quarta-feira, 4 de abril de 2012

Na Praia

McEvan, Ian. Na Praia. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2007; 128 páginas.
 
Breve relato do autor:

Ian McEwan nasceu em 1948, em Aldershot, Inglaterra. Publicou duas coletâneas de contos e uma dezena de romances. Conquistou entre outros prêmios, o Whitbread Award, em 1987, e o Booker Prize, 1998.

Dados da obra:
 
Em 1962, na Inglaterra Edward e Florence, se casam virgens e vão passar a lua de mel na praia de Chesil, perto do Canal da Mancha. No hotel, as coisas não acontecem como planejado em razão da educação dos jovens na época, marcada pela repressão moral vitoriana, suscitando assim um grande desencontro entre ambos.

Passagens:

... Em teoria, podiam abandonar seus pratos, agarrar a garrafa de vinho pelo gargalo, correr até a praia, livrar-se dos sapatos e exultar de tanta liberdade. Ninguém no hotel haveria de impedi-los. Afinal, eram adultos em férias, livres para fazer o que bem entendessem. Em poucos anos, seria o tipo de coisa que todo jovem faria. Mas, por enquanto, a época os retinha. Mesmo quando Eduard e Florence estavam a sós, mil regras não ditas continuavam a se impor. Era precisamente por serem adultos que não se entregavam a infantilidades como abandonar no meio uma refeição que outros se deram ao trabalho de preparar. Era hora do jantar, apesar de tudo. E ser infantil ainda não era louvável nem tinha entrado na moda.

Apesar da sensação prazerosa e do alívio, continuava apreensiva, um muro alto, não muito fácil de demolir. Nem ela queria que fosse. A despeito da novidade, não se achava num estado de entrega arrebatada, nem pretendia se apressar nessa direção. Queria demorar-se nesse momento largo, sob a completa proteção das roupas, o olhar castanho e sereno, as carícias afetuosas e o frêmito em expansão. Mas sabia que isso era impossível e que, como todos diziam, uma coisa teria de levar a outra.

Ela não estava segura, mas sabia qual o caminho que tomava. “Você está sempre me forçando, me forçando, querendo tirar alguma coisa de mim. Nunca podemos apenas ser. Nunca podemos apenas ser felizes. Tem sempre essa pressão. Você sempre quer alguma coisa a mais de mim. Essa engambelação interminável.”

quarta-feira, 21 de março de 2012

Dois Irmãos

Hatoum, Milton. Dois Irmãos. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2000; 266 páginas.

Breve relato do autor:

De origem libanesa, Milton Hatoum é um escritor, tradutor e professor, considerado um dos grandes escritores vivos do Brasil.

Dados da obra:

A trama gira em torno da tumultuada relação entre dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, em uma família de origem libanesa que vive em Manaus. A narrativa apresenta avanços e recuos no tempo, sem uma cronologia linear. Os problemas vão sendo revelados aos poucos.

Passagens:

Os gazais de Abbas na boca de Halim! Parecia um sufi em êxtase quando me recitava cada par de versos rimados. Contemplava a folhagem verde e umedecida, e falava com força, a voz vindo de dentro, pronunciando cada sílaba daquela poesia, celebrando um instante do passado. Eu não compreendia os versos quando ele falava em árabe, mas ainda assim me emocionava: os sons eram fortes e as palavras vibravam com a entonação da voz. Eu gostava de ouvir as histórias. Hoje, a voz me chega aos ouvidos como sons da memória ardente. Às vezes ele se distraía e falava em árabe. Eu sorria, fazendo-lhe um gesto de incompreensão: “É bonito, mas não sei o que o senhor está dizendo”. Ele dava um tapinha na testa, murmurava: “É a velhice, a gente não escolhe a língua na velhice. Mas tu podes aprender umas palavrinhas.”

“... Parecia uma menina de boas maneiras e bom humor: nem melancólica, nem apresentada. Durante um tempinho ela nos deu um trabalho danado, mas Zana gostou dela. As duas rezavam juntas as orações que uma aprendeu em Biblos e a outra no orfanato das freiras, aqui em Manaus.” Halim sorriu ao comentar a aproximação da esposa com a índia. “O que a religião é capaz de fazer”, ele disse. “Pode aproximar os opostos, o céu e a terra, a empregada e a patroa.”

