quinta-feira, 22 de maio de 2014

Beatriz

Tezza, Cristovão. Beatriz. Record; Rio de Janeiro / RJ; 2011; 141 páginas.

Breve relato do autor:

Cristovão Tezza é romancista e professor universitário. Nascido em Lages, Santa Catarina, ele mudou-se para Curitiba (PR) aos oito anos, sendo esta cidade palco de boa parte de sua literatura. É autor de “O Filho Eterno”, livrou que ganhou inúmeros prêmios, sendo, inclusive, eleito como o livro da década pela Revista Bravo.

Dados da obra:

Sete histórias longas e um prólogo revelador compõem Beatriz. Beatriz é a personagem do romance Um erro emocional, que acompanha agora o autor em situações originais. Em Beatriz, mergulhamos na ficção e, paralelamente, refletimos sobre as relações entre leitor e autor, leitura e livro, o escritor e a liturgia de seu trabalho.

Passagens:

(Prólogo)
Para não dizer que sou um escritor sem imaginação, o que seria um exagero mortificante, diria que sou um escritor de pouca imaginação fabular. Sempre morri de inveja dos autores de livros policiais, dos roteiristas de novelas, dos romancistas de aventuras, com suas sequências rocambolescas – enfim, de todos os grandes narradores que fazem da rede mortal da verossimilhança um discreto fio de aço que não se rompe nunca e vai nos levando naquela conversa absurda até a última página. Criança, comecei a escrever imitando-os, desesperado por fantasia, e fui sempre fragorosamente derrotado pelo impulso da realidade. Se dependesse da simulação desse fio verossímil, eu estaria morto. E há um outro ponto igualmente importante: onde a fábula é exuberante, há muitos personagens, que surgem aos borbotões, para meu desespero e meu ciúme mesquinho.

O problema é que escrever sempre tem consequências, você sai outra pessoa do outro lado da narrativa. Ao mexer com a linguagem, com os truques da sintaxe, com as relações de sentido, tudo aquilo que parece apenas um detalhe formal ou uma sacada de humor vai como que provocando um reajuste na percepção do mundo e seus valores, e você não consegue mais fingir que não tem nada a ver com isso. (Questão de ordem: quando digo “você”, refiro-me apenas a mim mesmo.)

Um pai entregaria a filha a um escritor, feliz da vida, sem saber o que a espera. Há os escritores gentis, os grotescos, as grandes promessas, os mal-educados, os sindicalistas, os ganhadores de concurso, os presidentes de associações, os pornógrafos, os perdedores de concurso, os francamente ruins, os autistas, os imitadores, os que mandam carta para a redação, os não escritores (que são diferentes dos maus escritores) e por aí vai.

... falar é entregar-se, escrever é ocultar-se...

“... Um apartamento, para quem sempre viveu numa casa, com seus telhados acolhedores e o céu bem à mão, é um espaço abstrato, frio, apenas uma ideia de moradia: habitamos um interior sem exterior, transformados em pensamentos que sobem elevadores e percorrem corredores, cavernas e grutas geométricas, túneis elevados onde vivem pessoas desconhecidas e de onde súbitas janelas derramam fachos artificiais de luz, e do alto vemos um cenário venusiano de prédios espetados...

É uma forma inadequada, ela tentou explicar enquanto tirava o relógio do pulso, deixando-o na mesinha, sobre o livro, ou antiquada, corrigiu-se. Sem marcar hora esta noite. Eu teria de estar de longo para que este relógio fizesse sentido, e ela foi de novo ao espelho do quarto, e pareceu-lhe agora que a cor vermelha do seu vestido era um pedido de socorro, o que a levou a rir – quase como alguém que vai contar essa piada a ele, só para quebrar o gelo. Gelo: o vestido verde era frio demais, distante demais; o branco, juvenil demais; o negro formal demais (se ainda tivesse outro desenho, essa manga tão... não sei; o bege, indiferente; o azul, muito... não sei, muito Cinderela.

Tenho problema com cachorros, pânico de infância, eu devia ter avisado antes, e parecia que a sua vida inteira era uma sequência de devias que, se realizados, fariam dela outra pessoa, outro ser, outra existência.

O princípio de organização dos livros é uma tarefa inesgotável e em última instância fracassada, porque por natureza eles refugam a ordem. Há um exagero de formas, livros de quatro centímetros de altura que pelo arbítrio da ordem alfabética teriam de ficar colados com livros de meio metro; há nomes que são sobrenomes, ou livros apenas com títulos; há gêneros inclassificáveis, autores que não sabem o que escrevem, edições sem ficha catalográfica, isso é serviço de especialista, e eu – e Beatriz quase desanimou.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Borges e os orangotangos eternos

Veríssimo, Luis Fernando. Borges e os Orangotangos Eternos. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2001; 133 páginas.

Breve relato do autor:

Luis Fernando Veríssimo é um escritor brasileiro,s conhecido por suas crônicas e textos de humor, mais precisamente de sátiras de costumes, publicados diariamente em vários jornais brasileiros. É também cartunista e tradutor, além de roteirista de televisão, autor de teatro e romancista bissexto. É filho do também escritor Érico Veríssimo.

