quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Rumor Branco

Faria, Almeida. Rumor Branco. Difel, Lisboa / Portugal, 124 páginas.

Breve relato do autor:

Almeida Faria é um escritor português que, aos 19 anos, publicou seu primeiro e premiado romance, Rumor branco. Além de romancista, é autor de ensaios, contos e teatro. Ao conjunto de sua obra foi atribuído o prêmio Vergílio Ferreira da Universidade de Évora e o prêmio Universidade de Coimbra.

Dados da obra:

Rumor Branco é uma representação do mundo português de 1962 enquanto náusea. A linguagem é fragmentada, quase sem pontuação, sintaxe ousada, neologismos, provérbios em demasia. Não tem uma história em si, mas recortes da vida de Daniel João, uma voz dissonante.

Passagens:

... nitidamente a viste em breve entrando em casa atrave3ssando o mudo átrio àquela hora vazio logo a seguir a morte o irmão correndo ao seu encontro com lágrimas nos olhos ela abraçando-o muito: por que choras se a mãe agora já não sofre? Por que choras então senão por ti? Por egoísmo choras...

... estavam diante do cinema num segundo, saltaram correndo pra entrada apinhada da gente não só que ia entrar mas que da chuva se abrigava ou que apenas olhava as pessoas que entravam ou ainda que olhava as pessoas que olhavam as pessoas que entravam.

Ao intervalo quase nem falaste com Regina e Pedro que deixaste no bar tomando dois cafés enquanto divagavas pelo átrio e sacada, no flagrante em que estavas ao alto das escadas Pedro e Regina vieram ter contigo e tu os vias em picada de cima com olhos de cinema primeiro em plano-geral ainda no meio da assistência depois plano-de-conjunto grande e logo de-meio-conjunto plano em seguida de-pé depois americano cortados pelos joelhos depois plano-de-peito aproximado seguidamente plano-vasto até que as caras se chegaram num grande plano ao nível das gargantas e finalmente inesperadamente filmaste em plano-de-detalhe os lábios de Regina que fechavam-abriam sem que entendesse bem o que diziam.

... e falam faladram falam até à fadiga contra a vida que os faz assim falar para ocultar o nada...

... é a hora em que, neste lugar, eu sei que não sou eu, sou sempre nós e sei que nunca serei só porque somos um corpo que tudo une e ama unindo no amor dando e recebendo e aumentando o dom por dom da doação sei que qualquer coisa se abre à evidência de que fomos criados para que nos criássemos, que para nos fazermos fomos feitos e que os homens não nascem mas se fazem, a cadainstante se fazem e nisso está a liberdade deles, não em fazer o que se quer, mas o que quer o ser, o que cada um é e não sabemos o que é mas sabemos que é...

Anders relata: raramente o raro rato ruivo rói a roupa remendada do rapaz romano que ruidoso rema rindo no rio de Roma...

... que mensagem me trazem dela não sabemos quem é só sabemos que é ela nada nihil nichts niente nothing nada é o que sou nada exprime aquilo que sou nada me exprime do que é nada me é como posso esperar se nada me diz o que espero com desesperada esperança mas espero com esperança ou sem ela espero pela esperança espero por ela anônimo... 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

K

Kucinski, Bernardo. K. Expressão Popular, São Paulo / SP, 2011; 177 páginas.

Breve relato do autor:

Bernardo Kucinski é um jornalista e cientista político brasileiro, e professor da Universidade de São Paulo (USP). Ministra a cátedra de Jornalismo Internacional, entre outras.

Dados da obra:

O romance narra a história de um pai em busca da filha que desapareceu, como tantos outros, durante a ditadura no Brasil. A narrativa a um tempo enxuta e sensível de Kucinski é feita de capítulos quase independentes, apresentando vários ângulos de uma mesma história – a história da ausência e da impunidade.

Passagens:

K. tudo ouvia, espantado. Até os nazistas, que reduziam suas vítimas a cinzas, registravam os mortos. Cada um tinha um número, tatuado no braço. A cada morte, davam baixa num livro. É verdade que nos primeiros dias da invasão houve chacinas e depois também. Enfileiravam todos os judeus de uma aldeia ao lado de uma vala, fuzilavam, jogavam cal em cima, depois terra e pronto. Mas os goim de cada lugar sabiam que os seus judeus estavam enterrados naquele buraco, sabiam quantos eram e quem era cada um. Não havia a agonia da incerteza. Eram execuções em massa, não era sumidouro de pessoas.

