quarta-feira, 30 de março de 2011

Mrs. Dalloway

Woolf, Virginia. Mrs. Dalloway. Editora Nova Fronteira; São Paulo / SP; 2003; 187 páginas.

Dados da obra:

A história conta um dia na vida de Clarissa Dalloway – a senhora que dá o título à obra –, enquanto ela prepara uma festa em sua casa para logo mais à noite. Entre suas reflexões e lembranças a cerca da sua vida e das escolhas que fez, misturam-se outros personagens, também com suas lembranças e reflexões. A narrativa é linear e os personagens se sobrepõem um ao outro.

Breve relato do autor:


Virgínia Woolf foi uma das mais importantes escritoras britânicas. Teve a vida dedicada à literatura, fazendo parte do grupo Bloomsbury, círculo de intelectuais sofisticados formado depois da I Guerra Mundial. Vítima de uma grave depressão, suicidou-se em 1941.

Passagens:

“O vestíbulo da casa estava fresco como uma cripta. A Sra. Dalloway levou as mãos aos olhos, e, enquanto a criada fechava a porta e ela lhe ouvia o rugir das saias, sentiu-se como uma monja que volta ao mundo e sente que tombam sobre a sua fronte os familiares véus e a resposta às velhas devoções. A cozinheira assobiava na cozinha. Ouviu o taque-taque da máquina de escrever. Aquilo era a sua vida, e, inclinando a cabeça para a mesinha do vestíbulo, curvava-se ante a sua influência, sentia-se abençoada e purificada, e, enquanto tomava o anotador de recados telefônicos, dizia consigo que momentos como aqueles eram botões da árvore da vida, eram flores da escuridão, pensava (como se alguma linda rosa acabasse de florescer unicamente para seus olhos); nem um só momento acreditara em Deus; mas uma razão, pensou com o anotador suspenso, para agradecer, na vida diária, às criadas, sim, aos cachorros e canários, e principalmente a Richard, seu marido, no qual tudo repousava – pelos alegres rumores, pelas luzes verdes, pelo assobio da cozinheira, pois a Sra. Walker era irlandesa e assobiava todo o dia – para agradecer-lhes por aquele secreto espírito de deliciosos momentos, pensou, erguendo o anotador...”

“Agora Elizabeth tinha sido ‘apresentada’, provavelmente considerava-o uma múmia, ria dos amigos de sua mãe. Mas que se lhe havia de fazer? A compensação de a gente envelhecer, pensava Peter Walsh, retirando-se de Regent´s Park, com o chapéu na mão, era simplesmente esta: que as paixões permanecem tão fortes como antes, mas adquire-se – afinal! – o poder que dá o supremo sabor à existência: o poder de nos apoderarmos da experiência e volteá-la, lentamente, em plena luz.”

“...De súbito Elizabeth avançou e, com a maior desenvoltura, abordou o ônibus, na frente de todos. Escolheu um assento na imperial. A impetuosa máquina – um navio pirata – trepidou, partiu; ela teve de agarrar-se ao balaústre para não cair, pois aquilo era mesmo um navio pirata, com toda a sua brutalidade, a falta de escrúpulos, que avançava implacavelmente, fazia as mais perigosas curvas, colhia este passageiro, desprezava aquele, deslizava por entre o tráfego como uma enguia, e precipitava-se insolentemente, com todas as velas pandas em Whitehall.”

“...Mas críquete não era um simples jogo. O críquete era uma coisa importante. Impossível deixar de ler as partidas de críquete. Leu primeiro os resultados na seção especial; depois as notícias do calor, depois a reportagem de um crime. Ter feito coisas milhões de vezes, enriquece-as, embora possa dizer-se que lhes tira a superfície. O passado nos enriquece, e a experiência, e o ter amado uma ou duas vezes, pois se adquire o poder, que falta à juventude, de ir direito ao fim, de fazer o que bem se entende, sem dar importância aos outros, e de mover-se pelo mundo sem grandes expectativas (deixou o jornal sobre a mesa e retirou-se), o que, no entanto (foi buscar o chapéu), não era inteiramente certo para ele, pelo menos naquela noite, pois saía a fim de ir a uma festa, na sua idade, certo de que ia ter uma nova experiência. Mas que experiência?”

segunda-feira, 21 de março de 2011

Lava nos Estados Unidos

Kopelman, Jay. Lições de vida de um cão chamado Lava. Editora Best Seller; Rio de Janeiro / RJ; 2009; 178 páginas.

