quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O monge e o executivo

Hunter, James C. O Monge e o Executivo - Uma história sobre a essência da liderança, Editora Sextante; Rio de Janeiro / RJ; 2004; 144 páginas.

Dados da obra:

Leonard Hoffman, um famoso empresário que abandonou sua brilhante carreira para se tornar monge em um mosteiro beneditino, é o personagem central desta envolvente história criada por James C. Hunter para ensinar de forma clara e agradável os princípios fundamentais dos verdadeiros líderes.

Breve relato do autor:

James C. Hunter é consultor-chefe norte-americano da empresa J.D. Hunter Associates, LLC, uma empresa estadunidense de consultoria de relações de trabalho e treinamento, instrutor e palestrante na área de liderança funcional e organização de grupos comunitários.

Passagens:

“Era Len Hoffman, mais velho do que na foto da Internet, com o rosto enrugado, maçãs do rosto salientes, queixo e nariz proeminentes e cabelos brancos um pouco compridos. Um corpo firme e enxuto, a face ligeiramente rosada. Mas o que mais me impressionou foram seus olhos. Claros, penetrantes, de um azul profundo. Eram os olhos mais acolhedores e cheios de compaixão que eu já vira. O rosto enrugado e os cabelos brancos eram de um velho, mas os olhos e o espírito cintilavam e emanavam uma energia que eu só experimentara quando criança.”

“– Quando você interrompe as pessoas no meio de uma frase, John, você envia algumas mensagens negativas. Número um, se você me interrompeu, é porque não estava prestando muita atenção ao que eu dizia, já que sua cabeça estava ocupada com a resposta. Número dois, se você se recusa a me ouvir, não está valorizando a minha opinião. Finalmente, você deve acreditar que o que tem a dizer é muito mais importante do que o que eu tenho a dizer. John, essas mensagens são desrespeitosas, e como líder você não pode enviá-las.”

“...Simeão continuou. – Por isso, é importante que desafiemos continuamente os paradigmas a respeito de nós mesmos, do mundo em torno de nós, de nossas organizações e das outras pessoas. Lembrem-se de que o mundo exterior entra em nossa consciência através dos filtros de nossos paradigmas. E nossos paradigmas nem sempre são corretos.
Eu acrescentei: – Li em algum lugar que não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos. O mundo parece muito diferente dependendo de nossa perspectiva. Ele parece diferente se sou rico ou pobre, doente ou saudável, jovem ou velho, negro ou branco...”

“Bem, não conheço ninguém, vivo ou morto, que possa chegar perto de Jesus Cristo na personificação dessa descrição. Vamos olhar os fatos. Hoje, mais de dois bilhões de pessoas, um terço dos seres humanos deste planeta, se dizem cristãos. A segunda maior religião do mundo, o islamismo, é menos da metade menor do que o cristianismo. Dois dos maiores dias santos deste país, Natal e Páscoa, são baseados em eventos da vida de Jesus, e nosso calendário até conta os anos a partir do nascimento dele, há dois mil anos. Não me importa se você é budista, hinduísta, ateu ou da ‘igreja da moda’, ninguém pode negar que Jesus Cristo influenciou bilhões, hoje e ao longo da História. Ninguém está próximo do segundo lugar.”

“...Se bem me lembro, uma dessas palavras era eros, da qual se deriva a palavra erótico, e significa sentimentos baseados em atração sexual e desejo ardente. Outra palavra grega para amor, storgé, é afeição, especialmente com a família e entre os seus membros. Nem eros nem storgé aparecem nas escrituras do Novo Testamento. Outra palavra grega para amor era philos, ou fraternidade, amor recíproco. Uma espécie de amor condicional, do tipo ‘você me faz o bem e eu faço o bem a você’. Finalmente, os gregos usavam o substantivo agapé e o verbo correspondente agapaó para descrever um amor incondicional, baseado no comportamento com os outros, sem exigir nada em troca. É o amor da escolha deliberada. Quando Jesus fala de amor no Novo Testamento, usa a palavra agapé, um amor traduzido pelo comportamento e pela escolha, não o sentimento do amor.”

“– Precisamos uns dos outros – a enfermeira disse tranquilamente. – Os arrogantes e orgulhosos fingem que não precisam. O individualismo que predomina em nosso país é mentiroso e cria a ilusão de que não somos e não devemos ser dependentes de outras pessoas. Que piada! Um par de mãos me tirou do útero de minha mãe ao nascer, outro trocou minhas fraldas, me alimentou, me nutriu, outra ainda me ensinou a ler e escrever. Agora, outros pares de mãos cultivam minha comida, entregam minha correspondência, coletam meu lixo, fornecem-me eletricidade, protegem minha cidade, defendem minha nação. Um par de mãos cuidará de mim e me confortará quando eu ficar doente e velha, e, por fim, outro par de mãos me levará de volta a terra quando eu morrer.”

“– Eu defino motivação como qualquer comunicação que influencie as escolhas. Como líderes, podemos fornecer todas as condições, mas são as pessoas que devem fazer as próprias escolhas para mudar. Lembrem-se do princípio do jardim. Não fazemos o crescimento ocorrer. O melhor que podemos fazer é fornecer o ambiente certo e provocar um questionamento que leve as pessoas a se analisarem para poderem fazer suas escolhas, mudar e crescer.”

“– Mas – o pregador alegou – se admitimos que o conceito de causa e efeito é verdadeiro, chegamos ao paradoxo da criação do mundo, não é mesmo? Isto é, se levarmos o universo de volta ao primeiro segundo do tempo, a fração de segundo que precedeu a grande explosão, qual seria a causa? O que criou o primeiro átomo de hélio, hidrogênio ou o que seja? O paradoxo é que em algum lugar ao longo do caminho algo deve ter vindo do nada. Nós religiosos acreditamos que Deus é a primeira causa

“– Eu falo de alegria, Greg, não de felicidade, porque felicidade é baseada em acontecimentos. Se coisas boas acontecem, estou feliz. Se acontecem coisas más, estou infeliz. A alegria é um sentimento muito mais profundo, que não depende de circunstâncias externas. A maioria dos grandes líderes que se apoiaram na autoridade tem falado dessa alegria – Buda, Jesus Cristo, Gandhi, Martin Luther King, até Madre Teresa. Alegria é satisfação interior e a convicção de saber que você está verdadeiramente em sintonia com os princípios profundos e permanentes da vida. Servir aos outros nos livra das algemas do ego e da concentração em nós mesmos que destroem a alegria de viver.”

