sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Antologia Poética

de Moraes, Vinícius. Antologia Poética. Livraria José Olympio Editora; Rio de Janeiro; 1981; 210 páginas.

Dados da obra:

O livro corresponde a dois períodos na poesia do autor: fase cristã (transcendental, mística) e fase material (repulsa ao idealismo dos primeiros anos). Além de cinco elegias, representativas do período de transição entre as duas tendências contraditórias.

Breve relato do autor:

Nascido no Rio de Janeiro, Vinícius de Moraes foi diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta e compositor brasileiro. Essencialmente lírico, o poetinha (como ficou conhecido) notabilizou-se pelos seus sonetos.

Passagens:

A Vida Vivida

"– O que é a mulher em mim senão o Túmulo.
O branco marco da minha rota peregrina.
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?"


Pátria Minha

"... – Tenho-te, no entanto, em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé.
Sem dogma, tenho-te em tudo em que
não me sinto a jeito.
Nesta sala estrangeira como lareira
E sem pé-direito...
...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!...
...
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinícius de Moraes."


"– Eu poderia estar voltando de, ou indo para: não teria a menor importância.
O importante seria saber que eu estava presente..."
(Poema de Auteil)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

João Simões Continua

Lessa, Orígenes. João Simões Continua. Edições de Ouro; 1979; São Paulo / SP; 188 páginas.

Dados da obra:

O personagem-título do livro é um fantasma que escreve a respeito de si mesmo numa espécie de memória redigida de outro mundo. O romance faz o retrato de uma sociedade burguesa com suas hipocrisias, vícios e padrões, com uma visão crítica do comportamento humano.

Breve relato do autor:

Orígenes Lessa nasceu em Lençóis Paulista, no estado de São Paulo. Foi jornalista, contista, novelista, romancista e ensaísta brasileiro, e imortal da Academia Brasileira de Letras.

Passagens:

"Eu queria viver! Ou melhor: não queria morrer. Se eu fosse acabar, talvez o preferisse. Desaparecer. Não ser mais. Essa ideia me seduzira sempre. Não era a vida que me atraía. Era a morte que me assustava. Eu me sentia, aliás, me sentira toda a vida, pouco à vontade com as surpresas que a morte me poderia trazer. Por menos que neles acreditasse, por mais ridículos que fossem, os demônios ingênuos de pera e tridente, dos meus tempos de catecismo, me haviam dançado trágicas sarabandas em inúmeras ocasiões de minha vida."

"... Achei cretino aquele pedido. Então o Zequinha não havia de contar à mulher que eu morrera? Como tudo aquilo me soava idiota, artificial, desinteressado. Nunca pensei que morrer fosse uma coisa assim tão falsa."

"Eu devia estar morto, realmente. Era essa a prova mais palpável de que estava num mundo diferente. O café, que fora a minha paixão toda a vida, me desinteressava agora por completo. Ou melhor, parece que o morto era o café. De fato, quem morre não é a gente. São os outros. É o resto. A gente continua. Mas se a gente morre para os outros em compensação morrem eles também para nós. O café morrera para mim."

"E como ninguém me atendesse, tomado de verdadeiro acesso de loucura, pus-me a distribuir bofetões e pontapés. Uma gargalhada gostosa reboou, então, pela casa. Procurei-lhe o autor. Sentado na radiovitrola, um charuto na boca, um desconhecido gozava o espetáculo. Um clarão de relâmpago iluminou-me o cérebro. Eu só então compreendi. Eu morrera há muito tempo."

"Uma tristeza infinita me tomou. A eternidade era aquilo. Viver era aquilo. Morrer era aquilo. Uma grande, uma incomensurável desolação. Olhei os espaços. Aquela coisa não acabava mais. Era o sem-fim. Casas, jóias, mulheres, iates, riquezas, cajuadas, estava tudo o nosso dispor... e não exisita. E se eu subisse aos páramos alados, onde habitava a 'turma da perfeição', de que falava Amaral Fischer? Não seria tudo, afinal, a mesma coisa, o mesmo nada, a mesma falsidade, o mesmo não-ser, a mesma ilusão?"

