quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Ladrão de cadáveres

Melo, Patrícia. Ladrão de cadáveres. Editora Rocco. Rio de Janeiro / RJ; 2010; 205 páginas.

Breve relato do autor:
 
Patrícia Melo é roteirista, dramaturga e escritora, e em 1999 a Time Magazine a incluiu entre os 50 líderes latino-americanos do novo milênio. É autora de Acqua Toffana, O matador – vencedor do Prêmio Deux Océans e Deutsch Krimi, Elogio da mentira, Inferno – vencedor do Prêmio Jabuti, Valsa Negra, Mundo perdido e Jonas e o copromanta. Ladrão de Cadáveres é o seu oitavo romance.
 
Dados da obra:
 
Em Ladrão de cadáveres, o narrador-protagonista do romance é um ex-gerente de uma central de telemarketing, despedido depois de agredir uma funcionária que acabou cometendo suicídio. Deprimido, ele troca São Paulo por Corumbá a convite de um primo. A trama começa quando o protagonista testemunha a queda de um avião no rio Paraguai. Dentro da cabine, o piloto está morto. Ao lado do corpo, uma mochila com um pacote de cocaína. A partir daí, o que se vê é o despertar do pior lado de um ser humano, em uma história que mistura ganância, crime, sexo e mentiras.
 
Passagens:
 
A primeira coisa que me ocorreu naquele momento foi que a gente nunca entende como um cidadão responsável e trabalhador saca uma arma e mata um motorista numa briga de trânsito. É muito simples, na verdade. Acontece da mesma forma que eu estapeei minha funcionária. A arma está ali, no porta-luvas. De repente, um rapaz te fecha num cruzamento, você salta do carro e dá um tiro na testa dele. É simples assim.
 
Mais do que a imagem do cadáver abandonado no rio, o que me angustiava era pensar no que se passava no interior daquela casa. Temos certeza de que ele está bem, dissera a namorada na televisão. A mãe chorando. Disso eu entendia, câmbio. De mães que se acabam assim, podres de tanto chorar. Antes de aprender que as pessoas morrem, aprendi que elas desaparecem. Saem de casa e evaporam. Nos deixam atônitos, observando a cama vazia, que é quase um grito, uma porrada, pela manhã. Você sonha com elas todas as noites. Sonha que elas estão vivas, sonha que elas telefonam, sonha que elas voltam para casa. São sempre os mesmos sonhos, você acaba mesmo acreditando que elas estão vivas. E tem também as pesquisas, que dizem que setenta por cento dos desaparecidos voltam. Você pode até não acreditar mais em Deus, mas acredita nas pesquisas. Agarra-se àquelas porcentagens como se fossem uma oração. E aqueles números, mais aqueles sonhos, fazem com que aquela pessoa vire uma espécie de morto-vivo. Um zumbi. Tudo isso eu conhecia muito bem.
 
... O que importava se eu abandonara o cadáver no rio? Não matei ninguém, câmbio. Ainda que tivesse arrancado o rapaz do avião e o carregado no lombo até a cidade, nada iria mudar. Estaria morto do mesmo jeito. Todos vamos morrer um dia. Que importava se eu tinha afanado a cocaína? Que atire a primeira pedra, câmbio. Todos nós roubamos alguma coisa, em algum momento. Quase todos. Pelo menos uma vez.
Ou vamos roubar. O Brasil é cheio de gente escrota, essa é a verdade.
 
... Na vida real, você não entra. Em compensação, faz coisas piores. Você assalta um cadáver. Você contrata um índio fodido para vender o pó que roubou do cadáver. Fode-se com a mulher do seu primo. Você faz tudo isso porque acha que pode cometer um erro, só um, mais um só, e mais outro, só mais uma cagada de nada e depois é só voltar e continuar o seu caminho, o seu filme, porque a trilha da vida continua lá, imóvel, esperando você fazer suas cagadas para depois voltar.

Não havia ninguém na igreja. Só o frescor, a penumbra, e ela, ajoelhada, rezando. Fiquei com pena, com vontade de encurtar o caminho que ela teria de percorrer. Pensei que se eu contasse que o rapaz estava morto, se a levasse lá e mostrasse o cadáver e ela o enterrasse como manda o figurino, com velório e flores, se ela chorasse no túmulo, não teria, como minha mãe, que manter a caçarola quente por muito tempo. A morte, crua, não é o mais difícil. Pior é o mistério. A dúvida. Eles é que acabam conosco.

Eu mesmo me sentia contaminado. Na minha opinião, era também um surto o que estávamos vivendo em Corumbá. De outro tipo, mas igualmente perverso. Em todos os jornais, no rádio, na televisão, só se falava no acidente do piloto. A diferença é que ninguém se matava. Dava pena ver a dona Lu. Emagreceu um bocado. Eu tinha praticamente que carregá-la até o carro, nas vezes em que íamos para a igreja. E nessas ocasiões, os urubus a cercavam, quase pediam autógrafo. Está doendo muito? , era o que eles queriam saber. Quanto dói ter um filho desaparecido? Bandos atrás de carniça. Gostavam de sentir dó daquela mulher rica e bonita, que estava bem fodida, apesar de ser rica e bonita. Sentiam-se bem com isso. A desgraça de dona Lu permitia que eles se sentissem piedosos. Esse, aliás, é outro sintoma da epidemia. A bondade patológica que surge na comunidade. Em vez da febre e da diarreia, de repente, aparece esse sintoma, a compaixão.
 