Nunca comemos tão bem. Peixes os mais variados, de sabor incomum, cobriam a mesa: costela de tambaqui na brasa, tucunaré frito, pescada amarela recheada de farofa. O pacu, o matrinxã, o curimatã, as postas volumosas e tenras do surubim. Até caldeirada de piranhas, a caju avermelhada e a preta, com molho de pimenta, fumegava sobre a mesa. E também pirão, e sopa com sobras de peixe, farinha feita das espinhas e cabeças, bolinhos e pirarucu com salsa e cebola.

“Nada nesse mundo pode acalmar um homem traído”, disse Zana.
“O Yaqub pode se arrepender”, disse Rânia. “Não vai perseguir ninguém.”
A mãe olhou-a com tristeza e disse com uma voz rouca, mas firme:
“Tu nunca conviveste com um homem, muito menos com um filho.”
Rânia silenciou.

Naquela época, tentei em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. “Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras”, disse Halim durante uma conversa, quando usou muito o lenço para enxugar o suor do calor e da raiva ao ver a esposa enredada ao filho caçula.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A bolsa amarela

Bojunga, Lygia. A bolsa amarela. Casa Lygia Bojunga; Rio de Janeiro / RJ; 2004; 135 páginas.

Breve relato do autor:

Lygia Bojunga é uma escritora gaúcha, autora de livros infantis. Trabalhou na TV e no rádio até seu primeiro livro ser publicado, em 1972. Um elemento importante de seus livros é o uso do ponto de vista da criança.

Dados da obra:

 A Bolsa Amarela é o romance de uma menina, Raquel, que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde em uma bolsa amarela): a vontade de ser gente grande, a de ter nascido menino e a de se tornar escritora. À medida que a narrativa avança, Raquel vai amadurecendo e definindo suas escolhas.

Passagens:

 Meu irmão fez cara de gozação:
– E por que é que você inventou um amigo em vez de uma amiga?
– Porque eu acho muito melhor ser homem do que mulher.
Ele me olhou bem sério. De repente riu:
– No duro?
– É, sim. Vocês podem um monte de coisas que a gente não pode. Olha: lá na escola, quando a gente tem que escolher um chefe pras brincadeiras, ele sempre é um garoto. Que nem chefe de família: é sempre o homem também. Se eu quero jogar uma pelada, que é o tipo do jogo que eu gosto, todo mundo faz pouco de mim e diz que é coisa pra homem; se eu quero soltar pipa, dizem logo a mesma coisa. É só a gente bobear que fica burra: todo mundo tá sempre dizendo que vocês é que têm que meter as caras no estudo, que vocês é que vão ser chefe de família, que vocês é que vão ter responsabilidade, que – puxa vida! – vocês é que vão ter tudo. Até pra resolver casamento – então eu não vejo? – a gente fica esperando vocês decidirem. A gente tá sempre esperando vocês resolverem as coisas pra gente. Você quer saber de uma coisa? Eu acho fogo ter nascido menina.

A bolsa por fora:
Era amarela. Achei isso genial: pra mim, amarelo é a cor mais bonita que existe. Mas não era um amarelo sempre igual; às vezes era forte, mas depois ficava fraco; não sei se porque ele já tinha desbotado um pouco, ou porque já nasceu assim mesmo, resolvendo que ser sempre igual é muito chato.

“Não quero mandar sozinho! Quero um galinheiro com mais galos! Quero as galinhas mandando junto com os galos!”
– Que legal!
– Legal coisa nenhuma; me levaram preso.
– Mas por quê?
– Pra eu aprender a não ser um galo diferente. Me botaram num quartinho escuro. Tão escuro que quando eu saí de lá tava todo preto. Só depois é que a cor foi voltando. Fiquei preso um tempão; sofri à beça. Aí, um dia, eles me soltaram. E foram logo dizendo: “Daqui pra frente você vai ser um tomador-de-conta-de-galinha como o seu pai era, como o seu avô era, como o seu bisavô era, como o seu tataravô era – senão volta pra prisão.”

– Às vezes a gente quer muito uma coisa e então acha que vai querer a vida toda. Mas aí o tempo passa. E o tempo é o tipo do sujeito que adora mudar tudo. Um dia ele muda você e pronto: você enjoa de ser pequena e vai querer crescer.
– Será?
– É bem capaz.