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Quarup

Callado, Antônio. Quarup. Ed. Círculo do Livro S. A.; 1983; São Paulo/SP; 470 páginas.

Dados da obra:

Polêmico romance que faz uma vasta alegoria do Brasil dos tempos de Getúlio Vargas até a revolução de 1964. O personagem central é uma padre idealista que troca a batina pela ação política, ao tomar consciência das contradições sociais.

Breve relato do autor:

Antônio Callado foi romancista, teatrólogo e jornalista brasileiro, nascido em Niterói, Rio de Janeiro. A témática social é dominante em suas últimas obras, correspondendo a uma posição política participante.

Passagens:

"– Só há mesmo estudantes e ex-estudantes, como Levindo, pensando em alterar as coisas erradas do país – disse Leslie – Crianças brincando de revolução. Estão fazendo ao seu jeito aquilo que os pais deviam fazer. A coisa não falha: se um país tem estudantes politicamente ativos é porque os mais velhos não fazem o que devem. Os jovens agitam, em vez de estudar. Depois envelhecem ignorantes como os pais. Por isso é que o Brasil é uma eterna república de estudantes."

"Nando abraçou um, abraçou outro, aqueles pedaços do mundo de Levindo, fragmentos do mundo de Francisca. Depois fitou os dois, as boas caras caboclas que antigamente desconhecia, que passara a conhecer um pouco, que hoje conhecia em essência. A menos que já não conhecesse mais, pensou inquieto. E de qualquer forma que poderiam fazer juntos, ele e esses tijolas sem pedreiros, esses paus-de-jangada sem vela?"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Estrangeiro

Camus, Albert. O Estrangeiro, Ed. Círculo do Livro S.A.; 1982, São Paulo/SP; 124 páginas.

Dados da obra:

O romance conta a história de um narrador personagem, Meursault, um homem que comete um assassinato e é julgado por esse ato. A ação desenrola-se na Argélia, na época em que ainda era colônia francesa, país onde Camus viveu grande parte da sua vida. O romance foi traduzido em 40 línguas e uma adaptação cinematográfica foi realizada por Luchino Visconti em 1967.

Breve relato do autor:

Albert Camus foi um escritor e filósofo francês nascido na Argélia. Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor.

Passagens:

"... Fechei as janelas e, ao voltar, vi no espelho um canto da mesa com a lamparina de álcool entre pedaços de pão. Pensei que passara mais um domingo, que mamãe agora já estava enterrada, que ia retomar o trabalho, e que afinal, nada mudara."

"... De tanto conviverem juntos, os dois num pequeno quarto, o velho Salamano acabou ficando parecido com o cão. Tem crostas avermelhadas no rosto e o cabelo amarelo e ralo. Quanto ao cão, assimilou do dono uma espécie de aspecto encurvado, o focinho para a frente e o pescoço esticado. Parecem ser da mesma raça e, no entanto, detestam-se..."

"... Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruía o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então, atirei quatro vezes ainda no corpo já inerte, em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça."

"Evidentemente, não se pode ser sempre racional. Em outras ocasiões, por exemplo, eu fazia projetos de lei. Reformava as penalidades. Observara que o essencial era dar ao condenado uma oportunidade. Uma só oportunidade em mil – isso bastaria para resolver muita coisa. Parecia-me, assim, que se podia encontrar uma composição química, cuja absorção mataria o paciente (eu pensava: o paciente) em noventa por cento dos casos. Este estaria a par de tal possibilidade, era esta a condição. Sim, porque, pensando bem, ao ponderar sobre as coisas com calma, eu constatava que o defeito da guilhotina era não haver nenhuma oportunidade, absolutamente nenhuma. A morte do paciente, em suma, fora decidida de uma vez por todas. Era um caso encerrado, um acerto preestabelecido, um acordo selado e em relação ao qual não se podia voltar atrás..."