Pensei no quanto minha própria mãe teria sido feliz se um dia alguém tivesse nos telefonado do necrotério, se tivéssemos ido até lá, reconhecido o cadáver do meu pai, para depois enterrá-lo e acabar com o assunto. É esse o significado da palavra enterrar. Colocar ponto final. Enterrem os mortos e cuidem dos vivos, quem disse isso? Enquanto não enterramos os mortos, os vivos ficam lá, sangrando. Acabam conosco os mortos. Com a dona Lu. Eu havia notado que nos últimos dias, ela não se importava mais em encontrar o filho vivo. O cadáver do filho já bastava. Estava naquele ponto em que o cadáver era melhor que nada. Antes o cadáver. Era assim mesmo que as coisas se davam. Eu sabia disso por experiência própria, há momentos que até uma péssima notícia é bem-vinda. Achamos um braço. Um pedaço do crânio. Achamos o assassino. A cova. Qualquer coisa serve.

Uma coisa é você saber que o presidente é corrupto, que o governador é corrupto, que o secretário é corrupto. Mas o cara que trabalha com você há sete anos? Ali do seu lado? Que almoça, que janta com você? Que frequenta sua casa? O Joel? Que me ensinou tudo? Eu colocaria minha mão no fogo por Joel. Se Joel, o Tranqueira, que me chama de Doçura, é corrupto, se é assim, todo mundo naquela delegacia deve levar grana. Hoje em dia, não existe mais um ladrão sem parceiro, corrupção é um negócio em rede, uma matilha. Por que então me preocupar se meu namorado rouba um quilo de pó de alguém que já morreu?...

... Você nunca ouvir dizer que “o homem só começa a ser homem quando enterra seus cadáveres”? É a mais pura verdade. Não há civilização sem os rituais da morte. Sem enterros. Sem eles, voltamos para a caverna. Sem eles, você não honra o defunto, a memória, você não presta homenagem a ele, você não tem túmulo para visitar. Viramos uma espécie de zumbi se deixamos nossos cadáveres por aí, apodrecendo sobre a Terra. No plano pessoal, a tragédia é maior. Lembro que num dia de finados, encontrei minha mãe chorando na cozinha e ela me disse: “se ao menos houvesse um túmulo para visitarmos.” Minha mãe não sofria porque meu pai tinha morria. Sofria porque não podia decretar aquela morte.
 
Durante muito tempo, acreditei que a maldade era um aprendizado lento. Naqueles dias, compreendi finalmente que é a bondade que se aprende com dificuldade, com exercícios diários, que as pessoas, por vezes, chama de Deus ou de Buda, dependendo de suas crenças. A maldade, essa, já nascemos com ela inoculada dentro de nós, como um vírus inativo, que apenas espera o momento de aflorar. De outra forma, como explicar o meu comportamento e o de Sulamita? Como explicar que duas pessoas boas possam agir de forma tão escabrosa?
 
Quem não passou por isso, expliquei para Sulamita mais de cem vezes, não entende. Você não faz a mínima ideia do que é uma morte sem corpo. Claro que faço, ela disse, é como um crime sem corpo: não existe. É mais, eu falei, é como estar no purgatório. Há dias em que você aceita que aquela pessoa morreu. Então você chora e reza. Em outros, você ouve um barulho na porta e tem certeza de que ela está voltando. Você corre para a sala e não há ninguém ali. E se o telefone toca no meio da noite, você sai correndo, cheio de esperança. E você nunca para de sofrer. Nem de acreditar. A vida não interessa muito, mas você também não pode morrer completamente, porque há sempre a possibilidade da porta se abrir ou o telefone tocar. E você quer estar ali quando isso acontecer.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O mapa do tempo

Palma, Félix J. O mapa do tempo. Intrínseca. Rio de Janeiro / RJ; 2010; 472 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Félix J. Palma é um escritor espanhol, conhecido pelos livros “O Mapa do Tempo” e o “Mapa do Céu”. Suas principais influências são de autores de língua inglesa, mas tem uma forte identificação com o argentino Júlio Cortázar.
 
Dados da obra:
 
O autor de A máquina do tempo, H. G. Wells, é um dos protagonistas da obra, que reuniu personagens como Jack, o Estripador; Júlio Verne; o Homem Elefante; o Homem Invisível; Bram Stoker, o criador de Drácula, e o romancista Henry James, em uma trama que mistura romance e aventura na Londres vitoriana. Uma viagem literária e tanto.
 