Dados da obra:

Vogelstein é um cinquentão solitário que vive em Porto Alegre e passou uma vida entre livros. De repente, o destino sacode a mesmice de sua vidinha e leva-o a um congresso da Israfel Society, formada por especialistas em Edgar Allan Poe, em Buenos Aires. Ali ele terá a oportunidade de conhecer seu ídolo: Jorge Luis Borges. E, acabará no centro de um crime rocambolesco que envolve demônios arcanos e os mistérios da cabala. Muito divertido.

Passagens:

Tentarei ser os seus olhos, Jorge. Sigo mo conselho que você me deu, quando nos despedimos: “Escribe y recordarás”. Tentarei recordar, com exatidão desta vez. Para que você possa enxergar o que eu vi, desvendar o mistério e chegar a verdade. Sempre escrevemos para recordar a verdade. Quando inventamos, é para recordá-la mais exatamente.

Tenho cinquenta anos. Levei uma vida enclausurada, “sin aventuras ni asombro”, como no seu poema. Como você, mestre. Uma vida entre livros, protegida, em que raramente o inesperado entrou como um tigre. Mas não sou um ingênuo. Sou um cético, os livros me ensinaram todas as categorias de descrença e precaução contra o ilógico. Jamais poderia acreditar que o destino estava me chamando pelo nome, que tudo já estava decidido por mim e antes de mim por algum Borges oculto, que o meu papel estava me esperando como o vide papier de Mallarmé esperava seus poemas.

O congresso estava suspenso, a morte violenta de Joachim Rotkopf chocara a todos, inclusive você – mas você não conseguia esconder seu prazer. Não conseguia manter a boca numa posição correta de pesar e preocupação. Um congresso sobre Edgar Allan Poe interrompido por um assassinato num quarto fechado, como no conto do próprio Poe! Era lamentável, mas era fantástico. Várias vezes durante a nossa conversa, quando fomos visitá-lo naquela tarde depois do crime, uma expressão de felicidade correu pelo seu rosto como uma criança escapando ao controle de um pai severo, até ser dominado de novo. Eu sabia que você ia gostar, Jorge.

... Mas agora eu estava dentro da biblioteca de Jorge Luis Borges. Eu chegar ao centro do labirinto e o monstro me oferecera chá mate ou xerez. Eu estava no meio dos seus livros, sob as suas gravuras de Piranesi, bebendo seu chá certamente inglês, e você me ouvia, e desta vez não era um sonho...

– Viver significa deixar traços, não ruínas. Walter Benjamin.

... – Sir Thomas Browne tem um tratado sobre o X, que seria a representação da união do saber temporal e do saber mágico, a pirâmide para baixo e a pirâmide para cima – continuou você. – E também a duplicação do V, a letra romana com maior carga mística, pois representa os cinco sentidos humanos e é ao mesmo tempo forma, letra e número, ou geometria, escrita e matemática.

Lembro de tudo o que dissemos naquela noite. Exatamente.
Eu:
– O. A mãe das vogais. Símbolo de Deus. O que não tem começo nem fim.
Você:
– Uma serpente comendo o próprio rabo para sempre. Símbolo de Eternidade.

... As soluções estão sempre nas bibliotecas.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Quarto de Despejo

Jesus, Carolina Maria de. Quarto de Despejo. Ed. Ática; São Paulo / SP; 1993; 167 páginas.

Breve relato do autor:

Carolina Maria de Jesus foi uma escritora brasileira, nascida em Minas Gerais. Na adolescência veio para São Paulo trabalhar, onde teve vários envolvimentos amorosos, mas sempre se recusou a casar, por ter presenciado muitos casos de violência doméstica. Desses relacionamentos teve três filhos, e para sobreviver era catadora de papel. Começou a escrever um diário, contando o cotidiano dos moradores da favela Canindé, onde morava, além de fatos políticos e sociais da época. O diário transformou-se no livro Quarto de Despejo, atingindo grande repercussão e tornando-a conhecida mundialmente.

Dados da obra:

Em 1960, o jornalista Audálio Dantas fazia uma reportagem na favela Canindé, local onde vivia Carolina Maria de Jesus, e teria ficado encantado com o diário que ela escrevia. Depois da reportagem, Audálio se uniu ao pessoal da redação para publicar, em livro, o diário de Carolina, em que relata o seu dia a dia na favela e sua vida como catadora de papel. Seu texto é considerado um dos marcos da escrita feminina no Brasil e foi traduzido em mais de 13 de línguas. As narrativas do diário ficam entre o ano de 1955 e 1960.

Passagens:

15 de julho de 1955 – Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.

... Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me...

17 de julho – Domingo. Um dia maravilhoso. O céu azul sem nuvem. P SPC está tépido. Deixei o leito às 6;30. Fui buscar água. Fiz café. Tendo só um pedaço de pão e 3 cruzeiros. Dei um pedaço a cada um puis feijão no fogo que ganhei ontem do Centro Espírita da Rua Vergueiro 103. Fui lavar minhas roupas. Quando retornei do rio o feijão estava cosido...

– Os meus filhos estão defendendo-me. Vocês são incultas, não pode compreender. Vou escrever um livro referente à favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradáveis me fornece os argumentos.
Refleti: preciso ser tolerante com os meus filhos. Eles não tem ninguém no mundo a não ser eu. Como é pungente a condição da mulher sozinha sem um homem no lar. Aqui, todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens (...) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo.

... Fui catar papel, mas estava indisposta. Vim embora porque o frio era demais. Quando cheguei em casa era 22,30. Liguei o radio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.