A imagem repentina de Guita puxou a do delegado que o expulsava do topo da escadaria de Varsóvia aos gritos de que sua irmã nunca fora presa, de que teria fugido para Berlim, isso sim, com algum amante.
Ainda pensava em Guita quando chegou ao general, que o recebeu com maus modos. Mandou-o sentar com rispidez. Reclamou que ele estava espalhando na comunidade judaica acusações pesadas e sem fundamento contra os militares. E se sua filha fugiu com algum amante para Buenos Aires? O senhor já pensou nisso?
Mas nada disso explica eles se casarem às escondidas, voltava ele a raciocinar. Casamento oculto é uma contradição, um paradoxo, pois a função do casamento é justamente dar publicidade à formação de uma nova família à mudança no estatuto de dois jovens. Por isso os casórios são espalhafatosos. Se não é para proclamar, não é preciso o casamento, basta viverem juntos. Mistério.

Fiquei imaginando que tipo de situação inspirou o Buñnel, se foi o franquismo, se foi o catolicismo, se foi alguma coisa da vida dele, pessoal. Seja o que for é um belo estudo sobre o que leva as pessoas a fazer o que faze, a caminhar numa direção sem saída e não ter forças para mudar.

Antes ele insinuou que ela não era puta, agora fala em suicídio. O que sabe ele? Não sabe de nada. Ou ele quer dizer que ela não era uma boa judia, uma mulher justa, porque o marido era gói? Com esse tipo de argumento negaram às polacas o direito ao sepultamento no cemitério da Vila Mariana; elas que não eram bandidas, apenas judias pobres enganadas pela máfia – uma história dolorosa por todos escondida –, tiveram que criar seu próprio cemitério, lá no Chora Menino. As polacas de Santos também.

Ao deparar na vitrine da grande avenida sua própria imagem refletida, um velho entre outros velhos e velhas, empunhando como um estandarte a fotografia ampliada da filha, dá-se conta estupefato, da sua transformação. Ele não é mais ele, o escritor, o poeta, o professor de iídiche, não é mais um indivíduo, virou um símbolo, o ícone do pai de uma desaparecida política.

Alguns anos mais e a vida retomará uma normalidade da qual para a maioria, nunca se desviou. Velhos morrem, crianças nascem. O pai que procurava a filha desaparecida já nada procura, vencido pela exaustão e pela indiferença. Já não empunha o mastro com a fotografia. Deixa de ser um ícone. Já não é mais nada. É o tronco inútil de uma árvore seca.

E só agora percebe, naqueles recortes de tempo e espaço, como a filha fora um ser frágil. K. nunca imaginou que fotografias pudessem suscitar sentimentos assim fortes. Algumas até parecem querer contar uma história. Para ele, isso só conseguiam um Pushkin ou um Sholem Aleichem, com a força das palavras. Fotografias, ele antes pensava, eram apenas registro de um episódio, a prova de que aquilo aconteceu, ou retratos de pessoas, um documento. No entanto, ali estão fotografias da sua filha sugerindo delicadeza e sensibilidade. Parecem captar a alma da filha. Sentiu um quê de fantasmagoria nas fotografias da filha já morta, um estremecimento.

Seria uma limitação da língua iídiche? Será que esse povo tão maltratado não conseguia expressar sofrimento na sua própria língua? Não pode ser. Embora só nos últimos cem anos tenha surgido uma verdadeira literatura iídiche, a língua mesmo já tem mais de mil anos e, antes do holocausto, era falada por mais de dez milhões de pessoas.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A origem do mundo

Edwards, Jorge. A Origem do Mundo. Cosac Naify, São Paulo / SP, 2014; 160 páginas.

Breve relato do autor:

Jorge Edwards é uma das figuras de prosa da literatura chilena contemporânea. Escreveu poesia e romances. Como muitos escritores e poetas chilenos, enveredou pela carreira diplomática.

Dados da obra:

Na história, o casal de médicos Silvia e Patricio Illanes, exilados em Paris após o golpe de Pinochet, em 1973, convive com o amigo Felipe Diaz, um boêmio livre e sedutor, além de corajoso crítico dos velhos dogmas da esquerda. Com a morte do amigo, o que antes era apenas uma silenciosa desconfiança sobre os sentimentos de Silvia se fortalece e, tomado pelo ciúme juvenil aos 70 anos, Illanes começa uma patética investigação cuja principal pista é a reprodução de um célebre quadro de Gustave Courbet.