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A invenção de Morel

Bioy Casares, Adolfo. A Invenção de Morel. Editora Rocco; São Paulo / SP; 1986; 136 páginas.

Dados da obra:

Na trama, o leitor acompanha a trajetória de um homem que, condenado por motivos políticos, foge para uma ilha deserta do Pacífico conhecida por ser foco de uma epidemia letal. Lá encontra máquinas misteriosas e um grupo de turistas, que se diverte sem tomar conhecimento de sua presença. O refugiado apaixona-se por uma das mulheres do grupo e então descobre Morel, inventor de uma máquina de imagens que reproduz realidades passadas.

Breve relato do autor:

Foi um escritor argentino. Sua obra mais conhecida é La invención de Morel. A narrativa de Adolfo Bioy Casares criou um mundo de ambientes fantásticos regidos por uma lógica peculiar e marcados por um realismo de grande verossimilhança.

Passagens:

“Agora, a mulher do lenço me é imprescindível. Talvez todo esse escrúpulo de não esperar seja um pouco ridículo. Nada esperar da vida, para não arriscá-la; fazer-se de morto, para não morrer. De repente, isto me pareceu um letargo horrível, inquietíssimo; quero que termine. Depois da fuga, depois de ter vivido sem ligar para o cansaço que me destruía, alcancei a calma; minhas decisões talvez me devolvam a esse passado ou aos juízes; prefiro-os a este longo purgatório.”

“... Que devo pensar? Sem dúvida é uma mulher detestável. Mas, que será que ela quer? Talvez brinque comigo e com o barbudo; mas também é possível que o barbudo não seja mais do que uma ênfase no seu prescindir de mim, e um sinal de que esse prescindir atingiu o seu ponto máximo e chega ao fim.”

“Havia muito que pensava nisto, de modo que já estava um pouco farto e continuei com menos lógica: não morrera enquanto não tinham aparecido os intrusos; na solidão, é impossível estar morto. Para ressuscitar, devo suprimir as testemunhas. Será um extermínio fácil. Não existo: não suspeitarão de sua destruição.”

“Tive uma surpresa: depois de muito trabalho, ao congregar harmonicamente esses dados, encontrei-me com pessoas reconstituídas, que desapareciam se eu desligava o aparelho projetor, só viviam os momentos passados quando da tomada de cena e, ao terminá-los, voltavam a repeti-los, como se fossem partes de um disco ou filme que, ao terminar, voltasse a começar, mas que não se podiam distinguir das pessoas vivas (veem-se como que circulando em outro mundo, fortuitamente abordado pelo nosso). Se conferirmos consciência, e tudo o que nos distingue dos objetos, às pessoas que nos rodeiam, não poderemos negá-la às criadas pelos meus aparelhos, com nenhum argumento válido e exclusivo.”

“Congregados os sentidos, surge a alma. Era preciso esperá-la. Madeleine existia para a vista, Madeleine exista para o ouvido, Madeleine existia para o paladar, Madeleine existia para o olfato, Madeleine existia para o tato: Madeleine existia.”

“Por acaso, recordei que o fundamento do horror, que alguns povos sentem, de que se verem representados em imagens, é a crença de que, ao se formar a imagem de uma pessoa, a alma passa para a imagem e a pessoa morre.”

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Joe Gould

Mitchell, Joseph. O Segredo de Joe Gould. Companhia das Letras; São Paulo /SP; 2003; 160 páginas.

Dados da obra:

A reportagem 'O segredo de Joe Gould', de 1964, conta a história de um homem que vivia como um mendigo – perambulando pelo Greenwich Village bairro boêmio de Nova York – e planejava publicar um livro monumental: 'História oral do nosso tempo'. É um exemplo de Jornalismo Literário.

Breve relato do autor:

Colaborador da revista 'The New Yorker', Mitchell foi um dos maiores jornalistas norte-americanos do século XX. Ficou conhecido por seus retratos cuidadosamente escritos de excêntricos e pessoas à margem da sociedade.

Passagens:

“Gould sofre de memória perfeita e de vez em quando resolve anotar em minúcias tudo que fez de relativa importância num determinado período do passado recente, que pode ser um dia, uma semana ou um mês. Às vezes escreve um capítulo em que monotonamente amaldiçoa alguém ou uma instituição. Volta e meia divaga sobre temas como a pulga de albergue, o espaguete, o zíper como sinal da decadência da civilização, a dentadura postiça, a insanidade, o sistema de júri, o remorso, a comida de lanchonete e o efeito castrador da máquina de escrever sobre a literatura. ‘William Shakespeare não ficava martelando um maldito troço nojento de 95 dólares, e Joe Gould também não fica’, escreveu.”

“Até hoje não li mais nada de Joe Gould, escreveu (Saroyan) entre outras coisas. No entanto, ele continua sendo para mim um dos poucos autores americanos autênticos e originais. Ele era fácil e despojado, e quase tudo o que se escrevia no país era difícil e empolado. Nada tinha a ver com nada; tudo era burilado demais; tudo era miserável; tudo era meio doentio; tudo era literário; e não se conseguia dizer nada com simplicidade. Toda a literatura americana tentava se encaixar numa forma ou noutra, e nenhum escritor, exceto Joe Gould, demonstrava imaginação suficiente para compreender que, quando o ruim chegou ao pior, não havia mais necessidade de forma nenhuma. Não era preciso colocar o que se tinha a dizer num poema, num ensaio, num conto, numa novela. Bastava dizer.”

“Certa manhã do verão de 1917, depois de trabalhar como repórter por um ano, estava tomando sol (e tentando superar uma ressaca) nos fundos da chefatura de polícia, quando lhe ocorreu a ideia da História Oral. Imediatamente abandonou o emprego e começou a escrever. Num momento de exaltação declarou: ‘Desde essa manhã fatídica, a História Oral tem sido minha corda e minha forca, minha cama e minha comida, minha esposa e minha puta, minha ferida e o sal em cima dela, meu uísque e minha aspirina, minha rocha e minha salvação. É a única coisa que tem algum valor para mim. O resto é lixo’.”

