quinta-feira, 28 de julho de 2011

Uma Duas

Brum, Eliane. Uma Duas. Editora Leya; São Paulo / SP; 2011; 175 páginas.

Dados da obra:
Uma Duas é o primeiro livro de ficção da Eliane Brum e narra a complicada relação entre mãe e filha, os laços que as unem – e separam, o conflito de sentimentos que vão do amor ao ódio e vice-versa.

Breve relato do autor:

Eliane Brum é jornalista e escritora, conhecida por escrever – com emoção – histórias da vida real (reportagens), destacando personagens comuns. Autora também de A vida que ninguém vê e O olho da rua.
Passagens:

“Foi a primeira vez que senti pena da minha mãe. Eu não sei o que ela ouviu na escola, mas à noite a escutei chorando. Eu não sabia que minha mãe podia chorar. Onde ela tinha guardado as lágrimas por aqueles anos todos? Eu achava que todas as pessoas tinham uma bolsa de lágrimas na barriga. Porque meu choro sempre começava na barriga e só depois alcançava os olhos. Eu pensava que minha mãe tinha nascido sem essa bolsa e por isso não chorava.”

“Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser Deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever vou quebrando essa criança esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra.”

“Desta vez , vai ter de assumir. Vai ter de me matar ou não na sua narrativa. Se me matar, vai saber que a minha voz está ali, em algum lugar, ainda que ninguém saiba e que você queime o caderno. Sim, porque eu só sei escrever a mão. E acho que há mais coragem em escrever a mão, sopesando cada letra, que exige esforço e não aparece e desaparece numa tela como se as palavras pudessem simplesmente surgir ou simplesmente ser eliminadas sem que se pague um preço por isso. Seu pai mal sabia escrever, não se iluda. Seu talento você herdou de mim.”

“O dicionário era proibido para mim. Meu pai achava o dicionário altamente perigoso. E tudo o que era perigoso deveria ser eliminado. Ou pelo menos controlado de perto. Você é uma menina inteligente, Maria Lúcia. Puxou a mim. Você acha que tem idade para ter acesso a todas as palavras do mundo? E ele arredondava este toooodas com sua voz de barítono. Não, eu não achava. Mas deste dia em diante passei a sentir a presença do dicionário como uma terceira pessoa naquela casa sem visitas.”

“E você, o que faz, já que estamos falando disso? Sou jornalista. Ou era. Cuido de minha mãe agora. E tento escrever um livro. Pronto. Falei demais. De novo. Um livro? E sobre o que é seu livro? Eu não sei. Estou escrevendo e só. Ou tentando escrever. Sempre achei que deveria escrever um livro um dia, que tinha algo a dizer. Mas agora que comecei tenho dúvidas. Dúvidas? Ele parece um psicanalista. Será que vai ficar pontuando minha última palavra a cada frase? Sim, dúvidas. Acho que não tenho nada a dizer que já não tenha sido dito. E descobri que nem escrevo tão bem assim. Não sou capaz de inventar nada novo, entende. Harry Potter, por exemplo, a J. K. Rowling inventou um mundo inteiro. Eu não consigo inventar uma única palavra. Continua presa em mim, entende. Entendo. Mas talvez não importe. Acho que você deveria apenas escrever. Talvez o novo nem exista. Talvez seja isso, um livro para mostrar que não existe nada de novo. Que é tudo velho. E não faz mal. Estamos aqui e é o suficiente. Você escreve e é o suficiente.”

“... Era uma aventureira que viajava pelo mundo. Sentada na sacada do hotel, eu bebericava um drink exótico com um cigarro no canto da boca e teclava na máquina de escrever, fazendo de tempos em tempos pequenas pausas para olhar a paisagem mutante, estrangeira sempre. Tinha um olhar cínico e à noite sentava no balcão do bar e sussurrava com voz rouca: Play it again, Sam. Nos meus sonhos, eu era Humphrey Bogart, não Ingrid Bergman. Eu era Hemingway, não Jane Austen. Sem mãe, eu não precisava ser mulher. Quem saberia? Agora eu podia ter qualquer corpo meu. E eu preferia um corpo que não doesse, um corpo liso e duro, um corpo que podia enfiar em alguém e machucar por dentro. E que não sangrava a cada óvulo morto, a cada criança viva.”