Dados da obra:

Com a vinda do cão Lava do Iraque para os Estados Unidos, que foi relatada em “De Bagdá com muito amor” pelo tenente coronel Jay Kopelman, o autor narra a difícil adaptação do cão à sua nova vida e as consequências da guerra no comportamento de seu fiel amigo. Nessa empreitada o próprio Jay percebe que ele próprio precisa se readaptar ao convívio dos amigos e familiares.

Breve relato do autor:

Jay Kopelman é um ex- tenente-coronel do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Autor do best seller De Bagdá com muito amor.

Passagens:

“Os cães são nossa ligação com o paraíso. Não conhecem o mal, a inveja ou o descontentamento. Estar sentado com um cão numa colina numa tarde gloriosa é estar de volta ao Éden, onde não fazer nada não era tédio – era paz”. – Milan Kundera.

“Se eu não fosse suficientemente velho para saber que não ia adiantar – e eu nunca fora um bobalhão – teria me lançado em direção ao vidro de uma janela, para poder sentir a dor física de Lava, pelo menos num certo grau. Como se isso pudesse tirar só um pouquinho a dor dele e transferi-la para mim. Por que eu não podia voltar no tempo? Por que eu não podia alterar os acontecimentos de tal maneira que meu passeio com Lava naquele exato momento não coincidisse com uma motorista distraída descendo a rua em alta velocidade? Será que eu poderia descobri uma forma de poder voltar – como quando o Super-Homem inverte a rotação da Terra – e impedir a confluência de Lava e de uma dessas socialites e impedir a confluência de Lava e de uma dessas socialites indo almoçar sabe-se Deus onde naquela velocidade insensata?”

“Mas eu deveria ser mais inteligente que isso – melhor que isso. Cheguei a aprender que não se pode controlar sempre o medo, a dor e a raiva, suprimindo-os. Tentar parecer forte do lado de fora quando você está internamente em conflito e sentindo dor não vai funcionar. Eu percebo isso em Lava, especialmente quando o medo ficava demasiadamente grande para ele. Ele tinha muito medo de mar. Ficava apavorado, com o corpo inteiro tremendo e recusando-se a mover. As ondas batendo na areia teriam soado como bombas para ele? A areia instável sob os pés lhe recordaria sua existência anterior, insegura e selvagem? Eu podia reconhecer isso nele e até pensar em como poderia ajudá-lo a despeito disso, mas acreditava, com a convicção de um fanático, que nenhuma das minhas experiências havia me transtornado da mesma maneira.”

“Ter Pam na minha vida modificou minha relação com Lava, mas também me mostrou o quanto ele havia me dado, a mim e a todos, lá naquele ânus do mundo – isto é, o Iraque. O simples fato de poder afagá-lo nos fazia lembrar de que ainda éramos humanos, ainda capazes de sentimentos. Estudos demonstraram que as pessoas que têm bichos de estimação apresentam níveis mais baixos de estresse e ansiedade. Um biólogo comentou recentemente na Newsweek que qualquer problema que possua uma componente relacionada ao estresse pode ser melhorado com um animal doméstico: ‘Fornecem um foco de atenção fora de si mesmo. Eles realmente fazem com que você se concentre neles em vez de concentrar-se o tempo inteiro para dentro de si mesmo’. Pois é, ciência prova que é verdade – faça um carinho no seu cachorro e você ficará feliz e mais saudável.”

“Dusty foi entregue aos meus pais na minha casa em Lasing, Michigan, aproximadamente uma semana e meia antes de eu chegar em casa, depois de ser desmobilizado; havíamos estado separados por cerca de dois meses, Portanto, compreendo sua experiência quando você reencontrou Lava em San Diego. Eu havia chegado em Lasing de trem por volta das 2 horas e cheguei em casa às 3. Dusty estava no nosso quintal, no engradado com que fora despachada e que meus pais usaram como canil. Quando ela ouviu o assovio com o qual eu costumava chamá-la, fez tanto estardalhaço que todos os vizinhos em volta souberam que eu havia chegado. Naquela época, sendo muito mais jovem que você, não tive problema em mostrar minhas emoções com o reencontro e eu não estava nem aí por quem presenciasse minhas lágrimas e meu amor por Dusty.” – Robert L. Robinson, Técnico da Oitava Divisão Blindada, Nono Exército.

quarta-feira, 9 de março de 2011

De Bagdá com muito amor

Kopelman, Jay; Roth, Melinda. De Bagdá com muito amor. Editora Best Seller; Rio de Janeiro/ RJ; 2007; 218 páginas.