(1958)
10 de maio – Fui na delegacia e falei com o tenente. Que homem amável! Se eu soubesse que ele era tão amável, eu teria ido na delegacia na primeira intimação. (...) O tenente interessou-se pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso, que as pessoas tem mais possibilidades de delinqui do que tornar-se útil a pátria e ao país. Pensei: Se ele sabe disto, porque não faz um relatório e envia para os políticos? O senhor Janio Quadro, o Kubstchek e o Dr. Adhemar de Barros? Agora falar para mim, que sou pobre lixeira. Não posso resolver nem minhas dificuldades.
... O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.
Quem passa fome aprende apensar no próximo, e nas crianças.

... E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!

... Eu classifico São Paulo assim: O Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos.

... O que o senhor Juscelino tem de aproveitável é a voz. Parece um sabiá e a sua voz é agradável aos ouvidos. E agora o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catete. Cuidado sabiá, para não perder esta gaiola, porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. E os favelados são os gatos. Tem fome.

... Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na politica para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso vogo prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade.

... Quando cheguei ao palacio que é a cidade os meus filhos vieram dizer-me que havia encontrado macarrão no lixo. E a comida era pouca, eu fiz um pouco do macarrão com feijão. E o meu filho João José disse-me: – Pois é. A senhora disse-me que não ia mais comer as coisas do lixo.
Foi a primeira vez que vi a minha palavra falhar. Eu disse:
– É que eu tinha fé no Kubstchek.
– A senhora tinha fé e agora não tem mais?
– Não, meu filho. A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo que está fraco, morre um dia.
... Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido.

Duro é o pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado.

... Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o Brasil porque eu lia a História do Brasil e ficava sabendo que existia guerra. Só lia os nomes masculinos como defensor da pátria. Então eu dizia para a minha mãe:
– Porque a senhora não faz eu virar homem?
Ela dizia:
– Se você passar por debaixo do arco-íris você vira homem.
Quando o arco-iris surgia eu ia correndo na sua direção. Mas o arco-iris estava sempre distanciando. Igual os políticos distante do povo. Eu cançava e sentava. Depois começava a chorar. Mas o povo não deve cançar. Não deve chorar. Deve lutar para melhorar o Brasil para os nossos filhos não sofrer o que estamos sofrendo. Eu voltava e dizia para a mamãe:
– O arco-iris foge de mim.
... Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são lugares do lixo e dos marginais. Gente de favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos.

Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa pensar nas misérias que nos rodeia (...) Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades (...) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.
Fiz o café e fui carregar água. Olhei o céu, a estrela Dalva já estava no céu. Como é horrível pisar na lama.
As horas em que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários.

O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém.

23 de junho... Passei no açougue para comprar meio quilo de carne para bife. Os preços era 24 e 28. Fiquei nervosa com a diferença dos preços. O açougueiro explicou-me que o filé é mais caro. Pensei na desventura da vaca, a escrava do homem. Que passa a existência no mato, se alimenta com vegetais, gosto de sal mas o homem não dá porque custa caro. Depois de morta é dividida. Tabelada e selecionada. E morre quando o homem quer. Em vida dá dinheiro ao homem. E morta enriquece o homem. Enfim, o mundo é como o branco quer. Eu não sou branca, não tenho nada com estas desorganizações.

... Tem pessoas aqui na favela que diz que eu quero ser muita coisa porque não bebo pinga. Eu sou sozinha. Tenho três filhos. Se eu viciar no álcool os meus filhos não irá respeitar-me. Escrevendo isto estou cometendo uma tolice. Eu não tenho que dar satisfações a ninguém. Para concluir, eu não bebo porque não gosto, e acabou-se. Eu prefiro empregar o meu dinheiro em livros do que no álcool. Se você achar que eu estou agindo acertadamente, peço-te para dizer:
– Muito bem, Carolina!

Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver o aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas úlceras. As favelas.

... Eu dormi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vestido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetáculo por isso. Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh´alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meu agradecimentos.

 ... O povo não sabe revoltar-se. Deviam ir no Palacio do Ibirapuera e na Assembleia e dar uma surra nestes políticos alinhavados que não sabem administrar o pais.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Modotti

De la Calle, Ángel. Modotti, uma mulher do século XX. Conrad; São Paulo / SP; 2005; 270 páginas.

Breve relato do autor:

Ángel de la Calle é um ilustrador, autor e crítico de quadrinhos espanhol. Também ajuda a organizar a Semana Negra de Gijón e Avilés Conferência Comic.

Dados da obra:

Em Modotti: Uma Mulher do Século XX, Ángel de la Calle tenta desvendar o mistérios da vida e da morte de Tina Modotti, fotógrafa e revolucionária de todas as vanguardas de seu tempo, artísticas e políticas. A HQ refaz os passos da revolucionária, desde sua infância em uma pobre cidade italiana, sua passagem pelo cinema, sua vida escandalosa no México, até sua vida de espiã, sua luta na Guerra Civil Espanhola e sua morte ainda sem explicação.

Passagens:

Há um café onde se misturam políticos, pistoleiros, criminosos comuns, toureiros, putas e atrizes de terceira. A personagem mais fascinante de todas é uma fotógrafa e modelo, além de prostituta de muita classe e Mata Hari do Comintern, chama-se Tina Modotti... – Kenneth Rexroth.