“... até chegar a Nova York sempre se sentiu deslocado. ‘Em minha cidade natal, nunca me senti à vontade’, escreveu certa vez. ‘Eu destoava. Nem em minha própria casa eu me sentia em casa. Em Nova York, principalmente no Greenwich Village, entre os maníacos, os desajustados, os que têm só um pulmão, os que já foram alguma coisa na vida, os que poderiam ter sido, os que gostariam de ser, os que nunca serão e os que só Deus sabe, sempre me senti à vontade’.”

”Fomos para a mesa e a garçonete trouxe o café de Gould. Servido nunca caneca branca e grossa, estilo taberna, o café estava tão quente que fumegava. Mesmo assim, Gould inclinou a caneca ligeiramente em sua direção, sem levantá-la da mesa, debruçou-se e se pôs a tomar o café em pequenos goles cautelosos e rápidos, como um passarinho, entremeando-os de gemidos que indicavam prazer ou alívio, e quase de imediato seu rosto recuperou a cor, seus olhos se tornaram mais brilhantes e o movimento involuntário da boca desapareceu. Eu nunca tinha visto um café provocar em alguém uma reação tão instantânea e visível; provavelmente um conhaque não teria feito mais por ele, nem um dose de cocaína, nem uma tenda de oxigênio, nem uma transfusão de sangue. Gould tomou a caneca inteira dessa forma e depois se aprumou, pendeu a cabeça para um lado e olhou para mim.”

“...No trem, a caminho de Nova York, senti tanta saudade de Norwood que precisei me controlar para não descer e voltar atrás. Mesmo hoje ainda sofro, às vezes, com saudade de Norwood. Um cheiro azedo, como o de um porão onde um velho italiano esteja fabricando vinho, lá no setor italiano do Village, me lembra os curtumes e desperta a saudade. Essa é uma das piores coisas que descobri sobre as emoções humanas e como elas podem ser muito traiçoeiras – o fato de que é possível odiar um lugar de todo o coração e com toda a alma e ainda sentir saudade. Sem falar que é possível odiar uma pessoa de todo o coração e com toda a alma e ainda suspirar por ela.”

“...Eu considero o mais são dos homens aquele que melhor compreende o trágico isolamento da humanidade e prossegue calmamente na busca de seus propósitos essenciais”, escreveu. “Acho que penso dessa forma porque sofro de delírio de grandeza. Acho que sou Joe Gould.”

“... “O pessoal do Minetta me trata bem agora, mas pode se cansar de mim a qualquer momento e me enxotar, e, se fizer isso, eu não vou gostar de ir lá perguntar se chegou carta para mim.” E então disse uma coisa que me deixou sem palavras: ‘Escute aqui, foi você que começou tudo isto. Eu não procurei você. Você é que me procurou. Você queria escrever um artigo sobre mim e escreveu e agora tem de arcar com as consequências’.”

“Eu estava furioso. Assim que Pearce saiu, voltei-me para Gould. ‘Você me disse que levou braçadas da História Oral a catorze editoras’, falei. ‘Por que diabos teve todo esse trabalho se havia decidido no fundo de você mesmo que a História Oral seria uma obra póstuma? Estou começando a crer que a História Oral não existe’. Essa frase saiu de meu inconsciente, e eu não tinha muita noção do que estava dizendo – só estava desabafando minha raiva –, mas no momento seguinte, ao olhar para Gould, tive certeza de que havia descoberto a verdade sobre a História Oral.
‘Meu Deus!’, exclamei. ‘Ela não existe’. Eu estava estarrecido. ‘A História Oral não existe. Não existe’
Encarei Gould, e ele me encarou. Seu rosto não tinha expressão nenhuma.”

“Voltei para minha sala, sentei-me e apoiei os cotovelos na escrivaninha e a cabeça nas mãos. Sempre tive horror de ver alguém desmascarado, flagrado numa mentira ou pego com a boca na botija, e agora, com tempo para refletir, senti vergonha de mim mesmo por ter perdido a calma e me enfurecido com Gould. A raiva começou a se dissipar, e eu fui ficando deprimido. Gould me enganara – não havia muita dúvida em relação a isso –, assim como enganara inúmeras pessoas ao longo dos anos. Havia me engabelado, assim como havia engabelado inúmeras pessoas. No entanto não precisei refletir muito sobre o assunto para chegar à conclusão de que ele não andara discorrendo sobre a História Oral todos aqueles anos e fazendo grandes declarações sobre sua extensão, seu volume, sua importância para a posteridade e comparando-a com obras como A história do declínio e queda do Império Romano só para enganar gente como eu, mas também para enganar a si próprio. Com certeza descobrira, muito tempo atrás, que não tinha o gênio, o talento ou, talvez, a segurança, o empenho, a determinação para produzir uma obra tão imensa e grandiosa como imaginara e se contentara com escrever os tais capítulos de ensaios. Escrever e reescrever. E, ou por ser preguiçoso demais, ou por ser perfeccionista demais, nem esses capítulos conseguira terminar. Contudo, em boa parte do tempo provavelmente acreditava, de modo nebuloso, iludindo-se e protegendo a si mesmo, que a História Oral de fato existia – os capítulos orais e os capítulos de ensaios. A parte oral podia não estar no papel, mas ele a tinha inteira na cabeça e um dia qualquer começaria a escrevê-la.”

“Passei mais de um ano pensando nesse romance. Sempre que tinha uma folga, punha-me a escrevê-lo mentalmente. Ás vezes, numa viagem de metrô, escrevia três ou quatro capítulos. Quase todo dia descartava e criava personagens. Mas a verdade é que nunca escrevi de fato uma só palavra. O tempo passou, outros assuntos me ocuparam. E, mesmo assim, durante alguns anos eu frequentemente devaneava, e nesses devaneios terminava de escrever meu romance e o via publicado. Via o frontispício. Via a capa – verde com letras douradas. Essas lembranças me causaram um constrangimento quase insuportável, e passei a me sentir cada vez mais solidário com Gould.”