Passagens:

... O ciúme é uma paixão extremamente nociva, que nos faz ver fantasmas por todo o lado...

... Lênin, um pequeno-burguês, diferente de Bakunin, de Rosa de Luxemburgo, e que impôs, por isso, uma disciplina repressiva, com a ideia de que assim salvava a Revolução, quando na realidade a fodia para sempre, e depois de Lênin veio o camarada Stálin, o Paizinho dos Pobres, e aí sim que cagaram tudo, porque o Paizinho arrasou todos, castrou, encheu de cárceres mentais e outros.

Digo sempre que o golpe militar, de certa forma, nos abriu os olhos. Os homens nunca dizem essas coisas, e menos ainda quando são políticos ou politiqueiros, como são todos os chilenos, sem exceção, os que permanecem no país e os que partiram para o exílio, mas as mulheres, sim, podem dizer isso. O golpe nos fez conhecer o mundo à força. E não podemos mais voltar, nem a Iquire nem a parte alguma. Já nãohá volta; a volta, agora, é uma antecipação da morte.

... O doutor colocou os óculos de leitura, abriu o folheto e ficou sabendo que o quadro havia sido encomendado a Coubert por um bei da Turquia, membro do Jet set, pensou o doutor, da Paris de meados do século XIX e que a obra tinha permanecido em um aposento reservado, oculta por uma cortina verde e por uma portinhola onde um pintor de segunda linha havia pintado as ameias de um castelo e uma paisagem bucólica, percorrida por pastores, por riachinhos, por longínquos, rebanhos de ovelhas. Aprendeu também que, depois de algumas mudanças de proprietário, havia terminado na casa de campo de Jacques Lacan, cuja viúva era filha de Georges Bataille, o autor de Minha mãe e de História do olho.

... Porque sofrer, atormentar-se, é também uma forma – heroica – de resistir à velhice, de opor uma ilusão de vida ao implacável avanço da morte.

“São mais numerosas, Lucílio, as coisas que nos amedrontam do que aquelas que verdadeiramente nos fazem mal, e com mais frequência nos afligimos com o que supomos do que com os próprios fatos.” – Sêneca.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Terra Sonâmbula

Couto, Mia. Terra sonâmbula. Companhia das Letras, São Paulo / SP, 2007; 205 páginas.

Breve relato do autor:

Mia Couto nasceu em Moçambique. Estudou medicina antes de se formar em biologia. Atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra; em 2007, o prêmio União Latina de Literatura Românicas.

Dados da obra:

Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil que devastou Moçambique. O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os "cadernos de Kindzu", o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga, e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra.

Passagens:

... A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.

– Não gosto de pretos, Kindzu.
– Como? Então gosta de quem? Dos brancos?
– Também não.
– Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça.
– Não. Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que eu gosto de si, Kindzu.

Mais uma vez contempla a palavra escrita na estrada. Ao lado, volta a escrevinhar. Lhe vem uma outra palavra, sem cuidar na escolha: “LUZ”. Dá um passo atrás e examina a obra. Então, pensa: “a cor azul tem o nome certo. Porque tem as iguais letras da palavra ‘luz’, fosse o seu feminino às avessas”.

As ideias, todos sabemos não nascem na cabeça das pessoas. Começam num qualquer lado, são fumos soltos, tresvairados, rodando à procura de uma devida mente.

– Há mulheres que são chuva, outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente se despentear com ela.

– Por que me conta tudo isso, mamã Virgínia?
– Porque quero que me passes a escrever.
– Escrever?
Era. Farida deveria enviar-lhe cartas, falseando autorias, fingindo o longe. Foi o que passou a fazer, se entretendo a ser, de cada vez, um diferente familiar. Nunca pôde imaginar quanta bondade estava criando. Virgínia lia as cartas com aquele soluço que é o tropeço do choro. Farida escutava em tal embalo que se desconhecia autora da missiva. Ou era a velha que inventava, refazendo a irrealidade do escrito?

E afastou-se, suas costas mirrando no escuro. Naquele momento começava a segunda orfandade de Farida.
Por um tempo ela ficou na Missão, num pequeno quarto cheio de sossego. Estudava, lendo o mais que podia. Se fantasiava, enchendo o tempo. As lhe faltava o acontecer da vida, a quentura do mundo onde nascera. Aquele lugar lhe deixava um frio interior. Afinal, todos queremos no peito o nó de um outro peito, o devolver da metade que perdemos ao nascer.