Dados da obra:

No início da ocupação norte-americana, na cidade de Faluja, Iraque, um grupo de fuzileiros encontram um cãozinho abandonado, em meio a uma cenário de destruição e morte. Adotado pela tropa, o pequeno Lava conquista Jay Kopelman, um tenente-coronel, que vai mover céus e terras para tentar levar o animalzinho para os Estados Unidos. A história de amor entre um um homem e um cão, e como este ajudou a amenizar os terrores da guerra entre aqueles que com ele conviveram.

Breve relato do autor:

Jay Kopelman é um ex- tenente-coronel do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos; Melinda Roth é jornalista e autora de The Man Who Talks to Dogs.

Passagens:

“Ken tinha sorte. Na verdade, era um homem abençoado. Tinha começado a trabalhar com cachorros em 1977, como adestrador e tratador da polícia da Força Aérea, e percebeu imediatamente que os cães garantiam a sanidade dos homens. Inicialmente, achou que a concentração necessária a um bom adestrador e tratador exigisse equilíbrio mental, mas, ao longo dos anos – e do trabalho no Serviço Secreto, na segurança de presidentes e personalidades estrangeiras, dos Jogos Pan-americanos e do Papa, com seus cães e adestradores –, Ken aprendeu que era mais do que isso.
Quando você passa toda a carreira no meio da violência, os cães o ajudam a lembrar que ainda é humano.”

“Se um cão ‘inapto’ for considerado ‘adotável’ – isto é, se ele não estiver propenso a invadir playgrounds para atacar criancinhas sem ser provocado – e se quem o adotar compreender os riscos envolvidos – isto é, se entender que pode acontecer que crianças pequenas o provoquem e ele invada o playground e as ataque –, esse novo dono assinará um acordo que absolve o departamento de Defesa de qualquer responsabilidade por danos ou ferimentos que o cão possa causar.
A maioria, no entanto, é considerada ‘não-adotável’. Esses são os cães cuja vida foi devotada a executar comandos perfeitamente, que se dedicaram completamente aos militares, a quem obedeceriam até a morte. Os cães mais fiéis, mais confiáveis, mais patrióticos do grupo. Por isso é expedido um documento de ‘disposição final’ para que seja praticada a eutanásia.”

“No fim de semana, Anne me envia outro e-mail.
Ele hoje salvou minha sanidade. Estava cheia de tudo isso aqui e de todo o meu trabalho, mas fui para casa e fiquei brincando com ele.
Imagino que a presença de Lava nas instalações da rádio proporciona a todos os humanos uma fuga temporária da realidade e os leva através de vários pontos de controle até a terra do faz-de-conta, onde os cachorrinhos saltitam em gramados verdes e macios e está um lindo dia na vizinhança.”

“Ele é assim. Tudo o que Lava faz é intenso. Quando come, ele suspira. Quando se sente solitário, geme. Quando está cansado, deita-se e, em poucos segundos, já está roncando. Quando quer brincar, fica saltando diante de você, morde os laços de seus coturnos, não se aquieta, não pede desculpas, simplesmente usa tudo o que pode para atrair sua atenção.”

“...quero Lava vivo. Não importa o quanto a situação esteja ruim, ainda vale a pena estar vivo. Quero acreditar que ele ainda está respirando, saltando atrás das nuvens de poeira e perseguindo inimigos imaginários em seus sonhos. Quero que ele fique vivo, porque assim, ainda haverá esperanças de que consiga chegará à Califórnia e passe a ser um cachorro norte-americano que corre na praia e persegue o carteiro, em vez de desconhecidos com armas. Mais do que qualquer outra coisa, quero que ele fique vivo porque, devo confessar, antes de Lava eu era um fuzileiro de quem não se esperava qualquer reflexão sobre a vida e a morte. Eu carregava uma mochila repleta de cupons que valiam a absolvição. Agora, depois de conhecer Lava e deixar o medo tomar conta de mim, percebo uma vaga semelhança entre um assassino em série e eu.”