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Juca Mulato - Parte 2

A Mandinga


Juca Mulato apeia.

É macabro o pardieiro

Junto à porta cochila o negro feiticeiro.
A pele molambenta o esqueleto disfarça.
Há uma faísca má nessa pupila garça,
quieta, dormente, como as águas estagnadas.

Fuma: a fumaça o envolve em curvas baforadas.
Cuspinha, coça a perna onde a sarna esfarinha
a pele, pachorrento inda uma vez cuspinha.
Com o seu sinistro olhar o feiticeiro mede-o.

– Olha, Roque, você me vai dar um remédio.
Eu quero me curar do mal que me atormenta.

– Tenho ramos de arruda, urtigas, água benta,
uma infusão que cura a espinhela e a maleita,
figa para evitar tudo que é coisa feita...
com uma agulha e um cabelo, enroscado a capricho,
à mulher sem amor faço criar rabicho.

Olho um rastro, depois de rezar um bocado
vou direitinho atrás do cavalo roubado.
Com umas ervas que sei, eu faço, de repente,
do caiçara mais mole um caboclo valente!
Dize, Juca Mulato, o mal que te tortura.

– Roque eu mesmo não sei se este mal tem cura...

– Sei rezas com que venço a qualquer mau olhado;
breves para deixar todo o corpo fechado.
Não há faca que o vare e nem ponta de espinho;
fica o corpo tal qual o corpo do Dioguinho...
Mas de onde vem o mal que tanto te abateu?

– Ele vem de um olhar que nunca será meu...
Como está para o sol a luz morta da estrela,
a luz do próprio sol está para o olhar dela...
Parece o seu fulgor, quando o fito direito,
uma faca que alguém enterra no meu peito,
veneno que se bebe em rútilos cristais,
e sabendo que mata, eu quero beber mais...

– Eu já compreendo o mal que teu peito povoa.
De quem é esse olhar?

– Da filha da patroa.

– Juca Mulato! Esquece o olhar inatingível!
Não há cura, ai de ti! para o amor impossível
Arranco a lepra ao corpo; estirpo da alma o tédio;
só para o mal de amor nunca encontrei remédio...
Como queres possuir o límpído olhar dela?
Tu és tal qual um sapo a querer uma estrela...
A peçonha da cobra eu curo...
Quem souber cure o veneno que há no olhar de uma mulher!
Vencendo o teu amor, tu vences teu tormento.
Isso conseguirás só pelo esquecimento.
Esquecer um amor dói tanto que parece
que a gente vai matando um filho que estremece
ouvindo, com terror, no peito, este estribilho:
"Tu não sabes, cruel, que matas o teu filho?"
E quando se estrangula, aos seus gemidos loucos,
a gente quer que viva e vai matando aos poucos!
Foge! Arrasta contigo essa tortura imensa,
que o remédio é pior do que a própria doença,
pois, para se curar um amor tal qual esse...

– Que me resta fazer?


– Juca Mulato: esquece!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Juca Mulato

Picchia, Menotti Del. Juca Mulato. Ed. de Ouro; 40ª edição; 95 páginas.

Dados da obra:

Juca Mulato é o caboclo simples que se apaixona pela filha do fazendeiro, num amor impossível pelo desnível social. Menotti se traduz numa linguagem colorida e sensual, buscando exaltar o mestiço brasileiro, por meio da poesia contida na obra.

Breve relato do autor:

Paulo Menotti Del Pcchia nasceu em São Paulo em 1892. Foi poeta, jornalista, tabelião, advogado, político, romancista, cronista, pintor e ensaísta brasileiro. Teve destacada atuação no movimento modernista.

Passagens:

Fascinação IV

"Tenho uma santa em casa, o seu

olhar encanta.

O olhar dela é, porém, igualzinho

ao da santa.

Quando rezo nem sei à dúbia luz

da vela

se me dirijo à santa ou se me

dirijo à ela

Esse olhar que, de meigo, é como

o olhar da corça,

tem, na própria fraqueza, a sua

própria força.