“Desde sua criação, em 1925, a New Yorker cultivava manias que desafiavam todo bom senso editorial. Por exemplo: tanto na gestão de Haroldo Ross, seu fundador e editor até 1951, como na de William Shawn, à frente da publicação de 1951 a 1987, a New Yorker manteve o princípio de jamais pautar seus escritores. Num livro-homenagem a Shawn, Remembering mr. Shawn´s “New Yorker”, o escritor Ved Mehta cita o próprio Shawn a esse respeito: `Somos uma revista de escritores e de artistas gráficos, e é fundamental que nossos colaboradores possam escrever e desenhar o que bem entenderem. Um dos problemas com a encomenda de matérias é que elas transformam colaboradores em empregados.”

“...Como escreveu o poeta e ensaísta Joseph Brodsky, outro colaborador da revista, entre os anjos não existe hierarquia. A partir de certo grau de excelência é bobagem comparar escritores para determinar quem é superior a quem. O melhor elogio que se pode fazer a Mitchell é dizer que até hoje ele representa o paradigma da grande tradição do jornalismo literário americano. É o exemplo a ser seguido. Mitchell é o escritor dos escritores. Quem entende do riscado gostaria de ser igual.”

“... A revista de Haroldo Ross e William Shawn criara as condições institucionais para o tipo de jornalismo praticado por ele. Só ela combinava quatro predicados essenciais: tempo (para apurar e escrever), espaço (quando a matéria era grande demais, o editor simplesmente dividia o artigo em duas ou mais partes), apoio financeiro e liberdade editorial. Mitchell podia levar dois anos escrevendo a matéria que bem quisesse. O salário pingava todo mês.”

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Harry Potter 1

Rowling, J. K. Harry Potter e a Pedra Filosofal. Editora Rocco; São Paulo / SP; 1997; 263 páginas.

Dados da obra:

É o primeiro livro da série, em que o leitor é apresentado a Harry, filho de Tiago e Lílian Potter, feiticeiros que foram assassinados por um poderosíssimo bruxo, quando ele ainda era um bebê. Com isso, o menino acaba sendo levado para a casa dos tios, sendo maltratado por estes. No dia de seu aniversário de 11 anos, sua vida muda ao descobrir sua verdadeira história e seu destino: ser um aprendiz de feiticeiro até o dia em que terá que enfrentar a pior força do mal, o homem que assassinou seus pais, o terrível Lorde das Trevas.

Breve relato da autora:

Joane Kathleen Rowling, ou simplesmente JK Rowling é uma escritora britânica de ficção, autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter e de três outros pequenos livros relacionados ao mundo dele.

Passagens:

“Você não vai querer isso, é muito seco. Ela não tem muito tempo – acrescentou depressa. – Você sabe, somos cinco.
– Tome, como um pastelão – disse Harry, que nunca tivera nada para dividir com alguém antes, aliás, nem ninguém com quem dividir. Era uma sensação gostosa, sentar-se ali com Rony, acabar com todas as tortas e bolos de Harry (os sanduíches ficaram esquecidos).”

“– Vocês estão aqui para aprender a ciência sutil e a arte exata do preparo de poções – começou. Falava pouco acima de um sussurro, mas eles não perderam nenhuma palavra. Como a Profa. Minerva, Snape tinha o dom de manter uma classe silenciosa sem esforço. – Como aqui não fazemos gestos tolos, muitos de vocês podem pensar que isto não é mágica. Não espero que vocês realmente entendam a beleza de um caldeirão cozinhando em fogo lento, com a fumaça a tremeluzir, o delicado poder dos líquidos que fluem pelas veias humanas e enfeitiçam a mente, confundem os sentidos... Posso ensinar-lhes a engarrafar fama, a cozinhar glória, até zumbificar, se não forem o bando de cabeças-ocas que geralmente me mandam ensinar.”

“A sala comunal estava cheia e barulhenta. Todo o mundo estava comendo o jantar que fora mandado para lá. Hermione, porém, estava parada sozinha do lado da porta, esperando por eles Houve um silêncio constrangido. Depois, sem se olharem, todos disseram ‘Obrigado’ e correram para apanhar os pratos.
Mas daquele momento em diante, Hermione Granger tornou-se amiga dos dois. Há coisas que não se pode fazer junto sem acabar gostando um do outro, e derrubar um trasgo montanhês de quase quatro metros de altura é uma dessas coisas.”

“Harry pensou. Então respondeu lentamente:
– Ele nos mostra o que desejamos... seja o que for que desejemos...
– Sim e não – disse Dumbledore. – Mostra-nos nada mais nem menos do que o desejo mais íntimo, mais desesperado de nossos corações. Você, que nunca conheceu sua família, a vê de pé à sua volta. Ronald Weasley, que sempre teve os irmãos a lhe fazerem sombra, vê-se sozinho, melhor que todos os irmãos. Porém, o espelho não nos dá nem o conhecimento nem a verdade. Já houve homens que definharam diante dele, fascinados pelo que viram, ou enlouqueceram sem saber se o que o espelho mostrava era real ou sequer possível.”

“– Harry Potter, você sabe para que se usa o sangue de unicórnio?
– Não – disse Harry surpreendido pela estranha pergunta. – Só usamos o chifre e a cauda na aula de Poções.
– Porque é uma coisa monstruosa matar um unicórnio. Só alguém que não tem nada a perder e tudo a ganhar cometeria um crime desses. O sangue do unicórnio mantém a pessoa viva, mesmo quando ela está à beira da morte, mas a um preço terrível. Ela matou algo puro e indefeso para se salvar e só terá uma semivida, uma vida amaldiçoada, do momento que o sangue lhe tocar os lábios.”

“– E DAÍ? – gritou Harry. – Vocês não percebem? Se Snape apanhar a pedra, Voldemort vai voltar! Vocês não ouviram contar como era quando ele estava tentando conquistar o poder? Não vai haver Hogwarts para nos expulsar! Ele vai arrasar Hogwarts, ou transformá-la numa escola de magia negra! Perder pontos não importa mais, vocês não entendem? Acham que ele vai deixar vocês e suas famílias em paz, se Grifinória ganhar o campeonato das casas? Se eu for pego antes de conseguir a pedra, bem, vou ter que voltar para os Dursley e esperar Voldemort me encontrar lá. É só uma questão de morrer um pouquinho depois do que teria morrido, porque eu nunca vou me aliar aos partidários da magia negra! Vou entrar naquele alçapão hoje à noite e nada que vocês dois disserem vai me impedir! Voldemort matou meus pais, estão lembrados?”

