terça-feira, 16 de abril de 2013

Morte súbita

Rowling, J. K. Morte súbita. Nova Fronteira. Rio de Janeiro / RJ; 2012; 501 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
J. K. Rowling é uma escritora britânica de ficção, autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter, e de três outros pequenos livros relacionados a Harry Potter. Muitos autores influenciaram sua obra.
 
Dados da obra:
 
O livro conta a história de Pagford e seus habitantes, que, após a morte inesperada de Barry Fairbrother, membro da Câmara do vilarejo, fica em choque.
 
Passagens:
 
Na sua opinião, o maior erro de noventa e nove por cento das pessoas é ter vergonha de serem quem são, é mentir a esse respeito, fingindo ser alguém diferente. A honestidade era a sua marca, a sua arma, a sua defesa. Quando somos honestos, as pessoas se assustam, ficam chocadas. Bola descobriu que tem gente que fica aferrada a constrangimentos e falsas aparências, morrendo de medo que as suas verdades possam se espalhar. Ele, porém, gostava mesmo era das coisas nuas e cruas, de tudo que fosse feio, mas honesto, das coisas sujas que faziam pessoas como o seu pai se sentirem humilhadas e enojadas. Pensava muito sobre messias e párias, sobre homens que eram taxados de loucos ou criminosos, nobres marginais rejeitados pelas massas inertes.
 
... Lembrava-se de ter dito a uma menina bem gorducha, lá no serviço de orientação educacional, que a aparência não tinha a menor importância, pois o que contava mesmo era a personalidade. Quanta besteira a gente diz para as crianças, pensou ela, virando a página da revista.

... Tinha despejado nos ouvidos de Barry verdades e segredos que jamais confiara  a nenhum outro amigo, e aqueles olhinhos castanhos, brilhantes como os de um rouxinol, nunca deixaram de olhá-lo de um jeito amável e caloroso. Barry foi o melhor amigo que Colin teve na vida. Com ele, vivenciou um tipo de camaradagem masculina que jamais havia encontrado antes de vir morar em Pagford e que, tinha certeza, nunca mais voltaria a encontrar. O fato de alguém como ele, que se sentia um esquisitão meio excluído, para quem a vida era uma luta diária, ter conseguido ficar amigo daquele eterno otimista, tão animado e popular, sempre lhe parecera um pequeno milagre...

... Gaia tinha um jeito de andar que mexia com ele tanto quanto música, a coisa que o tocara mais que tudo no mundo. Com toda a certeza, o espírito que animava aquele corpo incomparável só podia ser também algo fora do comum. Por que a natureza faria um frasco como aquele se não fosse para lhe dar um conteúdo ainda mais precioso?

Sukhvinder escutava fascinada, mas sem admitir que já tinha visto Marco na página do Facebook da sua nova amiga. Não havia nenhum garoto como ele em toda a Winterdown: ele se parecia com Johnny Depp.

Podia ter ficado em casa, ao lado de Vikram, que estava assistindo a uma comédia na televisão com Jaswant e Rajpal quando ela saiu. O som da risada deles a abalou. Quando foi que ela tinha rido pela última vez? Por que estava ali, bebendo um vinho horroroso, lutando por uma clínica de que nunca ia precisar e pela moradia de pessoas de quem provavelmente não gostaria, se as conhecesse?

No Smithy, a alguns quilômetros do centro de Pagford, Gavin Hughes se ensaboava sob a ducha quente perguntando-se por que jamais tivera a coragem de outros homens, e como eles conseguiam fazer a escolha certa entre alternativas quase infinitas. No fundo desejava uma vida que havia vislumbrado, mas jamais experimentara. No entanto, essa mesma vida desejada o assustava. Escolher é algo perigoso: quando escolhemos, temos que abrir mão de todas as outras possibilidades.

Não conseguiu se impedir de acrescentar essa mentira. Hoje, pela primeira vez, teve certeza de que era mentira, e também de que tudo o que ela havia feito na vida, dizendo a si mesma que era o melhor caminho a tomar, não passou de um egoísmo cego, que só provocou transtornos e confusão à sua volta. Mas quem pode suportar que algumas estrelas já morreram, pensou ela, piscando os olhos para o céu; quem pode suportar saber que todas elas morreram?