Passagens:
 
Recordava tudo de maneira extraordinariamente vívida, como se entre eles não houvesse um abismo de oito anos, e às vezes achava aquelas memórias até mais bonitas que os fatos verdadeiros. Que estranha alquimia fazia essas cópias parecerem mais extraordinárias que o original? A resposta era óbvia: a passagem do tempo, que transforma o borbulhar do presente em um quadro terminado e inalterável chamado passado, uma tela que o homem sempre pinta às cegas, com pinceladas erráticas que só adquirem sentido ao afastar-se dela o suficiente para admirá-la em seu conjunto.
 
... Andrew teve a sensação de que a natureza se mobilizara para realizar aquele truque de prestidigitação diante de um único espectador. A partir de então, ficou convencido de que o universo fazia os vulcões entrarem em erupção para reverência da humanidade, mas se esmerava na hora de se comunicar com um punhado de eleitos, indivíduos que como ele escrutinavam a realidade como se fosse uma folha de papel pintado que encobria uma outra coisa.
 
Todo mundo sabe que um objeto tem três dimensões – explicou Charles, pegando o chapéu e girando-o nas mãos com gestos de ilusionista: – altura, largura e comprimento. Mas para que esse objeto exista de verdade, para que este chapéu faça parte desta realidade em que nos encontramos agora, precisa ter mais uma coisa: duração. Além de estender-se no espaço, precisa perdurar no tempo.
 
... Nela aparecia uma fotografia dos seres que estavam logo abaixo. A manchete falava do irrefreável avanço do exército de autômatos e acabava pedindo aos leitores que não perdessem a fé na resistência humana, liderada pelo bravo capitão Derek Schackleton. Porém, o que mais os surpreendeu foi a data do jornal. O exemplar a que pertencia aquela folha extraviada havia sido impresso em 3 de abril do ano 2000.
 
... Os que labutam nos jornais e suplementos literários deveriam lembrar que toda obra é, em geral, uma união de esforço e esperança, a encarnação de um empenho solitário, de um sonho às vezes longamente incubado, quando não uma aposta desesperada destinada a dar sentido à existência, antes de nela cuspirem sem dó nem piedade, instalados em suas confortáveis atalaias. Mas não poderiam enfrentá-lo. Não, certamente não. Não conseguiriam deixá-lo confuso, porque ele tinha o cesto.
 
... e se não tivesse escorregado, aquele Wells de oito anos não quebraria a tíbia ao bater numa das cavilhas que pendiam as cordas da barraca de cerveja; e se não houvesse fraturado a perna, sendo obrigado a passar o verão inteiro na cama, não teria o álibi perfeito para entregar-se à única distração a seu alcance naquelas circunstâncias: a leitura, entretenimento insano que em qualquer outra situação levantaria as suspeitas de seus pais, impedindo-o de descobrir Dickens, Swift ou Washington Irving, escritores que plantaram uma semente em seu espírito que, com o passar do tempo e apesar das limitadas regas e cuidados que pôde lhe proporcionar, terminaria germinando.
 
Merreick era o tipo de leitor que conseguia esquecer com uma terrível facilidade que existe uma mão puxando os fios dos personagens que dançam nesses teatrinhos que são os romances. Na infância, ele também tinha sido um leitor assim. Mas um dia decidiu ser escritor, e desse momento em diante foi impossível mergulhar nas histórias dos livros com o mesmo abandono inocente: tinha compreendido que os atos e impressões dos personagens não pertencem a eles. Todos os seus pensamentos e ações obedecem na verdade ao ditame de um quarto, manipula as peças que havia disposto sobre o tabuleiro, geralmente com uma enorme frieza que não corresponde às emoções que pretende provocar nos leitores.
 
Depois de dizer isso, lembrou-se do que Luciano de Samósata afirma em Uma história verídica:  “Escreve sobre o que não vi, nem constatei, nem soube por outros, e também sobre o que não existe nem tem fundamento para existir”, uma frase que lhe ficou na memória porque resumia perfeitamente sua ideia de literatura. De fato, como disse o anfitrião, ele só se interessava em escrever sobre assuntos impossíveis. Para os outros já havia Dickens, quis acrescentar, mas não o fez. Treves lhe dissera que Merck era um grande leitor. Não queria ofendê-lo caso Dickens fosse um de seus autores preferidos.
 
... Os senhores já se perguntaram o que torna os homens responsáveis? Eu lhes direi: o fato de terem uma única oportunidade de fazer cada coisa. Se existissem máquinas que nos permitissem corrigir até nossos erros mais estúpidos, viveríamos em um mundo cheio de irresponsáveis...
 
... Quando criança, o pai a levara para ver o Escrivão, um dos autômatos criados pelo célebre relojoeiro suíço Pierre Jaquet Droz. Claire ainda se lembrava daquele menino de rosto bochechudo e compungido elegantemente vestido, que, sentado diante de uma carteira, molhava a pena no tinteiro e a fazia correr sobre o papel. O boneco forjava cada letra com a inquietante parcimônia de quem vive fora do tempo e, volta e meia, até fazia uma parada na escritura e olhava ensimesmado para o vazio, como se aguardasse uma nova lufada de inspiração. O olhar absorto do boneco abalou a pequena Claire para o resto da vida, ao imaginar os monstruosos pensamentos que aquele estranho ser poderia abrigar...
 