Mas eu fiquei parada, querendo entender melhor a gente daquela casa. Apontei o homem:
– Ele é teu pai?
– É. – E aí ela apresentou os três: – Meu pai, minha mãe e meu avô.
Eles me deram um sorriso legal e eu cochichei pra menina:
– Por que é que ele tá cozinhando?
Ela me olhou espantada:
– O quê?
Perguntei ainda mais baixo:
– Por que é que ele tá cozinhando e tua mãe tá soldando panela?
– Porque ela hoje já cozinhou bastante e ele já consertou uma porção de coisas: e eu também já estudei um bocado e meu avô soldou muita panela: tava na hora de trocar tudo.
– Por quê?
– Pra ninguém achar que tá fazendo uma coisa demais. E pra ninguém achar também que está fazendo uma coisa menos legal do que o outro.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ribamar

Castello, José. Ribamar. Bertrand Brasil; Rio de Janeiro / RJ; 2010; 280 páginas.

Dados da obra:

Misto de biografia, narrativa de viagem e romance, Ribamar alterna histórias reais com outras inventadas. Trata-se do relato de viagem do autor a Parnaíba (PI), cidade onde seu pai, José Ribamar, viveu. Tem por base a Carta ao Pai, de Franz Kafka, na qual Castello a utiliza para pensar na sua relação com seu próprio pai. O livro ganhou o Prêmio Jabuti 2011 na categoria Melhor Romance.

Breve relato do autor:

José Castello é mestre em Comunicação pela UFRJ, editor do caderno “Ideias” do Jornal do Brasil, cronista e repórter literário de O Estado de S. Paulo.

Passagens:

“Passo a acreditar, então, no diagnóstico que você me deu. Ele se torna uma pedra guardada em meu peito. No colégio, peço ajuda ao professor de biologia, um padre. Nervos são fios sensíveis que se desenrolam no interior do corpo – como um novelo que deus esqueceu dentro de nós. Através deles, escorrem impulsos que se deslocam para cá e para lá. Quando se movem muito rápido, provocam agitação. Quando desaceleram, trazem a angústia. Não há saída.”

“Tenho os olhos vazios. Um sopro ergue minha íris. Sou, como se diz, um Sampaku, alguém incapaz de ter uma reação adequada ao perigo e que, por isso, traz os olhos deslocados pelo pavor.
Também Franz Kafka se esquivou da luta contra Hermann, preferindo a mudez. Embora nervosos, seus olhos continuaram fixos, depositados bem no centro das órbitas. Talvez porque em seus escritos ele não parasse de gritar.
Minha íris não toca a parte inferior dos olhos. Ao contrário, ela se ergue – como se batesse asas, lutando para escapar das pálpebras. Diz-se que os Sampakus habitam um espaço cinzento entre a vida e a morte. Sempre me senti um pouco separado da existência.
Em situações de risco, congelo; nessas horas, meus olhos se erguem na esperança de não ver.”

“Você me falou, um dia, da falsa origem da família. Em Lisboa, um jovem comerciante desposa uma Castelo Branco. Após as núpcias, o casal emigra para o Brasil. Na costa do Ceará, um naufrágio. A mulher morre, ele sobrevive. Para homenageá-la, o marido, um Queiroz, adota o sobrenome da esposa. Dele – como uma nave que se prende a um fio imaginário – descende toda a família no Brasil.
‘Investigue isso melhor’, meu tio sugere. Não farei isso: não quero correr o risco de perder a lenda que você me deu. Prefiro conservá-la, mesmo à custa da verdade. A verdade esfaqueia. A ficção enrijece.
Como um verdadeiro Castelo Branco (pois o verdadeiro Castelo Branco, a julgar pela lenda, é falso), fico com a ficção.”

“Vejo escrito em um muro: ‘Todo neurótico é um container’. Estou com 12 anos, busco um frase que me defina. No lugar mais improvável, eu a encontro.
Há um sentido duplo no verbo conter. De um lado, significa guardar, incluir. De outro, represar, frear o ímpeto, impedir. Aquilo que guardo é o que me refreia. O que incluo (o que sou) é o que me impede de ser.
Volto ao ‘container’. Trata-se de um recipiente, em geral de grandes dimensões, destinado ao acondicionamento e transporte de cargas, me diz um dicionário. Guarda (esconde) aquilo que pesa e que, por isso, não pode estar em outro lugar. Também eu carrego minhas pedras.”