“É tão boa a sensação das mãos dele sobre mim. Seus dedos seguem a teia intricada de pequenas cicatrizes do meu corpo sem que ele nada pergunte. Como em mapa de metrô, eu penso, as minhas cicatrizes. Mas não. Ele dedilha minhas marcas e quase posso ouvir a música. Lembro de uma história que li. Uma menina chinesa vivia sozinha numa cama de hospital. Um dia uma mosca bate as asas em seu rosto. Era o primeiro carinho que a menina recebia em toda a sua vida. Daquele dia em diante as asas da mosca sobre a sua face a acariciavam a cada manhã numa felicidade esperada. A menina foi curada pelas asas da mosca. Mas acho que invento o final. Na história a mosca foi esmagada, e a menina morreu. Não importa. Eu posso morrer ali. E acho que estaria quase feliz.”

terça-feira, 28 de junho de 2011

As melhores coisas do mundo

Bolognesi, Luiz (roteiro). As melhores coisas do mundo. Imprensa Oficial; São Paulo / SP; 2010; 240 páginas.

Dados da obra:

Inspirado na série de livros Mano, escrita por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, o roteiro narra a história de Mano, um adolescente de 15 anos. Ele está aprendendo a tocar guitarra, pois deseja chamar a atenção de uma garota. Seus pais estão se separando, o que o afeta tanto quanto ao seu irmão mais velho. Sua melhor amiga e confidente está apaixonada pelo professor de Física. Em meio a estas situações, Mano precisa lidar com os colegas de escola em momentos de diversão e também sérios, típicos da adolescência nos dias atuais.

Breve relato do autor:

Luiz Bolognesi é um roteirista de cinema que escreveu o roteiro dos filmes Bicho de Sete Cabeças (2001), O Mundo em Duas Voltas (2006), Chega de Saudade (2007), entre outros. Foi redator da Folha de S. Paulo e na Rede Globo.

Passagens:

“V.O. MANO:
Meu pai sempre disse pra curtir a infância porque eu nunca mais ia ser feliz. Ele sempre dizia: passa rápido, filho. Rápido? Demorou séculos até eu conseguir minha liberdade. Finalmente chegou.”

“O olhar do Professor passa por Carol. Ela olha para Artur hipnotizada.
CAROL (V.O.)
Homem de 30 é o auge da humanidade. Ele sabe a diferença entre a mulher fachada e a mulher de verdade, mas não estão caídos como os pais de quarenta.”

“CAROL (V.O.)
O Artur era uma gota de inteligência no oceano de imbecilidade dessa escola. O Deco acha que o Artur volta. Será? Esse Deco é um mistério. Ele já ficou com todas as meninas num raio de 50 km ao redor da escola. A língua dele devia ser doada para a ciência, escaneou o DNA de toda uma geração. Será que um cara assim serve pra namorar?”

“DIRETORA DA ESCOLA
Eu estou trazendo novamente o tema porque praticamente todos os alunos do 1º e 2º ano assinaram um documento pedindo a volta do professor Artur. Foi escrito pelo seu filho, Camila (Camila fica atenta) Vou ler: Nós, alunos abaixo-assinados queremos a volta do professor Artur. Porque a aula dele não tinha lista de chamada e era a aula mais cheia da escola. E por que a nossa colega admitiu publicamente e diz isso na frente dos pais, se for preciso, que foi ela que deu um beijo nele. Botar o Artur para fora é uma violência que os pais e a escola estão fazendo com um professor que a gente admira e confia. Assinam 238 alunos. Quem é a favor da recontratação em caráter temporário do professor, levanta a mão, por favor.”

“PEDRO
Eu me sinto uma bomba relógio ambulante. Parece que vou explodir a qualquer momento. Resolvi apertar o botão.
MANO
Velho, que Mané-bomba o caralho. Você é a pessoa mais importante na minha vida. Esse violão aqui eu toco por sua causa. Aquela sua namorada não é o que você pensa. Ninguém é. Fugir é coisa de bunda-mole. Eu sei que meu irmão não é um bunda-mole.”