... Lembrava perfeitamente do semblante pálido, as feições um tanto ariscas, os lábios brilhantes e bem-desenhados, o cabelo azeviche, o porte garbosamente frágil, a voz. E se lembrava do olhar. Lembrava-se, sobretudo, da maneira como o olhara, com uma espécie de entusiasmo. Nenhuma mulher jamais olhara assim para ele. Nunca.
 
... Por mais que a vida de meu pai parecesse invejável vista de longe, eu sabia que não havia sido plena, e que a minha não teria melhor sorte. Estava convencido de que também acabaria morrendo com a mesma expressão de insatisfação nos lábios. Imagino que foi por isso que me refugiei na leitura, para fugir daquela existência monótona e previsível que se desdobrava diante de mim. Todos chegam à leitura por algum motivo, não acha? Como foi em seu caso, senhor Wells?
– Fraturei a tíbia aos oito anos – disse o escritor com visível apatia.
 
... E se os viajantes mergulhassem no futuro o suficiente para encontrar a extremidade, o fim do barbante branco. Ou talvez sim. E se os viajantes mergulhassem no futuro o suficiente para encontrar a extremidade, o fim do barbante como o inventor de seu romance havia tentado fazer? Mas existiria tal coisa? O tempo terminaria em algum ponto ou continuaria eternamente? Neste caso, o final devia localizar-se no instante em que o homem se extinguisse e não restasse nenhuma  outra espécie no planeta, pois o que era o tempo sem ninguém para medi-lo, sem nada que o acusasse sua passagem? O tempo só se revelava nas folhas secas, nas feridas que cicatrizavam, no caruncho que devorava, na ferrugem que se espalhava, nos corações que se cansavam. Se não houvesse ninguém para mareá-lo, o tempo não era nada, absolutamente nada.
 
... Definitivamente, se queria ser um escritor brilhante, e não apenas um narrador competente e engenhoso,  precisava exigir de si mesmo esforços maiores que aquelas fabulazinhas que executava em quatro dias. Sim, a literatura era mais, muito mais. A verdadeira literatura precisava mexer com o leitor, alterá-lo, mudar sua percepção das coisas, empurrá-lo pelas escarpas da clarividência.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Carta a D.

Gorz, André. Carta a D. Cosac Naify. São Paulo / SP; 2008; 80 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
André Gorz foi um filósofo austro-francês, também conhecido pelo pseudônimo Michel Bosquet.
 
Dados da obra:
 
Carta a D. é o último livro de Gorz, escrito para homenagear sua mulher, Dorine, com quem partilhou a vida por quase 60 anos. O casal cometeu suicídio em 22 de setembro de 2007; os corpos foram encontrados um ao lado do outro, e um cartaz, na porta de sua casa, pedindo que a polícia fosse avisada.
 
Passagens:
 
Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.
 
Não tínhamos pressa. Eu despia o seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. O brilho nacarado do pescoço iluminava o seu rosto. Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e de doçura. Compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.
 
Nós não suspeitávamos que eu ainda precisaria de mais seis anos para terminar o Essai. Teria eu perseverado se soubesse disso? “Sem dúvida”, você sempre me disse. O principal objetivo do escritor não é o que ele escreve. Sua necessidade primeira é escrever. Escrever, isto é, ausentar-se do mundo e de si mesmo para, eventualmente, fazer disso a matéria de elaborações literárias. É apenas num segundo momento que se põe a questão do “tema” a ser tratado. O tema é a condição necessária, necessariamente contingente da produção de escritos. Não importa qual tema é o melhor desde que ele permita escrever. Durante seis anos, até 1946, eu mantive um diário. Escrevia para conjurar a angústia. Não importava o quê; eu era um escrevedor. O escrevedor só se tornará um escritor quando a sua necessidade de escrever for sustentada por um tema que permita e exija que essa necessidade se organize num projeto. Somos milhões a passar a vida escrevendo, sem nunca terminar nem publicar nada...
 
Tinha algo de você em tudo o que fazia. A penúria lhe dava asas. A mim, ela me deprimia.
 
Eu necessitava de teoria para estruturar meu pensamento, e argumentava com você que um pensamento não estruturado sempre ameaça naufragar no empirismo e na insignificância. Você respondia que a teoria sempre ameaça se tornar um constrangimento que nos impede de perceber a complexidade movediça da realidade.
 
... a vontade de não ser Nada se confunde com a de ser Tudo. No fim do Vieillissement se encontra esta autoexortação: “É preciso aceitar ser finito: estar aqui e em nenhum outro lugar, fazer isto e não outra coisa, agora e não sempre ou nunca [...]; ter apenas esta vida.
 