”A expressão dos olhos de Lava ao saltar em minha direção tão depressa quanto lhe permitem as pernas é uma versão mais madura do olhar dele para mim no dia em que o empurrei com o coturno pelo chão no posto de comando; uma evolução do olhar dele para mim quando entrei no posto dos Cães de Lava e ele fez aquele xixi de submissão; a segunda parte daquele olhar patético, suplicante de quando eu o traí na fronteira com a Jordânia ao metê-lo de novo no engradado daquele motorista malvado.”

terça-feira, 1 de março de 2011

Fahrenheit 451

Bradbury, Ray. Fahrenheit 451. Editora Globo; São Paulo / SP; 2003; 216 páginas.

Dados da obra:

O livro narra um futuro incerto onde os livros são proibidos e perseguidos por um regime totalitário. A vida é controlada e as pessoas são manipuladas por meio de aparelhos de TVs. A história centra-se em Guy Montag, bombeiro, cuja função na sociedade é queimar os livros e tudo relacionado à leitura. Porém, Montag conhece uma menina e, aos poucos, começa a perceber o vazio da sua vida.

Breve relato do autor:

Ray Bradbury é um escritor de ascendência sueca e que escreve contos de ficção científica norte-americana. Mais conhecido pelas Crônicas Marcianas e Fahrenheit 451.

Passagens:

“– A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”

“– Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação ào Cabana do Pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois de que uma pessoa morreu, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memoriam para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo.”

“... você sabe por que livros como este são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que significa a palavra qualidade? Para mim significa textura. Este livro tem poros. Tem feições. Este livro poderia passar pelo microscópio. Você encontraria vida sob a lâmina, emanando em profusão infinita. Quanto mais poros, quanto mais detalhes de vida fielmente gravados por centímetro quadrado você conseguir captar numa folha de papel, mais ‘literário’ você será. Pelo menos esta é a minha definição. Detalhes reveladores. Detalhes frescos. Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas. Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida.”

“– O Dentifrício Denham; eles não tecem, nem fiam – disse Montag, os olhos cerrados. – E para onde vamos? Os livros nos ajudariam?
– Só se fosse dada a terceira coisa necessária. A primeira, como eu disse, é a qualidade da informação. A segunda, o lazer para digeri-la. E a terceira, o direito de realizar ações com base no que aprendemos da interação entre as duas primeiras. E tenho dúvidas de que um velhote e um bombeiro amargurado possam fazer muita coisa a essa altura do campeonato...”

“– Mas é – replicou Granger sorrindo. – E também somos queimadores de livros. Lemos os livros e os queimamos, por medo que sejam encontrados. Não compensava microfilmá-los; estávamos sempre viajando, não queríamos enterrar o filme para voltar mais tarde. Sempre haveria o risco de sermos descobertos. O melhor é guardá-los na cabeça onde ninguém virá procurá-los. Somos todos fragmentos e obras de história, literatura e direito internacional. Byron, Tom Paine, Maquiavel ou Cristo, tudo está aqui. E a noite avança. A guerra começou...”

“– Todos devem deixar algo para trás quando morrem, dizia meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa ou parede construída, um par de sapatos. Ou um jardim. Algo que sua mão tenha tocado de algum modo, para que sua alma tenha para onde ir quando você morrer. E quando as pessoas olharem para aquela árvore ou aquela flor que você plantou, você estará ali. Não importa o que você faça, dizia ele, desde que você transforme alguma coisa, do jeito que era antes de você tocá-la, em algo que é como você depois que suas mãos passaram por ela. A diferença entre o homem que apenas apara gramados e um verdadeiro jardineiro está no toque, dizia ele. O aparador de grama podia muito bem não ter estado ali; o jardineiro estará lá durante um vida inteira.”

“Uma última descoberta. Escrevo todos os meus romances e contos, como vocês já viram, num grande acesso de paixão prazerosa. Só recentemente, revendo o romance, percebi que Montag foi batizado com o nome de uma fábrica de papel. E Faber. Naturalmente, é um fabricante de lápis! Como meu inconsciente foi astuto ao dar esses nomes a eles.
E em não contar isso a mim!”

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Como um Romance

Pennac, Daniel. Como um Romance. Editora Rocco. Rio de Janeiro / RJ; 1993. 168 páginas.