O que amas de verdade permanece o resto é escória.
O que amas de verdade não será arrancado de ti.
O que amas de verdade é tua verdadeira herança.
Mundo de quem, meu ou deles ou de ninguém?
Primeiro veio o visível, depois o palpável Elysium, ainda que fosse nas câmaras do inferno.
O que amas de verdade é tua verdadeira herança.
(Canto LXXXI. Ezra Pound)

O edifício mais lindo do século XX...
... coroado por uma inverossímil art –decô...
... um atracadouro para zepelins que nunca recebeu nenhum aparelho...
... criado unicamente para que, em nome de todos, um gorila gigante o escalasse com a mulher que amava nos braços...
O final da aventura do rei Símio ilustra nossa recorrente e secular derrota...
Contemplar o Empire, suas milhares de lajotas brancas de indiana, é o mais eficaz antídoto quando a melancolia nos prende...
Olhar esse longo poema em pedra corta a tristeza como o despertar corta os maus sonhos... assim era aquele dia de 1995 no qual Paco Taibo e eu chegamos a Nova York.
Um quente mês de julho...

Está vendo, Luz, me colocam para fazer fotos e traduções para El Machete... eu não entrei no ... partido para isto! Quero ajudar na rua!
Todo dia chegam meninos famintos e mulheres espancadas... quero participar de tudo isso!

Não, Luz, quero aprender a ser uma boa comunista... me esforçarei como pede Xavier... minha postura é individualista... mas vou mudar.
Tina, você é importante para as mulheres deste país... você foi a primeira a usar blue jeans! Não ria!
... seu estilo de vida, seus nus, seu trabalho... foram transcendentes para algumas de nós... e incomodam as burguesas e católicas mais que dez manifestações com foices e martelos.

Conhecemos as datas e acontecimentos daqueles meses de imersão de Tina na disciplina e prática comunista. Mas não captamos o essencial...
Como ela viveu aquele tempo? O que sentia? Mudou sua maneira colorida de se vestir pelos ocres e cinzas monásticos. Prendeu seus negríssimos e brilhantes cabelos. Foi abandonando as amizades que não participavam das causas que agora abraçava...
deu outra leitura fotográfica à miséria do México, que até então tinha entendido como forma de paisagem. Mas que sabemos de seu eu profundo?... Sentia relâmpagos de rancor? Como adormeciam os antigos desejos de uma conversa vivendo com um dogmático? Nas noites sem sono, quais estrelas ela olhava? Como se desenhavam seus medos, se os tinha?

Como se diz, o incidente está resolvido. A barca amorosa encalhou na mediocridade. Estou em paz com a vida. Não precisam enumerar dores, desgraças, ofensas mútuas.
Vladimir Maiakóvski – Continuem feliz – 12/4/30.

De todas as versões sobre o abandono definitivo da fotografia por Tina, fico com a de Pablo Neruda.
O poeta conta em suas memórias que uma noite sob o espesso céu moscovita, Tina caminhou até a beira do Rio Moskova... E depositou sua câmera, a amada Graflex, na corrente gelada. Não parece realista que isso tenha acontecido assim... mas que bonito teria sido!

A opinião de Tina em relação a Eisenstein era – não havia como não ser – ambivalente. Como não simpatizar com o homem que escreveu aquela carta a Goebbels?...
... como o intelectual culto que teorizava, que desenhava, que filmava a revolução. – Toio! Goebbels disse que o nacional-socialismo necessita de filmes com o Encouraçado Potemkin, mas fascistas! E Sergei respondeu... Eu gostaria de adaptar o Ulisses. Admiro a objetividade de Joyce. Fico Feliz que entenda sua grandeza, Tina.
Se não tivesse sido por Leonardo, Lênin, Freud e o cinema, eu seria mais um Oscar Wilde...

Entre os amigos de Tina em Moscou estavam Olga Benário e o brasileiro Luis Carlos Prestes. Olga judia e alemã, morreria na câmera de gás de um campo de extermínio nazista.
Luís Carlos Prestes, o cavaleiro da esperança, como é chamado pelo escritor Jorge
Amado em uma biografia precoce... do líder comunista no Brasil.

Imagino aquelas primaveras em Paris... e sonho com Tina presa pela nostalgia... dirigindo seus melancólicos passos pela margem esquerda do Sena... Visitando, como uma voyeur invisível, a acolhedora Livraria de Adrienne Monnier... cruzando com Walter Benjamin, o exilado interior. O único que parecia se dar conta de que a fotografia mudou a percepção da arte para sempre...
O que terão dito uma ao outro, a fotógrafa que já não fotografava, e o lúcido pensador assustado e suicida?
E uns metros adiante, a Livraria de Silvia Beach. Providencial ilha para vagabundos e náufragos da língua inglesa.

Quando, em 1991, se leilou Rosas, a foto de Tina, a empresário Susie Tomkins pagou 165.000 dólares por ela... Valia tanto porque, além de arte, era a obra de uma mulher comunista, e feita em um país exótico... tudo muito chique, muito anos 90!
Tina era artista engajada, vivia em terras distantes e... era mulher. Tinha se tornado glamorosa! 40 anos antes, seu trabalho incomodava tanto que era preciso escondê-lo dentro de um envelope barato de papel marrom.