... Estava consciente de que, “quando tudo tiver sido dito, tudo ainda ficará por dizer” – em outras palavras, é o dizer que importa, não o dito –, isso que eu tinha escrito me interessava menos do que aquilo que eu poderia vir a escrever em seguida. Acho que isso é verdade para todo escrevedor / escritor.
 
... Inscrevi o seu nome na pedra com um buril. Aquela casa era mágica. Todos os espaços tinham uma forma trapezoidal. As janelas do quarto davam para a copa das árvores. Na primeira noite nós não dormimos. Um escutava a respiração do outro. Depois um rouxinol se pôs a cantar, e um segundo, mais longe, a lhe responder. Nós nos falamos muito pouco. Passei aquele dia cavando e, de tempos em tempos, levantava os olhos para a janela do quarto. Você ficava ali, imóvel, o olhar fixo ao longe. Tenho certeza de que você trabalhava para domesticar a morte, para combatê-la sem medo. Estava tão bela e resoluta em seu silêncio que eu não seria capaz de imaginar que você pudesse renunciar à vida.
 
... Eu havia chegado à idade em que a gente se pergunta o que fez da própria vida, o que queria ter feito dela. Tinha impressão de não ter vivido a minha vida, de tê-la sempre observado à distância, de só ter desenvolvido um lado de mim mesmo, e de ser pobre como pessoa. Você era e sempre tinha sido mais rica que eu. Você se desenvolvia em todas as suas dimensões. Estava firme em sua vida, enquanto eu sempre me apressara a passar à tarefa seguinte, como se a nossa vida só fosse começar mais tarde.
 
À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Eu sou esse homem. É você que esse carro leva. Não quero assistir à sua cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas. Ouço a voz de Kathleen Ferrier cantando: “Die Welt ist leer, Ich will nicht leben mehr”*, e desperto. Eu vigio a sua respiração, minha mão toca você. Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos.
*Em alemão, “O mundo está vazio, não quero mais viver”.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Carta ao pai

Kafka, Franz. Carta ao Pai. Editora Martin Claret. São Paulo / SP; 2012; 112 páginas.

Breve relato do autor:
 
Franz Kafka foi um dos maiores escritores de ficção do século XX. De origem judaica, ele nasceu em Praga, Áustria-Hungria (atual República Checa), e escrevia em língua alemã. O conjunto de seus textos – na maioria incompletos e publicados postumamente – situa-se entre os mais influentes da literatura ocidental.

Dados da obra:
 
Publicado postumamente, Carta ao Pai é uma carta que Kafka escreveu para seu pai e que nunca chegou a ser enviada. Foi escrita em 1919 e revisada diversas vezes antes da morte do autor; nela, discorre sobre a relação conturbada com o pai, um comerciante judeu, autoritário e de personalidade forte, que sempre impôs aos filhos sua visão de mundo e que despertava em Kafka um conjunto de emoções conflitantes, do ódio pungente à mais profunda admiração.
 
Passagens:
 
“Querido pai:
Perguntaste-me certa vez porque motivo eu afirmava que te temia. Como de hábito, não soube o que te responder, em parte exatamente pelo temor que me infundes, e em parte porque os pormenores que contribuem para o fundamento desse temor são em demasia para que os possa manter reunidos, nem mesmo pela metade, durante a palestra. E mesmo essa tentativa de responder-te por escrito ficará inconclusa, porque, também ao escrever, o temor e os seus efeitos inibem-me diante de ti, e a magnitude do tema está além de minha memória e compreensão...”
 
Com mais acerto dirigias tua antipatia contra o fato de eu escrever e tudo quanto, desconhecido para ti, se relacionava com essa atividade. Nela realmente, me tinha eu tornado independente e afastado parcialmente de ti, mesmo quando a situação fazia lembrar um verme que, amassado com o pé em sua parte traseira, parte com a anterior e se arrasta para um lado. Sentia-me de certo modo seguro, podia respirar, a aversão que logicamente sentias contra meus escritos me era extremamente grata...

Voo em português

Von, Cristina. Voo em Português. Instituto Callis. São Paulo / SP; 2012; 184 páginas.

Breve relato da autora:
 
Cristina Von é formada em Publicidade e Propaganda na Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP e durante anos trabalhou como designer gráfica. Aos 35 anos escreveu seus primeiros livros infantis. Depois disso não parou mais. Já publicou mais de 40 livros, entre livros adultos e infanto-juvenis.
 
Dados da obra:
 
O livro conta a história de Miguel, um jovem simpático e sonhador, que mora em Bragança Paulista, no estado de São Paulo, e se divide entre a paixão pela terra e pelo ar. Assim, se forma em veterinária e aprende a pilotar avião. No aeroclube da cidade, sua imaginação alça um grande voo: comprar um avião para fazer uma viagem por todos os lugares onde o português é falado. Seu sonho se torna realidade e ele consegue adquirir um avião, o "Corisco”, partindo assim em sua viagem.
 