“Anos depois, encontro meu tio, por acaso, em um café. Vou para a faculdade, sou eu quem, dessa vez, levo comigo um livro.
‘É um romance ingênuo que eu, por vergonha, escondo. O que um tio rebelde pensará de mim? Enquanto ele lê para avançar e se fortalecer, eu leio para voltar atrás e para fugir. Livros, de fato, podem tudo.
Insiste tanto que eu o mostro. Abre um sorriso, aceita minha aflição. ‘Não é o autor que escreve um livro, mas o leitor.’
Com uma frase simples, deposita sobre meus ombros um destino. Quando saio do café, já sou outro.”

Agora que você não pode mais protestar, agora que está retido em seu último silêncio, nada me ameaça. Posso tudo: e é contra isso – contra esse tudo – que devo lutar para conseguir escrever. Um escritor que pode tudo nada tem a dizer.
Filho vingativo (terá o professor Jobi razão?), manipulo o que você me diz, moldo as palavras segundo meus interesses, falsifico. Não é só o pai que faz o filho. O filho, de modo mais traiçoeiro, constrói (destrói) o pai.
Não, pai, não escrevo para me desforrar. Escrevo para chegar mais perto de você. Nossos atos, porém, nos ultrapassam. Quero fazer uma coisa e faço outra. Diabos.”

“O escritor é um viajante que, contando apenas com uma precária bússola, chega a um destino que nunca planejou. Todo escritor é um náufrago. Um Robinson.
Nem por isso seu destino se torna menos verdadeiro; ao contrário, o inesperado o avaliza. A esse porto inexistente chamamos, enfim, de literatura.”

“Já não me interesso pelo Dicionário poético de meu bisavô, Manuel Thomaz. Chave inútil, não abre porta alguma. Em vez de abrir, ela multiplica as trancas.
Só agora me dou conta: esqueci minha Carta ao pai – o mesmo livro que, um dia, lhe dei – em uma gaveta do hotel. Eu o deixei em Parnaíba, pai. Quem será o próximo a ler?”

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Belas Maldições

Gaiman, Neil; Pratchett, Terry. Belas maldições: as belas e precisas profecias de Agnes Nutter, bruxa. Bertrand Brasil; Rio de Janeiro / RJ; 2010; 376 páginas.

Dados da obra:

Nesta divertida obra, os autores falam sobre o Apocalipse. Segundo as profecias, o mundo vai acabar em um sábado, antes do jantar. Um anjo e uma serpente tentam evitar, já que gostam de viver na Terra, mas a chegada do Anti-Cristo, na pele de um menino de 11 anos, parece apressar o fim.

Breve relato do autor:

Neil Gaiman é um escritor inglês de romances e quadrinhos, autor da conhecida série em HQ Sandman.
Terry Pratchett é também um escritor inglês, mais conhecido pelos livros da série Discworld.

Passagens:

“Crowley deu um soco no volante. Tudo estava indo tão bem, ele realmente tivera tudo sob controle nestes últimos séculos. É assim que acontece, você acha que está no topo do mundo, e de repente jogam o Armagedon em cima de você. A Grande Guerra, a Última Batalha. Céu versus Inferno, uma Queda, sem rendição. E estamos conversados. Nada mais de mundo. Era isso o que o fim do mundo queria dizer. Nada mais de mundo. Só o Céu eterno ou, dependendo de quem ganhasse, o Inferno eterno. Crowley não sabia qual era pior.
Bom, o Inferno era pior, claro, por definição. Mas Crowley se lembrava de com era o Céu, e ele tinha algumas coisas em comum com o Inferno. Pra começar, não se conseguia uma bebida decente em nenhum dos dois. E o tédio que se sentia no Céu era quase tão ruim quanto a animação que se tinha no Inferno.
Mas havia como escapar disso. Não era possível ser um demônio e ter livre-arbítrio.”