– Não devias ter voltado, filha.
Que a gente da aldeia não haveria de a querer ali, ida e voltada, outrora menina da terra, hoje mulher de visita. Se saíra, cortara os laços, não devia mostrar o golpe da partida. Porque nela lhes doía o terem ficado. A formiga incomoda é dentro das roupagens.

– Nasci num barco, sou filho das águas, sorri Nhamataca a fechar a estória.
E adianta lição: nenhum rio separa, antes costura os destinos dos viventes. A prova era o seu nascimento. Agora, ao gerar um rio, Nhamataca paga uma dívida para com um tempo mais antigo que o passado. Talvez que um novo curso, nascido a golpes de sua vontade, traga de volta o sonho àquela terra mal amada.

O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco.

... E#u sei que em cada mulher a gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava essa doce mentira, o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. A cintura de suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não há-de-vir.

– Tio, eu me sinto tão pequeno...
– É que você está só. Foi o que fez essa guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos. Agora já não há país.

– Pai, por que nunca me mostraste como eras, dentro de ti?
– Tinha medo, filho. Não podia mostrar esse defeito e dizer: olha este meu coração que nunca cresceu!

Os vizinhos não variavam: a velha durava mais que a validade de seu corpo. Deixassem seu sonho enlouquecer. E perguntavam, entre risos: o grilo, quando nasce, já tem a toca feita? É assim a velhice. Virginha que trocasse passado por futuro, sonhasse não com o fim da vida mas com as nascenças que lhe faltavam.

– O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?
– Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando.
– E alguém vai ler isso?
– Talvez.
– É bom assim: ensinar alguém a sonhar.
– Mas pai, o que passa com esta nossa terra?
– Você não sabe, filho. Mas enquanto os homens dormem, a terra anda procurar.
– A procurar o quê, pai?
– É que a vida não gosta sofrer: A terra anda procurar dentro de cada pessoa, anda juntar os sonhos. Sim, faz conta ela é uma costureira de sonhos.

... o barquinho balouça. Aos poucos se vai tornando leve como mulher ao sabor de carícia e se solta do colo da terra, já livre, navegável. Começa então a viagem de Tuahir para um mar cheio de infinitas fantasias. Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo.

... A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Os sofrimentos do jovem Werther

Goethe, J. Wolfgang. Os sofrimentos do jovem Werther. Nova Alexandria, São Paulo / SP, 1999; 144 páginas.

Breve relato do autor:

J. W. Goethe foi um escritor alemão e pensador que também fez incursões pelo campo da ciência. Como escritor, foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, nos finais do século XVIII e inícios do século XIX.

Dados da obra:

Os sofrimentos do jovem Werther é um marco do romantismo, considerado por muitos como uma obra-prima da literatura mundial, é uma das primeiras obras do autor, de tom autobiográfico - ainda que Goethe tenha cuidado para que nomes e lugares fossem trocados e, naturalmente, algumas partes fictícias acrescentadas, como o final.
O jovem Werther é marcado por uma paixão profunda, tempestuosa e desditosa. Sofre com a impossibilidade de consumar o amor ao se enamorar por uma jovem, Charlotte, já prometida a outro homem. A história é contada por meio de cartas enviadas por Werther ao seu amigo e também por intervenções do narrador.

Passagens:

Bem sei que não somos iguais, nem o poderíamos ser, mas acho que todo aquele que julga ser necessário afastar-se do que chamamos de povo para fazer-se respeitar é tão censurável quanto o covarde que se esconde do inimigo por medo de ser derrotado.

Farei o possível para vê-la o quanto antes, ou, pensando bem melhor, devo evitá-la. É preferível vê-la através dos olhos de seu apaixonado: talvez os meus não a vejam tal como ela agora se apresenta em minha mente. Por que, então, macular tão bela imagem?

... O autor que prefiro é aquele no qual se encontra o mundo em que vivo, em cujos livros as coisas se passam como em volta de mim, e cuja narração me prende e me interessa tanto quanto minha vida doméstica que, se não é nenhum paraíso, representa para mim uma fonte de inexprimível felicidade.

Considero-me imensamente feliz apenas por poder sentir a simples e inocente alegria do homem que põe em sua mesa um legume que ele próprio cultivou, e que não apenas o saboreia, mas igualmente, e num só momento, sorve todos esses dias felizes, a linda manhã em que o plantou, as encantadoras tardes e que o regou e teve o prazer de vê-lo crescer, dia após dia!

Falam que a pedra de Bolonha, exposta ao sol absorve os seus raios, e durante a noite se conserva luminosa durante algum tempo. Tive a impressão de que o mesmo se dava com aquele rapaz. A ideia de que os olhos de Lotte lhe haviam fitado o rosto, as faces, os botões de sua roupa, a gola do sobretudo, tornava tudo nele precioso e sagrado. Nesse momento, eu não cederia meu criado nem por mil táleres. Sua presença me fazia bem. Pelo amor de Deus, não vá rir de mim! Wilhelm, como pode ser ilusão aquilo que nos faz tão felizes?

– Chama a isso fraqueza? Por favor, não se deixe conduzir pelas aparências. Ousaria chamar de fraco um povo que, sofrendo o jugo irrespirável de um tirano, um dia se revolta e arrebenta suas cadeias? Devemos chamar de fraco o homem que, ante a horrível visão do incêndio ameaçando-lhe a casa, sente todas as forças exaltadas e carrega facilmente os fardos que, a sangue-frio, mal poderia mover? Ou então o homem que, enfurecido por uma ofensa, confronta seis outros e os vence? Mas, meu amigo, se o esforço constitui a força, por que motivo o esforço extremo seria considerado debilidade?

Estou certo de que somente o amor torna o homem necessário neste mundo.

... Ah! O que sei, todos podem saber... Mas este coração é somente meu.

Ah! Tão transitório é o homem que, mesmo nos lugares onde tem absoluta certeza de sua existência, sua presença deixa gravada uma impressão indelével na lembrança e na alma de seus amigos, mesmo ali vai se apagar, desaparecer num piscar de olhos.

... Que homem, que pai poderia encolerizar-se, quando seu filho, chegado de súbito, o abraçasse e exclamasse: “Estou de volta, meu pai! Não fique zangado se abrevio peregrinação que, segundo sua vontade, deveria seguir por mais tempo. O mundo é o mesmo em toda parte, após o cansaço e o trabalho, a recompensa e o prazer. Mas de que me vale tudo isso? Só me sinto bem perto de você, e quero ser feliz ou infeliz em sua presença...”
Oh, Pai celeste e misericordioso, poderia repelir esse filho pródigo?

Por que é que teve de nascer com essa impetuosidade, com essa paixão indomável que o prende a tudo que o impressiona? [...] Por favor, modere-se! Seu espírito, seus conhecimentos, seu talento, quantos prazeres eles lhe oferecem! [...] Não percebe que está se iludindo, que está se arruinando voluntariamente? Por que eu, Werther? Justamente eu...

E que importa que Albert seja seu marido? Seu marido! Isso é bom para o mundo... o mundo, para o qual é um pecado eu amar você e querer tirar-lhe de seus braços. Pecado? Que seja! Irei me punir por minhas próprias mãos. Saboreei este pecado em toda a sua celeste volúpia; o meu coração absorveu-lhe o bálsamo e a força da vida. Desde esse momento Lotte, você é minha, é minha.  Vou primeiro para junto de meu Pai, para junto de seu Pai. Não deixarei de queixar-me perante Ele, e Nele buscarei consolo, enquanto espero a sua vinda. E sairei a seu encontro, e a levarei comigo, e ficarei junto de você, num abraço eterno, diante da face do Deus infinito.

Quando vejo as limitações que aprisionam a capacidade humana de ação e pesquisa; quando vejo que toda a atividade se esgota na necessidade cujo único propósito é prolongar nossa pobre existência, e ainda que toda a tranquilidade em relação a certas questões não passa de uma resignação sonhadora, pois as paredes que nos aprisionam estão cobertas de formas coloridas e perspectivas luminosas...

... Mas, quando já está prestes a tomar esse rumo, lembra-se da fábula do cavalo que, insatisfeito com sua liberdade, deixou que lhe colocassem sela e arreios, para que o cavalgassem e acabassem com ele.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Passaporte para a China

Telles, Lygia Fagundes. Passaporte para a China. Companhia das Letras, São Paulo / SP, 2011; 89 páginas.

Breve relato do autor:

Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira, que recebeu o Prémio Camões em 2005. É membro da Academia Paulista de Letras desde 1982, da Academia Brasileira de Letras desde 1985 e da Academia das Ciências de Lisboa desde 1987.

