terça-feira, 18 de outubro de 2011

Desonra

Coetzee, J.M. Desonra. Companhia das Letras – São Paulo / SP; 2009; 246 páginas.

Dados da obra:
O livro conta a história de David Lurie, professor de Literatura que cai em desgraça após se envolver amorosamente com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.
No campo, toma contato com a brutalidade e o ressentimento da África do Sul pós-apartheid. Com personagens vivos, com um ritmo narrativo que magnetiza o leitor, Desonra investiga as relações entre as classes, os sexos, as raças.


Breve relato do autor:

J. M. Coetzee nasceu na Cidade do Cabo, na África do Sul. É um dos principais escritores contemporâneos da língua inglesa, e já recebeu diversos prêmios por sua obra, entre eles o Nobel, em 2003, e – caso único – dois Booker Prize, em 1983, por Vida e época de Michael K., e em 1999, por Desonra.

Passagens:

 “É verdade. Desde que se conhece por gente, as harmonias do Prelúdio ressoam dentro dele.
‘Quem sabe. Mas na minha experiência a poesia nos fala à primeira vista, ou não fala nunca. Um estalo de revelação, um estalo de reação. Como um relâmpago. Como se apaixonar’.”

“Cachorros e uma arma; pão no forno e uma plantação na terra. Engraçado que ele e a mãe dela, urbanos, intelectuais, tivessem produzido esse retrocesso, essa sólida colona. Mas talvez não tenham sido eles que a produziram: talvez a história tenha um papel maior.”

“ ‘Claro que é verdade. Eles não vão me ajudar a levar uma vida mais elevada, e sabe porquê? Porque não existe nenhuma vida elevada. A única vida que existe é esta aqui. Que a gente reparte com os animais. É esse o exemplo que gente como a Bev quer dar. O exemplo que eu tento seguir. Repartir alguns dos nossos privilégios humanos com os bichos. Não quero voltar numa outra vida como cachorro ou como porco para viver como os cachorros e porcos vivem com a gente agora’.”

“ ‘Lucy, minha filha, não fique zangada. Está bem, eu concordo que só existe esta vida. Quanto aos animais, claro, vamos ser bons com eles. Mas não vamos perder a proporção das coisas. Na criação nós somos de uma ordem diferente dos animais. Não necessariamente superior, mas diferente. Portanto, se vamos ser bons, que seja por simples generosidade, não porque nos sentimos culpados ou temos medo da vingança’.”

“Mais uma vez, ele pensa se a mulheres não seriam mais felizes se vivessem em comunidades de mulheres, recebendo visitas dos homens só quando quisessem. Talvez ele esteja errado em considerar Lucy homossexual. Talvez ela simplesmente prefira companhia feminina. Ou talvez as lésbicas sejam apenas isso: mulheres que não têm necessidade de homens.”

“Os cachorros são levados à clínica porque são indesejados, porque são demasiados. É aí que entra em suas vidas. Pode não ser seu salvador, aquele para quem não são excessivos, mas está preparado para cuidar deles, uma vez que são incapazes, totalmente incapazes, de cuidar de si mesmos, uma vez que até mesmo Bev Shaw lavou as mãos do destino deles. Um cachorreiro, Petrus se intitulou certa vez. Bom, ele agora se transformou em cachorreiro: um agente funerário canino, um psicopompo; um harijan.”

“Como será, ser avô? Como pai não foi muito bem-sucedido, apesar de ter tentado com mais afinco que a maioria. Como avô provavelmente ficará abaixo da média também. Faltam-lhe as virtudes dos velhos: serenidade, gentileza, paciência. Mas talvez essas virtudes venham quando outras virtudes se vão: a virtude da paixão, por exemplo. Tem de dar uma olhada em Victor Hugo de novo, o poeta-avô. Talvez possa aprender alguma coisa.”

Vai ficando cada vez mais difícil, Bev Shaw lhe disse uma vez. Mais difícil, mas mais fácil também. A gente se acostuma com as coisas ficando mais difíceis, a gente acaba não se assustando mais quando o que era o mais difícil fica ainda mais difícil. Ele pode salvar o jovem cachorro, se quiser, deixar para a semana seguinte. Mas chegará a hora, isso não pode ser evitado, em que terá de trazê-lo para Bev Shaw na sala de operações (talvez o traga nos braços, talvez faça isso por ele) e o acariciará, abrindo a pelagem negra para que a agulha penetre na veia, sussurrando para ele, dando-lhe apoio no momento em que, surpreendidas, suas pernas cederão, e então quando sua alma sair, ele o dobrará e embalará em seu saco, e no dia seguinte o levará para as chamas e cuidará para que seja queimado, eliminado. Fará tudo isso por ele quando chegar sua hora. Será pouco, menos que pouco: nada.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