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A biblioteca mágica de Bibbi Bokken

Gaarder, Jostein e Hagerup, Klaus. A biblioteca mágica de Bibbi Bokken. Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2003; 179 páginas.

Breve relato dos autores:

Jostein Gaarder é um escritor filho de um casal de professores e intelectual norueguês. É autor de romances filosóficos, contos, e histórias. Autor do conhecido “O Mundo de Sofia”.
Klaus Hagerup é poeta, diretor teatral e autor de livros premiados na Noruega. É filho de Inger Hagerup, que foi uma autora, dramaturga e poeta norueguesa.

Dados da obra:

O livro conta a história de dois primos, Berit e Nils, que depois de passar as férias juntos, decidem comprar um livro de cartas para se comunicar, onde escrevem o que sentem e fazem. Com isso, uma misteriosa mulher obcecada por livros começa a segui-los querendo o livro de cartas, e eles percebem que estão correndo perigo. Os primos começam a investigar bastante, e acabam descobrindo uma biblioteca mágica, e muitas outras coisas.

Passagens:

Um autor chamado Tor Åge Bringsvoerd escreveu um poema curtinho que é muito bom:
Quem mantém os dois pés no chão
não sai do lugar.
Acho que isso diz muito sobre escrever e também sobre ler. Quando leio um livro de que gosto, parece que o que estou lendo faz meus pensamentos saírem voando do livro. De certa forma, o livro não é feito apenas pelas palavras ou pelas figuras que estão no papel, mas também por tudo o que invento quando leio.

olha
a gota
que estava ali.
O que você me diz, Nils? Por via das dúvidas, segue uma interpretação totalmente pessoal.
Você já deve ter visto uma gota caindo de uma calha ou algo assim. E ela está ali, não é? Mas antes que você possa terminar de dizer que ela está ali, ela já não está mais. É assim com tudo, na minha opinião e na de Jan Erik Vold, pois tudo se transforma o tempo inteiro. Acho que esse poema fala sobre o mundo todo. E ele tem apenas seis palavras.

No mais, estive há pouco na biblioteca (Fjærland finalmente ganhou uma pequena biblioteca no andar térreo do Centro de Terceira Idade). Bem, eu entrei e dei uma olhada nas estantes. Primeiro tive uma sensação horrível ao ver que há tantos livros que ainda não li. Mas então passou o pânico inicial e fiquei com uma sensação boa de pensar que existem muitos livros emocionantes esperando que eu os leia.

... O autor era um tal de Simen Skjønsberg, e o título era O prazer assombroso – textos sobre os segredos da leitura. Ela pediu que Nils lesse em voz alta o texto da orelha do livro. Ela pigarreou duas vezes e finalmente leu:
Passeio pelas estantes das bibliotecas. Os livros me dão as costas. Não para me rejeitar, como as pessoas: são convidativos, querendo apresentar-se a mim. Metros e mais metros de livros que nunca poderei ler. E sei: o que aqui se oferece é a vida, são complementos à minha própria vida que esperam ser postos em uso. Mas os dias passam rápido e deixam para trás as possibilidades. Um único desses livros talvez bastasse para mudar completamente a minha vida. Quem sou eu agora? Quem eu seria então?

– ... Eu sou bibliógrafa. Isso quer dizer que sou mais ou menos uma especialista em livros e bibliotecas. E é disso que eu vivo. Presto serviços aqui na Noruega e em muitos outros países, portanto viajo muito. Justamente por isso, a minha biblioteca precisa estar muito bem protegida. Às vezes vou para Roma... e outras vezes é Mário quem vem para a Noruega. Mas eu também me sinto muito bem na minha própria companhia – e na de todos os meus livros. Alguém disse uma vez: “Um bom livro é o melhor amigo”. Outra pessoa expressou isso de forma semelhante: “Quem escolhe bem os seus livros estará sempre na melhor das companhias. Neles nos encontramos com os caracteres mais ricos de espírito, mais sábios e mais nobres, que constituem o orgulho e a glória da humanidade”.