Dados da obra:

Ensaio em que Pennac questiona, por meio da recriação ficcional do ambiente de uma sala de aula, a razão de os jovens não gostarem de ler. Baseado em suas próprias experiências como professor, ele ensina como recuperar nos alunos o gosto pela leitura. É uma declaração de amor ao ato de ler.

Breve relato do autor:

Daniel Pennac nasceu em Casablanca, Marrocos e é filho de um oficial francês que servia nas colônias do país. É professor de língua francesa em uma escola em Paris e um apaixonado pela pedagogia. Hoje considerado um dos mais importantes e populares autores da literatura francesa

Passagens:

“Resumindo, ensinamos tudo do livro, a ele, naquele tempo em que ele não sabia ler. Nós o abrimos à infinita diversidade das coisas imaginárias, o iniciamos nas alegrias da viagem vertical, o dotamos de ubiquidade, libertado de Cronos, mergulhado na solidão fabulosamente povoada de leitor... As histórias que líamos para ele formigavam de irmãos, de4 irmãs, de pais, de duplos ideais, esquadrilhas de anjos da guarda, legiões de amigos tutelares encarregados de suas tristezas, mas que, lutando contra seus próprios ogres, encontravam, eles também refúgio nas batidas de seu coração. Ele tinha se tornado o anjo recíproco deles: um leitor. Sem ele, o mundo deles não existiria. Sem eles, ele continuaria preso na espessura do seu. Assim, ele descobriu a virtude paradoxal da leitura que é nos abstrair do mundo para lhe emprestar um sentido.”

“Ele é, desde o começo, o bom leitor que continuará a ser se os adultos que o circundam alimentarem seu entusiasmo em lugar de pôr à prova sua competência, estimularem seu desejo de aprender, antes de lhe impor o dever de recitar, acompanharem seus esforços, sem se contentar de esperar na virada, consentirem em perder noites, em lugar de procurar ganhar tempo, fizerem vibrar o presente, sem brandir a ameaça do futuro, se recusarem a transformar em obrigação aquilo que era prazer, entretendo esse prazer até que ele se faça um dever, fundindo esse dever na gratuidade de toda aprendizagem cultural, e fazendo com que encontrem eles mesmos o prazer nessa gratuidade.”

“Na noite seguinte, mesmos encontros. E mesma leitura, provavelmente. Sim, há chances de quele nos reclame o mesmo conto, coisa de provar a si mesmo que não estava sonhando na véspera, e que nos faça as mesmas perguntas, nos escutar lhe dando as mesmas respostas. A repetição é confortadora. Ela é prova de intimidade. Ela é respiração mesma. Ele tem necessidade de reencontrar esse sopro:
– Mais!
...
Reler não é se repetir, é dar uma prova sempre nova de um amor infatigável.
Então relemos.”

“Tem aqueles que nunca leram e têm vergonha, os que não têm mais tempo de ler e que cultivam o remorso, há os que não leem romances, só livros úteis, ensaios, obras técnicas, boografias, livros de história, há os que leem tudo e não importa o quê, os que ‘devoram’ e têm olhos que brilham, há os que só leem os clássicos, meu senhor, ‘porque não há melhor crítica do que a peneira do tempo’, os que passam a sua maturidade a ‘reler e aqueles que leram o último livro tal e o último tal outro, porque é preciso, o senhor sabe, estar atualizado...
Mas todos, todos, em nome da necessidade de ler.”

“Sem sombra de dúvida, as horas passadas no escritório de meu pai estimulavam não somente nossa imaginação, como também nossa curiosidade. Uma vez provado o encanto sedutor da grande literatura e o reconforto que ela nos oferece, gostaríamos de conhecer sempre mais – outras histórias ridículas e parábolas cheias de sabedoria, contos de múltiplas significações e estranhas aventuras. E é assim que se começa a ler por si mesmo...
Assim falou Klaus Mann, filho de Thomas, o Mágico, e de Mielen, a de voz emocionada e bem timbrada.”

“Uma leitura bem levada nos salva de tudo, inclusive de nós mesmos.
(...)
Mas é, mais cotidianamente, o refúgio do livro contra o crepitar da chuva, o silencioso ofuscamento das páginas contra a cadência do metrô, o romance escondido na gaveta da escrivaninha, a breve leitura do professor enquanto os alunos trabalham, e o aluno no fundo da sala lendo, disfarçado, esperando a hora de entregar a folha em branco...”