Tina Modotti, irmã, você não dorme, não, não dormes. Talvez o seu coração ouça crescer a rosa de ontem, a última rosa de ontem, a nova rosa. Descanse docemente, irmã.
... (Neruda)

Quando quero me lembrar de Tina Modotti devo fazer um esforço, como se se tratasse de recolher um punhado de névoa. Frágil, quase invisível. Eu a conheci ou não a conheci? (Neruda)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Províncias – Crônicas da Alma Interiorana

Canellas, Marcelo. Províncias – Crônicas da Alma Interiorana. Editora Globo. São Paulo / SP; 2013; 224 páginas.

Breve relato do autor:

Marcelo Canellas é um jornalista brasileiro que iniciou sua carreira profissional como repórter de polícia, no jornal A Razão. Pouco tempo depois, fez um teste e foi contratado pela afiliada da Rede Brasil Sul de Comunicação (RBS) de Santa Maria. No telejornal local, trabalhou na criação de pautas, na produção e na edição.

Dados da obra:

Com uma trajetória de mais de 25 anos como repórter, rodando pelo mundo, Marcelo Canellas testemunhou diversos fatos da nossa história, mas carregando sempre consigo aquela alma interiorana do Rio Grande do Sul. No livro ele reúne 70 crônicas curtas em que a cidade transparece nos mais inusitados lugares em que esteve fazendo reportagens.

Passagens:

Tudo era mais demorado, mais difícil, mais trabalhoso. Então por que mal engolimos o almoço? Então por que estamos sempre atrasados? Então por que ninguém mais bota cadeiras na calçada? Alguém pode me explicar onde foi parar o tempo que ganhamos?

Só consigo me orientar caminhando. Cidades são decifradas a pé. Zanzo a esmo quando quero entendê-las ou, ao menos, fazer o meu próprio retrato de um recanto urbano. E sou detalhista, me embrenho nos becos, subo ladeiras, corto terrenos baldios, sigo gatos e cães vadios, meus guias involuntários nas trilhas aleatórias que desenho.

Livre, o guri faminto se aproxima. Preso, o elefante saciado espera. Então, o moleque estica o braço, tromba de menino. O bicho estende a tromba, braço de elefante. Os dois se tocam com curiosidade e ternura mútua. O guri pensa ouvir uns muxoxos muito humanos do hálito irracional que emana da jaula. Afinidade inexplicável. Espiritual?

Mas, quando nos aproximamos, serpenteando em volta do morro, a casa vai assumir seu tamanho real. Ou talvez seja mesmo ínfima, já que as crianças aumentam tudo. Partimos. O motorista zanzou serra acima, serra abaixo. Varri o olhar pelo morro inteiro. A casinha estava mais escondida do que nunca. Ou será que foi demolida? Ou será que nunca existiu? Só então fui tomado pelo assombro de uma súbita revelação: cheguei atrasado. Olhei pelo retrovisor o reflexo da placa indicando o impossível caminho: CASINHA ESCONDIDA: ENTRAR TRINTA ANOS ATRÁS.

De cabeça quente, fui tentar dormir, mas não consegui. Fiquei pensando em gatinhos com frio e com fome. Levantei, peguei o conta-gotas e fui ao galinheiro. Entre ninhos e poleiros e com os bichinhos no colo, achei que ovo demais pode aumentar a minha taxa de colesterol. O que é que têm os gatos que nos humaniza tanto?

Olhar as placas é uma diversão. Saio da BR-232 e entro em Vitória do Santo Antão. No entroncamento, encontro a indicação para Paudalho. Mais adiante, as setas para Chã de Alegria, Carpina, Lagoa de Itaenga e Glória do Goitá. Paudalho é a compactação de pau-d´alho, imagino, árvore comum na zona da mata pernambucana. Chã é palavra que não se usa mais, sinônimo para planície ou platô, e que torno a ver em outra placa grafada como Chan, de um português arcaico teimosamente vivo também no falar dos lavradores. Quando pergunto como chego a Glória do Goitá, uma senhora de mil anos, curvada ao peso de uma enxada de mil quilos, aponta para a subida íngreme de chã batido.
– Mecê arribe acolá.

Guardo comigo, dentro de um livro, a foto do homem da floresta. Sempre que acho que a cidade me oprime, que a humanidade está desamparada, que os justos estão perdendo a guerra pela decência e pela equidade, abro o livro e vejo a face borrada do homem da floresta olhando para cima, intuindo todos os tormentos dos quais está livre na prisão verde de sua solidão.

Foi num bistrô de esquina. Comida boa. Depois do jantar, eu pedi um pudim de pão. Não sabia o porquê. Adoro pudim de pão, mas tem que ser de leite, maciço e cremoso. Areado, nunca. Então o que me atraiu na sobremesa esdrúxula do cardápio? A primeira colherada aclarou tudo: aquele era o pudim do trem Húngaro. No meio do restaurante, ouvi o apito, aspirei o cheiro de fumaça, senti o reclinar da poltrona acolchoada. Em meu devaneio, vi o tapete do restaurante virar trilho e dormente. O garçom já era o bilheteiro. No quepe achatado, a sigla: RFFSA.

O mar de Pernambuco, cálido e translúcido, é o mar de um outro mundo, cuja perfeição de cor e temperatura sempre foi o contraponto irreal do mar feioso e barrento de minha infância, o mar gelado do Rio Grande do Sul, sem baías nem enseadas, litoral rabiscado em linha reta num cochilo de Deus, que tanto se esmerara em esculpir reentrâncias do Pará a Santa Catarina, mas que optara pela monotonia da costa gaúcha, para, não sei por que castigo, só voltar à graça das curvas em território cisplatino.