“V.O. DE CAROL
Mano tocando na escola ficou em segundo lugar na minha lista das melhores coisas do mundo. Não dá para acreditar, mas a bomba de chocolate da padaria, há 26 semanas liderando a lista das dez melhores coisas do mundo continua na primeira posição. Acho que só quando eu gostar de alguém de verdade, a bomba de chocolate vai perder o primeiro lugar.
Mano acaba de ler e olha para Carol. Ela faz uma cara de fazer o quê, agora você sabe. Os dois ficam se olhando.
MANO
Como a gente faz pra saber que tá gostando de alguém de verdade.
Eles se aproximam e os dois conversam olhando nos olhos. Muito perto.
CAROL
Ainda não sei...”

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O filho eterno

Tezza, Cristovão. O filho eterno. Editora Record; Rio de Janeiro / RJ; 2007; 224 páginas.

Dados da obra:

No livro, um misto de romance, biografia, ensaio pessoal e memórias, Tezza expõe, com coragem, as dificuldades e o aprendizado em se criar um filho com síndrome de Down. Ele narra desde o momento do nascimento do filho Felipe, o choque e o despontamento com a descoberta da síndrome, o desconforto, a dificuldade em aceitar, passando pelo aprendizado e as pequenas vitórias, até constatar a importância do menino em sua vida. Em meio a isso, ele rememora sua trajetória, tentando reordenar sua vida.

Breve relato do autor:

Cristovão Tezza é romancista e professor universitário. Nascido em Lages, Santa Catarina, ele mudou-se para Curitiba (PR) aos oito anos, sendo esta cidade palco de boa parte de sua literatura. O livro O Filho Eterno ganhou inúmeros prêmios, sendo, inclusive, eleito como o livro da década pela Revista Bravo!

Passagens:

“Um filho é a ideia de um filho: uma mulher é a ideia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com a ideia que fazemos delas; às vezes não. Quase sempre não, mas aí o tempo já passou, e então nos ocupamos de coisas novas, que se encaixam em outra família de ideias. Ele não quis nem mesmo saber se será um filho ou uma filha: a mancha pesada da ecografia, aquele fantasma primitivo que se projetava numa telinha escura, movendo-se na escuridão e no calor, não se traduziu em sexo, apenas em ser. Preferimos não saber, foi o que disseram ao médico. Tudo está bem, parece, é o que importa.”

“... A criança estaria no berçário, uma espécie de gaiola asséptica, que o fez lembrar do Admirável Mundo Novo: todos aqueles bebês um ao lado do outro, atrás de uma proteção de vidro, etiquetados e cadastrados para a entrada no mundo, todos idênticos, enfaixados na mesma roupa verde, todos mais ou menos feios, todos amassados, sustos respirantes, todos imóveis, de uma fragilidade absurda, todos tabula rasa, cada um deles apenas um breve potencial, agora para sempre condenados ao Brasil, e à língua portuguesa, que lhes emprestaria as palavras com as quais, algum dia, eles tentariam dizer quem eram, afinal, e para que estavam aqui, se é que uma pergunta pode fazer sentido.”

“... ‘Ele poderá ter filhos?’ – o que pareceu engraçado, como outro cartum. Assim, em um átimo de segundo, em meio à maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária, apreendeu a intensidade da expressão ‘para sempre’ – a ideia de que algumas coisas são de fato irremediáveis, e o sentimento absoluto, mas óbvio, de que o tempo não tem retorno, algo que ele sempre se recusava a aceitar...”

“... O que ele quer resolver agora não é o problema da criança, mas o espaço que ela ocupa na sua vida. E esses contatos medonhos do dia a dia: explicar. Já viu na enciclopédia que o nome da síndrome se deve a John Langdon Haydon Down (1828 – 1896), médico inglês. À maneira da melhor ciência do império britânico, descreveu pela primeira vez a síndrome frisando a semelhança da vítima com a expressão facial dos mongóis, lá nos confins da Ásia; daí ‘mongoloides’. Que tipo de mentalidade define uma síndrome pela semelhança com os traços de uma etnia? O homem britânico como medida de todas as coisas. O príncipe Charles, aquela figura apolínea, será o padrão da normalidade racial, e ele começa a rir no escuro, acendendo outro cigarro. E como essa denominação durou mais de um século, como algo normal e aceitável?”
“Mas ele formula uma reação; ou pelo menos verbaliza aquilo que, de fato, tentou guiar sua vida até ali: eu não estou condenado a nada – eu me recuso a me condenar a alguma coisa, qualquer que seja. Sempre consegui tomar outra direção, quando preciso. Era um outro tipo de bravata, ele sabia – mas é preciso começar de alguma parte. Por onde? Por aqui mesmo, aqui, agora, hoje, eu e meu filho deficiente mental para todos os tempos.”
“Num raro sábado livre, passeando por Frankfurt, entra numa livraria – milhares, milhões de livros, todos escritos em alemão. Avançando pelos corredores, reconhece e alimenta-se de alguns nomes conhecidos: John Steinbeck, Heinrich Bӧll, Scott Fitzgerald, Sartre, Dickens, Cortázar, Thomas Mann, uma família caótica. Diante daquele mundo que aqui ele não pode ler, estetiza a cena lembrando da frase de Borges, uma figura esguia nas sombras, já quase um decalque de Andy Warhol, criador e vítima da própria obra, as mãos em primeiro plano pousadas sobre a benal: ‘Suprema ironia. Deus me deu todos os livros do mundo e a escuridão’.”
“Vai pondo na gaveta as cartas de recusa das editoras e engolindo em seco as derrotas dos concursos literários, mas nada disso o incomoda de fato. É como se uma ponte dele negasse o confronto desigual – melhor baixar a cabeça discreto, e tentar uma outra esquina do labirinto. O mundo é muito mais forte, impressionante e poderoso do que ele. À medida da província entranha-se na sua alma. Talvez fosse o momento de reler Nietzsche, começar de novo, mas ele não tem mais tempo. Ouve pela primeira vez rodar a engrenagem poderosa do tempo, e um discurso pó de ferrugem já transparece nos objetos que toca. Finalmente, o tempo começa a passar.”
“’Saia daí!’, a voz, violenta, dura, é a última represa do gesto, que virá, contra aquele que olha para ele sem reconhecê-lo, e que é incapaz de verbalizar; ele é incapaz. Mas aferra-se à direção, olhos vazios nos olhos cheios do pai, que enfim explode – como se a mão de seu próprio pai estivesse ali de novo reatando o fio da violência que precisaria se cumprir por alguma ordem divina, a ordem do pai. Ele bate no filho, uma, duas, três, quatro vezes, e até que enfim o filho larga a direção, e, indócil no colo do pai que se afasta dali com a rapidez de quem quer escapar da cena do crime, olha para aquele rosto, que continua sem sentido. O filho não chora. Depois que seu filho deixou de ser bebê, o pai jamais o viu chorar novamente. Sua face no máximo demonstra um espanto irritado diante de algo incompreensível, um sentimento difuso que rapidamente se dilui em troca de algum outro interesse imediato diante dele; como se cada instante da vida suprimisse o instante anterior.”
“Parece que o pai havia entrado em um outro limbo do tempo, em que o tempo, passando, está sempre no mesmo lugar. Uma estabilidade tranquila, uma das pequenas utopias que todos com um pouco de sorte vivem em algum momento de suas vidas. O poder maravilhoso da rotina, ele pensa, irônico. Transforma tudo na mesma coisa, e é exatamente isso que queremos. Mas há uma razão: o seu filho não envelhece. E além da cabeça, que é sempre a mesma, pelos meandros insondáveis da genética ele crescerá pouco, vítima de uma nanismo discreto. Peter Pan, viverá cada dia exatamente como o anterior – e como o próximo. Incapaz de entrar no mundo da abstração do tempo, a ideia de passado e de futuro jamais se ramifica em sua cabeça alegre; ele vive toda manhã, sem saber, o sonho do eterno retorno.”
“Passa alguns anos – ele se culpa, ainda no Templo das Sete Confissões – mais preocupado consigo mesmo do que com os filhos, todo aquele tempo de escrita e reescrita de livros que não existem, que não se publicam, que, publicados, não são lidos, e que enfim não vendem nada, numa inexistência poderosa e asfixiante. Os livros são diferentes uns dos outros, mas ele parece não aprender nada com a experiência, movendo-se em círculos, ele mesmo uma expressão ampliada do seu filho, envolto sempre no próprio labirinto. É um projeto artístico, ou um projeto terapêutico? – ele se pergunta às vezes, caneta à mão, diante da página em branco.”
“Cores à parte, passou a gostar de tudo que era pessimista, carregado e trágico: Munch e principalmente Ensor, aquelas caveiras se fundindo em pesadelos reais e cotidianos. De onde tirava aquilo, ele que passou a vida rindo? Todos os anos sonha em voltar à pintura para brincar de cópias, mas jamais fará isso de novo até o fim de sua vida. Nunca vale voltar ao passado, dizia-lhe o amigo ator da infância. Quando a volta acontece, a carência é tão grande que somos sufocados por tudo que nos falta para imobilizar o tempo e a vida. Acabou-se o que era doce: Fim – ele lê na tela imaginária. Não insista.”