– Acho que você tem olhos na nuca.
Ela deu um sorriso muito expressivo.
– Quem lê muitos livros acaba criando olhos em lugares estranhos.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O bom inverno

Tordo, João. O bom inverno. Língua Geral. Rio de Janeiro/RJ; 2012; 426 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
João Tordo é um jornalista e escritor português, influenciado pela escrita de autores como Edgar Allan Poe, Herman Melville ou Dostoiévski, e pela literatura policial e de mistério, construindo narrativas dentro de narrativas e absorvendo o leitor por meio da imersão emocional nas suas histórias.
 
Dados da obra:
 
A trama gira em torno de um escritor prematuramente frustrado e hipocondríaco, que viaja até Budapeste para um encontro literário. Coxo, portador de uma bengala, e planejando uma viagem rápida, ele acaba por conhecer Vincenzo Gentile, um escritor italiano mais jovem, mais enérgico, que o convence a ir da Hungria até Itália, onde um famoso produtor de cinema tem uma casa de província no meio de um bosque e onde passa a temporada de verão à qual chama de o Bom Inverno. Ali acontece um crime, ou melhor crimes, cuja narrativa lembra os romances policiais de Agatha Christie.
 
Passagens:
 
Nina apagou o cigarro no pires do café. “Tinha negócios privados em Portugal. Na quinta onde eu cresci, no meio do Alentejo”. Disse a palavra em português. “O lugar mais bonito que possa imaginar. Mas a herança mais importante que ele me deixou não foi essa”.
“Então?”
“Foi o amor aos livros. Era muito nova quando ele morreu e, nessa altura, ainda não me apaixonara pelas palavras. Hoje lembro-me muitas vezes da enorme biblioteca do meu avô. Julgo que nunca o vi sem um livro na mão.”
 
“É só um negativo”, disse Nina. “Não representa nada mais do que isso.”
“Não é completamente verdade”, argumentei. “Estou em crer que a ciência julgou, durante muito tempo, que poderia salvar não apenas o corpo, mas também a alma. E que a alma estava guardada algures dentro de nós, uma coisa qualquer que nunca ninguém tinha visto, uma luz ou um sopro, uma substância esquiva. Depois, a ciência avança e a primeira representação que nos oferece do interior do homem – onde, supostamente, reside essa tal alma eterna parece uma coisa saída de um filme de terror. É sinceramente, de se perder a esperança.”
 
Nina pensou durante uns momentos.
“Se estiver a dizer disparates, corrige-me. Mas cada vez mais acredito que só vale a pena ler um romance – neste caso, um bom romance – quando temos uma pergunta para qual não sabemos a resposta. Ou, mesmo que tenhamos encontrado a resposta, se precisarmos de confirmação.”
Fiquei intrigado. Pedi-lhe nova explicação.
“Pensa bem: o mesmo se aplica a escrever livros, ou não? Não será o escritor, verdadeiramente, o único interessado naquilo que escreve? Quero dizer, porquê andar a inventar histórias a torto-e-a-direito, a menos que essas histórias sejam a solução, temporária ou absoluta, para um enigma qualquer?”
 
 “E o que é que faz um escritor?”
Franzi o sobrolho.
“Escreve?”
“Porquê?”
“Porque tem uma pergunta na cabeça para a qual não sabe a resposta.”
“Portanto, tenta dar-lhe resposta, ordenando o mundo com suas palavras.”
“Ou desordenando-o ainda mais.”
“Pode fracassar.”
“Precisamente.”
“Embora só ele conheça o significado desse fracasso.”
 
“Os teus balões?”
“Arte perecível. Arte que não pode ser colocada num museu e que não pode ser restaurada. Arte que demora tanto tempo a projetar e a construir e tão pouco tempo a desfrutar. Arte, por assim dizer, marcada pela finitude.”
 
“... Acorrentado pelos desejos. Ou se fores crente, pelos seus pecados. Na religião há pecados veniais e pecados mortais; no meu bosque há balões pequenos e balões grandes. Sempre que um deles desaparece de vista – sempre que um deles voa tão alto que se transforma numa miragem, numa sombra de qualquer coisa que nunca chegou a ser... São como estrelas distantes cuja luz é uma falsa indicação de vida. Sempre que um deles desaparece na direção do mar, há alguma coisa em mim – e também no Don – que desaparece com eles. Um peso, ou um desejo, ou uma ilusão. Uma dor, se quiseres.”
 