“Caras bibliotecárias, guardiãs do templo, é um felicidade que todos os títulos do mundo tenham encontrado seus estojos na perfeita organização de vossas memórias (como iria encontrá-los sem vós, eu, cuja memória parece mais um terreno baldio?), é prodigioso que estejais em dia com todas as temáticas ordenadas nas estantes que vos circundam... mas como seria bom também vos escutar contar vossos romances preferidos aos visitantes perdidos na floresta de leituras possíveis... como seria lindo se lhes rendesseis a homenagem de vossas melhores lembranças de leitura! Contadoras, sejam mágicas, e os livros saltarão de suas prateleiras nas mãos do leitor.
E é tão simples contar um romance. Bastam três palavras, às vezes.”

“O dever de educar, consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a ‘necessidade de livros’. Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela.
É uma tristeza imensa, uma solidão dentro da solidão, ser excluído dos livros – inclusive daqueles que não nos interessam.”

“No entanto, entre nossas razões para abandonar uma leitura existe uma que merece que nos detenhamos um pouco: o sentimento vago de perda. Abri, li e cedo me senti submerso por qualquer coisa mais forte do que eu. Reuni meus neurônios, discuti com o texto, mas não adianta, fico om o belo sentimento de que o que está escrito merece ser lido, mas não pego nada – ou tão pouco que é mesmo que nada –, sinto ali um ‘estranhamento’ que não me prende.
Deixo cair.
Ou melhor, deixo de lado. Guardo na minha estante com o vago projeto de voltar um dia. O Petersburgo de Andrei Bielyi, Jouce e3 seu Ulisses, A sombra do vulcão de Malcom Lowry me esperaram alguns anos. Há outros que me esperam ainda, alguns que não vou recuperar nunca, provavelmente. Isso não é um drama, é assim mesmo.”

“O homem que lê de viva voz se expõe totalmente. Se não sabe o que lê, ele é ignorante de suas palavras, é uma miséria, e isso se percebe. Se se recusa a habitar sua leitura, as palavras tornam-se letras mortas, e isso se sente. Se satura o texto com a sua presença, o autor se retrai, é um número de circo, e isso se vê. O homem que lê de viva voz se expõe totalmente aos olhos que o escutam.
Se ele lê verdadeiramente, põe nisso todo seu saber, dominando seu prazer, se sua leitura é uma ato de simpatia pelo auditório como pelo texto e seu autor, se consegue fazer entender a necessidade de escrever, acordando nossas mais obscuras necessidades de compreender, então os livros s abrem para ele e a multidão daqueles que se acreditavam excluídos da leitura vai se precipitar atrás dele.”

Direitos imprescritíveis do leitor

1. O direito de não ler.
2. O direito de pular páginas.
3. O direito de não terminar um livro.
4. O direito de reler.
5. O direito de ler qualquer coisa.
6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)
7. O direito de ler em qualquer lugar.
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
9. O direito de ler em voz alta.
10. O direito de calar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Se um Viajante...

Calvino, Ítalo. Se um Viajante numa Noite de Inverno. Círculo do Livro; São Paulo/SP; 1979; 246 páginas.

Dados da obra:

A trama começa com o Leitor, personagem principal, comprando e começando a ler Se um Viajante numa Noite de Inverno, que se inicia numa estação ferroviária enfumaçada, mas à medida que avança na leitura, ela se interrompe por um erro de encadernação no livro, que repete até o fim as mesmas páginas iniciais. O Leitor volta à livraria, adquire um novo exemplar, mas este narra outra história, diferente da outra, e também apresenta problemas de encadernação. Na busca pelo livro completo ele conhece uma Leitora.

Breve relato do autor:

Italo Calvino foi um dos mais importantes escritores italianos do século XX. Nascido em Cuba, de pais italianos, sua família retornou à Itália logo após seu nascimento. Uma de suas obras mais conhecidas é Le città invisibili (As cidades invisíveis), de 1972, tendo como personagens Marco Polo e Kublai Khan.

