quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Jogo da Amarelinha

Cortázar, Julio. O Jogo da Amarelinha. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro / RJ; 1987; 521 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Julio Cortázar foi um escritor e intelectual argentino, é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo. Mestre no conto e na narrativa curta.
 
Dados da obra:
 
O Jogo da Amarelinha é considerado a obra máxima do autor. Original e inovador, o livro traz a possibilidade de o leitor começar do capítulo 1 e ir até o 56, tendo assim uma bem construída história sobre um triângulo amoroso. Ou pode optar por começar no capítulo 73, e começar a seguir a ordem indicada por Cortázar. Na segunda opção, aparecem acontecimentos de Maga, Oliveira, o Clube da Serpente e o narrador, além de citações de grandes autores, textos debatendo a literatura atual, artigos sobre os personagens, recortes de um texto maior.
 
Passagens:
 
Preferíamos o encontro casual na ponte, no terraço de um café num cine-clube ou, talvez, curvados sobre um gato em qualquer pátio do bairro latino. Andávamos por Paris sem nos procurarmos, mas sabendo sempre que andávamos para nos encontrar.
E repare, Maga, que acabávamos de travar conhecimento e a vida já tramava o necessário para que nos desencontrássemos minuciosamente. Como você não sabia dissimular, descobri quase imediatamente que, para vê-la como eu queria, era necessário começar por fechar os olhos e, então, surgiam coisas, primeiro como estrelas amarelas (movendo-se como gelatina de veludo), depois como cachoeiras vermelhas de jovialidade e das horas, ingresso paulatino num mundo-Maga que era a falta de jeito e a confusão, mas também levando a assinatura da aranha Klee, do circo Miró, dos espelhos cinzentos Vieira da Silva, num mundo onde você se movia como um cavalo de xadrez que se movesse como uma torre que se movesse como um bispo.
 
Nunca consegui resistir ao desejo de chamá-la para o meu lado, sentindo-a cair pouco a pouco sobre mim, desdobrar-se outra vez, depois d ter estado por um momento tão só e tão apaixonada diante da eternidade do seu corpo.
 
... Tinha a felicidade de poder acreditar sem ver, de poder formar um corpo com a duração, com o contínuo da vida. Tinha a felicidade de se encontrar dentro do quarto, de ter direito de cidadania em tudo o que tocava e em todos aqueles com quem convivia, peixe nadando no rio, folha na árvore, nuvem no céu, imagem no poema. Peixe, folha, nuvem, imagem: exatamente isso, a não ser que...
 
A Maga desconfiava um pouco. Admirava imensamente Oliveira e Etienne, capazes de discutir durante três horas sem parar. Em volta de Etienne e Oliveira, havia algo como um círculo de giz e ela queria entrar nesse circulo, compreender por que razão o princípio da indeterminação era tão importante na literatura, por que motivo Morelli, sobre quem eles tanto falavam, a quem tanto admiravam, pretendia fazer do seu livro uma bola de cristal, no qual o micro e o macrocosmo se uniam numa visão aniquilante.
 
... Entre a Maga e eu cresce um canavial de palavras, estamos separados só por algumas horas e alguns quarteirões e já a minha pena se chama pena, meu amor se chama meu amor... Irei sentindo cada vez menos e recordando cada vez mais, mas o que é recordação, afinal, senão o idioma dos sentimentos, um dicionário de rostos e dias e perfumes que voltam como os verbos e os adjetivos no discurso, adiantando-se disfarçados, à coisa em si, ao presente puro, entristecendo-nos ou lecionando-nos vicariamente até que o próprio ser se torna vigário, o rosto que olha para trás abre muito os olhos, o verdadeiro rosto se mancha pouco a pouco como nas velhas fotografias e Jano, de repente, é igual a qualquer um de nós.
 
– Como é larga esta rua – exclamou Talita, olhando para baixo. – É muito mais larga do que quando a olhamos da janela.
– As janelas são os olhos da cidade – comentou Traveler – e naturalmente deformam tudo o que vêm. Agora, você está num ponto de grande pureza, e talvez esteja vendo as coisas como um pombo ou um cavalo que não sabem que têm olhos.
 
... Você compreende, de vez em quando ocorre-me que lhe poderia dizer... Não sei, talvez no momento as palavras servissem de alguma coisa, nos servissem. Mas como não são as palavras da vida cotidiana e do mate no pátio, do bate-papo lubrificado, a gente recua, o melhor amigo é aquele a quem menos se podem dizer coisas assim. Nunca lhe aconteceu confiar-se muito mais a um outro cara qualquer?
– É possível – concordou Traveler, afinando a guitarra. – O ruim é que com esses princípios já não se sabe para que servem os amigos.
– Servem para estar aí e, um dia, quem sabe?
 