Prosear à toa é uma instituição brasileira. A deliciosa expressão “jogar conversa fora” presume um traço cultural de nosso povo, mas, ao contrário do caráter descartável que ela exprime, bate-papos despretensiosos costumam sanear grandes pendências pessoais e coletivas. Cadeiras na calçada são como divãs interioranos. Fala-se de tudo, e para tudo há remédio, seja em caso de dor de amor seja de pedra nos rins.

Meu objeto de desejo pôde, enfim, encontrar sossego, escorando um Simões Lopes Neto na prateleira dos meus autores prediletos, o que, aliás, acabou dando razão à Maria. A chaleira é velha o suficiente para ter aquentado a água do chimarrão do vaqueano Blau Nunes. Antes que o leitor reclame de mais uma de minha bobagem, eu peço a condescendência de uma licença poética: todos os personagens inventados pelos gênios da literatura são reais. E se Blau toma chimarrão, é numa chaleira igual à minha.

Quando estou numa cidade estranha, gosto de caminhar a esmo. O acaso é um cicerone engenhoso. De vez em quando, ele me leva a uma praça, belo presente fortuito. Praças dizem muito sobre uma cidade. Se estão limpas, com um jardinzinho florido, então se vê que a vizinhança é saudável, que as pessoas não perderam o viço da convivência.

A província tem cheiro de carne de panela, de café feito no bule, de bolinho frito na banha. A província é feita de gentilezas, cumprimentos e afeições, por desconhecidos que se tornam íntimos de tanto se cruzar na rua a caminho do trabalho. Aqui o medo não invade a minha casa como um trem de passageiros desgovernado. Trem? Mas que tolice a minha, as cidades cresceram e acabaram com os seus trens de passageiros. Não na minha crônica provinciana. Aqui, ainda estou na gare da vila, à espera da locomotiva. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O oceano no fim do caminho

Gaiman, Neil. O oceano no fim do caminho. Intrínseca. Rio de Janeiro / RJ; 2013; 208 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Neil Gaiman é um escritor inglês de romances e quadrinhos, autor da conhecida série em HQ Sandman.
 
Dados da obra:
 
O livro é sobre um homem e suas lembranças de infância. Mas mais do que as aventuras de um garotinho de sete anos, é sobre amizade, confiança e mudanças, e a forma como vemos o mundo. O olhar de uma criança sobre o mundo adulto.
 
Passagens:
 
Eu me lembro perfeitamente da minha infância... Eu sabia de coisas terríveis. Mas tinha consciência de que não deveria deixar que os adultos descobrissem que eu sabia. Eles ficariam horrorizados.
(Maurice Sendak, em conversa com Art Spielgman, na edição de 27 de setembro de 1993 da revista The New Yorker).
 
... Eu já estivera ali, não estivera, muito tempo atrás? Tinha certeza que sim. As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois, como brinquedos antigos esquecidos no fundo do armário abarrotado de um adulto, mas nunca se perdem por completo...
 
Quando envelhecemos, ficamos iguais aos nossos pais; viva o suficiente e verá os rostos se repetirem com o tempo. Eu me lembrava da sra. Hempstock, mãe da Lettie, como uma mulher corpulenta. A senhora na minha frente era magra, franzina e tinha uma aparência frágil. Era igual à mãe dela, que eu conhecera como a velha sra. Hempstock.
Às vezes, quando me olho no espelho, vejo o rosto do meu pai, não o meu, e me lembro do jeito como ele sorria sozinho, diante do espelho, antes de sair de casa. “Que bela figura”, dizia ao próprio reflexo, a título de aprovação. “Que bela figura”.
 
... Estava triste por ninguém ter ido à minha festa, mas feliz por ganhar um boneco do Batman, e ainda havia um presente de aniversário esperando para ser lido: a coleção completa de As crônicas de Nárnia, que levei para o meu quarto. Deitei na cama e me perdi nas histórias.
 
Em casa, meu pai comia todas as torradas mais queimadas. “Humm!”, dizia. “Carvão! Bom para a saúde!”, “Torrada queimada” Minha preferida!”, e devorava tudo. Quando eu já era bem mais velho, ele me confessou que jamais gostou de torrada queimada, só comia para não desperdiçar, e, por uma fração de segundo, minha infância inteira pareceu uma grande mentira: foi como se um dos pilares de fé sobre os quais meu mundo fora erigido tivesse se desfeito em pó.
 
– Sinto muito – lamentou Lettie. Nós andávamos sob um dossel de macieiras em flor, e o mundo cheirava a mel.  – Esse é o problema das coisas vivas. Não duram muito. Gatinhos num dia, gatos velhos no outro. E depois ficam só as lembranças. E as lembranças desvanecem e se confundem, viram borrões...
 
Crianças pequenas acham que são deuses, ou pelo menos algumas acreditam nisso e só ficam satisfeitas quando o resto do mundo concorda com seu jeito de ver as coisas. Eu adorava mitos. Não eram histórias para adultos e não eram histórias para crianças. Eram melhores que isso. Simplesmente eram.
 
Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos por seguir o mesmo trajeto, centenas de vezes, ou milhares, talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos, rastejar por baixo dos rododendros, encontrar os vãos entre as cercas. Eu era criança, o que significa que conhecia dezenas de modos diferentes de sair do nosso terreno e ir para a rua, modos que não incluíam descer pela entrada de carros na frente da casa.
 