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Talvez uma história de amor

Page, Martin. Talvez uma história de amor. Rocco; Rio de Janeiro / RJ; 2009; 160 páginas.

Dados da obra:
A história gira em torno de Virgile, um anti-herói distraído, contraditório e solitário, que um dia chega em casa do trabalho e ouve em sua secretária eletrônica um recado de alguém, uma mulher, Clara, terminando o relacionamento com ele. O problema é que Virgile não tem a menor ideia de quem seja ela. A princípio deprimido e esquivo, Virgile decide dar uma reviravolta em sua vida e tenta encontrar Clara para saber o que aconteceu.
Breve relato do autor:

Martin Page é um escritor francês, autor do romance best-seller Como me tornei estúpido, que ganhou o euroregional, prêmio literário concedido a estudantes belga, holandês e alemão.

Passagens:

“Sim, Paris era cara, estressante, cada vez menos popular, o trânsito era difícil, e o ar, poluído. Mas continuava a ser a cidade com a maior quantidade de salas de cinema e de farmácias do mundo. Além disso, Virgile gostava das constantes manifestações de estudantes, de desempregados, de assalariados, de aposentados, das pessoas sem documentos. Em sua opinião, não havia melhor maneira de conhecer a cidade do que misturar-se a essa multidão alegre e combativa. As passeatas coloridas e desordenadas deixavam-no orgulhoso de sua cidade. Desfrutava delas com belas irrupções florais em pleno asfalto que bloqueavam a passagem dos carros, interrompiam a vida normal de quarteirões inteiros e faziam os policiais sair de seus furgões. Cidade de resmungões e de manifestantes, ninho de grandes sublevações. Paris nunca era mais real e mais bela do que quando resistia.”

“... Virgile não admitiria isso para ninguém, mas gostava de ir ao McDonald´s. Não era um local agradável ou bonito, mas sentia-se me casa ali. Se Hemingway desembarcasse em Paris nos dias de hoje, já não teria recursos para frequentar os cafés como fazia na década de 1920. O único canto onde poderia se instalar para beber um café e escrever seria o McDonald´s. Em nenhum outro lugar uma pessoa pode se refugiar no calor durante horas por uma quantia módica. Os pobres, os estudantes e o pessoal da periferia sabiam muito bem disso: podem-se checar e-mails, estudar para uma prova ou para as aulas, escrever; os moradores de rua leem os jornais de distribuição gratuita e fingem beber alguma coisa de um copo que pegaram de uma bandeja...”

“...Virgile estava diante de uma mulher nitidamente inimaginável. A imaginação não brota ex nihilo; ela precisa de uma matéria para transformar. E Virgile não tinha nenhum sinal à sua disposição, a mínima partícula ou pigmento de que pudesse se servir para compor uma pintura de Clara. Certamente, poderia fazer dela um retrato perfeito; ela seria tudo aquilo que ele desejava encontrar em uma mulher. Mais ele estava bem precavido quanto aos riscos desse tipo de concepção. Espontaneamente, quando imaginamos o nosso parceiro ideal, desenhamos a nós mesmos, sem as lacunas ou as fragilidades e com o sexo que mais nos convenha.”