“Crowley sempre soubera que estaria por perto quando o mundo acabasse, porque era imortal e não teria outra alternativa. Mas esperava que ainda demorasse muito.
Porque ele gostava das pessoas. Era um grande defeito num demônio.
Ah, ele dera o melhor de si para infernizar as vidas deles, porque esse era o seu trabalho, mas nada que ele pudesse pensar era metade do que eles pensavam por conta própria. Pareciam ter um talento para isso. Estava embutido no projeto de criação deles de algum modo. Nasceram num mundo que era contra eles em um milhão de coisinhas, e então dedicavam a maior parte de suas energias a torná-lo pior. Ao longo dos anos, Crowley achara cada vez mais difícil encontrar algo de demoníaco a fazer que se destacasse contra o pano de fundo natural da maldade generalizada. No decorrer do último milênio, houve momentos em que sentiu vontade de enviar uma mensagem lá para Baixo dizendo: escutem, que tal a gente desistir de tudo agora, fechar Dis e o Pandemônio e todo o resto e nos mudarmos para cá? Não há nada que possamos fazer a eles que eles já não façam por conta própria, e eles fazem coisas que nós sequer pensamos, frequentemente envolvendo eletrodos. Eles têm o que não temos. Eles têm imaginação. E eletricidade, é claro.
Um deles havia escrito isso, não havia? ‘O inferno é vazio, e todos os demônios estão aqui.’”

“E havia Outro. Eles estava na praça em Kumbolalândia. E estava nos restaurantes. E estava no peixe, e no ar, e nos barris de herbicida. Estava nas estradas, e nas casas, e nos palácios, e em galpões.
Não havia lugar onde fosse estranho, e não havia como escapar dele. Ele estava fazendo o que fazia melhor, e o que estava fazendo era o que ele era.
Ele não estava esperando. Estava trabalhando.”

“– Sabe, o mal sempre contém as sementes de sua própria destruição – disse o anjo. – Em última instância, ele é negativo, e portanto abrange sua queda mesmo em seus momentos de aparente triunfo. Não importa o quão grandioso, o quão bem-planejado, o quão aparentemente à prova de falhas um plano maligno possa ser, a condição pecaminosa inerente irá, por definição, se voltar contra seus instigadores. Não importa o quanto aparentemente bem-sucedido ele possa parecer ao longo do caminho, ao fim ele se quebrará. Afundará sobre as rochas da iniquidade e afundará de cabeça para desaparecer sem um vestígio nos mares do esquecimento.”

“– É difícil descrever. Alguma coisa ou alguém ama este lugar. Ama cada centímetro dele de forma tão poderosa que o escuda e protege. Um amor profundo, imenso, forte. Como alguma coisa ruim pode começar aqui? Como pode o fim do mundo começar num lugar com este? Este é o tipo de cidade onde você gostaria de criar seus filhos. É o paraíso das crianças. – Ela sorriu cansada. – Você devia ver os meninos daqui. Eles não existem! Saíram direto dos livros infantis” Todos com os joelhinhos ralados, todos umas gracinhas e...”

“Às vezes os seres humanos são muito parecidos com abelhas. Abelhas protegem ferozmente sua colmeia, desde que você esteja fora dela, uma vez lá dentro, as operárias passam a supor que você deve ter sido liberado pela administração e nem ligam para você; vários insetos de carga evoluíram para uma existência melíflua devido a este fato. Humanos agem da mesma forma.”

“Não sei o que tem de tão fantástico em criar pessoas como pessoas e então ficar chateado porque elas se comportam feito pessoas – disse Adam severo. – De qualquer forma, se vocês parassem de falar pras pessoas que tudo vai ser definido depois que elas morrerem, elas poderiam tentar definir tudo enquanto estivessem vivas. Se eu mandasse, tentaria fazer as pessoas viverem bem mais, que nem o velho Matusalém. Seria muito mais interessante e eles poderiam começar a pensar no tipo de coisas que estão fazendo com todo o ambiente e a ecologia, porque eles ainda estariam por aqui cem anos depois.”

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

As intermitências da morte

Saramago, José. As intermitências da morte. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2005; 208 páginas.

Dados da obra:

“No dia seguinte ninguém morreu”. A frase inicial é o ponto de partida para ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou falta dele, da nossa existência. Com sarcasmo e ironia, Saramago faz reflexões existenciais e duras críticas à sociedade moderna, ao relatar as reações da Igreja, do governo, do clero, dos repórteres, dos filósofos, dos economistas, das funerárias, casas de pensão, hospitais, seguradoras, das famílias com doentes terminais em casa, e da máphia, entre outros, quando a morte resolve entrar em greve.

Breve relato do autor:

José Saramago foi um escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 e o Prêmio Camões.

Passagens:

“Boas noites, eminência, Telefono-lhe para lhe dizer que me sinto profundamente chocado, Também eu, eminência, a situação é muito grave, a mais grave de quantas o país teve de viver até hoje, Não se trata disso, De que se trata então, eminência, É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, Eminência, perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja,...”