“Alguém que estivesse do lado de fora do salão principal poderia ter pensado que ocorrera uma explosão, tão alta foi a barulheira que irrompeu na mesa da Grifinória. Harry, Rony e Hermione se levantaram para gritar e dar vivas enquanto Neville, branco de susto, desaparecia debaixo de uma montanha de gente que o abraçava. Jamais ganhara um único ponto para Grifinória antes. Harry, ainda gritando, cutucou Rony nas costelas indicando Malfoy, que não poderia ter feito uma cara mais perplexa e horrorizada se tivesse acabado de ser encantado com o Feitiço do Corpo Preso.”

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A sangue frio

Capote, Truman. A Sangue Frio. Editor Victor Civita; São Paulo / SP; 1975; 416 páginas.

Dados da obra:

Publicado em 1966, A Sangue Frio é a história real do brutal assassinato de uma família na cidade de Holcomb, localizada no interior do estado do Kansas, nos EUA, da ideia inicial do crime até a execução dos assassinos. O livro é um marco no jornalismo literário. Para escrevê-lo, Capote mergulhou fundo na história e conviveu com os assassinos, conseguindo extrair destes a confissão do crime.

Breve relato do autor:

Truman Streckfus Persons, mais conhecido como Truman Capote foi um escritor norte-americano e pioneiro do jornalismo literário.

Passagens:

“Nomes assinalados a tinta povoavam o mapa. Cozumel, uma ilha na costa do Iucatã, onde, conforme lera numa revista para homens, as pessoas poderiam ‘tirar a roupa, rir descansadas, viver como um marajá e ter todas as mulheres que quisessem com apenas cinquenta dólares por mês!’ ... Acapulco significava pescaria em alto-mar, cassinos, mulheres ricas e nervosas; Sierra Madre era ouro e outro era O Tesouro de Sierra Madre, filme que já vira oito vezes.”

“...Estudando outras fotografias do local do crime, Dewey descobria outros detalhes que pareciam apoiar sua teoria do assassino ocasionalmente levado por impulsos de consideração. ‘Ou’, quase nunca conseguia a palavra desejada, ‘cheio de cuidados’. Aquelas cobertas. Que tipo de pessoa faria isso: amarrar duas mulheres, como Bonnie e a menina foram amarradas, e então erguer as cobertas, aconchegá-las dentro delas, quase como a desejar uma boa noite e que dormissem bem? Ou o travesseiro debaixo da cabeça de Kenyon... Primeiro pensei que o travesseiro tivesse sido colocado para fazer da cabeça um alvo melhor. Agora acho que não, foi pelo mesmo motivo que puseram a caixa no chão: para dar mais conforto às vítimas.”

“Nossa, que frio! Papai e eu dormíamos abraçados, envoltos em cobertores e peles de urso. Antes que o sol raiasse, de manhã, eu arrumava café, biscoitos e mel, carne frita. Depois a gente ia cavar a vida. Teria sido bom, se eu não tivesse crescido. Quanto mais velho ficava, menos apreciava papai. Sabia tudo, por um lado, mas por outro não sabia nada. Papai não sabia nada de uma porção de coisas a meu respeito. Não compreendia um til. Como eu consegui tocar logo da primeira vez que peguei numa gaita. E guitarra também. Eu tinha um jeito enorme para música. Papai não reconhecia isso. Nem se importava. Eu gostava de ler. Melhorar meu vocabulário. Compunha canções...”

“... Dissera que tinha medo de Perry, e tinha: mas seria de Perry apenas ou seria de uma configuração de que ele era apenas parte no destino terrível que coubera aos quatro filhos de Florence Buckskin e Tex John Smith? O mais velho – o irmão que amara – matara-se com um tiro. Fern caíra, ou se jogara, de uma janela. E Perry entregara-se à violência: um criminoso. Portanto, num certo sentido, era ela a única sobrevivente e o que a atormentava era pensar que, com o tempo, ela, também, seria arrastada: enlouqueceria, contrairia uma doença incurável, ou perderia tudo que amava num incêndio: lar, marido, filhos”.

“... Até a morte de Nancy não apreciara Sue, nunca se sentira à vontade com ela. Ela era diferente – levava a sério mesmo coisas que as moças não deveriam levar a sério: pintura, poemas, a música que tocava no piano. E, é claro, tinha ciúmes dela; sua posição, no conceito de Nancy, embora fosse de outro tipo, havia sido idêntica à dele, no mínimo. Mas por isso mesmo ela compreendia sua perda. Sem Sue, sem a sua presença quase constante, como poderia ter suportado aquela avalancha de choques – o crime, suas entrevistas com o Sr. Dewey, a ironia patética de ser o principal suspeito?
Depois de um mês, a amizade esfriou. Bobby passou a frequentar menos a pequena e acolhedora sala de visitas dos Kidwell e, quando ia, Sue não parecia tão acolhedora. O mal estava em que ambos se esforçavam a lamentar e lembrar aquilo que, na realidade, queriam esquecer...”

“...O potencial assassino pode ser ativado, especialmente se algum desequilíbrio já se encontra presente, quando a futura vítima é inconscientemente percebida como figura-chave de alguma configuração traumática de seu passado. O comportamento, ou mesmo a simples presença desta figura, acrescenta uma tensão ao equilíbrio de forças que resulta numa súbita e extrema descarga de violência, semelhante à explosão de uma espoleta numa carga de dinamite...”

“...Três dos assassinatos de Smith, obviamente, foram motivados pela lógica: Nancy, Kenyon e a mãe deles tinham de ser mortos porque o Sr. Clutter fora morto. Mas o Dr. Satten argumenta que, do ponto de vista psicológico, só o primeiro assassinato conta, e que, quando Smith atacou o Sr. Clutter, estava em ‘eclipse mental’, dentro de uma profunda escuridão esquizofrênica, pois não era um homem de carne e osso que ‘se descobrira subitamente destruindo’, mas uma ‘figura-chave em alguma configuração dramática em seu passado’: o pai?, as freiras no orfanato que o ridicularizavam e surravam? O sargento tão odiado? O encarregado do livramento condicional que lhe dera ordens de ‘não aparecer no Kansas?’ Um deles, ou todos eles”.