Dados da obra:

Em 1960, delegações de todo o mundo participaram da festa do 11o. aniversário do socialismo chinês. Embora não se considerasse comunista, Lygia Fagundes Telles foi incluída no grupo brasileiro e resolveu enfrentar o pânico dos “aviões a jato”. Antes de embarcar, ela recebeu outra proposta: enviar relatos da viagem para o jornal Última Hora. Daí surgiram 29 crônicas, que formam um instrutivo, comovente e divertido diário de bordo, ambientado em várias cidades. O livro conta ainda com um pequeno caderno de fotos tiradas durante a viagem.

Passagens:

A voz anuncia em francês o retorno ao avião. Sigo pelo aeroporto no passo do constrangimento, ah! Seria bom ficar mais tempo em Dacar mas é preciso prosseguir e ser amável com o comissário de bordo, um jovem sorridente que nos deseja uma boa viagem! Abro um sorriso amarelo e penso no poema de Carlos Drummond de Andrade, Cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, / depois morreremos de medo / e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Outono e a folhagem das árvores com um tom de ouro antigo. Um frio suave corre na brisa. Acendem-se as primeiras luzes. Vou lendo nas tabuletas os nomes das praças, das ruas e muitas são minhas conhecidas pois por elas passaram tantas personagens de livros que li desde a adolescência. A emoção me enternece, inútil pensar na literatura porque mais bela que a palavra escrita é aquele chafariz no meio da praça. E a dignidade dos prédios que sabem que não vão ser demolidos porque foram feitos para permanecer. Não, não é como no Brasil onde prédios de dez anos são considerados velharias. Depressa! É preciso demolir para reconstruir que para isso foram feitas as picaretas. Tínhamos algumas belas construções, mas somos agitados demais para pensarmos em tradição.

Nas ruas, as vitrinas acesas e tanto movimento e tantas luzes, ah! Que delícia ir assim livre na noite cálida. Escreveu Erico Veríssimo que as cidades são masculinas e femininas como os seres humanos. Quanto a Paris, ele achava que era uma cidade hermafrodita por reunir os caracteres dos dois sexos. Não concordo com o nosso romancista: Paris é do sexo feminino, creio que não existe cidade mais feminina do que Paris, mulher vaidosa e assim felina feito uma gata sensual que se oferece ao turista deslumbrado mas esconde a face verdadeira, a face profunda que fica oculta e que só obedece à voz do donos e esse dono é francês.

Fecho os olhos e vou lembrando tudo o que sei sobre Praga: a capital da Boêmia e banhada pelo Rio Moldava. Cidade fértil, romanticamente plantada sobre sete colunas. Especialidades da terra? Os famosos cristais da Boêmia, a cerveja que eu tinha acabado de beber e os objetios de arte com destaque para as joias, a bela granada que tem o mesmo vermelho profundo do rubi. Muitos instrumentos musicais e metalúrgicos. O escritor Franz Kafka, um dos maiores do mundo e o patrono da cidade é São Nepomuceno, o bravo mártir que por ordem do reio Wenceslau foi atirado ao rio, isso por ter se recusado a revelar certa confissão que lhe fizera a rainha.

Praga também é uma cidade do sexo feminino mas sem o decote e sem os olhos pintados. Tem a fisionomia tranquila de uma balzaquiana de cara lavada, mãos limpas e afeitas às tarefas de lidar com a casa e com as flores.

Quando cheguei até a pequena praça pensava em Franz Kafka, escritor da minha paixão e que dizia que um livro deve ser assim como um machado para quebrar o nosso congelado mar interior. Morreu jovem e brigado com o pai e com o mundo. Onde está você nesta noite?! Eu perguntei e fiquei olhando para a mais cintilante das estrelas.

Nas pequenas lojas da sala de espera, as especialidades da terra: joias de âmbar e granada, gorros de pele, muita cerâmica popular, bonecos com os trajes típicos... No bar os deliciosos sanduíches de caviar e salmão. O café fraco mas a vodca fortíssima, pensei ao tomar o primeiro gole. E eis que de repente todo o sangue do mundo subiu-me ao rosto, estou na Rússia!