Elsa olhou para os pés descalços que balançavam da beira da cama.
“Escuta”, pediu, num tom doce. “Tens de compreender que não é possível saber tudo. Existem certos momentos que, se não os vivermos, são impossíveis de resgatar através dos outros.”
 
“a vida de nada valia por ser um ensaio de si própria, um ensaio para uma peça que estava a acontecer ao mesmo tempo que era ensaiada.” – Milan Kundera.
 
“... É um erro comum, aliás; como é que se costuma dizer por aí? Que o amor liberta? Que a verdade liberta? E o trabalho também liberta o homem? Os filhos-da-puta dos fachos quiseram convencer toda a gente e escreveram-no à entrada de Auchwitz, Arbeit macht hei, e a verdade é que os judeus trabalharam e depois continuaram presos, presos, presos. E, a seguir a isso, mortos”. Bosco inspirou fundo e depois expirou. “Desengana-te: o amor não é senão peso. É a coisa que com mais força nos prende a este mundo. Significa que estamos agarrados às coisas com unhas e dentes; que nos recusamos a deixá-las para trás numa aflição patética. Porque é que te parece que enterramos os mortos? Porque eles carregam consigo o peso da vida: mesmo no leito de morte, o homem quer levar consigo as coisas que ama. É uma patologia que parece não ter fim: mesmo na morte, queremos arrastar conosco aos vivos. Queremos levar o mundo para a cova, arrastar tudo para o Inferno. Somos mortos que não querem morrer, entendes? Mortos que se recusam a aceitar o destino.”
“Que destino é esse?”
O catalão olhou na direção da porta que um vento repentino fez titubear.
“Sermos leveza ao invés de peso”, disse.
“Como os balões chineses. Insuflamos, expandimo-nos, subimos ao céu e, depois, desaparecemos para sempre. Não há dois balões iguais. Cada um só sobe uma vez, só faz uma viagem e, sendo assim, cada balão é único. O nosso propósito sempre foi esse sermos leveza. Somos únicos. Invadirmos gloriosamente os céus com a nossa chama. Não temeremos a morte”.

quarta-feira, 27 de março de 2013

O Aleph


Borges, Jorge Luis. O Aleph. Companhia das Letras. São Paulo/SP; 2008; 156 páginas.

Breve relato do autor:
 
Jorge Luis Borges foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.
 
Dados da obra:
 
O livro traz histórias curtas contendo, entre outros, o conto que dá nome ao livro. O escritor aborda vários pontos paradoxais como a imortalidade, a identidade, o duplo, a eternidade, o tempo, a soberba, a condição humana e suas crenças, com um alto grau de criatividade e escrita superior, com elevadíssimo grau cultural, submetendo o leitor a um intrincado labirinto de ideias e reflexões.
 
Passagens:
 
... Deixei o caminho ao arbítrio de meu cavalo. No alvorecer, o horizonte ficou enricado de pirâmides e torres. Sonhei, insuportavelmente, com um labirinto exíguo e nítido: no centro havia um cântaro; minhas mãos quase o tocavam, meus olhos o viam, mas tão intricadas e perplexas eram as curvas, que eu sabia que ia morrer antes de alcançá-lo.
 
... De início cautelosamente, depois com indiferença, enfim com desespero, errei por escadas e pavimentos do inextricável palácio. (Depois averiguei que eram inconstantes a extensão e a altura dos degraus, fato que me fez compreender o singular casaco que me deram.) “Este palácio é obra dos deuses”, pensei primeiro. Explorei os recintos desabitados e corrigi: “Os deuses que o construíram morreram”. Notei suas peculiares e disse: “Os deuses que o construíram estavam loucos”.
 
Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuir que nada é real...
 
... O ato de um só homem (afirmou) pesa mais que os nove céus concêntricos e imaginar que ele possa se perder e voltar é uma esplêndida frivolidade. O tempo não refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o pra a glória e também para o fogo...
 
... Um motivo notório me impede de relatar a luta. Basta lembrar que o desertor feriu de morte ou matou vários dos homens de Cruz. Este, enquanto combatia na escuridão, começou a compreender. Compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem deve acatar o que traz dentro de si. Compreendeu que as divisas e o uniforme o estorvavam. Compreendeu seu íntimo destino de lobo, não de cão gregário, compreendeu que o outro era ele. Amanhecia na planície desmensurada; Cruz jogou no chão o quepe, gritou que não ia consentir o crime de que matassem um valente e se pôs a lutar contra os soldados, junto do desertor Martin Fierro.
 
... Os fatos graves estão fora do tempo, seja porque neles o passado imediato fica truncado do futuro, seja porque as partes que os formam nãoparecem consecutivas.
 
... Modificar o passado não é modificar um fato só; é anular suas consequências, que tendem a ser infinitas...
 
... Morrer por uma religião é mais simples que vivê-la na plenitude; batalhar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um ato é menos que todas as horas de um home. A batalha e a glória são facilidades; mais árdua que a empreitada de Napoleão foi a de Raskolnikov...

... O Corão (disse) é um dos atributos de Deus, como Sua piedade; pode ser copiado num livro, pronunciado com a língua, recordado no coração, e o idioma e os signos e a escrita são obra dos homens, mas o Corão é irrevogável e eterno.
 
Unwin, cansado, interrompeu-o.
– Não multiplique os mistérios – disse-lhe. – Eles devem ser simples. Lembre-se da carta roubada de Poe, do quarto fechado de Zangwill.
– Ou complexos – replicou Dunraven. – Lembre-se do universo.
 
Dunraven, versado em obras policiais, pensou que a solução do mistério sempre é inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e até do divino; a solução, da prestidigitação...
 
... Naquela noite dormiu o rei, o valente, e ficou velando Said, o covarde. Dormir é distrair-se do universo, e a distração é difícil para quem sabe que o perseguem com espadas nuas...
 
... anos de solidão haviam lhe ensinado que os dias, na memória, tendem a ser iguais, mas que não há um só dia, nem sequer de prisão ou de hospital, que não traga surpresas...

quarta-feira, 13 de março de 2013

Reparação


McEwan, Ian. Reparação. Companhia das Letras. São Paulo/SP; 2002; 444 páginas.

Breve relato do autor:

Ian McEwan é um escritor britânico, chamado por vezes de “Ian Macabro”, devido à natureza das suas primeiras obras, e que de romance a romance se tem convertido em um dos mais conhecidos da sua geração.

Dados da obra:

Na tarde mais quente do verão de 1935, na Inglaterra, a adolescente Briony Tallis vê uma cena que vai atormentar a sua imaginação: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, tira a roupa e mergulha, apenas de calcinha e sutiã, na fonte do quintal da casa de campo. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a menina, que nutre a ambição de ser escritora, constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

Passagens:

Uma história era algo direto e simples, que não permitia que nada se intrometesse entre ela e seu leitor – nenhum intermediário incompetente e cheio de ambições próprias, nenhuma pressão do tempo, nenhuma limitação de recursos. Na história era só querer, era só escrever e ter um mundo inteiro, numa peça era necessário utilizar o que estava disponível: não havia cavalos, não havia ruas, não havia mar. Não havia cortina...”.

Não eram só o mal e as tramoias que tornavam as pessoas infelizes; era a confusão, eram os mal-entendidos; acima de tudo, era a incapacidade de apreender a verdade simples de que as outras pessoas são tão reais quanto nós. E somente numa história seria possível incluir essas três mentes diferentes e mostrar como elas tinham o mesmo valor. Essa era a única moral que uma história precisava ter.

A excitação que ele sentia assemelhava-se a dor e era exacerbada pela pressão das contradições: Cecília era familiar como uma irmã, exótica como uma amante; ele sempre a conhecera, ele não sabia nada sobre ela; ela era feia, ela era bela; era forte – com que facilidade se defendera do irmão – e, vinte minutos antes, havia chorado; a carta idiota de Robbie a repugnara, porém tivera o efeito de libertá-la. Ele lamentava seu erro, ele exultava por tê-lo cometido...