“Eis o que o espírito que pairava sobre a água do aquário perguntou ao aprendiz de filósofo, Já pensaste se a morte será a mesma para todos os seres vivos, sejam eles animais, incluindo o ser humano, ou vegetais, incluindo a erva rasteira que se pisa e a sequoiadendron giganteum com os seus cem metros de altura, será a mesma a morte que mata um homem que sabe que vai morrer, e um cavalo que nunca o saberá. E tornou a perguntar, Em que momento morreu o bicho-da-seda depois de se ter fechado no casulo e posto a tranca à porta, como foi possível ter nascido a vida de uma da morte da outra, a vida da borboleta da morte da lagarta, e serem o mesmo diferentemente, ou não morreu o bicho-da-seda porque está vivo na borboleta. O aprendiz de filósofo respondeu, O bicho-da-seda não morreu, a borboleta é que morrerá, depois de desovar,...”

“Antes, no tempo em que se morria, nas poucas vezes que me encontrei diante de pessoas que havim falecido, nunca imaginei que a morte delas fosse a mesma de que eu um dia viria a morrer. Porque cada um de vós tem a sua própria morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela pertence-te, tu pertences-lhe, E os animais, e os vegetais, Suponho que com eles se passará o mesmo, Cada qual com a sua morte, Assim é, Então as mortes são muitas, tantas como os seres vivos que existiram, existem e existirão,...”

 “Segundo a opinião autorizada de um gramático consultado pelo jornal, a morte, simplesmente, não dominava nem sequer os primeiros rudimentos da arte de escrever. Logo a caligrafia, disse ele, é estranhamentoe irregular, parece que se reuniram ali todos os modos conhecidos, possíveis e aberrantes de traçar as letras do alfabeto latino, como se cada uma delas tivesse sido escrita por uma pessoa diferente, mas isso ainda se perdoaria, ainda poderia ser tomado como defeito menor à vista da sintaxe caótica, da ausência de pontos finais, do não uso de parêntesis absolutamente necessário, da eliminação obsessiva dos parágrafos, da virgulação aos saltinhos e, pecado sem perdão, da intencional e quase diabólica abolição da letra maiúscula, que, imagine-se, chega a ser omitida na própria assinatura da carta e substituída pela minúscula correspondente. Uma vergonha, uma provocação, continuava o gramático...”

“A solução será enviá-la outra vez, disse a morte à gadanha que estava ao lado, encostada à parede branca. Não se espera que uma gadanha responda, e esta não fugiu à norma. A morte prosseguiu, Se te tivesse mandado a ti, com esse teu gosto pelos métodos expeditivos, a questão já estaria resolvida, mas os tempos mudaram muito ultimamente, há que actualizar os meios e os sistemas, pôr-se a par das novas tecnologias, por exemplo, utilizar o correio electrónico, tenho ouvido dizer que é o o que há de mais higiénico, que não deixa cair borrões nem mancha os dedos, além disso é rápido, no mesmo instante em que a pessoa abre o outlook express da microsoft já está filada, o inconveniente seria obrigar-me a trabalhar com dois arquivos separados, o daqueles que utilizam computador e o dos que não o utilizam, de qualquer maneira temos muito tempo para decidir, estão sempre a aparecer novos modelos, novos designs, tecnologias cada vez mais aperfeiçoadas, talvez um dia me resolva a experimentar, até lá continuarei a escrever com caneta, papel e tinta, tem o charme da tradição, e a tradição pesa muito nisto de morrer.”

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Bonequinha de Luxo

Capote, Truman. Bonequinha de Luxo. L± Porto Alegre / RS; 1988; 158 páginas.

Dados da obra:

Holly Golightly é uma jovem que vivia em uma fazenda, casou aos 14 anos e um ano depois fugiu de casa para tentar a vida como atriz em Hollywood. Instalada em Nova York, em busca de um casamento com um milionário, torna-se garota de programa, mas com bastante estilo e personalidade. Em meio a sua vida agitada, ela conhece um escritor que mora no andar de cima do prédio, construindo com ele uma singela amizade que se estende até o final da história, cheia de reviravoltas.
Breve relato do autor:

Truman Capote foi um escritor norte-americano e pioneiro do jornalismo literário com a obra A Sangue Frio.