“Aceitar a proposta de Svengali evitaria que Virgile entrasse em um conflito, seu mundo preservaria a sua honestidade, e sua vida a sua ataraxia. O ser humano obedece para não morrer. É o teorema da criança bem comportada: se você se comportar bem, terá boas notas, uma profissão, uma casa, uma mulher, e nem você nem nenhuma das pessoas que você ama morrerão. Acabamos descobrindo, no fim, que se trata de uma bobagem, mas não funciona por muito tempo.”

“... a lasanha era resultado de uma conspiração internacional. As massas  foram inventadas na China; os tomates vêm da América; as cebolas, da África ocidental; o alho, do Egito (os operários que construíram Gizé consumiam enormes quantidades disso). Virgile agradeceu interiormente a Quentin ter assumido a condução da conversa e tê-la dirigido naquela forma agradável. Sentia-se abrigado e agasalhado.”

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tive uma ideia!

Martinez, Monica. Tive uma ideia! O que é criatividade e como desenvolvê-la. Paulinas; São Paulo / SP 2010; 80 páginas.

Dados da obra:

Resultado de uma década de pesquisas, a obra procura explicar o conceito de criatividade baseando-se em dados evolutivos da raça humana, além de apresentar algumas técnicas para o leitor exercitar seu lado criativo. A publicação expõe a crescente importância da criatividade como requisito cada vez mais valorizado na vida e no mercado de trabalho.

Breve relato da autora:

Monica Martinez é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da USP e pós-doutora pela Universidade Metodista de São Paulo.

Passagens:

“Como espécie, é bom deixar claro, os seres humanos teriam tudo para dar errado, uma vez que não têm muitos dos atributos de outros colegas do reino animal. É o caso da mandíbula fraca, quando comparada à dos grandes felinos. Ou da prole, que fica muito tempo ao pé dos pais – um passarinho está pronto para decolar voo em poucos meses.”

“... alguns especialistas acreditam que talvez não foram os mais fortes que sobreviveram, como sugere o naturalista inglês Charles Darwin, mas os mais criativos. Ou, como Darwin dizia, os mais adaptados ao seu ambiente. Enfim, quem teve êxito em passar seus genes para a frente foram aqueles que conseguiram converter os revezes em vitórias ou, como diz o dito popular, transformar o limão em uma gostosa limonada.”

“Csikszentmihalyi é conhecido por ter proposto a teoria do flow, em português ´fluxo´, um estado de concentração e completa absorção em que a maioria das pessoas está imersa naturalmente quando mergulhada num processo criativo. Essa imersão caracteriza-se, segundo o pesquisador, por uma sensação de liberdade, completude e confiança na habilidade, aliada à ausência de noção temporal na qual a pessoa se esquece da passagem do tempo e até de algumas necessidades básicas, como, por exemplo, se alimentar. Algo muito parecido com o que experimentam as crianças totalmente envolvidas em um brinquedo, que precisam ser repetidamente chamadas pelos pais a se banharem para o jantar. Essa experiência resulta na sensação de se estar vivendo mais plenamente do que no restante da vida.”

“Finalmente, o terceiro e último exemplo de cientista criativo é o físico alemão Albert Einstein (1879-1955), famoso por ter formulado a teoria da relatividade. Em seu livro Como vejo o mundo (Editoria Nova Fronteira), ele diz: ‘O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica’. Outra de suas frases é a seguinte: ‘Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada’.”

“Essa reflexão sobre o que mudar e em que nível é salutar para começar a limpar o terreno para as mudanças reais que precisam ser implementadas. No fundo, trata-se do clássico mecanismo de luta e fuga: enfrentar o que é necessário, alterar o que for possível e ter serenidade e sabedoria a fim de permitir o curso do que não pode ser alterado.”

“Como é o nascimento de uma nova ideia? Há muitos equívocos relacionados à criatividade, mas talvez o principal deles seja o de que se trata de geração espontânea, algo que cai do céu como um raio ou surge como um estalo. É claro que isso pode ocorrer, mas os estudos sugerem que mais do que a chegada a um lugar brilhante em si, a criatividade é um processo.”