About 11 de setembro

Spiegelman, Art. À sombra das torres ausentes. Companhia das Letras – São Paulo / SP; 2004; 44 páginas.
Dados da obra:
No livro, o autor conta sua experiência nos atentados de 11 de setembro, traduzida em uma obra no formato 25,4 x 35,6, apresentando dez pranchas, com cada história em páginas duplas, no mesmo formato das primeiras HQs publicadas em jornal, no início do século XX.
Breve relato do autor:
Art Spiegelman é ilustrador, cartunista e autor de histórias em quadrinhos americano, embora sueco de nascimento. Em 1992, ganhou o prêmio Pulitzer com uma história em quadrinho: Maus, romance gráfico em que narra a luta de seu pai, um judeu polonês para sobreviver ao Holocausto.

Passagens:    
 
“Eu estava na escola procurando Nadja quando a primeira torre caiu. Parecia o fim do mundo.
Falei que a outra torre caiu bem atrás da gente? Foi impressionante.
Aquelas caixas eram arrogantes, mas agora sinto falta das sacanas, ícones de uma era inocente.
Se não fosse toda a tragédia e morte, eu poderia dizer que foi uma crítica arquitetônica radical.
Quer dizer, não é que eu adore o meu nariz...
Só não que enfiem um maldito avião nele!”

“O tempo passa, ele consegue pensar em si mesmo na primeira pessoa de novo. Mas lá dentro as torres ainda queimam. Os gorilas assassinos não aprenderam nada com as torres gêmeas de Auschwitz e Hiroshima... e nada mudou no 11 de setembro.
Seu ordenado de ‘presidente’, suas guerras e guerras contra salários – o mesmo negócio mortal de sempre.
Enquanto isso, o sentimento de derrota domina um macaco obsessivo e paranóico.”

“As torres tomaram um vulto bem maior que o real...
mas parecem diminuir a cada dia...
Feliz aniversário.”

“Leituras de poesia pareciam tão freqüentes quanto o som das sirenes de polícia após 11 de setembro. Os novaiorquinos ouviam poesia para dar voz a sua dor: a cultura servia para reafirmar sua fé numa civilização ferida. Acho que ouvi ‘1º de setembro de 1939’, de Auden, uma dúzia de vezes naquelas semanas, mas minha mente não sossegava. Música tão pouco me aliviava, pois me parecia algo obscenamente delicioso. Os únicos produtos culturais que venciam minhas defesas e afastavam de meus olhos e meu cérebro as imagens das torres em chamas eram velhas tiras de quadrinhos; criações efêmeras, vitais, despretensiosas do início otimista do século XX.”

“Uma página silenciosa de 1936 mostra Krazy uivando na paisagem desértica de Coconino Country. Kop se une a Kat para formar um duo, depois Mrs. Kwak Wak vem formar um trio. Uma nota extraviada despenca do quadrinho; os três confabulam e veem que tem de unir-se a Ignatz em sua cela para formar um quarteto. O material é profundo. Depois do ataque me veio à mente como uma pedrada no meio da testa: no fundo diz que todo Paraíso tem sua serpente e que temos de aprender a viver em paz com a tal serpente! Ainda estou tentando chegar lá...”

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Presente de um Poeta

Neruda, Pablo. Presente de um Poeta. Vergara & Ribas Editoras – São Paulo / SP; 2001; 104 páginas.
Dados da obra:
Este livro, um verdadeiro Presente de um Poeta, reúne alguns dos poemas inesquecíveis de Neruda. E divide-se em quatro capítulos: O amor / A terra / A poesia / O homem.
Breve relato do autor:
Pablo Neruda foi um poeta chileno e um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX, além de cônsul do Chile na Espanha e no México.
Passagens:     

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Posso escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e os astros, azuis, tiritam na distância”.

Gira o vento da noite pelo céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Tanto a amei, e às vezes ela também me amou.

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
Beijei-a tantas vezes debaixo do céu infinito.

Ela me amou, e às vezes, eu também a queria.
Ah, como não amar seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E cai o verso na alma como na relva o orvalho.

Que importa que meu amor não pudera guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Bem longe alguém canta. Lá longe.
Minha alma não se conforma com havê-la perdido.

Como para trazê-la meu olhar a procura.
Meu coração a busca, e ela não está comigo.

A mesma noite faz branquear as mesmas árvores.
Mas nós, os de outrora, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, porém quanto a amei.
Minha voz ia no vento para roçar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo. Mas talvez ainda a queira.
Como é tão breve o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
Minha alma não se conforma com havê-la perdido.

Ainda que seja esta a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que eu lhe escrevo.

(De Vinte poemas de amor e uma canção desesperada)


Não te quero a não ser porque te quero
e de te querer a não te querer chego
e de te esperar quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Só te quero porque é a ti quem quero,
sem fim te odeio, e com ódio te peço,
e a medida do amor meu, viageiro,
é não te ver e amar-te como um cego.

Talvez consuma a luz de janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
de mim roubando a chave do sossego.

Nessa história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.

(De Cem sonetos de amor)


Minha fé em todas as colheitas do futuro se afirma no presente.
E declaro, por muito que se saiba, que a poesia é indestrutível.

(De Discurso no Chile)

terça-feira, 27 de setembro de 2011


Dantas, Janduhi. Lições de Gramática em Versos de Cordel. Editora Vozes; Rio de Janeiro / RJ; 2009; 118 páginas.
Dados da obra:
Aprender algumas regras da língua portuguesa por meio das rimas da literatura de cordel é o objetivo do livro. O autor usa as sextilhas metrificadas para tirar dúvidas sobre fonologia, semântica, morfologia, sintaxe e também sobre o novo acordo ortográfico.
Breve relato do autor:
Janduhi Dantas é professor de cursinhos pré-vestibulares em Patos (PB) e região. É divulgador da Literatura de Cordel nas escolas em que trabalha e autor de vários folhetos de cordel.

Passagens:     
Maisena, com S
Maisena, escrita com z
é a marca afamada.
A maisena da gramática
é a com s grafada:
s depois de ditongo,
Diz a regra, camarada!”

Tigela, com G
A “tijela”, que é com j
é furado o fundo dela:
tigela não é com j,
com g se grafa ela.
Lembre-se da brincadeira:
“Meu coração por ti gela”.

Cocô gelado?!
Colocar acento em coco
é um erro bem danado!
Principalmente no fim
se o acento é colocado,
pois ninguém está maluco
de beber “cocô gelado”!

Há = Passado, a = Futuro
Na indicação de tempo,
e a são empregados:
a se emprega no futuro,
se usa no passado –
“Vou sair daqui a pouco”,
dias fui ao mercado”.

PARA
“Trouxe o livro para ti:
não para de estudar, não” –
não há mais acento gráfico
Para a diferenciação,
mas um é forma verbal
e outro, preposição.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ontem não te vi em Babilónia

Antunes, António Lobo. Ontem não te vi em Babilónia. Alfaguara; Rio de Janeiro / RJ; 2008; 440 páginas.
Dados da obra:
É meia-noite e até a madrugada os personagens do livro estão insones na cama, remoendo lembranças e memórias dolorosas de perda, traição e morte. As vozes se entrelaçam umas às outras, numa trama de múltiplas vozes. Há três personagens principais: Ana Emília, que não consegue esquecer o suicídio da filha de 15 anos; Alice, ex-enfermeira, casada com um homem calado; e Osvaldo, seu marido, um ex-policial que torturava e matava “inimigos da Igreja e do Estado”.
Breve relato do autor:
Escritor e psiquiatra português, proveniente de uma família da alta burguesia. Entre 1971 e 1973 viveu em Angola, onde participou, como tenente médico do Exército, na Guerra do Ultramar. Posteriormente exerceu a profissão em um hospital de Lisboa até 1985, quando passou a se dedicar à literatura, embora tenha lançado seus primeiros romances em 1979: Memória de elefante e Os cus de Judas.

Passagens:

“Quando estou muitas horas acordada a sentir o tempo que não sei para onde vai no relógio eléctrico, sei que passa por mim num zumbidinho leve, começo a distinguir coisas no escuro, primeiro os móveis que deixaram de ser móveis e perderam o nome e depois o tecto, as paredes, o quadrado mais claro da janela e o rectângulo mais claro da porta esses sim ainda tecto e paredes e janela e porta e eu todavia perdendo-os também e a esquecer o que são, parece que a alma me sai num fuminho e tenho medo que não regresse mais, que ficando sem alma fique sem a minha vida inteira e continue a respirar como respiram as cortinas e as árvores que por mais que nos falem não as podemos ouvir, não nos preocupamos no caso por exemplo de se assustarem, sofrerem, não fazem parte de nós, andam por aí e acabou-se, quando estou muitas horas acordada a minha cara principia a tornar-se da mesma matéria que as tais coisas do escuro e deixa de ser cara, os braços deixam de ser braços consoantes os móveis deixaram de ser móveis e perderam o nome...”