Longo bate-papo com Traveler sobre a loucura. Falando dos sonhos, demo-nos conta, quase ao mesmo tempo, de que certas estruturas sonhadas seriam formas correntes de loucura, a menos que continuassem na vigília. Quando sonhamos nos é dado exercitar de graça nossa aptidão para a loucura. Suspeitamos, ao mesmo tempo, que toda loucura é um sonho que se fixa.
Sabedora do povo: “É um pobre louco, um sonhador...”
 
Uma mesma situação e duas versões... Fico pensando em todas as folhas que serei eu a não ver o coletor de folhas secas, em tanta casa que haverá no ar e que estes olhos não veem, pobres morcegos de romances e cinemas e flores dissecadas. Por todos os lados haverá abajures, haverá folhas que não verei.
 
Outra maneira de tentar dizê-lo: O defectivo sente-se mais como uma pobreza intuitiva do que como uma mera falta de experiência. Na verdade, não me aflijo muito por não ter lido toda a obra de Jouhandeau, sinto no máximo a melancolia de uma vida demasiado curta para tantas bibliotecas, etc. A falta de experiência é inevitável, quando leio Joyce estou sacrificando automaticamente outro livro e vice-versa, etc.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Tia Julia e o Escrevinhador

Llosa, Mario Vargas. Tia Julia e o Escrevinhador. Alfaguara-Objetiva. Rio de Janeiro / RJ; 20077; 359 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Mario Vargas Llosa é um escritor, jornalista, ensaísta e político peruano, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2010. Ele ganhou notoriedade literária com a publicação do romance A Cidade e os Cães (1961). Mudou para Paris nos anos de 1960, e lecionou em diversas universidades americanas e europeias, ao longo dos anos.
 
Dados da obra:
 
Mesclando humor e romance, o escritor narra a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos 50, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até o dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens.
 
Passagens:
 
Escrevo. Escrevo que escrevo. Mentalmente me vejo escrever que escrevo e também posso me ver a me ver escrevendo. Lembro de mim já escrevendo e também me vendo escrever. E me vejo lembrando que me vejo escrever e me lembrando que me vejo lembrando que escrevia e escrevo me vendo escrever que me lembro de ter me visto escrever que me via escrevendo que lembrava de ter me visto escrever que escrevia e que escrevia que escrevo que escrevia. Também posso me imaginar escrevendo que já havia escrito que me imaginaria escrevendo que havia escrito que imaginava a mim escrevendo que me vejo escrever que escrevo.
Salvador Elizondo, o grafógrafo.
 
Tentei uma investigação parecida em outras casas de parentes e os resultados foram vagos.  As tias Gaby, Laura, Olga e Hortensia gostavam das novelas porque eram divertidas, tristes ou fortes, porque as distraíam e faziam sonhar, viver coisas impossíveis na vida real, porque mostravam algumas verdades ou porque sempre se tinha um pouquinho de espírito romântico. Quando perguntei por que gostavam mais que dos livros, protestaram: que bobagem, como dá para comparar, livros eram cultura, as novelas simples disparates para passar o tempo. Mas o certo é que viviam grudadas no rádio e que eu nunca tinha visto nenhuma delas abrir um livro...
 
... O mecânico tinha batido na porta assim, e, quando ela abriu, tinha olhado para ela assim e falado assim, e depois tinha se ajoelhado assim, jurando que a amava assim. Aturdidos, hipnotizados, o juiz e o secretário viam a menina-mulher adejar como uma ave, empinar como uma bailarina, agachar-se e subir, sorrir e zangar-se, modificar a voz e duplicá-la, imitando a si mesma e a Gumercindo Tello e, por fim, cair de joelhos e declarar (-se, -lhe) seu amor...
 