Quando o fito a minha alma enche-se

da incerteza,

que há na canoa sem dono à flor

da correnteza

Ele é tal qual o sol que indiferente

e mudo

sem saber quem aclara

anda aclarando tudo...

Mas no olhar que o fitou brilha,

constantemente

um relfexo de luz ambicionada e ausente

Eu nunca vi o mar, mas vendo

esse olhar penso

num barco que se afasta, onde

se agita um lenço...

Ou no doido terror que, em

meio de procelas,

há num casco sem leme ou

num barco sem velas...

Creio ver o meu vulto em

teus olhos tão vagos

como as sombras que espelha a

água morna de um lago

Eu bem sei que, tal qual na

líquida planície,

o meu vulto não vai além da superfície.

Fica à tona, a boiar nessa

pupila absorta

com na água parada alguma

folha morta..."



"... Por isso o que vale ir fugitivo e

a esmo

buscar a mesma dor que trazes

em ti mesmo?

Tu queres esquecer? Não fujas ao

tormento...

Só por meio da dor se alcança o

esquecimento.

Não vás. Aqui serão teus dias mais serenos,

que na terra natal, a própria dor

dói menos...

E fica, que é melhor morrer

(ai, bem sei eu!)

no pedaço de chão em que

a gente nasceu"

(trecho de "A voz das coisas")

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Olhai os Lírios do Campo

Verissímo, Érico. Olhai os Lírios do Campo. Editora Globo; 1980 - Porto Alegre/RS; 290 páginas.

Dados da obra:

O livro narra a história de Eugênio Fontes, um homem que com sacrifício formou-se em Medicina. Na faculdade ele conhece e se apaixona por Olívia, com quem teve uma filha, mas, ambicioso, acaba se casando com uma mulher rica, Eunice.

Nesse romance, o autor compõe um painel de tipos humanos onde o conflito segurança x felicidade está sempre em evidência.


Breve relato do autor:

Érico Veríssimo nasceu na cidade de Cruz Alta, Rio Grande do Sul. Com quase 20 livros publicados – alguns traduzidos para o francês, inglês, alemão, italiano, espanhol e norueguês, apresenta-se antes de mais nada como um "contador de histórias".

Passagens:

"Nossa filha fez dois anos ontem. Já fala, faz perguntas e já sabe ficar parada, de cabecinha torta, pensando ninguém sabe em quê. Tenho de lhe explicar que ela também tem um pai, como as outras meninas. Anamaria indaga coisas sobre esse pai que nunca viu mas que já principia a amar. Para ela pois tu existes à maneira de Deus: tua filha não te vê mas sabe que 'és', sente em mim e de certo modo nela própria a tua existência. Por que será que ainda há homens que não acreditam em Deus? O simples milagre de existir é uma afirmação de Deus".
(carta de Olívia)

"–... A Olivia tinha razão... Felicidade é a certeza de que nossa vida não está se passando inutilmente... Como agora eu vejo claro! É preciso o contraste... Como é que eu podia aproveitar bem uma hora de conversas e brinquedo com a Anamaria se antes não tivesse passado muitas horas aqui curando as mazelas dos outros e pensando nas minhas próprias mazelas?"
(fala de Eugênio)

"– É curioso como eu penso agora nessas coisas. Antigamente só pensava em mim mesmo. vivia como cego. Foi Olívia quem me fez enxergar claro. Ela me fez ver que a felicidade não é o sucesso, o conforto. Uma simples frase me deixou pensando: 'Considerai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e no entanto nem Salomão em toda sua glória se cobriu como um deles'."
(fala de Eugênio)

"Se naquele instante – refletiu Eugênio – caísse na terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas e fábricas... E se perguntasse a qualquer um deles: 'Homem, por que trabalhas com tanta fúria durante as horas do sol?' – ouviria esta resposta singular: 'Para ganhar a vida'. E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição os transformavam em inimigos. E havia muitos séculos tinham crucificado um profeta que se esforçava por lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos."