terça-feira, 27 de setembro de 2011


Dantas, Janduhi. Lições de Gramática em Versos de Cordel. Editora Vozes; Rio de Janeiro / RJ; 2009; 118 páginas.
Dados da obra:
Aprender algumas regras da língua portuguesa por meio das rimas da literatura de cordel é o objetivo do livro. O autor usa as sextilhas metrificadas para tirar dúvidas sobre fonologia, semântica, morfologia, sintaxe e também sobre o novo acordo ortográfico.
Breve relato do autor:
Janduhi Dantas é professor de cursinhos pré-vestibulares em Patos (PB) e região. É divulgador da Literatura de Cordel nas escolas em que trabalha e autor de vários folhetos de cordel.

Passagens:     
Maisena, com S
Maisena, escrita com z
é a marca afamada.
A maisena da gramática
é a com s grafada:
s depois de ditongo,
Diz a regra, camarada!”

Tigela, com G
A “tijela”, que é com j
é furado o fundo dela:
tigela não é com j,
com g se grafa ela.
Lembre-se da brincadeira:
“Meu coração por ti gela”.

Cocô gelado?!
Colocar acento em coco
é um erro bem danado!
Principalmente no fim
se o acento é colocado,
pois ninguém está maluco
de beber “cocô gelado”!

Há = Passado, a = Futuro
Na indicação de tempo,
e a são empregados:
a se emprega no futuro,
se usa no passado –
“Vou sair daqui a pouco”,
dias fui ao mercado”.

PARA
“Trouxe o livro para ti:
não para de estudar, não” –
não há mais acento gráfico
Para a diferenciação,
mas um é forma verbal
e outro, preposição.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ontem não te vi em Babilónia

Antunes, António Lobo. Ontem não te vi em Babilónia. Alfaguara; Rio de Janeiro / RJ; 2008; 440 páginas.
Dados da obra:
É meia-noite e até a madrugada os personagens do livro estão insones na cama, remoendo lembranças e memórias dolorosas de perda, traição e morte. As vozes se entrelaçam umas às outras, numa trama de múltiplas vozes. Há três personagens principais: Ana Emília, que não consegue esquecer o suicídio da filha de 15 anos; Alice, ex-enfermeira, casada com um homem calado; e Osvaldo, seu marido, um ex-policial que torturava e matava “inimigos da Igreja e do Estado”.
Breve relato do autor:
Escritor e psiquiatra português, proveniente de uma família da alta burguesia. Entre 1971 e 1973 viveu em Angola, onde participou, como tenente médico do Exército, na Guerra do Ultramar. Posteriormente exerceu a profissão em um hospital de Lisboa até 1985, quando passou a se dedicar à literatura, embora tenha lançado seus primeiros romances em 1979: Memória de elefante e Os cus de Judas.

Passagens:

“Quando estou muitas horas acordada a sentir o tempo que não sei para onde vai no relógio eléctrico, sei que passa por mim num zumbidinho leve, começo a distinguir coisas no escuro, primeiro os móveis que deixaram de ser móveis e perderam o nome e depois o tecto, as paredes, o quadrado mais claro da janela e o rectângulo mais claro da porta esses sim ainda tecto e paredes e janela e porta e eu todavia perdendo-os também e a esquecer o que são, parece que a alma me sai num fuminho e tenho medo que não regresse mais, que ficando sem alma fique sem a minha vida inteira e continue a respirar como respiram as cortinas e as árvores que por mais que nos falem não as podemos ouvir, não nos preocupamos no caso por exemplo de se assustarem, sofrerem, não fazem parte de nós, andam por aí e acabou-se, quando estou muitas horas acordada a minha cara principia a tornar-se da mesma matéria que as tais coisas do escuro e deixa de ser cara, os braços deixam de ser braços consoantes os móveis deixaram de ser móveis e perderam o nome...”

“... se de novo uma praia com os meus pais entrava água dentro sem me despir nem do fio do pescoço e afogava-me, palavra de honra, afogava-me, daqui a pouco cinquenta anjos e as escadas infinitas, ter de parar a meio à espera do regresso dos pulmões a fingir que me falta não sei quê na carreira, quem encostasse a orelha ao meu peito dava por uma biela exausta a falhar, as peças lá se encaixavam que sorte, cambaleavam um bocadinho e recomeçavam o giro, passado tanto tempo o coração obediente, fiel, não conto com as hormonas mas conto contigo, obrigada, graças a Deus a Lurdes herdou o coração do avô, um cavalo que aos oitenta e três anos punha pinças de roupa para evitar o óleo nas calças e dava o seu passeio de bicicleta ao domingo, aos oitenta e nove caminhava sem bengala, aos noventa e dois almoçava por cinco, aos noventa e quatro coitado começou a ficar duro de ouvido e a enganar-se na família, informava-o aos gritos
– Não sou a minha mãe sou a Lurdes...”

“Não me preocupa o meu marido ou o que lhe possa acontecer com os estranhos, não me preocupa que a manhã chegue ou não chegue embora haja menos móveis de dia que de noite e a casa em que não confio finja que me aceita não tentando expulsar-me, aprendi à minha custa a não acreditar nas casas sempre a enxotarem-nos para a rua ou cercarem-nos de tralha
– Não saias daqui agora...”

“... ia garantir que uma locomotiva e falso, um estore que descia e um rosto atrás do estore para sempre perdido, talvez aquele que desejei a vida inteira sem jamais nos cruzarmos, que desde o início me pertence e a quem pertenço desconhecendo que lhe pertencia, pelo qual morrerei soluçando de amor sem nunca nos havermos trocado, se contasse isto à dona Laura a dona Laura comovida a esquecer as consoantes
– Que lindo...”

“– Aguenta um minuto rapaz
A prima da minha mãe
– Deita-te
E não lhe obedecia a ela, obedecia a uma voz que nada me indicava que lhe pertencesse, demasiado remota para além do mar e das ondas e dos albatrozes calados, não mais que a senhora na cadeira de baloiço
– Anda cá
Não de preto, uma senhora vulgar, não imaginava que a morte uma senhora real, sem mistério, de xaile nas costas a esconder-se do frio e que não me assustava nem levava consigo, limitava-se a estar ali familiar, tranquila, não necessitava de dizer-nos
– Sou eu
Para que a gente a aceitasse, quer dizer aceitávamo-la perguntando
– Afinal a morte é só isto
E de facto era isto, só isto, o xaile gasto, a blusa fora de moda...”

"... o que eu gostava, o que eu queria, o que teria desejado se fosse capaz de desejar e não sou, era que a palma me continuasse na cara durante tanto tempo que eu cega, era que a minha palma continuasse na vossa cara durante tanto tempo que cegos
– Seremos loiros nós
e não fazia mal, não tem importância, não se preocupem com o livro
(não estou a girar sozinha é com a minha mãe que eu giro)
porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro."

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Só entre nós

Braz, Julio Emílio; Vieira, Janaína. Só entre nós – Abelardo e Heloísa. Editora Saraiva; São Paulo / SP; 2000; 92 páginas.

Dados da obra:
Inspirado no clássico drama de Abelardo e Heloísa, a história é adaptada para os dias de hoje. Com a intenção de fazer amigos, a garota Heloísa coloca um anúncio na internet, que é visto por Carlos. Este, tocado pela história de Abelardo e Heloísa, adota o codinome de Abelardo e passa a se corresponder com a garota por meio de e-mail.
Breve relato dos autores:
Julio Emílio Braz é um escritor de literatura infanto-juvenil. Janaína Vieira é um jovem escritora que publicou, com Braz, seu primeiro livro infanto-juvenil.

Passagens:     

“Heloísa,
Vamos começar aos pouquinhos, para que não percamos algo na pressa de nos conhecermos melhor. As coisas acontecem como tem que acontecer. É a pressa que mata o sonho, é no medo neurótico de não se perder tempo que se perdem as coisas maiores. Que a nossa amizade tenha tempo de crescer, sem tempo de perceber que está crescendo.
Quer ler um poema meu? Não se assuste. Não o fiz para você. Foi para outra pessoa. Depois você escreve dizendo o que achou.
Seu amigo,
Abelardo.”

Perto de você
Perto de você
Falar de amor é tão fácil
Que meu coração se abre
Por inteiro
E eu me perco em palavras
Sem sentido,
Incontido,
Senhor absoluto de
Todos os sonhos,
Prazer,
Ser seu ser,
Só ser.
Amor
Por você
Sou tão tolo,
Pequeno
Criança desamparada,
Deslumbrada,
Te amo, te amo, te amo.
Deus,
Como te amo.
Perto de você
Tempo, idade, saudade
Nada existe
A não ser amor,
Muito amor,
Todo amor do mundo.
Perto de você,
No fundo, no fundo,
Eu me sinto perto
De mim mesmo.
Me ame...