Passagens:
 
Vocês pensam que a língua portuguesa é usada somente no Brasil e em Portugal? Pois saibam que ela é um dos idiomas mais falados do mundo! É a língua oficial em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e em lugares como Macau, Damião e Diu e Goa.
– Goa? Onde fica isso? – perguntou Juarez.
– Na Índia!
 
Em Macau, Camões continuou os seus escritos, vivendo em uma gruta. Dizem que o escritor naufragou na foz do rio Mekong e que, entre salvar a sua companheira chinesa, Dinamene, celebrada em sonetos, preferiu salva os manuscritos de Os Lusíadas...
– E sua amada morreu? – perguntou Miguel perplexo.
– Faleceu. Em benefício da língua português, diga-se de passagem.
 
A cozinha goesa tem sabor de cravo-da-índia, açafrão e pimenta-do-reino. De entrada, Miguel escolheu bolinhos chamados boojés e pastéis triangulares, as chamuças. No menu principal, pratos à base de peixe, camarão ou frango e um sarapatel feito com carne e miúdos de porco ao molho de masala (uma mistura de todos os temperos fortes da Índia, incluindo cravo, pimenta, cominho, coentro e canela).
Depois experimentou uma sobremesa típica: a bebinca, um tipo de bolo com sabor de leite de coco e cardamomo, uma rara especiaria da família do gengibre.
 
Conta a lenda que, certo dia, uma rapaz ajudou um crocodilo a atravessar a lago para entrar no mar. O crocodilo ficou grato e prometeu que se lembraria dele para sempre. Algum tempo depois, o rapaz foi à beira do mar e chamou o crocodilo. Sentou-se nas costas do animal e os dois viajaram juntos durante anos. Embora fossem amigos, um dia crocodilo sentiu uma vontade irresistível de devorar o rapaz, mas envergonhados, desistiu da ideia.
Quando ficou velho, o animal disse ao amigo: “Em breve morrerei e formarei uma terra para ti e para todos os teus descendentes”. Então, quando morreu, o crocodilo transformou-se na ilha de Timor, dando a ela a sua forma. É por essa razão que o povo de Timor chama o crocodilo de “Avô”.
 
A primeira impressão que teve, ao ver anúncios e cartazes em português e entender o que ouvia as pessoas dizerem nas ruas, era de que não estava longe de casa. Tudo era estranhamente conhecido e, ao mesmo tempo, estranhamente novo. Andando pela capital, ficou impressionado ao perceber que era possível misturar a tradição e o passado à modernidade cosmopolita, sem que uma coisa agredisse a outra.
 
Com o passar do tempo, algumas comunidades falantes de português na África e na Ásia desenvolveram as suas línguas em vários crioulos. Com isso, muitas palavras foram acrescentadas ao vocabulário português, oriundas não só dos povos das colônias como de todas as terras com as quais Portugal teve contato. Por exemplo: gengibre e sândalo (do sânscrito); sapato (do indonésio); jangada e queijo (do malaio); mesa (do suaíli africano); chá nanquim (do chinês); gueixa e samurai (do japonês), etc.
 
... Florbela Espanca (1894-1930)
O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa, sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... sei lá de quê!
 
A Língua Portuguesa é um vínculo histórico e patrimônio dos países que, embora se localizam geograficamente distantes, se identificam pelo idioma comum. Hoje, no mundo, mais de 200 milhões de pessoas falam o português.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Watchmen

Moore, Alan; Gibbons, Dave. Watchmen. Panini Books. Barueri / SP; 2005; 412 páginas.
 
Breve relato dos autores:
 
Alan Moore é um autor britânico de histórias em quadrinhos. E Dave Gibbons é um artista, também britânico, de história em quadrinhos.
 
Dados da obra:
 
Watchmen é uma série de história em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons. A trama é situada nos Estados Unidos de 1985, um país no qual aventureiros fantasiados seriam realidade. O país estaria vivendo um momento delicado no contexto da Guerra Fria e em via de declarar uma guerra nuclear contra a União Soviética. Watchmen retrata os super-heróis como indivíduos verossímeis, que enfrentam problemas éticos e psicológicos, lutando contra neuroses e defeitos, e procurando evitar os arquétipos e super-poderes tipicamente encontrados nas figuras tradicionais do gênero.
 
Passagens:
 
Um corpo vivo e um morto contém o mesmo número de partículas.
Estruturalmente não há diferença discernível.
Vida e morte são abstrações não quantificáveis, por que eu deveria me importar?
 
Olha – eu disse – não faço ideia de como é escrever um livro. Tenho um monte de coisas na cabeça que quero pôr no papel, mas o que eu abordo primeiro? Por onde começar?
Sem levantar os olhos das caixas de detergente nas quais estava colando as etiquetas de preço, Denise, de bom grado, ofereceu-me uma pérola de acumulada sabedoria em sua voz repleta de entediada, mas benigna, condescendência:
– Comece pela coisa mais triste que você possa imaginar e conquiste logo a compaixão do leitor. Depois disso, vá por mim, tudo o mais fluirá sem esforço.
 