A mão de Lettie Hempstock na minha me deu um pouco de coragem. Mas Lettie era só uma menina, mesmo sendo grande, mesmo tendo onze anos, mesmo tendo onze anos havia muito tempo. Ursula Monkton era adulta. Não importava, naquele momento, o fato de ela ser cada monstro, cada bruxa, cada pesadelo personificado. Ela era adulta, e, quando os adultos entram em guerra com as crianças, eles sempre vencem.
 
Ela chorava e aquilo me deixou constrangido. Eu não sabia o que fazer quando os adultos choravam. Era algo que eu só tinha visto duas vezes na vida: eu vi meus avós chorarem quando minha tia morreu, no hospital, e vi minha mãe chorar. Eu sabia que adultos não deveriam chorar. Eles não tinham mães que os consolassem.
 
Lettie Hempstock parecia feita de seda branca e chamas de velas. Fiquei me perguntando qual seria minha aparência aos olhos dela, naquele lugar, e soube que mesmo estando num lugar que era só conhecimento, aquela era a única coisa que eu não saberia. Se eu olhasse para dentro só veria espelhos infinitos, olhando para o meu interior por toda a eternidade.
 
Eu era uma criança normal. O que significa dizer que eu era egoísta e não estava totalmente convencido da existência de coisas que não eram eu, e tinha certeza, uma certeza sólida e inabalável, de que eu era a coisa mais importante da criação. Não havia nada mais importante para mim do que eu.
 
Quão longe cheguei? Não muito, imagino, numa situação dessas, Lettie Hempstock gritava para eu parar, mas mesmo assim, eu corri e atravessei o terreno da fazenda, onde cada folha de grama, cada pedra na estrada, cada salgueiro-chorão e cerca de aveleiras cintilava de dourado e eu corri em direção à escuridão além do terreno. Corri e me odiei por correr, do mesmo jeito que me odiei da vez que pulei do trampolim mais alto da piscina. Sabia que não tinha volta, que não havia outro jeito de aquilo acabar senão em dor, e sabia que daria minha vida pelo mundo.
 
Um lampejo de ressentimento. Já é difícil o bastante estar vivo, tentando sobreviver no mundo e encontrar o seu lugar nele, fazer as coisas de que se precisa para seguir em frente, sem se perguntar se aquilo que você acabou de fazer, o que quer que tenha sido, foi o suficiente para a pessoa que, se não morrera, desistira da própria vida. Não era justo.
– A vida não é justa – comentou Ginnie, como se eu tivesse dito aquilo em voz alta.
A velha sra. Hempstock deu de ombros.

– O que você lembrou? Provavelmente. Mais ou menos. Pessoas diferentes se lembram das coisas de jeitos diferentes, e você nunca vai ver duas pessoas se lembrando de uma coisa da mesma forma, estivessem elas juntas ou não. Se elas estiverem uma ao lado da outra ou do outro lado do mundo, isso não faz a menor diferença.

segunda-feira, 31 de março de 2014

A máquina de Joseph Walser

Tavares, Gonçalo. A máquina de Joseph Walser. Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2010; 163 páginas. 
 
Breve relato do autor:
 
Gonçalo M. Tavares é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.
 
Dados da obra:
 
É o segundo romance da série O Reino. O pacato funcionário Joseph Walser leva uma vida previsível, enquadrada pelos movimentos repetitivos da máquina industrial que opera. Entretanto, Walser tem uma paixão secreta - a enorme coleção que mantém fechada à chave, protegida até mesmo dos olhares de Margha, sua calada mulher.
 
Passagens:
 
A felicidade foi já reduzida a um sistema que as máquinas entendem, e no qual podem participar e intervir. Já nenhuma felicidade individual é independente da tecnologia, amigo Walser. Se quiser números podemos brincar aos números: a felicidade individual de um dia depende, vá lá, 70% da eficácia material das máquinas. Que a felicidade invisível esteja submetida a uma felicidade concreta, a uma felicidade de materiais em diálogo, de peças metálicas que encaixam um nas outras e resolvem problemas fazendo determinadas tarefas; pode parecer estranho, mas é o século.
Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos a palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.
 
Atenção exacta resuma assim o que era necessário para o ofício de Joseph Walser: ser um animal perfeito, um animal não animalesco, não imprevisível, um organismo sem flutuações, um organismo que conseguisse manter-se idêntico, imitável, durante todo o tempo em que estivesse defronte da máquina. Porque aquela máquina exigia a cada um dos funcionários um conjunto de gestos determinados, repetidos, e de sequência constante. Qualquer desvio ao gesto exacto, ao gesto decorrente da atenção exacta exigida, qualquer desvio teria como consequência uma perturbação na eficácia d máquina e portanto uma menor uma menor produção, ou mesmo uma avaria.
 
Joseph Walser sentia-se de facto, observado por ela, pela “sua” máquina. Eram para ele claras as hierarquias das duas existências: a maquina era uma hierarquia superior: poderia salvá-lo ou destruí-lo; poderia fazer a sua vida repetir-se, quase infinitamente, ou poderia, pelo contrário, de um momento para o outro, provocar uma alteração súbita nos seus dias. Joseph Walser nunca percebia melhor o seu papel de empregado, a sua existência subserviente em relação ao exterior do que em frente à máquina, em plena execução do seu ofício. A subserviência que se poderia notar nele face ao encarregado Klober era perfeitamente insignificante quando comparada com a que exibia no seu trabalho, encostado à máquina, abraçando-a ou combatendo-a (de acordo com o ponto de vista). Nunca o exterior o dominava tanto, nunca a sua energia se dirigia para fora como nessa situação.
 
