhadora, não uma ‘fazedora’. Estava presa a um lugar como um trem em um trilho, fazia parte da cidade como o relógio da estação.”

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Blecaute

Paiva, Marcelo Rubens. Blecaute. Editora Brasiliense; São Paulo / SP; 1990; 208 páginas.
Dados da obra:

O enredo se passa em São Paulo, onde dois rapazes e uma garota, de volta de uma expedição que fizeram a uma caverna do Vale do Ribeira, percebem a cidade deserta, ou melhor, com pessoas, mas estas se encontram duras, como que cobertas por uma capa plástica. Cada uma parada conforme a atividade que estivesse executando no momento em que aconteceu essa espécie de “blecaute”, paralisando tudo, para sempre. Sozinhos em meio a uma São Paulo caótica, os três personagens – Rindu (narrador), Martina e Mário – tentam sobreviver, buscando entender o que aconteceu à cidade e descobrindo que a situação se estendia ainda a outras regiões do estado, do país, do mundo.

Breve relato do autor:

Marcelo Rubens Paiva é um escritor, autor teatral e jornalista brasileiro. Aos 20 anos de idade , sofreu um acidente que o deixou tetraplégico. Hoje, com muita fisioterapia, voltou a locomover as mãos e os braços.

Passagens:

“Não fico mais aflito por saber que nada sei. O que é? De quê? De onde veio? Para onde? São perguntas cujas respostas não me interessam. O tempo não precisa ser medido; essa frase tem ficado muito tempo na minha cabeça. Não existe diferença entre verdade e mentira, nem a possibilidade de encontrar o bem e o mal; não sei por que catso comecei a pensar nisso. Não fico alegre, nem triste. Há muito não dou uma risada, nem choro. As palavras não significam nada. Meu corpo se curvou para a frente, cansado, desiludido. Não consigo entender nada. E isso não me comove mais. Os homens fizeram a sua própria história, mas não imaginaram onde iriam desembocar.”

“No princípio, o Céu e a Terra eram fenômenos divinos; e só. Em seguida, a Razão, a Ciência encontrou teorias que os definissem. A luta da humanidade era explicar o inexplicável. Hoje... meu corpo se curvou para a frente, cansado, desiludido. Dane-se! Me lembro de uma música que falava ‘tudo, tudo, tudo vai dar certo...’ e acho engraçado. Nada deu certo. Já me falaram de uma nova Era. Já me falaram do universo em expansão. Mas nada deu certo. Nada.
Começou há muito tempo. Sei lá, há uma porrada de tempo.”

“Era estranho andar por São Paulo à noite, sem nenhum teatro ou cinema ou restaurante ou bar ou uma porra qualquer para ir. Era estranho não ver os milhares de carros levando casais a um programa misterioso, não ver uma garota expondo o corpo numa pista de dança qualquer. Onde estavam os mistérios de uma esquina mal iluminada, o beco sem saída, o mendigo tropeçando nos próprios calcanhares de bêbado, o balcão de bar, o travesti de bunda de fora, o chofer de táxi sonolento, o adolescente fumando nervoso? Onde estavam as peregrinações da vida e da morte? Onde estava a noite?”

“O roubo do cotidiano dos outros virou rotina. Entramos em milhares de filmes, peças e shows atrás de figuras anônimas. Vários vernissages, exposições, festas sem despertarmos a menor suspeita. Era como se não tivéssemos personalidade, gosto ou objetivo. Entregávamos uma noite inteira aos outros. A regra era: escolhido o carro, teríamos de segui-lo sem objeções. Doce sabor de não ter destino...”

“Faça um pedido. Qualquer um. O que a madame quer explodir? É só acender o pavio e bum. Vamos, escolha, vai te fazer bem.
Ela relutou no começo. Mas ficou pensando, pensando, até seus olhos adquirirem outro brilho. Abriu um largo sorriso e perguntou maliciosamente:
– Posso destruir o que quiser?
– Claro. É só escolher – Mário respondeu.
Ela exagerou. Foi longe demais.
– Quero derrubar a antena da Rede Globo na Avenida Paulista.”

“Quando recuperei um pouco as forças, passei o dia limpando a casa, na medida do possível; quase tudo fora destruído. Instalei outra TV e outro aparelho de vídeo. Joguei fora os móveis quebrados. Varri todo o chão. Uma vez, prometi nunca abandonar Mário. Uma vez, senti muito medo de perdê-lo, senti medo de ele morrer. ‘Estragou tudo, eu e você’, ele me disse. Enchi o gerador elétrico com óleo diesel. O blecaute iria chegar, com certeza.
Á noite, fumei um no terraço olhando para o vazio. A cidade estava silenciosa. Vazia. Mário fora embora e eu percebi que estava com medo. E se ele nunca mais voltar? E se ele morrer? Mario estava indo embora e eu ali, olhando para o vazio... Maldito vazio!”

“Uma placa totalmente enferrujada indicava São Paulo a poucos quilômetros. Não me emocionei. Não senti nada. Há tanto tempo sozinho, pulando de cidade em cidade. Congelei qualquer tipo de sentimento. A história da minha vida? Ah, isso faz muito tempo... Por que voltava depois de tantos anos? Sei lá? Acelerei a motocicleta no viaduto de entrada. Foi nesta cidade que tive o contato com o fim. Foi nesta cidade que para mim tudo começou. A terra que cobria o asfalto era um pouco perigosa. Mas não me importava. Há muito não me importava com nada. Talvez tivesse voltado por causa dela. Martina. Ainda estaria viva? Sozinha todos esses anos... Há muito não via um rosto humano vivo. Há muito não ouvia uma palavra. Ainda estaria viva? Nova Iorque, Washington, Los Angeles, México, ninguém, ninguém. Sozinho esse tempo todo. Sei lá.”