... Se podemos aceitar que partes flutuantes de um fuzil são reais, também temos ciência de que tudo que sabíamos ser verdadeiro talvez possa provavelmente ser irreal. Essa intranquilidade peculiar é alguma coisa com a qual a maioria de nós aprendeu a viver no decorrer dos anos, e ainda se faz presente.
 
Um mundo cresce ao meu redor. Será que eu o estou moldando ou seus contornos predeterminados guiam minha mão?
Em 1945, bombas caem no Japão, engrenagens no Brooklyn, sementes do futuro são plantadas negligentemente...
Sem mim as coisas teriam sido diferentes. Se o gordo não tivesse esmagado o relógio, se eu não o tivesse deixado na câmara... Sou eu o culpado, então? Ou o gordo? Ou meu pai por escolher minha carreira? Qual de nós é responsável? Quem fez o mundo?
Talvez o mundo não seja feito. Talvez nada seja feito. Talvez nada seja feito. Talvez simplesmente seja, tenha sido, será eternamente...
... Um relógio sem artesão.
 
Tigre, Tigre
ardente açoite
Nas florestas
da noite.
Que imortal olho ou guia
Pode captar-te a terrível simetria?
(William Blake)
 
Mas ele não disse o que o compele. Não é sua infância, sua mãe ou Kitty Genovese. Essas coisas apenas o fizeram reagir à injustiça do mundo.
Nada disso o fez cruzar o limite.
Nada disso o transformou em Rorschach.
É como se o contato contínuo com os elementos mais deploráveis da sociedade o tivesse tornado ainda mais deplorável, ainda pior.
Se eu pudesse convencê-lo de que a vida não é assim, de que o mundo não é assim...
Eu sei que não é.
 
A existência é aleatória, sem padrão, a não ser o que imaginamos depois de ficar olhando por muito tempo. Sem sentido, a não ser o que decidimos dar.
Não são forças metafísicas vagas que moldam este mundo. Não é Deus quem mata as crianças. Não é o destino que as trucida ou a sina que as dá de comer aos cães.
Somos nós.
Só nós.
 
Eu me sento.
Olha a mancha de Rorschach.
Tentei fingir que parecia uma árvore frondosa, com sombras sobre ela, mas não consegui.
A imagem lembrava o gato morto que um dia encontrei, as larvas gordas e cegas que se rastejavam, abrindo túneis freneticamente para longe da luz.
Mas mesmo essa imagem é para evitar o verdadeiro horror.
O horror é este: ao final tudo não passa de uma imagem de escuridão, vazia e sem sentido.
Estamos sozinhos.
Não existe mais nada.
 
Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles, e se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla.
(Friedrich Wilheim Nietzsche)
 
Eu questionava o sentido de tanta labuta, o propósito do esforço sem fim, que leva a nada, deixando as pessoas vazias e desiludidas...
... deixando-as alquebradas.
Tudo bem, admito que muita gente teve vida azarada, não realizou nada palpável, mas... mas será que nós temos importância no conjunto do universo? Só a existência da vida já não é algo significativo?
Em minha opinião, ela é um fenômeno exageradamente valorizado. Marte se dá muito bem sem um único microorganismo.
 
Mas o mundo é tão cheio de pessoas, tão repleto desses milagres que eles se tornam lugar-comum e nós os esquecemos...
Eu esqueci.
Nós contemplamos continuamente o mundo e ele se torna opaco às nossas percepções. No entanto, encarado de um novo ponto de vista, ele ainda pode ser impressionante.
 
Vamos. Enxugue as lágrimas, porque você é vida, mais rara do que um quark e mais imprevisível do que qualquer sonho de Heisenberg. A argila na qual as forças que moldam a existência deixam suas impressões digitais mais claras.
Enxugue as lágrimas...
... E vamos para casa.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A história sem fim

Ende, Michel. A história sem fim. Martins Fontes / Editorial Presença. São Paulo / SP; 1985; 392 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Michel Ende foi um escritor alemão de romances sobre fantasia e livros infantis e parte de um movimento antroposófico (estudo do homem sob o ponto de vista moral e intelectual).
 
Dados da obra:
 
“A História Sem Fim” conta a aventura de um garoto solitário que através das páginas de um livro passa para o reino da fantasia. Nesta terra imaginária, numa busca cheia de perigos, Bastian descobre a verdadeira medida de sua própria coragem e sua capacidade para amar.
 
Passagens:
 
Bastian deu-se conta de que durante todo o tempo estivera olhando fixamente o livro que o sr. Koreander tinha nas mãos e que se encontrava agora sobre a poltrona de couro. Era como se o livro tivesse uma espécie de magnetismo que o atraía irresistivelmente.
Aproximou-se da poltrona, estendeu a mão devagar, e tocou o livro – e no mesmo instante ouviu dentro de si um “clique”, como se tivesse sido pego em uma ratoeira. Bastian teve a estranha sensação de que aquele toque desencadeara qualquer coisa que agora devia forçosamente seguir seu curso.
... Em suma, as paixões são tão diferentes quanto o são as pessoas.
A paixão de Bastian Baltasar Bux eram os livros.
 
Quem nunca passou tardes inteiras diante de um livro com as orelhas ardendo e o cabelo caído sobre o rosto, esquecido de tudo o que o rodeia e sem se dar conta de que está com fome ou com frio...
Quem nunca se escondeu embaixo dos cobertores lendo um livro à luz de uma lanterna, depois de o pai ou a mãe ou qualquer outro adulto lhe ter apagado a luz, com o argumento bem-intencionado de que já é hora de ir para a cama, pois no dia seguinte é preciso levantar cedo...
Quem nunca chorou, às escondidas ou na frente de todo mundo, lágrimas amargas porque uma história maravilhosa chegou ao fim e é preciso dizer adeus às personagens na companhia das quais se viveram tantas aventuras, que foram amadas e admiradas, pelas quais se temeu ou ansiou, e sem cuja companhia a vida parece vazia e sem sentido...
Quem não conhece tudo isto por experiência própria provavelmente não poderá compreender o que Bastian fez em seguida.
Olhou fixamente o título do livro e sentiu, ao mesmo tempo, arrepios de frio e uma sensação de calor. Ali estava uma coisa com a qual ele já havia sonhado muitas vezes, que tinha desejado muitas vezes desde que dele se apoderara aquele paixão secreta: uma história que nunca acabasse! O livro dos livros!
Tinha de o conseguir a qualquer custo!
 
“Gostaria de saber”, disse para si mesmo, “o que se passa dentro de um livro quando ele está fechado. É claro que lá dentro só há letras impressas..., mas, apesar disso, deve acontecer alguma coisa, porque quando o abro, existe ali uma história completa. Lá dentro há pessoas que ainda não conheço e toda a espécie de aventuras, feitos e combates – e muitas vezes há tempestades no mar, ou alguém vai a países e cidades exóticos. Tudo isso, de algum modo, está dentro do livro. É preciso lê-lo para o saber, é claro. Mas antes disso, já está lá dentro. Gostaria de saber como...”
 
Não gostava dos livros que, com mau humor e acidamente, narravam acontecimentos absolutamente vulgares. Conhecia muito bem tudo isso da sua vida real, por isso não precisava ler essas coisas. Além disso, detestava quando queriam convencê-lo a fazer alguma coisa. E esses livros queriam sempre convencer as pessoas de alguma coisa, de uma maneira mais ou menos óbvia. Bastian preferia os livros emocionantes, ou divertidos, ou que falavam à imaginação: livros que contavam as aventuras fabulosas de criaturas fantásticas e em que se podia imaginar tudo o que se quisesse.
 
– Você é novo, menino. Nós somos velhas. Se você fosse velho como nós, saberia que não há nada senão tristeza. Veja uma coisa. Por que não haveríamos de morrer, você, eu, a imperatriz Criança, todos, todos? Tudo é aparência, tudo é um jogo do Nada. Tudo vai dar exatamente no mesmo. Deixe-nos em paz, menino, vá embora.
 
Naquele momento, Bastian fez uma importante descoberta: podemos estar convencidos durante muito tempo – anos talvez – de que queremos alguma coisa, se soubermos que nosso desejo é irrealizável. Porém, se de súbito nos vemos diante da possibilidade de este desejo ideal se transformar em realidade, passamos a desejar apenas uma coisa: nunca tê-lo desejado.
 
Começaram a ver ao longe o castelo de Horok que se erguia em meio à Floresta das Orquídeas. Parecia efetivamente uma mão gigante, com os cinco dedos levantados e estendidos.
– Mas há uma coisa que tem de ficar bem clara, disse Bastian repentinamente. Estou decidido a não voltar ao meu mundo. Ficarei para sempre em Fantasia. Sinto-me muito bem aqui. Por isso, não me custa nada renunciar a todas as minhas recordações. E quanto ao futuro de Fantasia, não há problemas: posso dar mil novos nomes à Imperatriz Criança. Já não precisamos do mundo dos homens!
 
– Então escute, ó Grande Sábio, a nossa pergunta: o que é Fantasia?
– Fantasia é a História Sem Fim.
 
Bastian viu que, no meio do caminho, estava sentada uma mulher que tentava apanhar as ervilhas de um prato com uma agulha de costura.
– Como chegaram aqui? O que fazem?, perguntou Bastian.
– Ora, sempre tem havido seres humanos que não encontraram o caminho de volta para seu mundo explicou Argax. Primeiro não queriam e agora... digamos... já não podem.
 
Passado o perigo, todos os Iskalnari vieram outra vez para cima e recomeçaram a viagem com seu canto e sua dança, como se nada tivesse acontecido. Sua harmonia não fora perturbada, não se lamentaram. Nem se queixaram e não trocaram uma única palavra sobre o acidente.
– Não, disse um deles quando Bastian tocou no assunto. Não falta ninguém. Por que haveríamos de nos lamentar?
O indivíduo não contava para eles. E, dado que eram todos iguais, ninguém era insubstituível.