Os gêmeos não corriam perigo; Cecília estava com Leon, e ela, Briony, tinha liberdade de andar pelo parque escuro e pensar sobre o dia extraordinário que tivera. Sua infância chegara ao fim – decidiu enquanto voltava da piscina, no momento em que rasgou o cartaz. Havia deixado para trás os contos de fadas, e no intervalo de umas poucas horas havia testemunhado mistérios, lido uma palavra indizível, interrompido uma brutalidade e, tornando-se alvo do ódio de um homem em quem todos até então confiavam, passara a participar do drama da vida adulta...

Estavam se aproximando das últimas casas da vila. Num campo mais adiante, Turner viu um homem e seu collie caminhando atrás de um arado puxado por um cavalo. Tal como as mulheres na sapataria, o fazendeiro parecia não se dar conta da presença da coluna. Essas vidas eram vividas em paralelo – a guerra era um hobby para entusiastas, e nem por isso deixava de ser uma coisa séria. Tal como, no momento mais intenso de uma caçada, quando os cães se preparavam para lançar-se sobre a presa, do outro lado da sebe passa um automóvel no qual, no banco de trás, uma mulher faz tricô, e no jardim de uma casa nova um homem ensina o filho a chutar a bola. O fazendeiro continuaria a arar o campo, depois haveria alguém para fazer a colheita, alguém para processar o trigo no moinho, outras pessoas comeriam o pão, e nem todo mundo estaria morto...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A morte de Ivan Ilitch


Tolstói, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Editora 34. São Paulo/SP; 2006; 96 páginas.
 
Breve relato do autor:
  
Lev Tolstói foi um escritor russo, conhecido também por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e ideias contrastavam com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. Junto a Dostoiévski, Turgueniev, Gorki e Tchecov, Tolstói foi um dos grandes mestres da literatura russa do século XIX.

Dados da obra:
 
 É um romance publicado pela primeira vez em 1886. Trata-se sobre a morte do juiz Ivan Ilitch, sua vida antes e durante. Segundo Paulo Rónai, muitos críticos consideram-na como "a novela mais perfeita da literatura mundial; a agonia de um burocrata insignificante serve de pretexto ao autor para nos contar uma história que diz respeito ao destino de cada um de nós e que é impossível ler sem um frêmito de angústia e de purificação".
 
Passagens:
 
Piotr Ivânovitch sabia que, assim como antes fora necessário fazer o sinal da cruz, agora era preciso apertar aquela mão, suspirar e dizer: “Creia-me!”. E foi o que fez. E, depois de fazê-lo, sentiu que obtivera o efeito desejado: ambos ficaram comovidos.
  
Morria aos quarenta e cinco anos, juiz do Foro Criminal. Era filho de um funcionário, que fizera em Petersburgo, em diferentes ministérios e departamentos, aquele tipo de carreira que leva as pessoas a uma situação da qual elas, por mais evidente que seja a sua incapacidade para qualquer função de efetiva importância, não podem ser expulsas, em virtude dos muitos anos de serviço e dos postos alcançados, por este motivo, recebem cargos inventados, fictícios, e uns não fictícios milhares de rublos, de seis a dez, com que vivem até a idade provecta.
  
... Ivan Ilitch jamais abusou desta sua autoridade e, pelo contrário, procurava atenuar a sua manifestação; mas a consciência dessa autoridade e a possibilidade de atenuá-la constituíam para ele o interesse principal e a atração do seu novo encargo...
  
Na realidade, havia ali o mesmo que há em casa de todas as pessoas não muito ricas, mas que desejam parecê-lo e por isto apenas se parecem entre si: damascos, pau-preto, flores, tapetes e bronzes, matizes escuros e brilhantes; enfim, aquilo que todas as pessoas de determinado tipo fazem para se parecer com todas as pessoas de determinado tipo. E em casa dele, a semelhanças era tamanha que não se chegava mesmo a percebê-lo, mas tudo isso parecia-lhe algo peculiar...
  