Passagens:

“Você revira o livro nas mãos, percorre o texto da orelha, da contracapa. São aquelas frases gerais que não dizem grande coisa. Melhor isso que um discurso que viesse a substituir indiscretamente aquele que o livro deve lhe comunicar diretamente, e que você mesmo deveria deduzir, rico ou pobre. É verdade que essa maneira de girar em torno do livro, de ler em torno antes de ler dentro, também faz parte do prazer da novidade. Mas, como todo prazer preliminar, este deve respeitar uma duração ótima, se se quer que ele desemboque em um prazer mais consistente: a consumação do ato, ou a leitura do livro.”

“... Inútil olhar para o relógio: se alguém viesse me esperar, já teria ido embora há muito tempo: inútil obstinar-me estupidamente em querer fazer os relógios e os calendários voltarem atrás, na esperança de me encontrar no momento anterior àquele em que ocorreu alguma coisa que não deveria ter acontecido jamais.”

“– Cada quarta-feira a senhorita perfumada me dá uma nota de cem coroas para que eu a deixe só com o prisioneiro. Na quinta-feira, as cem coroas se vão em cerveja. Quando a hora da visita acaba, a senhorita sai com seus trajes elegantes fedendo a prisão e o detento volta à cela com sua roupa de presidiário perfumada. A mim me sobra o cheiro da cerveja. A vida não é mais que uma troca de cheiros.
– A vida, você pode dizer, e também a morte – interveio outro bêbado, que é coveiro de profissão, como logo fiquei sabendo. – Para mim o cheiro da cerveja serve para tentar me tirar o cheiro da morte. No seu caso, só o cheiro da morte é que vai livrá-lo do cheiro da cerveja, como acontece com todos os bêbados de quem tenho de cavar a cova.”

“Escutar alguém que lê em voz alta não é a mesma coisa que ler em silêncio. Quando você lê, pode se deter ou sobrevoar as frases: você decide o ritmo. Quando é outro quem lê, é difícil fazer coincidir sua atenção com o tempo da leitura: a voz segue demasiado depressa ou demasiado lentamente.”

“... ler é ir ao encontro de uma coisa que vai existir mas que ninguém ainda sabe o que será...”

“– Ei, não se brinca com uma arma! – digo eu.
E avanço a mão. Mas ela aponta o revólver em minha direção.
– Por que não? Vocês, sim, e as mulheres, não? A verdadeira revolução começará no dia em que as armas estiverem nas mãos das mulheres.
– E quando os homens estiverem desarmados? Isso lhe parece justo, camarada? Mulheres armadas, para fazer o quê?
– Para tomarem o lugar de vocês. Nós em cima, e vocês embaixo. Para que possam experimentar um pouco o que se sente quando se é uma mulher...”

“– Há uma linha que separa, de um lado, os que fazem livros, de outro, os que leem. Quero continuar a fazer parte daqueles que leem, e por isso presto muita atenção para me manter sempre deste lado da linha. Senão, o prazer desinteressado de ler já não existe, ou se transforma em outra coisa, que não é o que quero. É uma fronteira imprecisa, que tende a desaparecer: o mundo daqueles que têm relação profissional com os livros está cada vez mais povoado, e tende a se identificar com o mundo dos leitores. Evidentemente, os leitores também são cada vez mais numerosos, mas pode-se dizer que o número daqueles que utilizam os livros para produzir outros livros cresce definitivamente mais depressa que o número daqueles que gostam dos livros para ler. Sei que se eu transpuser o limite, mesmo acidentalmente, corro o risco de perder-me nessa maré que sobe; conclusão: recuso-me a por, mesmo por alguns minutos, os pés numa editora.”

“Ele se enganava: a organização da frase era, definitivamente, uma responsabilidade que lhe cabia; incumbia-lhe controlar a coerência interna da língua escrita, da gramática e da sintaxe, para aí acolher a fluidez de um pensamento que escoa fora de toda língua antes de se fazer palavra, ainda mais o de uma palavra extremamente fluida como a do Profeta. A partir do momento em que decidira exprimir-se por escrito, Alá necessitara da colaboração do escriba. Maomé o sabia, e deixava ao escriba o privilégio de terminar suas frases; contudo, Abdullah não tinha consciência do poder de que estava investido. Perdeu a fé em Alá porque lhe faltava a fé na escrita e a fé em si mesmo como operador da escrita.”