“Abelardo,
Já te disse que não gosto da igualdade, que amo a diferença? Pense bem: é só por meio da diferença que o mundo se modifica e progride. O cotidiano agrada àqueles que não sabem sonhar. Sonhar é tornar tudo possível. Amar é tornar tudo possível.
Se você está louco por estar apaixonado, faço uma sugestão: procuremos os dois uma boa casa de repouso para perturbados mentais. Acho que estou enlouquecendo...
 Mas que essa loucura não seja entendida como ausência de razão. Para mim, é uma loucura sã e maravilhosa, porque está me libertando dos meus fantasmas. O que sinto é tão feliz, tão cheio de alegrias, que gostaria de ver o mundo todo tomado por esta súbita loucura!
Felicidade de não ser igual... não há ser humano igual a outro; não há uma pedra igual a outra. Estar no mundo é ser a própria diferença e tão poucos percebem isso... A magia serena da natureza torna tudo possível.”

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A elegância do ouriço

Barbery, Muriel. A Elegância do Ouriço. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2008; 352 páginas.

Dados da obra:
A história gira em torno de duas personagens principais, que vivem em um prédio elegante no número 7 da Rue de Grenelle, na França: Renée, a zeladora baixinha, gorda, feia, ensimesmada, mas que esconde uma alma inteligente e culta, e Paloma, a caçula da família Josse, uma menina de 12 anos, quieta, sensível e sagaz, mas que por não ver sentido na vida decide colocar um fim nela ao completar 13 anos. No prédio vivem outros personagens, mas a rotina começa a ser alterada com a chegada de um novo morador, um japonês de nome Kakuro Ozu.

Breve relato do autor:
Muriel Barbery estreou na literatura em 2000, com o romance Une gourmandise. A elegância do ouriço, seu segundo livro publicado em 2006, causou sensação literária na França. Professora de filosofia na Normandia, mas fascinada pela cultura japonesa, em 2008 ela foi viver com seu marido no Japão.

Passagens:

Para entender Marx e entender por que ele está errado, tem que ler Ideologia alemã. É o pedestal antropológico sobre o qual se construirão todas as exortações a um mundo novo e no qual será aparafusada uma certeza fundamental: os homens, que se perdem por desejar, melhor fariam se se limitassem às suas necessidades. Num mundo em que o húbris do desejo for amordaçado, poderá nascer uma organização social nova, isenta de lutas, opressões e hierarquias deletérias.”

“Os adultos têm um relação histérica com a morte, que toma proporções enormes, eles fazem um escarcéu, quando na verdade é o acontecimento mais banal do mundo. O que me importa mesmo não é a coisa, é o modo de fazer.”

“Acredita-se erradamente que o despertar da consciência coincide com a hora do nosso primeiro nascimento, talvez porque não conseguimos imaginar outro estado vivo além desse. Parece-nos que sempre vimos e sentimos, e, apoiados nessa crença, identificamos na vinda ao mundo o instante decisivo em que nasce a consciência. Que durante cinco anos uma garota chamada Renée, mecanismo perceptivo operacional dotado de visão, audição, olfato, paladar e tato, tenha vivido na perfeita inconsciência de si mesma e do universo é um desmentido a essa teoria apressada. Pois, para que a consciência surja, é preciso um nome.”

“Já que minha fome não podia ser aplacada no jogo de interações sociais que eram inconcebíveis por minha própria condição – e compreendi isso mais tarde, essa compaixão nos olhos de minha salvadora, pois algum dia já se viu uma menina pobre penetrar na embriaguez da linguagem e nela se exercitar junto com os outros? –, ela o seria nos livros. Pela primeira vez toquei num livro. Eu tinha visto os maiores da turma olharem para traços invisíveis, como que movidos pela mesma força, e, mergulhando no silêncio, tirarem do papel morto alguma coisa que parecia viva.”

“No calor da sala, à beira das lágrimas, feliz como eu nunca tinha sido, segurei sua mão, tépida pela primeira vez depois de meses. Sabia que um inesperado afluxo de energia o levantara da cama, lhe dera a força de se vestir, a sede de sair, o desejo de dividirmos mais uma vez esse prazer conjugal, e também sabia que era o sinal de que restava pouco tempo, o estado de graça que precede o fim, mas isso não me importava, e eu queria apenas aproveitar aqueles instantes roubados do jugo da doença, sua mão quentinha dentro da minha e as vibrações de prazer que nos percorriam, a nós dois, dando graças aos céus, pois era um filme que podíamos saborear juntos.”

"O ritual do chá, essa recondução exata dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa licença dada a cada um, a baixo custo, de se tornar um aristocrata do gosto, porque o chá é a bebida tanto dos ricos como dos pobres, o ritual do chá, portanto, tem essa virtude extraordinária de introduzir no absurdo de nossas vidas uma brecha de harmonia serena. Sim, o universo conspira para a vacuidade, as almas perdidas choram a beleza, a insignificância nos cerca. Então, bebamos uma xícara de chá. Faz-se o silêncio, ouve-se o vento que sopra lá fora, as folhas de outono sussurram e voam, o gato dorme sob uma luz quente. E, em cada gole, se sublima o tempo.”

“Quando penso no Go... Um jogo que tem por objetivo construir um território é obviamente bonito. Pode haver fases de combate, mas são apenas os meios a serviço dos fins: fazer viver seus territórios. Um dos mais bonitos lances do jogo de Go é que está provado que, para ganhar, é preciso viver mas também deixar o outro viver. Quem é ávido demais perde a partida: é um sutil jogo de equilíbrio em que é preciso ganhar vantagem sem esmagar o outro. Afinal, a vida e a morte são apenas a consequência de uma construção bem ou mal edificada. É o que diz um dos personagens de Taniguchi: você vive, você morre, são consequências. É um provérbio de Go e um provérbio da vida.”

"Faz um tempinho que também tenho suspeitas sobre ela. De longe, é de fato uma concierge. De perto... bem de perto... tem algo esquisito... A sra. Michel... Como posso dizer? Transpira inteligência. E olhem que ela se esforça, e como! Vê-se que faz o possível para bancar a concierge e parecer débil mental. Mas já a observei quando falava com Jean Arthens, quando fala com Neptune, nas costas de Diane, quando olha para as senhoras do prédio que passam na frente dela sem cumprimentá-la. A sra. Michel tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes.”

“É um fora-do-tempo dentro do tempo... Quando senti pela primeira vez esse abandono delicioso que só é possível a dois? A quietude que sentimos quando estamos sozinhos, essa certeza sobre nós mesmos na serenidade da solidão, não são nada em comparação com o deixar-se levar, deixar-se ir e deixar falar que se vive com o outro, em companhia cúmplice... Quando senti pela primeira vez esse relaxamento feliz em presença de um homem?
Hoje, é esta a primeira vez.”

“Ai, ai, ai, pensei, será que isso quer dizer que é assim que temos de viver a vida? Sempre em equilíbrio entre a beleza e a morte, o movimento e seu desaparecimento?
Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem.”

“Elas não me reconheceram”, digo.
Paro no meio da calçada, completamente zonza.
"Elas não me reconheceram”, repito.
Ele também para, e minha mão continua sobre seu braço.
“É porque nunca a viram”, ele me diz. “Mas eu a reconheceria em qualquer circunstância.”

“Basta ter experimentado uma vez que é possível ser cego em plena luz e ver no escuro, para levantar a questão da visão. Por que vemos? Ao entrar no táxi que Kakuro tinha chamado, e pensando em Jacinthe Rosen e Anne-Hélene Meurisse, que só viram de mim o que puderam (no braço do Sr. Ozu, num mundo de hierarquias), a evidência de que o olhar é como a mão que tentaria capturar a água móvel me impressiona com um força inaudita. Sim, o olhar percebe mas não escruta, acredita mas não questiona, recebe mas não procura – vazio de desejo, sem fome nem cruzada.”

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Uma Duas

Brum, Eliane. Uma Duas. Editora Leya; São Paulo / SP; 2011; 175 páginas.

Dados da obra:
Uma Duas é o primeiro livro de ficção da Eliane Brum e narra a complicada relação entre mãe e filha, os laços que as unem – e separam, o conflito de sentimentos que vão do amor ao ódio e vice-versa.

Breve relato do autor:

Eliane Brum é jornalista e escritora, conhecida por escrever – com emoção – histórias da vida real (reportagens), destacando personagens comuns. Autora também de A vida que ninguém vê e O olho da rua.
Passagens:

“Foi a primeira vez que senti pena da minha mãe. Eu não sei o que ela ouviu na escola, mas à noite a escutei chorando. Eu não sabia que minha mãe podia chorar. Onde ela tinha guardado as lágrimas por aqueles anos todos? Eu achava que todas as pessoas tinham uma bolsa de lágrimas na barriga. Porque meu choro sempre começava na barriga e só depois alcançava os olhos. Eu pensava que minha mãe tinha nascido sem essa bolsa e por isso não chorava.”

“Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser Deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. E ao escrever vou quebrando essa criança esculpida com amor e desespero. É o contrário. É preciso destruir a forma humana que está ali para alcançar a pedra.”

“Desta vez , vai ter de assumir. Vai ter de me matar ou não na sua narrativa. Se me matar, vai saber que a minha voz está ali, em algum lugar, ainda que ninguém saiba e que você queime o caderno. Sim, porque eu só sei escrever a mão. E acho que há mais coragem em escrever a mão, sopesando cada letra, que exige esforço e não aparece e desaparece numa tela como se as palavras pudessem simplesmente surgir ou simplesmente ser eliminadas sem que se pague um preço por isso. Seu pai mal sabia escrever, não se iluda. Seu talento você herdou de mim.”

“O dicionário era proibido para mim. Meu pai achava o dicionário altamente perigoso. E tudo o que era perigoso deveria ser eliminado. Ou pelo menos controlado de perto. Você é uma menina inteligente, Maria Lúcia. Puxou a mim. Você acha que tem idade para ter acesso a todas as palavras do mundo? E ele arredondava este toooodas com sua voz de barítono. Não, eu não achava. Mas deste dia em diante passei a sentir a presença do dicionário como uma terceira pessoa naquela casa sem visitas.”

“E você, o que faz, já que estamos falando disso? Sou jornalista. Ou era. Cuido de minha mãe agora. E tento escrever um livro. Pronto. Falei demais. De novo. Um livro? E sobre o que é seu livro? Eu não sei. Estou escrevendo e só. Ou tentando escrever. Sempre achei que deveria escrever um livro um dia, que tinha algo a dizer. Mas agora que comecei tenho dúvidas. Dúvidas? Ele parece um psicanalista. Será que vai ficar pontuando minha última palavra a cada frase? Sim, dúvidas. Acho que não tenho nada a dizer que já não tenha sido dito. E descobri que nem escrevo tão bem assim. Não sou capaz de inventar nada novo, entende. Harry Potter, por exemplo, a J. K. Rowling inventou um mundo inteiro. Eu não consigo inventar uma única palavra. Continua presa em mim, entende. Entendo. Mas talvez não importe. Acho que você deveria apenas escrever. Talvez o novo nem exista. Talvez seja isso, um livro para mostrar que não existe nada de novo. Que é tudo velho. E não faz mal. Estamos aqui e é o suficiente. Você escreve e é o suficiente.”

“... Era uma aventureira que viajava pelo mundo. Sentada na sacada do hotel, eu bebericava um drink exótico com um cigarro no canto da boca e teclava na máquina de escrever, fazendo de tempos em tempos pequenas pausas para olhar a paisagem mutante, estrangeira sempre. Tinha um olhar cínico e à noite sentava no balcão do bar e sussurrava com voz rouca: Play it again, Sam. Nos meus sonhos, eu era Humphrey Bogart, não Ingrid Bergman. Eu era Hemingway, não Jane Austen. Sem mãe, eu não precisava ser mulher. Quem saberia? Agora eu podia ter qualquer corpo meu. E eu preferia um corpo que não doesse, um corpo liso e duro, um corpo que podia enfiar em alguém e machucar por dentro. E que não sangrava a cada óvulo morto, a cada criança viva.”

“É tão boa a sensação das mãos dele sobre mim. Seus dedos seguem a teia intricada de pequenas cicatrizes do meu corpo sem que ele nada pergunte. Como em mapa de metrô, eu penso, as minhas cicatrizes. Mas não. Ele dedilha minhas marcas e quase posso ouvir a música. Lembro de uma história que li. Uma menina chinesa vivia sozinha numa cama de hospital. Um dia uma mosca bate as asas em seu rosto. Era o primeiro carinho que a menina recebia em toda a sua vida. Daquele dia em diante as asas da mosca sobre a sua face a acariciavam a cada manhã numa felicidade esperada. A menina foi curada pelas asas da mosca. Mas acho que invento o final. Na história a mosca foi esmagada, e a menina morreu. Não importa. Eu posso morrer ali. E acho que estaria quase feliz.”

terça-feira, 28 de junho de 2011

As melhores coisas do mundo

Bolognesi, Luiz (roteiro). As melhores coisas do mundo. Imprensa Oficial; São Paulo / SP; 2010; 240 páginas.

Dados da obra:

Inspirado na série de livros Mano, escrita por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, o roteiro narra a história de Mano, um adolescente de 15 anos. Ele está aprendendo a tocar guitarra, pois deseja chamar a atenção de uma garota. Seus pais estão se separando, o que o afeta tanto quanto ao seu irmão mais velho. Sua melhor amiga e confidente está apaixonada pelo professor de Física. Em meio a estas situações, Mano precisa lidar com os colegas de escola em momentos de diversão e também sérios, típicos da adolescência nos dias atuais.

Breve relato do autor:

Luiz Bolognesi é um roteirista de cinema que escreveu o roteiro dos filmes Bicho de Sete Cabeças (2001), O Mundo em Duas Voltas (2006), Chega de Saudade (2007), entre outros. Foi redator da Folha de S. Paulo e na Rede Globo.

Passagens:

“V.O. MANO:
Meu pai sempre disse pra curtir a infância porque eu nunca mais ia ser feliz. Ele sempre dizia: passa rápido, filho. Rápido? Demorou séculos até eu conseguir minha liberdade. Finalmente chegou.”

“O olhar do Professor passa por Carol. Ela olha para Artur hipnotizada.
CAROL (V.O.)
Homem de 30 é o auge da humanidade. Ele sabe a diferença entre a mulher fachada e a mulher de verdade, mas não estão caídos como os pais de quarenta.”

“CAROL (V.O.)
O Artur era uma gota de inteligência no oceano de imbecilidade dessa escola. O Deco acha que o Artur volta. Será? Esse Deco é um mistério. Ele já ficou com todas as meninas num raio de 50 km ao redor da escola. A língua dele devia ser doada para a ciência, escaneou o DNA de toda uma geração. Será que um cara assim serve pra namorar?”

“DIRETORA DA ESCOLA
Eu estou trazendo novamente o tema porque praticamente todos os alunos do 1º e 2º ano assinaram um documento pedindo a volta do professor Artur. Foi escrito pelo seu filho, Camila (Camila fica atenta) Vou ler: Nós, alunos abaixo-assinados queremos a volta do professor Artur. Porque a aula dele não tinha lista de chamada e era a aula mais cheia da escola. E por que a nossa colega admitiu publicamente e diz isso na frente dos pais, se for preciso, que foi ela que deu um beijo nele. Botar o Artur para fora é uma violência que os pais e a escola estão fazendo com um professor que a gente admira e confia. Assinam 238 alunos. Quem é a favor da recontratação em caráter temporário do professor, levanta a mão, por favor.”

“PEDRO
Eu me sinto uma bomba relógio ambulante. Parece que vou explodir a qualquer momento. Resolvi apertar o botão.
MANO
Velho, que Mané-bomba o caralho. Você é a pessoa mais importante na minha vida. Esse violão aqui eu toco por sua causa. Aquela sua namorada não é o que você pensa. Ninguém é. Fugir é coisa de bunda-mole. Eu sei que meu irmão não é um bunda-mole.”

“V.O. DE CAROL
Mano tocando na escola ficou em segundo lugar na minha lista das melhores coisas do mundo. Não dá para acreditar, mas a bomba de chocolate da padaria, há 26 semanas liderando a lista das dez melhores coisas do mundo continua na primeira posição. Acho que só quando eu gostar de alguém de verdade, a bomba de chocolate vai perder o primeiro lugar.
Mano acaba de ler e olha para Carol. Ela faz uma cara de fazer o quê, agora você sabe. Os dois ficam se olhando.
MANO
Como a gente faz pra saber que tá gostando de alguém de verdade.
Eles se aproximam e os dois conversam olhando nos olhos. Muito perto.
CAROL
Ainda não sei...”

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O filho eterno

Tezza, Cristovão. O filho eterno. Editora Record; Rio de Janeiro / RJ; 2007; 224 páginas.

Dados da obra:

No livro, um misto de romance, biografia, ensaio pessoal e memórias, Tezza expõe, com coragem, as dificuldades e o aprendizado em se criar um filho com síndrome de Down. Ele narra desde o momento do nascimento do filho Felipe, o choque e o despontamento com a descoberta da síndrome, o desconforto, a dificuldade em aceitar, passando pelo aprendizado e as pequenas vitórias, até constatar a importância do menino em sua vida. Em meio a isso, ele rememora sua trajetória, tentando reordenar sua vida.

Breve relato do autor:

Cristovão Tezza é romancista e professor universitário. Nascido em Lages, Santa Catarina, ele mudou-se para Curitiba (PR) aos oito anos, sendo esta cidade palco de boa parte de sua literatura. O livro O Filho Eterno ganhou inúmeros prêmios, sendo, inclusive, eleito como o livro da década pela Revista Bravo!

Passagens:

“Um filho é a ideia de um filho: uma mulher é a ideia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com a ideia que fazemos delas; às vezes não. Quase sempre não, mas aí o tempo já passou, e então nos ocupamos de coisas novas, que se encaixam em outra família de ideias. Ele não quis nem mesmo saber se será um filho ou uma filha: a mancha pesada da ecografia, aquele fantasma primitivo que se projetava numa telinha escura, movendo-se na escuridão e no calor, não se traduziu em sexo, apenas em ser. Preferimos não saber, foi o que disseram ao médico. Tudo está bem, parece, é o que importa.”

“... A criança estaria no berçário, uma espécie de gaiola asséptica, que o fez lembrar do Admirável Mundo Novo: todos aqueles bebês um ao lado do outro, atrás de uma proteção de vidro, etiquetados e cadastrados para a entrada no mundo, todos idênticos, enfaixados na mesma roupa verde, todos mais ou menos feios, todos amassados, sustos respirantes, todos imóveis, de uma fragilidade absurda, todos tabula rasa, cada um deles apenas um breve potencial, agora para sempre condenados ao Brasil, e à língua portuguesa, que lhes emprestaria as palavras com as quais, algum dia, eles tentariam dizer quem eram, afinal, e para que estavam aqui, se é que uma pergunta pode fazer sentido.”

“... ‘Ele poderá ter filhos?’ – o que pareceu engraçado, como outro cartum. Assim, em um átimo de segundo, em meio à maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária, apreendeu a intensidade da expressão ‘para sempre’ – a ideia de que algumas coisas são de fato irremediáveis, e o sentimento absoluto, mas óbvio, de que o tempo não tem retorno, algo que ele sempre se recusava a aceitar...”