“Eu não existirei mais, o que existirá então?
Não existirá nada. Onde estarei então, quando não existir mais? Será realmente a morte?
Não, não quero.”... “Para quê? Tanto faz – disse a si mesmo, perscrutando a treva, os olhos abertos. – A morte. Sim, a morte. E nenhum deles sabe nem quer saber, e nem lamenta isso. Ocupam-se de música. (Ouvia, atrás da porta, distantes, o retumbar de uma voz, acompanhado de ritornelos). Para eles, tanto faz, mas também eles hão de morrer. Bobalhões. Eu vou primeiro, eles depois, hão de passar pelo mesmo que eu. E, no entanto, estão alegres. Animais!”. Sufocava de raiva. Teve uma sensação penosa, torturante, intolerável. Não podia ser verdade que todos estivessem condenados para sempre a este medo terrível. Levantou-se.”
 
A partir de então, Ivan Ilitch chamava às vezes Guerássim, fazendo-o segurar os seus pés sobre os ombros, e gostava de conversar com ele. Guerássim fazia isto com leveza, de bom grado, com simplicidade e uma bondade que deixava Ivan Ilitch comovido. A saúde, a força, a vitalidade de todas as demais pessoas ofendiam Ivan Ilitch; somente a força e a vitalidade de Guerássim não o entristeciam, e sim acalmavam-no.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

eles eram muitos cavalos


Ruffato, Luiz. eles eram muitos cavalos. Boitempo Editorial. São Paulo/SP; 2001; 150 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Luiz Ruffato é um escritor brasileiro que ganhou os prêmios APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional com o romance eles eram muitos cavalos.
 
Dados da obra:
 
Primeiro romance do autor foi publicado em 2001. Toda a ação do livro se passa num só dia, 9 de maio de 2000. Por meio de fragmentos, flashes, poemas, receitas, bulas, listas, o autor faz um recorte aéreo da cidade de São Paulo. Cenas de amor, ódio, violência, paixão, fé, esperança, tristeza, enfim, todo o caos da cidade está presente no livro.
 
Passagens:
 
“Eles eram muitos cavalos,
mas ninguém mais sabe os seus nomes,
sua pelagem, sua origem...” – Cecília Meireles
 
A vizinhança espreguiça-se
                    uma discussão, logo abortada
                    uma porta que se fecha
                    um rádio ligado
                    cachorros que latem
                    a porta de aço descerrada da padaria
                    passos rápidos na calçada
                    um bebê que esgoela
                    uma sirene, longe “Polícia?”
          o ônibus encosta, os passageiros apressam-se, arranca
          e eu decidi que não quero mais essa vida pra mim não não quero.
 
...Toma o ônibus até a estação Saúde do metrô, baldeia na Sé para a estação República. Da escada-rolante emerge, o Edifício Itália funda-se nos seus ombros, a fumaça de carros e caminhões tachos de acarajés coxinhas quibes pastéis, vozes atropelam-se, amalgamam-se, aniquilam-se, em bancas revistas, jornais, livros usados, pulseiras brincos colares gargantilhas anéis, lã em gorros ponches blusas mantas xales, pontos de ônibus lotados, trombadinhas, engraxates, carrinhos de pipoca, doces caseiros, vagabundos, espalhados caídos arrastando-se bêbados mendigos meninos drogados aleijados.
 
 ...virou assim um dia, deu horário, a filha de onze anos não chegou da escola, o rosto esbaforido na cozinha, mãe!, a noite, a madrugada, a colcha o lençol engomado, dia seguinte também não, nem no outro, nada nada nada e humilhou-se delegacias de polícia hospitais febens pronto-socroros IMLs perambulou o trajeto casa-escola-escola-casa questionadeira porta em porta pista indícios intuições...
 
No minúsculo cômodo cheirando a doença expõem-se: sobre a mesinha de cabeceira um abajur de cúpula azul, o retrato de um bebê holocáustico, um copo americano vazio, cartelas de remédio; os brancos braços magros de um cristo de gesso contrastam com a verdescura parede úmida, um frágil guarda-roupa de compensado; um tapete de barbante espichado no chão de tacos banguela. E, sob rústicos lençóis de saco-de-estopa, abandonada, esqueleto estufando a pele cinzenta, rija, ela.
 