“Na confissão, Smith dissera: ‘Não queria fazer mal. Me parecia um cavalheiro muito distinto. De fala macia. Até a hora de cortar o pescoço dele eu achava isso’. Ou então para o amigo Don Cullivan: ‘Não foi nada que os Clutter tivessem feito. Nunca me fizeram nada. Como os outros fizeram. Como fizeram comigo a vida inteira. Vai ver os Clutter é que tinham de pagar por tudo’.”

“– Mas pra idade dele nunca conheci ninguém tão inteligente. Uma verdadeira enciclopédia ambulante. Quando aquele menino lia um livro era pra valer. Claro que não sabia nada da vida. Eu sou um cara ignorante, menos no que diz respeito à vida. Já andei em cada rua que não era brincadeira não. Já vi homem branco ser açoitado. Vi criança nascer. Vi uma garota com menos de catorze anos ir pra cama com três caras ao mesmo tempo e merecer o dinheiro tirado deles todos. Uma vez caí de um navio a cinco milhas da costa: nadei cinco milhas vendo minha vida passar diante de mim a cada braçada. Uma vez apertei a mão do Presidente Truman no saguão do Hotel Muehlebach. Harry S. Truman. Quando trabalhava pro hospital dirigindo ambulância, vi todos os lados da vida – coisas de fazer um cachorro vomitar. Mas Andy? Não sabia nada: a não ser o que lia nos livros.”

“Passo, laço, máscaras. Mas antes de lhe ajeitarem a máscara, o prisioneiro cuspiu fora o chiclete na mão estendida do capelão. Dewey fechou os olhos. Manteve-os fechados até que ouviu o baque surdo anunciando um pescoço quebrado por corda. Como a maior parte dos agentes da lei dos Estados Unidos, Dewey tem certeza de que a pena de morte é um meio de intimidação ao crime violento. A execução anterior não o perturbara, pois nunca dera muita importância a Hickock, que lhe parecia apenas ‘um ladrãozinho ordinário’ que saíra da sua categoria, vazio, não valia nada. Mas Smith, embora fosse o verdadeiro assassino, despertava outra espécie de reação, pois Perry possuía a aura do animal ferido, da criatura exilada que o detetive não podia menosprezar. Lembrou-se do primeiro encontro com Perry, na sala de interrogatórios em Las Vegas: o menino-homem, quase anão, sentado na cadeira de metal, os pés em botas mal tocando no solo.
E foi o que viu, quando abriu de novo os olhos: os mesmos pés infantis, tortos, balançando.”

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Harry Potter 6

Rowling, J. K. Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Editora Rocco; São Paulo / SP; 2005; 512 páginas.

Dados da obra:

Considerado, por alguns, o mais sombrio da série, o livro dá continuidade à saga de Harry Potter, que acabou de completar 16 anos, partindo assim para o sexto ano na escola de Hogwarts. Animado e ansioso, Harry terá aulas particulares com Dubledore.

Breve relato da autora:

Joane Kathleen Rowling, ou simplesmente JK Rowling é uma escritora britânica de ficção, autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter e de três outros pequenos livros relacionados ao mundo dele.

Passagens:

“– Mas enquanto estava na casa dos Dursley – interrompeu Harry, sua voz tornando-se mais firme – percebi que não posso me isolar de tudo, senão vou ficar maluco. Sirius não teria gostado disso, não é? De qualquer jeito, a vida é curta demais... vê a Madame Bones, vê a Emelina Vance... eu poderia ser o próximo, não é? Mas, se eu for – disse com ferocidade, agora encarando os olhos azuis de Dumbledore, brilhando à luz da varinha –, vou fazer questão de levar comigo o maior número de Comensais da Morte que puder, e Voldemort também, se tiver forças.”

“Era bem estranho, visto que tinha sido um Comensal da Morte disfarçado quem dissera pela primeira vez que Harry daria um bom auror, que a ideia o tivesse conquistado e ele não conseguisse realmente pensar em outra profissão futura. Além disso, tinha lhe parecido o destino certo para ele desde que ouvira a profecia há um mês... nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver... não estaria assim cumprindo a profecia e dando a si mesmo a melhor chance de sobreviver, se entrasse para o grupo de bruxos altamente treinados cuja função era encontrar e matar Voldemort? ”

“A infância de Neville fora arruinada por Voldemort tal como a de Harry, mas o amigo não fazia a menor ideia de como chegara perto de ter o destino dele. A profecia poderia ter se referido a qualquer um dos dois, contudo, por razões próprias e insondáveis, Voldemort preferira acreditar que se referia a Harry.
Se Voldemort tivesse escolhido Neville, ele é quem estaria sentado diante de Harry com a cicatriz em forma de raio e o peso da profecia... ou será que não? Será que a mãe de Neville teria morrido para salvá-lo, como Lílian morrera por Harry? Com certeza que sim... mas e se não tivesse conseguido se interpor entre Voldemort e o filho? Então, será que não haveria ‘Eleito’ algum? Só um banco vazio onde Neville se sentava agora e um Harry sem cicatriz que teria recebido um beijo de despedida de sua mãe e não da de Rony? “

“– As pessoas acreditam que você é o ‘Eleito’, entende? Acham que você é um herói, o que é claro, você é, Harry, eleito ou não! Quantas vezes você enfrentou Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado até agora? Bem, seja como for – ele prosseguiu sem esperar resposta –, a questão é que você é um símbolo de esperança para muitos, Harry. A ideia de que tem alguém de sentinela que talvez possa, ou até talvez esteja destinado a destruir Aquele-que-Não-Deve-Ser-Nomeado... bem é natural que isto revigore as pessoas. E não posso deixar de sentir que, quando perceber isto, você talvez considere, bem, quase como um dever, apoiar o Ministério e dar alento a todos.”