Quando vi o quarto sem banheiro fiquei deprimida, ah! Tanta vontade de me estender na cama e ali ficar até o dia seguinte e mais algumas horas. O brasileiro pode passar sem café e sem jogo do bicho, mas sem banho ele não fica não. E lembrei-me de uma arrumadeira num hotel de Paris me perguntando, entre intrigada e receosa se por acaso, par hasard os brasileiros não tinham alguma doença de pele, ah! Essa mania dos banhos diários!... Já estava na hora do jantar, mas antes da sopa – um banho quente com uma toalha bem felpuda, ai! os pequenos prazeres.

Sempre achei o russo assim parecido com brasileiro, com o nosso caboclo – e agora não me refiro ao frágil Jeca Tatu de Monteiro Lobato, mas ao bravo sertanejo de Euclides da Cunha, um home do sertão, rude, meio selvagem... e ao mesmo tempo, sentimental. Gosta de cantar, dançar e beber com o mesmo ardor com que se empenha numa luta. E alguns gostam também de exibir os tais dentes dourado.

[...] A Sibéria de Dostoiévski, dolorosamente, terrivelmente retratada nas Recordações da Casa dos Mortos. Foi num soturno presídio atrás de uma muralha e no extremo de uma pequena cidade siberiana (seria Omsk?) que Dostoiévski esteve encarcerado quatro anos como prisioneiro militar. Lá ele se inspirou para escrever as deslumbrantes recordações do personagem Aleksander Petrovitch. Enfim, mas esse tempo já ia longe embora ainda fosse o mesmo esse vento que soprava e igual a desolada paisagem dos pinheirais cor de ferrugem.

Muita gente chegando. Não vi soldados fardados mas com o traje do país, o blusão com as calças de brim azul e alpargatas pretas, enfim, no clássico estilo oriental. Os homens com o cabelo cortado rente e as jovens de cabelo curto, caindo retos ou presos em graciosas trancinhas, uma de cada lado do rosto. As idosas, essas com o coque enrodilhado na nuca e as caras lavadas sem nenhum sinal de pintura.

Os maiores entendidos de culinária já propagaram que há de fato apenas duas cozinhas no mundo: a chinesa e a francesa. O resto é o shakesperiano silêncio.

[...] O padre dizia a missa em latim, os devotos rezavam em chinês e Helena Silveira e eu em português, perfeito o entendimento entre todos na única linguagem da fé.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Verão

Coetzee, J.M. Verão. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2010; 275 páginas.

Breve relato do autor:

J. M. Coetzee nasceu na Cidade do Cabo, na África do Sul. É um dos principais escritores contemporâneos da língua inglesa, e já recebeu diversos prêmios por sua obra, entre eles o Nobel, em 2003, e – caso único – dois Booker Prize, em 1983, por Vida e época de Michael K, e em 1999, por Desonra.

Dados da obra:

Verão é o terceiro livro da trilogia Cenas da vida na província, composta também por Infância e Juventude. Coetzee lança mão de artifícios narrativos refinados para compor um relato de ficção autobiográfica, construído de maneira múltipla e indireta. A história é contada pelo pesquisador inglês Vincent, interessado na vida de John Coetzee, autor que já morreu. Para escrever a biografia do escritor, Vincent recorre a outras fontes: os Cadernos do autor, com anotações autobiográficas, e entrevistas com pessoas que o conheceram, concentrando-se nos anos 1970, período que precede o reconhecimento literário de Coetzee.

Passagens:

Pode existir uma laje bem assentada cujo bom assentamento é evidente para todo mundo. As lajes que está assentando durarão mais até que sua estada na terra; e nesse caso ele terá, em certo sentido, enganado a morte. Uma pessoa pode passar o resto da vida cimentando lajes e todo noite cair no mais profundo sono, cansada com a dor do esforço honesto.

Tenho plena consciência do quanto eu estava me portando como um personagem de livro – como uma daquelas mulheres idealistas em Henry James, digamos decididas, apesar do que lhes diz o instinto, a fazer a coisa moderna, difícil. Principalmente quando as minhas colegas, as esposas dos colegas de Mark na firma, procuravam orientação não em Henry James nem George Eliot, mas na Vogue, na Marie Claire ou na Fair Lady. Mas também, para que servem os livros senão para mudar a nossa vida? O senhor viria até Kingston para ouvir o que eu tenho a dizer sobre o John, se não acreditasse que os livros são importantes?

“Você acredita mesmo nisso?”, ele perguntou. “Que livros dão sentodo às nossas vidas?”
“Acredito”, eu respondi. “Um livro deve ser um machado para abrir o mar congelado dentro de nós”. O que mais ele seria?
“Um gesto de recusa diante da época. Uma aposta na imortalidade.”