 Suspirosa, Idalina na pele cinza do rosto macilento o algodão desliza a base espalha o creme aviva o pó compacto o blush os olhos sombreia de azul batom vermelho delineador lápis rímel
Aos poucos a amiga, tão vaidosa, abduz dos doze anos a alegre menina que sonhava casar e ser médica “para ajudar os semelhantes.”
 
 ... Desci do norte de pau-de-arara. Se o senhor soubesse o que era aquilo... Um caminhão velho, lonado, umas tábuas atravessadas na carroceria, servindo de assento, a matula no bornal, rapadura e farinha, dias e dias de viagem, meu deus do céu! Mas posso reclamar não. São Paulo, uma mãe pra mim. Logo que cheguei arrumei serviço, fui trabalhar de faxineiro numa autopeças em Santo André. Depois fui subindo de vida, porque aqui antigamente era assim, quem gostasse de trabalhar tinha tudo, ao contrário de hoje, que até dá pena, não tem emprego pra ninguém...
 
A adolescente rente ao corredor
madorna desordenados fascículos de cursinho pré-vestibular derramam-se pelos braços vez em vez escorrega para os lados da velha que sobressaltada se desculpa
(ajeita-se ainda mais para o canto)
Tenta impossíveis olhos abertos acorda cedo meio expediente no balcão de uma agência de viagens o cursinho fim de tarde volta hora e meia de ônibus a mãe pergunta minha filha tanto sacrifício vale a pena?
E migalhas de seus sonhos esparramam-se sobre os ombros da velha.
 
 – Tarcísio... você lembra do assalto?, daquele assalto lá em casa? Pois então: um era esse, cara... Um era esse! E eu não vou salvar ele não, cara, não vou mesmo! Não vou mexer uma palha pra salvar ele... Ele quase fodeu minha vida, cara, quase fodeu... Eu não vou operar ele não, estão me ouvindo? Não vou operar ele não! Se vocês quiserem, chamem outro, me denunciem pro CRM, façam o que vocês quiserem, não estou nem aí, eu não estou nem aí, estão me entendendo?, nem aí!
E desapareceu por detrás do vidro da sala de cirurgia.
O silêncio encalavou-se no anestesista.
Os olhos da instrumentadora hipnotizados pelas horas na parede.
O residente monitora os impulsos do coração do paciente agora respiração convulsa.
 
... As poesias foram escritas não pra ficar sepultadas nas páginas dos livros, mas pra se tornarem parte da nossa memória coletiva... Eu avivo todo o meu conhecimento de moleque míope que ficava em casa lendo, enquanto a molecada ia pro campinho jogar futebol...
 
Instalei-me num quarto, você se lembra?
Sexta-feira à noite, Hotel Amazonas, Ave
nida Vieira de Carvalho, lá embaixo, barulho
um restaurante italiano,
outro, comida rápida árabe,
carros,
ônibus,
lá embaixo,
nas ruas transversais,
eu sabia das prostitutas,
           dos meninos fumando crack,
          dos assaltantezinhos pé-de-chinelo,
eu sabia da noite
e deitei, mas não era alívio que sentia,
nem remorso, era não sei o quê, saudade,
talvez,
ia sentir falta das crianças, pijamas amontoados correndo, suados, na sala minúscula do apartamento ridiculamente pequeno em que morávamos e que você vivia implicando, dizendo que tínhamos de sair dali,
          tínhamos de sair dali,
                    sair dali,...
 
Não gosta de recordações. Anda pelas ruas como em um labirinto. Em todas surpreende-se, é surpreendido. Que adiantam as lembranças? Tempos... Espaços... Nada... A memória não reconstrói o passado... reaviva dores... apenas... O que fizemos... O que não...
 
Quando conheceu o futuro marido, num cult9o dominical na Casa da Benção, não escondia qualquer ilusão, uma moça velha de felicidades lasseada. E assim foi, a festa de casamento, a desmudança – estranhou: o mesmo espaço de sempre não era o mesmo espaço de sempre, mas pouco ocupou disso suas horas, o engravidamento, para honra e glória do Senhor, atropelou-a e o vômito e as tonteiras e as pernas inchadas e a rabugice e a tristeza e a alegria varreram suas preocupações...