“Um grande mito associado à criatividade é o de que prazos curtos e pressão ajudam no nascimento de ideias. A hipótese foi negada pela psicóloga estadunidense Teresa Amabile, da Havard Business School (EUA). Ela avaliou 12 mil trabalhos sobre o tema e concluiu que, apesar do que muita gente acredita, a pressa é inimiga da criatividade. Ao contrário. A incubação é parte importante do processo e, para que as ideias amadureçam, é preciso tempo. Correr contra o relógio só funciona para pessoas altamente concentradas, que não perdem tempo com distrações.”

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Água para elefantes

Gruen, Sara. Água para elefantes. Sextante; Rio de Janeiro / RJ; 2011; 272 páginas.

Dados da obra:

Jacob Jankowski é um senhor que vive numa casa de repouso. Por 70 anos ele guardou um segredo: quando jovem trabalhou num circo. Ainda estudante de veterinária, Jacob perdeu os pais num acidente de carro. Transtornado e sem dinheiro, ele larga a faculdade nos exames finais e entra em um trem em movimento - o Esquadrão Voador do circo Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra. Ali ele é contratado para cuidar dos animais, mas sofrerá nas mãos de August, o chefe do setor dos animais, e marido de Marlena, a estrela do circo, por quem se apaixonará. Ele ainda se encanta com Rosie, a elefanta aparentemente estúpida que deveria ser a salvação do circo. Uma história envolvente, que fala de velhice, circo, animais e amor.

Breve relato da autora:

Sara Gruen é uma escritora nascida no Canadá e com dupla-nacionalidade, canadense e estadunidense. Seus livros tratam principalmente de animais e ela é uma incentivadora de numerosas organizações de caridade que apóiam os animais e a vida destes em seu habitat natural (Wikipedia).

Passagens:

“Tenho 90 anos. Ou 93. Uma coisa ou outra.
Quando temos cinco anos, sabemos até os meses de nossa idade. Mesmo por volta dos 20 sabemos quantos anos temos. Tenho 23, dizemos, ou talvez 27. Mas quando chegamos aos 30, algo estranho começa a acontecer. A princípio, é um mero sobressalto, um instante de hesitação. Quantos anos você tem? Ah, eu tenho – você começa confiante, mas depois para. Ia dizer 33, mas não é essa a sua idade. Você está com 35 anos. E isso o incomoda, pois você fica imaginando se não é o início do fim. Claro que é, mas ainda faltam décadas para você admitir isso.”

“Sei que alguns de nós já não têm dentes, mas eu tenho, e quero carne assada. A da minha esposa, completa, com louro e gordura. Quero cenoura. Quero batata cozinha com casca. E quero um Cabernet sauvignon encorpado para fazer tudo isso descer, e não um suco de maçã em lata. Mas, sobretudo, quero milho na espiga.
Às vezes acho que se eu tivesse de escolher entre uma espiga de milho e fazer amor com uma mulher, escolheria o milho. Não que eu não fosse gostar de curtir uma última trepada – ainda sou homem e algumas coisas nunca morrem –, mas só de pensar naqueles grãos doces estourando entre os dentes fico com água na boca. É uma fantasia, eu sei. Nenhuma das duas coisas vai acontecer. Mas gosto de pesar minha opções, como se eu estivesse diante de Salomão: uma última trepada ou uma espiga de milho. Que dilema maravilhoso. Às vezes substituo o milho por uma maçã.”

“Lembro-me de sair da minha casa pela última vez, enrolado como um gato a caminho do veterinário. Enquanto o carro se afastava, meus olhos ficaram tão cheios de lágrimas que não pude olhar para trás.
Não é um asilo, disseram. É uma moradia com assistência – uma assistência progressiva, é isso. Você só recebe ajuda se precisar, e então, quando ficar mais velho...
Eles sempre interrompiam a frase nesse ponto, como se isso pudesse me impedir de concluir o raciocínio lógico.”