“– Dumbledore nos contou como você salvou Rony com o bezoar – soluçou a bruxa. – Ah, Harry, que podemos dizer? Você salvou Gina... salvou Arthur... agora salvou Rony...
– Não precisa... eu não... – murmurou Harry sem jeito.
– Parece que metade da nossa família lhe deve a vida, agora que paro para pensar – falou o sr. Weasley com a voz embargada. – Bem, só o que posso dizer é que foi um dia de sorte para os Weasley quando Rony resolveu sentar no seu compartimento no Expresso de Hogwarts, Harry.”

“A expressão de Voldemort não se alterou ao responder:
– A grandeza inspira a inveja, a inveja engendra o despeito, o despeito produz a mentira. Você deve saber disso, Dumbledore.”

.”– Acho que sim – respondeu Dumbledore. – Sem as Horcruxes, Voldemort será um homem mortal, com uma alma mutilada e diminuída. Mas não se esqueça jamais que, embora a alma dele esteja irrecuperavelmente danificada, seu cérebro e seus poderes mágicos permanecem intactos. Serão necessários perícia e poder incomuns para matar um bruxo como Voldemort, mesmo sem as Horcruxes.”

“– Isso mesmo... apenas amor. Mas, Harry, nunca esqueça que os dizeres da profecia só têm significação porque Voldemort fez com que tivessem. Eu lhe disse isto no final do ano passado. Voldemort destacou você como a pessoa que ofereceria maior perigo para ele; e, ao fazer isso, transformou-o na pessoa que ofereceria maior perigo para ele!”

“– Claro que sim! – exclamou Dumbledore. – A profecia não significa que você tem de fazer nada, entende! Mas a profecia levou Lord Voldemort a marcá-lo como seu igual... em outras palavras, você é livre para escolher o próprio caminho, livre para dar as costas à profecia! Voldemort, no entanto, continua a valorizar a profecia. E continuará a persegui-lo... o que de, fato, transforma em certeza que...
– Que um de nós vai acabar matando o outro – completou Harry. – Eu sei.”

“O garoto percebera que não havia esperança no instante em que o Feitiço do Corpo Preso que Dumbledore lançara sobre ele cessara; percebera que aquilo só poderia ter acontecido porque quem lançara o feitiço estava morto; contudo, ainda não tinha se preparado para vê-lo ali, de braços e pernas abertos, quebrado: o maior bruxo que Harry conhecera ou jamais conheceria.”

“Ao Lorde das Trevas
Sei que há muito estarei morto quando ler isto, mas quero que saiba que fui eu quem descobriu o seu segredo. Roubei a Horcrux verdadeira e pretendo destruí-la assim que puder. Enfrento a morte na esperança de que, quando você encontrar um adversário à altura, terá se tornado outra vez mortal. R.A.B”

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Harry Potter 5

Rowling, J. K. Harry Potter e a Ordem da Fênix. Editora Rocco; São Paulo / SP; 2003; 704 páginas.

Dados da obra:

Quinto livro da série, Harry Potter e a Ordem da Fênix é uma obra marcada pela tensão e pela complexidade. Potter já é um adolescente e aos poucos vai amadurecendo, tem crises e ataques de mau humor. O título faz menção a uma sociedade secreta envolvendo parte dos professores da Escola de Magia. Hogwarts se transforma em um horror e Harry terá de enfrentar as investidas de Voldemort sem a proteção de Dumbledore, já que o diretor é afastado da escola.

Breve relato da autora:

Joane Kathleen Rowling, ou simplesmente JK Rowling é uma escritora britânica de ficção, autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter e de três outros pequenos livros relacionados ao mundo dele.

Passagens:

“Era estranho estar parado ali na cozinha cirurgicamente limpa da tia Petúnia, ao lado de uma geladeira de último tipo e uma enorme tela de televisão, conversando calmamente com o tio sobre Lord Voldemort. A chegada de dementadores a Little Whinging parecia ter rompido o grande muro invisível que separava o mundo implacavelmente não-mágico da rua dos Alfeneiros e o mundo além. As duas vidas de Harry de alguma forma haviam se fundido e tudo virara de cabeça para baixo; os Dursley estavam pedindo detalhes sobre o mundo mágico, e a Sra. Figg conhecia Dumbledore; os dementadores estavam circulando por Little Whinging, e ele talvez nunca mais voltasse a Hogwarts. Sua cabeça latejou com mais força, doendo ainda mais.”

“Cada pensamento amargurado e cheio de rancor que Harry tivera no último mês foi saindo de dentro dele; sua frustração com a falta de notícias, a mágoa de que todos tinham estado juntos sem ele, sua fúria por estar sendo seguido e ninguém lhe informar – todos os sentimentos de que sentia uma certa vergonha extravasaram. Edwiges assustou-se com a gritaria e tornou a voar para cima do armário; Pichitinho, alarmado, soltou vários pios e voou ainda mais depressa ao redor das cabeças dos garotos.”

“Harry amarrou a cara e enterrou-a nas mãos. Não podia mentir para si mesmo; se tivesse sabido que o distintivo de monitor estava a caminho, teria esperado que viesse para ele e não para Rony. Será que isto o fazia tão arrogante quanto Draco Malfoy? Será que se achava superior a todos? Será que realmente acreditava que era melhor do que Rony?
Bom, Rony e Hermione estiveram comigo na maior parte do tempo, disse a voz na cabeça de Harry.
Mas não o tempo todo, argumentou Harry. Eles não lutaram contra Quirrell. Eles não enfrentaram o Riddle nem o basilisco. Eles não se livraram dos dementadores na noite em que Sirius fugiu. Eles não estiveram no cemitério, na noite em que Voldemort voltou...”
Mas talvez, disse a vozinha com imparcialidade, talvez Dumbledore não escolha os monitores porque eles vivam se metendo em situações perigosas... talvez ele os escolha por outras razões... Rony deve ter alguma coisa que você não tem...”

“Rony não pedira a Dumbledore para lhe dar o distintivo de monitor. Não era culpa de Rony. Será que ele, Harry, o melhor amigo de Rony no mundo, ia ficar emburrado porque não ganhara um distintivo, ia rir com os gêmeos às costas do amigo, estragar, para Rony, este momento em que, pela primeira vez, ele levava a melhor sobre Harry em alguma coisa?”