Não era da guerra, há muito havia decidido manter-se neutro. O exército já entrara na cidade, mas tal não era um assunto seu. Via a guerra como uma ciência que não dominava: não percebia o que era, não entendia os métodos, as estratégias, as formas de calcular. Não devo falar do que não entendo, dizia a si próprio Walser, muito menos devo agir sob re o que não entendo. Deve assistir-se aquilo que não se entende. Apenas.
 
A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.
 
... Enquanto a sombra repetir no chão o teu corpo inteiro eis que te encontras vivo e completo.
 
Joseph Walser envelhece, mas mantém a adoração pela “sua” máquina de trabalho e por todos os mecanismos. Em diversos momentos o som do motor e o seu trepidar confundem-se com o bater cardíaco, pois ambos os “órgãos” estão em pleno funcionamento, em plena excitação e encostados um ao outro misturam-se, provocando em Walser, por vezes, sobressaltos ridículos quando, a horas certas, às horas exactamente planeadas, o motor da máquina subitamente cessa. É aí que Walser percebe a ligação que existe entre o seu corpo e a máquina. O cessar repentino provoca na sua pele um frio instantâneo, uma sensação rápida e tão desagradável que o faz, por exemplo, procurar em livros científicos a descrição pormenorizada do que sentem alguém quando o coração falha. Walser tenta perceber se a separação brutal entre o funcionamento do motor da máquina não é algo semelhante à separação entre o coração de um homem e esse mesmo homem. Tinha lido que um ataque cardíaco não mortífero era relatado assim: o órgão afasta-se de nós, a grande velocidade... mas depois regressa.
 
O coração afasta-se do resto do corpo. Afasta-se, esta palavra era o fundamental. Havia uma distância percorrida nos acidentes cardíacos, uma distância percorrida internamente: um dos órgãos essenciais afastava-se, caminhava no sentido oposto ao resto do corpo. E era isso que Walser sentia quando estava excitado e engolido pelo funcionamento da sua máquina e esta parava de repente; e parava não por uma razão obscura, não por algo que merecesse raciocínio para ser compreendido, parava simplesmente porque eram doze horas, e às dozes horas o motor de cada máquina era desligado na central da fábrica.
 
A coleção tornara-se uma obsessão tal que, mal Walser via uma peça metálica com as condições exigidas, não desligava a sua atenção, que se poderia designar como predadora (atenção predadora, de caça). Não a desligava até conseguir um momento de desatenção dos outros que lhe permitisse pegar na peça ou roubá-la (poderá utilizar-se esta palavra, pois era isso que sucedia).
 
Cada acontecimento individual poderia assim ser, não reduzido mas assemelhado – era o sinal de igual, de idêntico, e não um diminuição, não um roubo, poderia ser assemelhado então a um somatório de gestos, tal como uma máquina, por mais complexa que fosse, e por mais espantosas que fossem as suas ações, não deixava de ser um somatório de peças que sob determinadas circunstâncias agiam. Ele não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação as máquinas. Conseguir distanciar-se do mecanismo que o constitui não faz o mecanismo deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório simples. Era o sinal mais que predominava em qualquer ser vivo, e a morte era espantosamente assustadora precisamente porque representava a interrupção abrupta de um somatório que, a certa altura, todos eram levados a pensar ser interminável. Como se cada um, a dado momento, considerasse o seu corpo, por outras palavras: um somatório imortal de comportamentos. Ninguém, neste século, depois de sucessivas gerações terem desaparecido – e mesmo em plena guerra, onde a morte era mais visível que nunca –, deixava ainda de ser surpreendido (estava disso convencido Walser) pela sua própria morte. Somos sempre surpreendidos! Como se nos considerássemos no direito, depois de tantos dias de existência, de não sermos interrompidos; no direito, no fundo, de pertencermos a uma outra espécie, à tal espécie interminável. Mas de uma eternidade individual, aqui se trata, de uma eternidade com o nosso nome, que se fixa na nossa existência.
 
Agir com um sentido importante era a normalidade do tempo de guerra e a preguiça era o seu oposto. Ver alguém a não fazer nada e não querer fazer nada causaria tanta estranheza e, provavelmente, tanto repúdio como ver em pleno jardim, na Primavera, um louco a repetir movimentos bruscos e acelerados: arrancando flores com violência, pisando canteiros, abrindo buracos na terra com os dedos. Em tempos de grande intensidade alguém que não soubesse para onde caminhava ou para que fazia aquilo que fazia, estaria louco pois estaria abstraído dos acontecimentos. Afundar-se no mundo abstracto em períodos de guerra – momento absoluto do concreto, da matéria e das forças que chocam e combatem – era o mais violento dos actos. Talvez mesmo o mais imoral.
 
... E, meu amigo, não poderia ter existido maior exactidão na sua máquina: em plena guerra, o que é que ela lhe fez, a sua máquina? Apenas isto: levou-lhe o dedo mais útil, o que dispara, o dedo que faz a última contracção antes de alguém à sua frente desaparecer. Troçaram de si, meu caro. Devemos recear as máquinas, já lhe tinha falado isto. Elas são demasiado exactas na maldade. Nunca conseguiremos fazer igual.