Passagens        

“Sempre sou atraído pelos lugares onde já morei, pelas casas e suas vizinhanças. Por exemplo, há um prédio com a fachada de arenito do lado leste das ruas Setenta onde, durante os primeiros anos da guerra, tive meu primeiro apartamento em Nova York. Era apenas um quarto atulhado de móveis velhos, desses que se guardam no sótão, um sofá e umas poltronas gordas estufadas com aquele tipo de veludo vermelho e comichento que lembra dias quentes em um trem. As paredes eram de estuque, com a cor exata de tabaco mascado. Por todo lado, até no banheiro, havia gravuras de ruínas romanas esmaecidas pelo tempo. A única janela dava para a saída de incêndio. Mesmo assim, eu ficava satisfeito cada vez que sentia a chave do apartamento no meu bolso: com toda a sua melancolia, ainda assim era um lugar só meu, o primeiro que eu tinha, meus livros estavam ali e potes cheios de lápis sem ponta, tudo o que eu achava que precisaria para me tornar o escritor que pretendia ser.”

“Mas se a Srta. Golightly continuava inconsciente de minha existência, exceto pela conveniência de atender a campanhia, com o passar do verão fui me tornando progressivamente uma autoridade sobre a vida dela. Descobri, observando a cesta de lixo junto a sua porta, que sua leitura regular era constituída de tablóides, folhetos de viagem e horóscopos; que ela fumava um cigarro misterioso chamado Picayunes. Que sobrevivia comendo queijo e torradas fininhas; que seu cabelo multicolorido era um tanto artificial. A mesma fonte revelou que ela recebia montes de cartas de soldados. Elas estavam sempre rasgadas em tirinhas, como marcadores de livros. Me acostumei a de quando em quando pegar um marcador para mim quando passava. Lembro e saudade e chuva e por favor escreva e raios e maldita eram as palavras que ocorriam com mais frequência nessas tirinhas; essas, e solitário e amor.

“Ela sentou-se numa das poltronas vacilantes de veludo vermelho, dobrou as pernas por baixo do corpo e relanceou os olhos pelo quarto, contraindo-os de maneira ainda mais pronunciada:
– Como você pode aguentar isso? É uma câmara de horrores!
– Ora, a gente se acostuma com tudo – disse eu, aborrecido comigo mesmo, já que de fato tinha orgulho do lugar.
– Pois eu não. Nunca me acostumo com nada. Quem se acostuma com tudo é como se já estivesse meio morto – seus olhos desaprovadores percorreram o quarto de novo.”

“– Pobre nojentinho sem nome. É um pouco inconveniente não ter nome. Mas eu não tenho o direito de lhe dar um: terá de esperar até que pertença a alguém. Nós só nos juntamos um dia à margem do rio, não nos pertencemos: ele é independente e eu também sou. Não quero possuir coisa alguma até saiba que encrontei o lugar onde eu e as coisas pertencemos. Ainda não tenho certeza de onde fica esse lugar. Mas sei como ele é.”
 “– Já tentei. Já tentei aspirina também. Rusty acha que eu devia fumar maconha e já tentei umas vezes, mas só me deixa com vontade de rir. O que eu descobri que me deixa melhor é entrar num táxi e ir até o Tiffany´s. Me acalma na hora, a tranqüilidade, o ar de orgulho que a loja tem: nada de muito ruim pode acontecer pra gente ali, não com esses homens gentis de terno e aquele cheiro lindo de prata e carteiras de couro de crocodilo. Se pudesse encontrar um lugar na vida real que me fizesse sentir do mesmo jeito que me sinto no Tiffany´s, então compraria alguns móveis e daria um nome ao gato. Pensei que talvez depois da guerra, Fred e eu...”

“– Nunca se apaixone por um bicho-do-mato, Sr. Bell – aconselhou-o Holly. – Foi esse o erro de Doc. Ele sempre trazia bichos-do-mato para casa. Trouxe um gavião de asa partida. Uma vez chegou a trazer um gato-do-mato adulto com a pata quebrada. Mas não se pode dar o coração a um bicho-do-mato. Quanto mais amor se dá, mais fortes eles ficam. Até que estão suficientemente fortes para voltar para o mato. Ou para voar até uma árvore. Depois uma árvore mais alta. E então o céu. É assim que a gente acaba, sr. Bell. Se a gente cai na asneira de se apaixonar por um bicho-do-mato. A gente acaba olhando para o céu.”