“... se de novo uma praia com os meus pais entrava água dentro sem me despir nem do fio do pescoço e afogava-me, palavra de honra, afogava-me, daqui a pouco cinquenta anjos e as escadas infinitas, ter de parar a meio à espera do regresso dos pulmões a fingir que me falta não sei quê na carreira, quem encostasse a orelha ao meu peito dava por uma biela exausta a falhar, as peças lá se encaixavam que sorte, cambaleavam um bocadinho e recomeçavam o giro, passado tanto tempo o coração obediente, fiel, não conto com as hormonas mas conto contigo, obrigada, graças a Deus a Lurdes herdou o coração do avô, um cavalo que aos oitenta e três anos punha pinças de roupa para evitar o óleo nas calças e dava o seu passeio de bicicleta ao domingo, aos oitenta e nove caminhava sem bengala, aos noventa e dois almoçava por cinco, aos noventa e quatro coitado começou a ficar duro de ouvido e a enganar-se na família, informava-o aos gritos
– Não sou a minha mãe sou a Lurdes...”

“Não me preocupa o meu marido ou o que lhe possa acontecer com os estranhos, não me preocupa que a manhã chegue ou não chegue embora haja menos móveis de dia que de noite e a casa em que não confio finja que me aceita não tentando expulsar-me, aprendi à minha custa a não acreditar nas casas sempre a enxotarem-nos para a rua ou cercarem-nos de tralha
– Não saias daqui agora...”

“... ia garantir que uma locomotiva e falso, um estore que descia e um rosto atrás do estore para sempre perdido, talvez aquele que desejei a vida inteira sem jamais nos cruzarmos, que desde o início me pertence e a quem pertenço desconhecendo que lhe pertencia, pelo qual morrerei soluçando de amor sem nunca nos havermos trocado, se contasse isto à dona Laura a dona Laura comovida a esquecer as consoantes
– Que lindo...”

“– Aguenta um minuto rapaz
A prima da minha mãe
– Deita-te
E não lhe obedecia a ela, obedecia a uma voz que nada me indicava que lhe pertencesse, demasiado remota para além do mar e das ondas e dos albatrozes calados, não mais que a senhora na cadeira de baloiço
– Anda cá
Não de preto, uma senhora vulgar, não imaginava que a morte uma senhora real, sem mistério, de xaile nas costas a esconder-se do frio e que não me assustava nem levava consigo, limitava-se a estar ali familiar, tranquila, não necessitava de dizer-nos
– Sou eu
Para que a gente a aceitasse, quer dizer aceitávamo-la perguntando
– Afinal a morte é só isto
E de facto era isto, só isto, o xaile gasto, a blusa fora de moda...”

"... o que eu gostava, o que eu queria, o que teria desejado se fosse capaz de desejar e não sou, era que a palma me continuasse na cara durante tanto tempo que eu cega, era que a minha palma continuasse na vossa cara durante tanto tempo que cegos
– Seremos loiros nós
e não fazia mal, não tem importância, não se preocupem com o livro
(não estou a girar sozinha é com a minha mãe que eu giro)
porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro."

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Só entre nós

Braz, Julio Emílio; Vieira, Janaína. Só entre nós – Abelardo e Heloísa. Editora Saraiva; São Paulo / SP; 2000; 92 páginas.

Dados da obra:
Inspirado no clássico drama de Abelardo e Heloísa, a história é adaptada para os dias de hoje. Com a intenção de fazer amigos, a garota Heloísa coloca um anúncio na internet, que é visto por Carlos. Este, tocado pela história de Abelardo e Heloísa, adota o codinome de Abelardo e passa a se corresponder com a garota por meio de e-mail.
Breve relato dos autores:
Julio Emílio Braz é um escritor de literatura infanto-juvenil. Janaína Vieira é um jovem escritora que publicou, com Braz, seu primeiro livro infanto-juvenil.