“Minhas banalidades não lhes interessam, e dificilmente eu poderia culpá-los por isso. Minhas histórias reais estão defasadas. E daí que eu posso falar em primeira mão da gripe espanhola, do advento do automóvel, das guerras mundiais, das guerras frias, das guerras de guerrilha e do Sputnik? Agora, tudo isso é história antiga. Mas o que mais eu tenho a oferecer? Nada de novo me acontece. Essa é a realidade do envelhecimento, e acho que essa é a questão essencial. Ainda não estou preparado para ser velho.”

“Abro a jaula do orangotango-fêmea e deposito uma vasilha com frutas, verduras e nozes no chão. Ao fechá-la, o braço comprido do bicho passa pelas barras da jaula. E ele aponta para um laranja em outra vasilha.
– Essa? É essa que você quer?
Ela continua a apontar, piscando para mim seus olhos muito próximos um do outro. As feições são côncavas, a cara parece um prato grande com uma franja avermelhada, É a coisa mais terrível e mais bela que já vi.
– Tome – digo, entregando-lhe a laranja. – É sua.
Ela a pega e a põe no chão. Em seguida coloca o braço para fora de novo. Depois de alguns segundos de muito receio, estendo a mão. O orangotango-fêmea envolve a minha mão com seus dedos compridos e depois a solta. Então se senta nas ancas e descasca a laranja.
Olho assombrado. Ela estava me agradecendo.”

“Meu pai achava que era seu dever continuar cuidando dos animais mesmo muito depois de deixar de ser pago por isso. Ele não podia ficar parado diante de um cavalo com cólicas ou de um bezerro nascendo na posição errada, mesmo que isso significasse um enorme prejuízo pessoal. A comparação é inevitável. Não há dúvida de que sou a única proteção desses animais contra a prática empresarial de August e do Tio Al, e o que meu pai faria – o que meu pai gostaria que eu fizesse – seria cuidar deles e essa é a minha convicção absoluta e inabalável. Não importa o que eu tenha feito na noite passada, não posso abandoná-los. Sou o pastor, o protetor deles. E é mais que um dever. É um compromisso com meu pai.”

“A girafa é medrosa e bela e, provavelmente, a criatura mais estranha que já vi. As pernas e o pescoço são delicados, o corpo é inclinado e coberto com pintas que parecem pequenas peças de quebra-cabeça. No topo de sua cabeça triangular, acima das grandes orelhas, veem-se estranhas protuberâncias peludas. Os olhos são enormes e escuros, e ela tem os lábios macios e aveludados de um cavalo. Seguro-me em seu cabresto, mas a girafa permanece quieta durante quase todo o tempo enquanto limpo suas narinas e envolvo seu pescoço com uma flanela. Quando termino, desço a escada.”

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Fonchito e a Lua

Llosa, Mario Vargas. Fonchito e a Lua. Editora Objetiva; Rio de Janeiro / RJ; 2011; 32 páginas.

Dados da obra:

Primeiro livro infantil de Vargas Llosa, Fonchito e a Lua narra a história do menino que morria de vontade de dar um beijinho no rosto de Nereida, sua amiga da escola. Ela, no entanto, só aceitará se Fonchito puder lhe trazer a lua. O menino, então, tenta encontrar uma forma de atender ao pedido de Nereida.

Breve relato do autor:

Mario Vargas Llosa é um escritor, jornalista, ensaista e político peruano, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2010. Ele alcançou notoriedade literária com a publicação do romance A Cidade e os Cães (1961). Mudou para Paris nos anos de 1960, e lecionou em diversas universidades americanas e europeias, ao longo dos anos.

Passagens:

“Nereida, um pouquinho vermelha, olhou para ele muito séria antes de responder:
– Eu deixo se você trouxer a Lua para mim.
Fonchito ficou triste e desanimado.
Será que essa resposta significava que Nereida nunca ia deixar que ele lhe desse um beijinho?
Mas a partir desse dia começou a fazer uma coisa que nunca fazia antes, ficava um tempão, na varanda ou no terraço de sua casa, contemplando a Lua, deslumbrado. Quer dizer, quando a Lua aparecia, coisa que raramente acontece na cidade de Lima, cujo céu costuma ficar nublado durante meses a fio.”