“Era estranho como os pertences dos dois pareciam ter-se espalhado desde que haviam chegado ali. Levaram quase a tarde inteira para reunir os livros e outras coisas largadas pela casa e guardá-las de volta nos malões de escola. Harry reparou que o amigo não parava de mexer no distintivo, primeiro colocou-o sobre a mesa-de-cabeceira, depois guardou-o no bolso da jeans, por fim tirou-o e ajeitou-o sobre as vestes dobradas, como se quisesse ver o efeito do vermelho sobre o negro. Somente quando Fred e Jorge apareceram e se ofereceram para prendê-lo à testa dele com um Feitiço Adesivo Permanente, é que ele o embrulhou carinhosamente nas meias castanhas e trancou-o no malão.”

“Harry não disse nada. Atirou a varinha sobre a sua mesa-de-cabeceira, despiu as vestes, enfiou-as com raiva no malão e vestiu o pijama. Estava farto daquilo; farto de ser a pessoa para quem todos olham e de quem falam o tempo todo. Se algum deles soubesse, se algum deles tivesse a mais pálida ideia do que era se sentir a pessoa a quem todas aquelas coisas aconteciam... A Sra. Finningan não fazia ideia, aquela burra, pensou com ferocidade.”

“Conhecera essa sala à época dos seus três ocupantes anteriores. Quando Gilderoy Lockhart a usara, tinha as paredes cobertas de fotos dele sorridente. Quando Lupin a ocupara, parecia que a pessoa ia deparar com alguma fascinante criatura das trevas em uma gaiola ou em um tanque, se aparecesse para visitá-lo. Na época do Moody impostor, a sala se enchera de instrumentos e artefatos para a detecção de malfeitos e dissimulações.
Agora, porém, estava completamente irreconhecível. As superfícies tinham sido protegidas por capas de rendas e tecidos. Havia vários vasos de flores secas, cada um sobre um paninho, e, em uma parede, havia uma coleção de pratos decorativos, estampados com enormes gatos em tecnicolor, cada um com uma laço diferente ao pescoço. Eram tão hediondos que Harry ficou mirando-os, paralisado, até a Profª Umbridge tornar a falar.”

“A mãe de Neville viera andando lentamente pela enfermaria de camisola. Já não tinha o rosto cheio e feliz que Harry vira na velha fotografia de Moody com os participantes da Ordem da Fênix inicial. Seu rosto estava fino e cansado agora, os olhos pareciam grandes demais e seus cabelos tinham ficado brancos, ralos e sem vida. Ela não pareceria querer falar, ou talvez não fosse capaz, mas fez gestos tímidos em direção a Neville, segurando alguma coisa na mão estendida.”

“– Somente os trouxas falam de ler mentes. A mente não é um livro que se abre quando se quer e se examina ao bel-prazer. Os pensamentos não estão gravados no interior do crânio, para serem examinados por qualquer invasor. A mente é algo complexo e multiestratificado, Potter, ou pelo menos a maioria das mentes é. – Deu um sorrisinho. – Mas é verdade que aqueles que dominam a Legilimência são capazes, sob determinadas condições, de penetrar as mentes de suas vítimas e interpretar suas conclusões corretamente. O Lorde das Trevas, por exemplo, quase sempre sabe quando alguém está mentindo para ele. Somente os peritos em Oclumência podem ocultar os sentimentos e lembranças que contradiriam a mentira, e conseguem dizer falsidades em sua presença sem serem apanhados.”

“Mas uma parte dele compreendia, mesmo enquanto lutava para se desvencilhar de Lupin, que Sirius nunca o deixara esperando antes... Sempre arriscara tudo para ver Harry, para ajudá-lo... se não saía do arco quando gritava por ele como se sua vida dependesse disso, a única explicação possível era que não podia voltar... era que realmente estava...”

“A sensação de culpa que enchia o peito de Harry como um parasita monstruoso e pesado agora se torcia e virava. Harry não conseguia suportar isso, não conseguia mais suportar ser quem era... nunca se sentira tão encurralado dentro do próprio corpo, nunca desejara tão intensamente poder ser outra pessoa, qualquer pessoa, ou...”

“Harry deu as costas ao diretor e ficou olhando decidido pela janela. Via o campo de quadribol ao longe. Sirius aparecera ali uma vez, disfarçado de cachorro preto e peludo, para poder vê-lo jogar... provavelmente viera ver se o filho era tão bom quanto o pai fora... Harry nunca lhe perguntara...”

“Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima... nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês... e o Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece... e um dos dois deverá morrer na mão do outro pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver... aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas nascerá quando o sétimo mês terminar...”

“– Há uma sala no Departamento de Mistérios – interrompeu-o Dumbledore – que está sempre trancada. Contém uma força mais maravilhosa e mais terrível do que a morte, do que a inteligência humana, do que as forças da natureza. E talvez seja também o mais misterioso dos muitos objetos de estudo que são guardados lá. É o poder guardado naquela sala que você possui em grande quantidade, e que Voldemort não possui. Esse poder o levou a tentar salvar Sirius hoje à noite. Esse poder também o salvou de ser possuído por Voldemort, porque ele não poderia suportar residir em um corpo tomado por uma força que ele detesta. No fim, não teve importância que você não pudesse fechar sua mente. Foi o seu coração que o salvou.”

“Talvez a razão pela qual queria estar só fosse a sensação de isolamento desde a sua conversa com Dumbledore. Uma barreira invisível o separava do resto do mundo. Era – e sempre fora – um homem marcado. Apenas nunca entendera realmente o que isto significava...
E, no entanto, sentado ali à beira do lago, com o peso terrível da dor a oprimi-lo, com a perda de Sirius ainda tão sangrenta e recente em seu peito, ele não conseguia sentir nenhum grande temor. Fazia um dia ensolarado, os jardins à sua volta estavam cheios de gente que ria e, embora se sentisse distante deles como se pertencesse a uma raça à parte, ainda era muito difícil acreditar que sua vida tinha de incluir o assassinato ou nele terminar...
Ficou sentado ali muito tempo, contemplando a água, tentando não pensar no padrinho, nem lembrar que fora na outra margem diretamente oposta que Sirius uma vez tombara, tentando afastar cem Dementadores...
O sol já se pusera quando ele percebeu que sentia frio. Levantou-se e voltou ao castelo, enxugando o rosto na manga pelo caminho.”