Esses encontros nos cafés do centro de Lima eram pouco pecaminosos, longas conversas muito românticas, “fazendo empanadinhas”, nos olhando nos olhos e, se a topografia do local permitia, roçando os joelhos. Só nos beijávamos quando ninguém podia nos ver, o que raramente acontecia, porque a essas horas os cafés estavam sempre cheios de grossos funcionários de escritório. Falávamos de nós, claro, dos perigos que corríamos de ser surpreendidos por algum membro da família, da maneira de evitar essas perigos, contávamos um ao outro, com riqueza de detalhes, tudo o que tínhamos feito desde o último encontro (quer dizer, algumas horas antes ou no dia anterior), mas, por outro lado, jamais fazíamos nenhum projeto para o futuro. O porvir era um assunto tacitamente abolido de nossas conversas, sem dúvida porque, tanto ela como eu, estávamos convencidos de que nossa relação não tinha nenhum. Porém, penso que isso que havia começado como uma brincadeira foi se tornando coisa séria nos castos encontros dos cafés enfumaçados do centro de Lima. Foi aí que, sem nos darmos conta, fomos nos apaixonando.
 
Prometi fazer o possível, mas sem muitas esperanças porque o escriba era um homem de convicções inflexíveis. Eu tinha chegado a me sentir amigo dele; além da curiosidade entomológica que me inspirava, tinha apreço por ele. Mas seria recíproco? Pedro Camacho não parecia capaz de perder seu tempo, sua energia, na amizade nem em nada que o distraísse de sua arte, isto é, seu trabalho ou vício, essa urgência que eliminava homens, coisas, apetites. Embora fosse verdade que a mim tolerava mais que a outros. Tomávamos café (ele hortelã com erva-cidreira) e eu ia a seu cubículo e lhe servia de pausa entre duas páginas. Escutava-o com suma atenção e isso talvez o lisonjeasse; talvez me tivesse por um discípulo, ou, simplesmente, era para ele o que é o cachorrinho de colo para a solteirona e as palavras cruzadas para o aposentado: alguém, ou alguma coisa com que preencher os vazios.
 
Ele começou com quatro novelas por dia, mas em vista do sucesso, foram aumentando até dez, que eram transmitidas de segunda a sábado, com Curaçao de meia hora cada capítulo (na verdade, 23 minutos, pois a publicidade açambarcava sete). Como dirigia e interpretava todos, devia permanecer no estúdio umas sete horas diárias, calculando que o ensaio e a gravação de cada programa durassem quarenta minutos (entre dez e 15 para sua arenga e os ensaios). Escrevia as novelas à medida que iam sendo transmitidas; constatei que cada capítulo lhe tomava o dobro do tempo de sua interpretação, uma hora. O que significava, de qualquer modo, umas dez horas na máquina de escrever. Isso diminuía um pouco graças aos domingos, seu dia livre, que ele, claro, passava no seu cubículo, adiantando o trabalho da semana. Seu horário era, portanto, de 15 a 16 horas de segunda a sábado e de oito a dez nos domingos. Todas elas praticamente produtivas, de rendimento artístico sonante.
 
– Meus escritos se conservam num lugar mais indelével do que os livros – me instruiu, no ato: – A memória dos ouvintes.
 
A lavadeira Teresita praticava uma filosofia de criação intuitivamente inspirada em Esparta ou em Darwin que consistia em fazer saber a seus filhos que, se tinham interesse em continuar nesta selva, tinham de aprender a receber e dar mordidas, e que essa história de tomar leite e comer era assunto que dizia respeito inteiramente a eles desde os 3 anos de idade, porque, lavando roupa dez horas por dia e distribuindo-a por Lima outras oito horas, só conseguiam sobreviver ela e as crias que não tinham completado a idade mínima para dançar com as próprias pernas.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O edifício

Eisner, Will. O edifício. Editora Abril; São Paulo / SP; 1987.
 
Breve relato do autor:
 
Will Eisner foi um famoso e renomado quadrinista americano, que durante seus mais de 70 anos de carreira, atuou em diversas áreas que incluem como desenhista, roteirista, arte-finalista, editor, cartunista, empresário e publicitário.
 
Dados da obra:
 
O edifício é uma metáfora sobre a própria vida. As trajetórias de quatro personagens – Monroe Mensh, Gilda Green, Antonio Tonatti e P.J. Hammond – se misturam com a existência de um determinado edifício localizado em Nova York. O enredo fala dos dramas, desilusões e anseios desses personagens.
 
Passagens:
 
Depois de muitos anos vivendo numa cidade grande, gradualmente desenvolvemos um senso de assombro. Isto porque muito do que acontece ao nosso redor é inexplicável e, ao mesmo tempo, mágico. Enquanto eu crescia em meio à turbulência da vida urbana, era preciso apenas um estado de alerta superficial para enfrentar o ritmo das mudanças e experiências que se desenrolavam. Havia pouco tempo para questionar a rápida substituição de pessoas e de edifícios.
Tais coisas deviam ser aceitas como normais. À medida que fui envelhecendo e acumulando recordações, passei a me sensibilizar mais e mais com o desaparecimento de pessoas e referências urbanas. Para mim, eram especialmente perturbadoras as inexplicáveis demolições de prédios. Eu sentia como se, de alguma forma, eles tivessem alma.
Agora, estou certo de que essas estruturas marcadas por risos e manchadas de lágrimas são mais do que edifícios inertes. É impossível pensar que, ao fazerem parte da vida, não tenham absorvido as radiações provenientes da interação humana.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Antes de nascer o mundo

Couto, Mia. Antes de nascer o mundo. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2009; 277 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Mia Couto nasceu em Moçambique. Estudou medicina antes de se formar em biologia. Atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra; em 2007, o prêmio União Latina de Literatura Românicas.
 
Dados da obra:
 
Esgueirando-se entre o sonho e a realidade, entre a prosa e a poesia, Antes de nascer o mundo retrata uma realidade de dimensões míticas na qual os homens de alguma forma conseguem superar o desespero e resgatar uma esperança que resiste à voragem da terra e da história.
 
Passagens:
 
A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.
 
... Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
 
O tal camião – a nova Arca de Noé – chegou ao destino, mas desfaleceu para sempre, à porta daquilo que viria a ser a nossa casa. Ali apodreceu, ali se converteu no meu favorito brinquedo, meu refúgio de sonhar. Sentado ao volante da falecida máquina, eu podia ter inventado viagens infinitas, vencido distâncias e cercos. Como faria outra qualquer criança, poderia ter dado a volta ao planeta, até que o universo inteiro me obedecesse. Mas isso nunca sucedeu: o meu sonho não aprendera a viajar. Quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar com outros lugares.
 
– Mas, pai, nos conte. Como faleceu o mundo?
– Na verdade, já não me lembro.
– Mas o Tio Aproximado.
– O Tio conta muita história...
– Então, pai, nos conte o senhor.
– O caso foi o seguinte: o mundo acabou mesmo antes do fim do mundo.
Terminara o universo sem espetáculo, sem rasgão nem clarão. Por definhamento, exaurido em desespero. E assim, vagamente, meu pai derivava sobre a extinção do cosmos. Primeiro, começaram a morrer os lugares-fêmeas: as nascentes, as praias, as lagoas. Depois, morreram os lugares-machos: os povoados, os caminhos, os portos.
Sobreviveu apenas este lugar. É aqui que vivemos de vez.
 
Silvestre fez de conta que não escutou e, impassível, prosseguiu:
– Esperas. É isso que a estrada traz. E são as esperas que fazem envelhecer.
 
Mais um passo atrás e Ntunzi se desamparou num abismo e ainda hoje ele está tombando, tombando, tombando. Para meu irmão o ensinamento era claro. A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo.
– Mulheres são como as ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor.
 
... E me falaram, então, do que havia sucedido no dia em que minha mãe fora a enterrar. “Enterrar” é apenas um modo de dizer. Afinal, nunca há terra suficiente para enterrar uma mãe.
  
Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão em tua boca.
 
– Nós, mulheres. Por que aceitamos tanto, tudo?
– Porque temos medo.
O nosso medo maior é o da solidão. Uma mulher não pode existir sozinha, sob o risco de deixar de ser mulher. Ou se converte, para tranquilidade de todos, numa outra coisa: numa louca, numa velha, numa feiticeira. Ou, como diria Silvestre numa puta. Tudo menos mulher. Foi isto que eu disse a Noci, neste mundo só somos alguém se formos esposa. É o que agora sou, mesmo sendo viúva. Sou a esposa de um morto.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A peste

Camus, Albert. A peste. Editora Record. Rio de Janeiro / RJ; 1947; 269 páginas.
 
Breve relato do autor:

Albert Camus foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra. Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor. Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957.

Dados da obra:

A Peste é considerada a obra máxima de Albert Camus. Publicada 1947, conta a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade em meio a uma peste que assola a cidade de Oran, na Argélia. Questiona diversos assuntos relacionados a natureza do destino e da condição humana. Os personagens do livro ajudam a mostrar os efeitos que o flagelo causa na sociedade.

Passagens:

Dir-se-á sem dúvida que nada disso é peculiar à nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem da manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viverem. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeita que exista mais alguma coisa. Isso em geral não lhes modifica a vida simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente moderna. Não é necessário, portanto, define a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoravam rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Também isso não é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.

Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como nossos concidadãos; é necessário compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: “Não vai durar muito, seria idiota! E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós.
 
... E uma tranquilidade tão pacífica e tão indiferente negava quase sempre esforço as velhas imagens de flagelo: Atenas empestada e abandonada pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos, os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seus mendigos horrendos; os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspenso por ganchos; o carnaval dos médicos mascarados durante a Peste Negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda a parte e sempre cheios dos gritos intermináveis dos homens...
 
Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Este próprio passado sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou aquela que esperavam – assim como a todas as circunstâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamos-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano faz viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campanha que, no entanto, se obstinava no silêncio.
 
Provavelmente, Jeanne tinha sofrido. Contudo, ficara: acontece que se sofre muito tempo sem saber. Os anos tinham passado. Mais tarde, ela partira. Na verdade, não partira só: “Gostei muito de você, mas agora estou cansada... Não me sinto feliz por partir, mas não é necessário ser feliz para recomeçar.”
 
... O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade. Os homens são mais bons que maus, e na verdade a questão não é essa. Mas ignoram mais ou menos e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza, então a matar. A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.
 
... Sem memória e sem esperança, instalavam-se no presente. Na verdade, tudo se tornava presente para eles. A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo a amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.
 
Durante alguns minutos, avançaram com a mesma cadência e o mesmo vigor, solitários, longe do mundo, libertados enfim da cidade e da peste. Rieux foi o primeiro a parar e voltaram lentamente, a não ser num momento em que entraram numa corrente gelada sem nada dizerem, ambos aceleraram os movimentos fustigados por esta surpresa do mar. Novamente vestidos, partir, sem terem pronunciado uma palavra. Mas entendiam-se, era suave a lembrança dessa noite. Quando viram de longe a sentinela da peste, Rieux sabia que Tarrou dizia para si próprio, como ele, que a doença acabava de esquecê-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomeçar.
 
Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a Peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cândido ou o otimismo

Voltaire. Cândido ou o otimismo. Peguim Classics Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2011; 179 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Voltaire foi um escritor, ensaísta e filósofo iluminista francês. Conhecido pela sua perspicácia e espirituosidade na defesa das liberdades civis, inclusive liberdade religiosa e livre comércio.
 
Dados da obra:
 
É um conto filosófico em tom de sátira publicado pela primeira vez em 1759 e que narra a história de um jovem, Cândido, vivendo num paraíso edênico e recebendo ensinamentos do otimismo de Leibniz através de seu mentor, Pangloss. A obra retrata a abrupta interrupção deste estilo de vida quando Cândido se desilude ao testemunhar e experimentar eminentes dificuldades no mundo.
 
Passagens:
 
“Está demonstrado”, dizia ele, “que as coisas não podem ser de outro jeito: pois tudo sendo feito para um fim, tudo é necessariamente pra o melhor fim. Notem que os narizes foram feitos para carregar óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para usar calças, e nós temos calças. As pedras foram formadas para ser tralhadas e para fazer castelos; assim meu senhor tem um belíssimo castelo; o maior barão da província deve ser o mais bem alojado; e os porcos sendo feitos para serem comidos, comemos porcos durante o ano todo; por conseguinte, aqueles que afirmaram que tudo está bem disseram uma bobagem; era preciso dizer que tudo está o melhor”.
 
 “Quê? Não tendes monges que ensinam, que disputam, que governam, que intrigam e que mandam queimar as pessoas que não compartilham as suas opiniões?” “Era preciso que fôssemos loucos”, disse o ancião. “Aqui somos todos da mesma opinião, e não entendemos o que nos dizeis com os vossos monges.” Cândido, com todos esses discursos, permanecia em êxtase, e dizia consigo mesmo: “Isto aqui é bem diferente da Westfália e do castelo do senhor barão: se o nosso amigo Pangloss tivesse visto o Eldorado, nunca mais teria dito que o castelo de Thunder-tem-tronckh era o que havia de melhor sobre a terra; é certo que é preciso viajar”.
 
... “Quando trabalhamos nos engenhos de açúcar e amó nos pega o dedo, cortam-nos a mão; quando queremos fugir, cortam-nos a perna: eu me encontrei nos dois casos. É a esse preço que vós comeis açúcar na Europa. Entretanto quando minha mãe me vendeu por dois escudos patagões na costa da Guiné, ela me dizia: ‘Meu filho, abençoa os nossos fetiches, adora-os sempre, eles te farão viver feliz, tens a honra de ser escravo de nossos senhores brancos, e faz com isso a fortuna do teu pai e da tua mãe’. Lamentável! Não sei se fiz a fortuna deles, mas eles fizeram a minha. Os cães, os macacos e os papagaios são mil vezes menos infelizes que nós. Os fetiches holandeses que me converteram me dizem todos os domingos que somos todos filhos de Adão, brancos e negros. Eu não sou genealogista, mas, se esses pregadores estão dizendo a verdade, somos todos primos provindos de germanos. Ora, haveis de concordar que não se pode tratar os parentes de maneira mais horrível”.
 
“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo”. “O que é otimismo?”, dizia Cocambo. “Lamentável!”, disse Cândido, “é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal...”.
 
“Deveis ter”, disse Cândido ao turco, “uma vasta e magnífica terra?” “Tenho apenas uns vinte alqueires”, respondeu o turco; “eu os cultivo com meus filhos; o trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade”.
 
“mas é preciso cultivar o nosso jardim”.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Livraria Limítrofe - O adeus

Medeiros, Alfer. Livraria Limítrofe – O adeus. Editora Estronho. Belo Horizonte / MG; 2011; 190 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Alexandre J. F. Medeiros (Alfer Medeiros), é profissional de TI. Além de Livraria Limítrofe já participou dos projetos UFO – Contos Não-Identificados, Fúria Lupina Brasil e Asgard – A saga dos nove reinos, Cursed City.
 
Dados da obra:

Livraria Limítrofe trata-se de um espaço diferente, que não tem endereço fixo e raramente é encontrada mais de uma vez. Ela surge no momento certo e oferece às pessoas comuns, amantes da leitura, outras nem tanto, o ambiente perfeito para atender suas necessidades. Pode-se dizer que é uma livraria personalizada, em que cada leitor encontrará livros de autores preferidos, acomodados em um ambiente de dimensões grandes ou pequenas, com decoração característica das obras.

Passagens:

Daqui você verá prateleiras de livros cobrindo todas as paredes deste piso térreo, e as obras nelas contidas foram selecionadas por mim e pela minha senhora. Você virá a conhecê-la em momento oportuno. Não me canso de apreciar a visão das belas lombadas coloridas formando esse arco-íris literário, um convite à boa leitura. Quando saio dos meus aposentados e adentro este recinto, tenho a impressão de ser saudado por um grande sorriso, vindo de todos os lados.

Ali traços carregados e repletos de tons de cinza e negro representavam uma cena de dramaticidade intensa. Homens com roupas militares fitavam impassivelmente uma mulher ajoelhada, abraçada aos seus dois filhos, um menino e uma menina. Seu rosto era uma máscara modelada sobre puro sofrimento. Ela deveria tomar uma decisão terrível, e isso a consumia de uma maneira profunda, machucava a alma. Seu desespero era quase palpável. Rapidamente Victoria dobrou esse lado da página, ocultando esta última ilustração e calando o choro da mãe. Lágrimas insinuavam-se novamente nos olhos da mulher sentada na cama e os cantos da sua boca direcionavam-se para baixo, aliados a um beicinho bem sutil.
Algumas vezes na vida, temos de tomar decisões parecidas com a dela, não é mesmo? – falou, com a voz embargada, segurando minha mão.  – Onde todos saem perdendo.
 
A utilização foi um pouco tímida no início, por pura falta de prática. Ao me acostumar com os comandos simples de seleção de obras e de navegação pelo conteúdo, pude notar que o aparelho era prático e agradável aos olhos. Claro, eu nunca trocaria o bom e velho livro de papel por esse aparato, mas pensei nessa nova geração de leitores, uma garotada já nascida em meio ao ambiente totalmente informatizado. Para eles, seria supernatural utilizar um desses leitores eletrônicos para apreciação de obras literárias.

Ah, então foi por isso que eles estavam tão paradões no início da conversa, e desembestaram a falar repentinamente! Beleza! Foi muito divertido vir até aqui. Até mais, amigo. E foi isso! Bacana, né? Sempre que posso, pego um dos livros que ganhei na loja e leio um continho, imaginando o próprio escritor narrando o texto para mim. Você enxerga o livro de outra forma, quando conhece pessoalmente o autor da obra!

Antes de ir, gostaria de deixar três citações, para que elas sirvam de inspiração nos seus dias de agradável labuta literária:
“Uma vida não basta ser apenas vivida. Também precisa ser sonhada”.
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
“Não entre em pânico!”