Passagens:     

“Heloísa,
Vamos começar aos pouquinhos, para que não percamos algo na pressa de nos conhecermos melhor. As coisas acontecem como tem que acontecer. É a pressa que mata o sonho, é no medo neurótico de não se perder tempo que se perdem as coisas maiores. Que a nossa amizade tenha tempo de crescer, sem tempo de perceber que está crescendo.
Quer ler um poema meu? Não se assuste. Não o fiz para você. Foi para outra pessoa. Depois você escreve dizendo o que achou.
Seu amigo,
Abelardo.”

Perto de você
Perto de você
Falar de amor é tão fácil
Que meu coração se abre
Por inteiro
E eu me perco em palavras
Sem sentido,
Incontido,
Senhor absoluto de
Todos os sonhos,
Prazer,
Ser seu ser,
Só ser.
Amor
Por você
Sou tão tolo,
Pequeno
Criança desamparada,
Deslumbrada,
Te amo, te amo, te amo.
Deus,
Como te amo.
Perto de você
Tempo, idade, saudade
Nada existe
A não ser amor,
Muito amor,
Todo amor do mundo.
Perto de você,
No fundo, no fundo,
Eu me sinto perto
De mim mesmo.
Me ame...

“Abelardo,
Já te disse que não gosto da igualdade, que amo a diferença? Pense bem: é só por meio da diferença que o mundo se modifica e progride. O cotidiano agrada àqueles que não sabem sonhar. Sonhar é tornar tudo possível. Amar é tornar tudo possível.
Se você está louco por estar apaixonado, faço uma sugestão: procuremos os dois uma boa casa de repouso para perturbados mentais. Acho que estou enlouquecendo...
 Mas que essa loucura não seja entendida como ausência de razão. Para mim, é uma loucura sã e maravilhosa, porque está me libertando dos meus fantasmas. O que sinto é tão feliz, tão cheio de alegrias, que gostaria de ver o mundo todo tomado por esta súbita loucura!
Felicidade de não ser igual... não há ser humano igual a outro; não há uma pedra igual a outra. Estar no mundo é ser a própria diferença e tão poucos percebem isso... A magia serena da natureza torna tudo possível.”

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A elegância do ouriço

Barbery, Muriel. A Elegância do Ouriço. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2008; 352 páginas.

Dados da obra:
A história gira em torno de duas personagens principais, que vivem em um prédio elegante no número 7 da Rue de Grenelle, na França: Renée, a zeladora baixinha, gorda, feia, ensimesmada, mas que esconde uma alma inteligente e culta, e Paloma, a caçula da família Josse, uma menina de 12 anos, quieta, sensível e sagaz, mas que por não ver sentido na vida decide colocar um fim nela ao completar 13 anos. No prédio vivem outros personagens, mas a rotina começa a ser alterada com a chegada de um novo morador, um japonês de nome Kakuro Ozu.

Breve relato do autor:
Muriel Barbery estreou na literatura em 2000, com o romance Une gourmandise. A elegância do ouriço, seu segundo livro publicado em 2006, causou sensação literária na França. Professora de filosofia na Normandia, mas fascinada pela cultura japonesa, em 2008 ela foi viver com seu marido no Japão.

Passagens:

Para entender Marx e entender por que ele está errado, tem que ler Ideologia alemã. É o pedestal antropológico sobre o qual se construirão todas as exortações a um mundo novo e no qual será aparafusada uma certeza fundamental: os homens, que se perdem por desejar, melhor fariam se se limitassem às suas necessidades. Num mundo em que o húbris do desejo for amordaçado, poderá nascer uma organização social nova, isenta de lutas, opressões e hierarquias deletérias.”

“Os adultos têm um relação histérica com a morte, que toma proporções enormes, eles fazem um escarcéu, quando na verdade é o acontecimento mais banal do mundo. O que me importa mesmo não é a coisa, é o modo de fazer.”

“Acredita-se erradamente que o despertar da consciência coincide com a hora do nosso primeiro nascimento, talvez porque não conseguimos imaginar outro estado vivo além desse. Parece-nos que sempre vimos e sentimos, e, apoiados nessa crença, identificamos na vinda ao mundo o instante decisivo em que nasce a consciência. Que durante cinco anos uma garota chamada Renée, mecanismo perceptivo operacional dotado de visão, audição, olfato, paladar e tato, tenha vivido na perfeita inconsciência de si mesma e do universo é um desmentido a essa teoria apressada. Pois, para que a consciência surja, é preciso um nome.”