“... O que ele quer resolver agora não é o problema da criança, mas o espaço que ela ocupa na sua vida. E esses contatos medonhos do dia a dia: explicar. Já viu na enciclopédia que o nome da síndrome se deve a John Langdon Haydon Down (1828 – 1896), médico inglês. À maneira da melhor ciência do império britânico, descreveu pela primeira vez a síndrome frisando a semelhança da vítima com a expressão facial dos mongóis, lá nos confins da Ásia; daí ‘mongoloides’. Que tipo de mentalidade define uma síndrome pela semelhança com os traços de uma etnia? O homem britânico como medida de todas as coisas. O príncipe Charles, aquela figura apolínea, será o padrão da normalidade racial, e ele começa a rir no escuro, acendendo outro cigarro. E como essa denominação durou mais de um século, como algo normal e aceitável?”
“Mas ele formula uma reação; ou pelo menos verbaliza aquilo que, de fato, tentou guiar sua vida até ali: eu não estou condenado a nada – eu me recuso a me condenar a alguma coisa, qualquer que seja. Sempre consegui tomar outra direção, quando preciso. Era um outro tipo de bravata, ele sabia – mas é preciso começar de alguma parte. Por onde? Por aqui mesmo, aqui, agora, hoje, eu e meu filho deficiente mental para todos os tempos.”
“Num raro sábado livre, passeando por Frankfurt, entra numa livraria – milhares, milhões de livros, todos escritos em alemão. Avançando pelos corredores, reconhece e alimenta-se de alguns nomes conhecidos: John Steinbeck, Heinrich Bӧll, Scott Fitzgerald, Sartre, Dickens, Cortázar, Thomas Mann, uma família caótica. Diante daquele mundo que aqui ele não pode ler, estetiza a cena lembrando da frase de Borges, uma figura esguia nas sombras, já quase um decalque de Andy Warhol, criador e vítima da própria obra, as mãos em primeiro plano pousadas sobre a benal: ‘Suprema ironia. Deus me deu todos os livros do mundo e a escuridão’.”
“Vai pondo na gaveta as cartas de recusa das editoras e engolindo em seco as derrotas dos concursos literários, mas nada disso o incomoda de fato. É como se uma ponte dele negasse o confronto desigual – melhor baixar a cabeça discreto, e tentar uma outra esquina do labirinto. O mundo é muito mais forte, impressionante e poderoso do que ele. À medida da província entranha-se na sua alma. Talvez fosse o momento de reler Nietzsche, começar de novo, mas ele não tem mais tempo. Ouve pela primeira vez rodar a engrenagem poderosa do tempo, e um discurso pó de ferrugem já transparece nos objetos que toca. Finalmente, o tempo começa a passar.”
“’Saia daí!’, a voz, violenta, dura, é a última represa do gesto, que virá, contra aquele que olha para ele sem reconhecê-lo, e que é incapaz de verbalizar; ele é incapaz. Mas aferra-se à direção, olhos vazios nos olhos cheios do pai, que enfim explode – como se a mão de seu próprio pai estivesse ali de novo reatando o fio da violência que precisaria se cumprir por alguma ordem divina, a ordem do pai. Ele bate no filho, uma, duas, três, quatro vezes, e até que enfim o filho larga a direção, e, indócil no colo do pai que se afasta dali com a rapidez de quem quer escapar da cena do crime, olha para aquele rosto, que continua sem sentido. O filho não chora. Depois que seu filho deixou de ser bebê, o pai jamais o viu chorar novamente. Sua face no máximo demonstra um espanto irritado diante de algo incompreensível, um sentimento difuso que rapidamente se dilui em troca de algum outro interesse imediato diante dele; como se cada instante da vida suprimisse o instante anterior.”
“Parece que o pai havia entrado em um outro limbo do tempo, em que o tempo, passando, está sempre no mesmo lugar. Uma estabilidade tranquila, uma das pequenas utopias que todos com um pouco de sorte vivem em algum momento de suas vidas. O poder maravilhoso da rotina, ele pensa, irônico. Transforma tudo na mesma coisa, e é exatamente isso que queremos. Mas há uma razão: o seu filho não envelhece. E além da cabeça, que é sempre a mesma, pelos meandros insondáveis da genética ele crescerá pouco, vítima de uma nanismo discreto. Peter Pan, viverá cada dia exatamente como o anterior – e como o próximo. Incapaz de entrar no mundo da abstração do tempo, a ideia de passado e de futuro jamais se ramifica em sua cabeça alegre; ele vive toda manhã, sem saber, o sonho do eterno retorno.”
“Passa alguns anos – ele se culpa, ainda no Templo das Sete Confissões – mais preocupado consigo mesmo do que com os filhos, todo aquele tempo de escrita e reescrita de livros que não existem, que não se publicam, que, publicados, não são lidos, e que enfim não vendem nada, numa inexistência poderosa e asfixiante. Os livros são diferentes uns dos outros, mas ele parece não aprender nada com a experiência, movendo-se em círculos, ele mesmo uma expressão ampliada do seu filho, envolto sempre no próprio labirinto. É um projeto artístico, ou um projeto terapêutico? – ele se pergunta às vezes, caneta à mão, diante da página em branco.”
“Cores à parte, passou a gostar de tudo que era pessimista, carregado e trágico: Munch e principalmente Ensor, aquelas caveiras se fundindo em pesadelos reais e cotidianos. De onde tirava aquilo, ele que passou a vida rindo? Todos os anos sonha em voltar à pintura para brincar de cópias, mas jamais fará isso de novo até o fim de sua vida. Nunca vale voltar ao passado, dizia-lhe o amigo ator da infância. Quando a volta acontece, a carência é tão grande que somos sufocados por tudo que nos falta para imobilizar o tempo e a vida. Acabou-se o que era doce: Fim – ele lê na tela imaginária. Não insista.”