Pragmatismo sempre ganha de princípios, é assim que as coisas são.

“Tudo que você tem no coração... O que isso tem a ver com Eugene Marais?”
“Simplesmente que eu entendo o que o velho babuíno macho estava pensando enquanto olhava o sol se pôr, o líder do bando, aquele de quem Marais era mais próximo. Nunca mais, ele pensava: só uma vida e nunca mais. Nunca, nunca, nunca. É isso que o Karoo faz comigo também. Me enche de melancolia. Me estraga para a vida inteira.”

Ela morde a língua. Esqueceu-se: não se pede a um homem que mostre seus poemas, não na África do Sul, não sem garantir a ele previamente que ETA tudo bem, que ninguém vai caçoar dele. Que país, em que a poesia não é atividade varonil, mas território de crianças oujongnooiens [solteironas] – oujongnooiens de ambos os sexos! Como foi que Totuis ou Louis Leipoldt conseguiram, ela não consegue imaginar.

Ela gostaria de oferece a eles dois um café na lanchonete, gostaria de sentar com eles de um jeito amigo, normal, mas claro que não se podia fazer isso sem provocar uma confusão. Que chegue logo o tempo, ó Senhor, ela reza para si mesma em que toda essa besteira do apartheid esteja enterrada e esquecida.

Mas não é assim que se dança! Não é assim que se dança! Dança é encarnação. Na dança não é o mestre titereiro na cabeça que comanda e o corpo acompanha, é o corpo sozinho que comanda, o corpo com sua alma, o corpo-alma. Porque o corpo sabe! Sabe! Quando o corpo sente o ritmo por dentro, ele não precisa pensar. É assim que nós somos se somos humanos. Por isso é que títeres de madeira não podem dançar. A madeira não tem alma. A madeira não sente o ritmo.

Ele prossegue: “Esse é o jeito britânico: atirar os concorrentes na arena e esperar para ver o que acontece”. Ele vai ter de se acostumar de novo com o jeito britânico de fazer as coisas, em toda a sua brutalidade. Um naviozinho apertado, a Grã-Bretanha, lotado até as amuradas. Cão devora cão. Cães rosnando e avançando uns nos outros, cada um guardando seu pequeno território. O jeito norte-americano, em comparação, decoroso, gentil até. Mas também, há mais espaço nos Estados Unidos, mais espaço para urbanidade.

As fileiras da profissão de professor são como o senhor deve saber, cheias de refugiados e desajustados.

Aos olhos de Coetzee, nós, seres humanos, nunca abandonaremos a política porque a política é muito conveniente e muito atraente como palco onde expressar nossas emoções mais baixas. Por emoções baixas quero dizer ódio, rancor, desprezo, ciúme, sede de sangue e assim por diante. Em outras palavras, a política é um sintoma de nosso estado decaído e expressa esse estado decaído.
Mesmo a política da libertação?
Se o senhor se refere à política da luta de libertação sul-africana, a resposta é sim. Se libertação significava libertação nacional, a libertação da nação negra da África do Sul. John não tinha nenhum interesse nela.

Nós era principalmente a gente de cor. É um termo que eu só uso com relutância, para abreviar. Ele – Coetzee – evitava esse termo o quanto podia. Eu mencionei o utopismo dele. Evitar esse termo era outro aspecto desse utopismo. Ele ansiava por um dia em que todo mundo na África do Sul não se chamasse de nada, nem de africano, nem de europeu, nem de branco, nem de negro, nem de nada, em que as histórias familiares estivessem tão emaranhadas e misturadas que as pessoas fossem etnicamente indistinguíveis, ou seja – pronuncio de novo essa palavra maldita – de cor. Ele chamava isso de futuro brasileiro. Ele aprovava o Brasil e os brasileiros. Claro que nunca tinha estado no Brasil.

Não me lembro de todos. Depois de Desonra eu perdi o interesse. No geral, eu diria que o trabalho dele é desprovido de ambição. O controle dos elementos é muito estrito. Em nenhum ponto você tem a sensação de um escritor que deforma sua mídia a fim de dizer o que nunca foi dito, o que, para mim, é a marca da grande literatura. Muito impassível, muito organizado, eu diria. Muito fácil. Muito desprovido de paixão. Isso é tudo.