“Você aperta o cinto de segurança. O avião vai aterrissar. Voar é exatamente o contrário de viajar: o que você transpõe é uma descontinuidade, um espaço rompido, você desaparece no vazio, aceita não estar em nenhum lugar, durante um tempo que forma ele próprio uma espécie de vazio no tempo; logo reaparece num lugar e num momento sem relação com o lugar e o momento em que tinha desaparecido. Durante esse tempo, o que faz? Como ocupa sua ausência do mundo e a ausência do mundo em você? Lê; de um aeroporto a outro, não desgruda seus olhos de um livro; porque, para além da página, está o vazio, o anonimato das escalas aéreas, desse útero de metal que o contém e o nutre, da multidão passageira sempre diferente e sempre igual.”

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um leão chamado Christian

Bourke, Anthony; Rendall, John. Um Leão Chamado Christian. Nova Fronteira; Rio de Janeiro/RJ; 2009; 224 páginas.

Dados da obra:

O livro conta a história do leão Christian, adotado por dois rapazes australianos que o adquiriram na loja Harrods, de Londres, e passam a criá-lo como um bichinho de estimação. Quando ele começa a crescer, os amigos fazem de tudo para levá-lo de volta à África. Um ano depois da reintegração de Christian à natureza, os rapazes retornam para vê-lo e são reconhecidos por ele. As cenas do reencontro foram gravadas e circuladas na internet pelo Youtube, transformando-se em fenômeno de acesso pelo mundo.

Breve relato dos autores:

Anthony Bourke é australiano e um dos principais curadores de arte da Austrália, sendo pioneiro em arte aborígine e especialista em arte colonial, e realizou várias exposições aclamadas pela crítica.
John Rendall é australiano e divide seu tempo entre Londres e Sydney. John continua seu compromisso com a George Adamson Wildlife Preservation Trust e é membro da Royal Geographical Society, em Londres.

Passagens:

“...Talvez fôssemos como substitutos; e, sem a indiferença comum à maioria dos felinos, ele queria ficar perto de nós. Os leões não são desdenhosos como os gatos e são mais parecidos com os cachorros no quesito sociabilidade. Os leões simplesmente sabem que são os maiores e assumem sua superioridade.”

“Os leões dão avisos muito claros e diretos de seu descontentamento. Seria burrice desconsiderar sua força, seus dentes, suas garras. Apenas uma vez, durante os meses em que Christian viveu no Sophistocat, ficamos com muito medo dele. Ele encontrou um cinto de pele que caíra de um casaco e o levou correndo para o porão. Fomos atrás dele para recuperar o cinto. Ele o mastigava e chupava com deleite. Sabíamos que aquilo seria algo que ele não largaria com facilidade. Tentamos arrancá-lo, mas ele baixou as orelhas e rugiu um aviso feroz. Estava irreconhecível, um animal selvagem. Sem dúvida teria nos atacado se tivéssemos tentado tirar o cinto dele novamente. Queríamos deixá-lo, mas em vez disso nos distanciamos alguns metros vagarosamente, conversando um com o outro, como se nada tivesse acontecido e tivéssemos nos esquecido do cinto. Sabíamos que não devíamos transmitir-lhe nosso pavor. Isso poderia tê-lo encorajado a repetir o comportamento se tivesse sentido o efeito que causara.”

“Em nosso caminho de volta para Londres, conversamos animadamente sobre a imprevisibilidade da vida. Onde Christian estaria agora se outra pessoa o tivesse comprado na Harrods? O que teria acontecido se Bill e Virgínia não tivessem entrado na Sophistocat? Por acaso eles tomaram conhecimento de nosso problema sobre o futuro de Christian e se envolveram com ele. Ao comprarmos Christian, acrescentamos novas dimensões às nossas vidas, e agora inesperadamente à dele. Sempre fora uma experiência inesquecível para nós, mas que nunca poderia ter sido lembrada sem arrependimento se Christian tivesse que passar o resto de sua vida em cativeiro.”

“Quando o cercado ficou pronto, Christian deixou a King´s Road e Londres para sempre. Muitos amigos da World´s End se reuniram para lhe dizer adeus. Após vivermos vários meses temendo um acidente, foi um alívio acabarmos apenas com memórias agradáveis. Mas também estávamos tristes: nossos cinco meses extremamente felizes e irreproduzíveis com Christian em Londres haviam chegado ao fim.”