“Já que minha fome não podia ser aplacada no jogo de interações sociais que eram inconcebíveis por minha própria condição – e compreendi isso mais tarde, essa compaixão nos olhos de minha salvadora, pois algum dia já se viu uma menina pobre penetrar na embriaguez da linguagem e nela se exercitar junto com os outros? –, ela o seria nos livros. Pela primeira vez toquei num livro. Eu tinha visto os maiores da turma olharem para traços invisíveis, como que movidos pela mesma força, e, mergulhando no silêncio, tirarem do papel morto alguma coisa que parecia viva.”

“No calor da sala, à beira das lágrimas, feliz como eu nunca tinha sido, segurei sua mão, tépida pela primeira vez depois de meses. Sabia que um inesperado afluxo de energia o levantara da cama, lhe dera a força de se vestir, a sede de sair, o desejo de dividirmos mais uma vez esse prazer conjugal, e também sabia que era o sinal de que restava pouco tempo, o estado de graça que precede o fim, mas isso não me importava, e eu queria apenas aproveitar aqueles instantes roubados do jugo da doença, sua mão quentinha dentro da minha e as vibrações de prazer que nos percorriam, a nós dois, dando graças aos céus, pois era um filme que podíamos saborear juntos.”

"O ritual do chá, essa recondução exata dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa licença dada a cada um, a baixo custo, de se tornar um aristocrata do gosto, porque o chá é a bebida tanto dos ricos como dos pobres, o ritual do chá, portanto, tem essa virtude extraordinária de introduzir no absurdo de nossas vidas uma brecha de harmonia serena. Sim, o universo conspira para a vacuidade, as almas perdidas choram a beleza, a insignificância nos cerca. Então, bebamos uma xícara de chá. Faz-se o silêncio, ouve-se o vento que sopra lá fora, as folhas de outono sussurram e voam, o gato dorme sob uma luz quente. E, em cada gole, se sublima o tempo.”

“Quando penso no Go... Um jogo que tem por objetivo construir um território é obviamente bonito. Pode haver fases de combate, mas são apenas os meios a serviço dos fins: fazer viver seus territórios. Um dos mais bonitos lances do jogo de Go é que está provado que, para ganhar, é preciso viver mas também deixar o outro viver. Quem é ávido demais perde a partida: é um sutil jogo de equilíbrio em que é preciso ganhar vantagem sem esmagar o outro. Afinal, a vida e a morte são apenas a consequência de uma construção bem ou mal edificada. É o que diz um dos personagens de Taniguchi: você vive, você morre, são consequências. É um provérbio de Go e um provérbio da vida.”

"Faz um tempinho que também tenho suspeitas sobre ela. De longe, é de fato uma concierge. De perto... bem de perto... tem algo esquisito... A sra. Michel... Como posso dizer? Transpira inteligência. E olhem que ela se esforça, e como! Vê-se que faz o possível para bancar a concierge e parecer débil mental. Mas já a observei quando falava com Jean Arthens, quando fala com Neptune, nas costas de Diane, quando olha para as senhoras do prédio que passam na frente dela sem cumprimentá-la. A sra. Michel tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes.”

“É um fora-do-tempo dentro do tempo... Quando senti pela primeira vez esse abandono delicioso que só é possível a dois? A quietude que sentimos quando estamos sozinhos, essa certeza sobre nós mesmos na serenidade da solidão, não são nada em comparação com o deixar-se levar, deixar-se ir e deixar falar que se vive com o outro, em companhia cúmplice... Quando senti pela primeira vez esse relaxamento feliz em presença de um homem?
Hoje, é esta a primeira vez.”

“Ai, ai, ai, pensei, será que isso quer dizer que é assim que temos de viver a vida? Sempre em equilíbrio entre a beleza e a morte, o movimento e seu desaparecimento?
Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem.”

“Elas não me reconheceram”, digo.
Paro no meio da calçada, completamente zonza.
"Elas não me reconheceram”, repito.
Ele também para, e minha mão continua sobre seu braço.
“É porque nunca a viram”, ele me diz. “Mas eu a reconheceria em qualquer circunstância.”

“Basta ter experimentado uma vez que é possível ser cego em plena luz e ver no escuro, para levantar a questão da visão. Por que vemos? Ao entrar no táxi que Kakuro tinha chamado, e pensando em Jacinthe Rosen e Anne-Hélene Meurisse, que só viram de mim o que puderam (no braço do Sr. Ozu, num mundo de hierarquias), a evidência de que o olhar é como a mão que tentaria capturar a água móvel me impressiona com um força inaudita. Sim, o olhar percebe mas não escruta, acredita mas não questiona, recebe mas não procura – vazio de desejo, sem fome nem cruzada.”