sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A casa dos espíritos



Allende, Isabel. A Casa dos Espíritos. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro/RJ; 2010; 448 páginas.
Breve relato da autora:
 
Isabel Allende é uma jornalista e escritora chilena. Apesar de ter nascido em Lima, no Peru, sua família voltou logo para ao Chile, sua terra natal. Atualmente vive nos Estados Unidos.

Dados da obra:
 
Relata a vida de Esteban Trueba, família e descendentes legítimos e ilegítimos, por todo o século XX, no Chile, acompanhando sua evolução social e política. A escritora se baseou na história de sua família, misturando realidade com ficção. Três personagens femininas se destacam: Clara, a “clarividente”, sua filha Blanca e a neta Alba.

Passagens:

Esteban Trueba recostou-se no banco forrado de veludo vermelho e agradeceu a iniciativa dos ingleses de construir carruagens de primeira classe, onde se podia viajar como um cavalheiro sem ter que suportar as galinhas, as canastras, os pacotes de papelão amarrados com barbante e o choramingar de crianças. Felicitou-se pela decisão de comprar uma passagem mais cara, pela primeira vez na vida, e concluiu que era nos detalhes que estava a diferença entre um cavalheiro e um camponês. Por isso, embora em má situação, desse dia em diante iria gastar dinheiro nas pequenas comodidades que o faziam sentir-se rico.

... Pancha García não se defendeu, não se queixou, não fechou os olhos. Ficou de costas, fixando o céu com uma expressão apavorada, até sentir o homem desabar com um gemido a seu lado. Então começou a chorar suavemente. Antes dela, sua mãe e, antes de sua mãe, sua avó tinham cumprido o mesmo destino de cadela...

Férula sobressaltou-se, perguntando-se se seriam certos os boatos sobre a habilidade de Clara para ler o pensamento alheio. Sua primeira reação foi de orgulho e teria recusado a oferta apenas pela beleza do gesto, mas Clara não lhe deu tempo. Inclinou-se e beijou-a na face com tanta candura, que Férula perdeu o controle e começou a chorar. Fazia muito tempo que não derramava uma lágrima e comprovou, assombrada, quanta falta lhe fazia um gesto de ternura. Não se lembrava da última vez que alguém a havia tocado espontaneamente. Chorou longo tempo, libertando-se de muitas tristezas e solidões passadas, da mão de Clara, que a ajudava a assoar-se e entre dois soluços lhe dava mais pedaços de bolo e goles de chá. Ficaram chorando e falando até as oito horas da noite e nessa tarde no Hotel Francês selaram um pacto de amizade que durou muitos anos.

Clara recompôs-se do duplo parto com rapidez. Entregou a criação dos meninos a sua cunhada e à Nana, que, depois da morte dos antigos patrões, se empregou na casa dos Trueba, para continuar servindo o mesmo sangue, com dizia. Nascera para embalar filhos alheios, usar roupa que os outros dispensavam, comer suas sobras, viver de sentimentos e tristezas emprestados, envelhecer sob teto alheio, morrer um dia em seu cubículo do último pátio, em cama que não era sua, e ser enterrada na vala comum do Cemitério Central.

Um dia Pedro García, o velho, contou a Blanca e a Pedro Terceiro a história das galinhas que se puseram de acordo para enfrentar um raposo que todas as noites entrava no galinheiro para roubar os ovos e devorar os pintinhos. As galinhas decidiram que já estavam fartas de aguentar a prepotência do raposo, esperaram-no organizadas e, quando ele entrou no galinheiro, fecharam-lhe em cima a bicadas até deixá-lo mais morto do que vivo.
– E, então, o raposo fugiu com o rabo entre as pernas, perseguido pelas galinhas – terminou o velho.
Blanca riu com a história e comentou que isso era impossível, porque as galinhas nascem estúpidas e débeis, e os raposos nascem astutos e fortes, mas Pedro Terceiro não riu. Ficou toda a tarde pensativo, ruminando a história do raposo e das galinhas, e talvez tenha sido esse o instante em que o menino começou a fazer-se homem.

Durante a viagem de trem, Clara atualizou sua filha sobre as novidades da família e a saúde de seu pai, esperando que Blanca lhe fizesse a única pergunta que sabia que ela desejava fazer, mas Blanca não mencionou Pedro Terceiro, e Clara não se atrevia a fazê-lo. Acreditava que, ao nomear os problemas, eles se materializavam e já não era possível ignorá-los; por outro lado, se ficam no limbo das palavras não ditas, podem desaparecer sozinhos, com o decorrer do tempo...

– Pedro Terceiro García não fez nada que você mesmo não tenha feito – disse Clara, quando pôde interrompê-lo. – Você também se deitou com mulheres solteiras que não são da sua classe. A diferença é que ele o fez por amor. E Blanca também.

Era a única pessoa de toda a casa que tinha uma chave para entrar no túnel de livros de seu tio e autorização para pegá-los e lê-los. Blanca acreditava que deveriam dosar a leitura, porque havia coisas que não eram adequadas à sua idade, mas seu tio Jaime afirmara que só se lê o que interessa, e se interessa, é porque já se tem maturidade para fazê-lo...

– Tal como no momento de vir ao mundo, ao morrer temos medo do desconhecido. Mas o medo é algo interior, que nada tem a ver com a realidade. Morrer é como nascer: apenas uma mudança – tinha-lhe dito Clara.

Blanca preferia aqueles furtivos encontros com seu amante em hospedarias à rotina de uma vida em comum, ao cansaço de um casamento e ao pesadelo de envelhecer juntos, compartilhando as penúrias do final do mês, o mau hálito da boca ao acordar, o tédio dos domingos e os achaques da idade. Era uma romântica incurável.

O país encheu-se de fardas, máquinas bélicas, bandeiras, hinos e desfiles, porque os militares conheciam a necessidade de o povo ter seus próprios símbolos e ritos. O senador Trueba que, por princípio, detestava essas coisas, compreendeu o que os amigos do clube tinham querido dizer quando lhe haviam assegurado que o marxismo não tinha a menor oportunidade na América Latina, porque não contemplava o lado mágico das coisas. “Pão, circo e algo para venerar é tudo de que necessitam”, concluiu o senador, lamentando no seu íntimo que faltasse o pão.

As pessoas caminhavam em silêncio. Subitamente, alguém gritou, rouco, o nome do Poeta e uma só voz, saída de todas as gargantas, respondeu: “Presente! Agora e sempre!”. Foi como se tivessem aberto uma válvula, e toda a dor, o medo e a raiva daqueles dias saíssem dos peitos e rodassem pela rua, e subissem num terrível clamor até as nuvens negras do céu. Outro gritou: “Companheiro presidente!”. Pouco a pouco, o funeral do Poeta transformou-se no ato simbólico de enterrar a liberdade.

Ficamos conversando o resto da noite. Era uma daquelas mulheres estoicas e práticas de nosso país, que têm um filho de cada homem que passa por suas vidas e que, além disso, recolhem em seu lar as crianças que outros abandonam, os parentes mais pobres e qualquer pessoa que necessite de uma mãe, uma irmã, uma tia, mulheres que são o pilar central de muitas vidas alheias, que criam filhos para vê-los ir embora depois e que também veem seus homens partirem, sem se permitir um queixume, porque têm outras urgências maiores com que se ocupar.

... Agora, porém, duvido de meu ódio. Em poucas semanas, desde que estou nesta casa, parece ter-se diluído, ter perdido seus nítidos contornos. Desconfio de que tudo que aconteceu não seja fortuito, mas que corresponda a um destino traçado antes de meu nascimento e que Esteban García seja parte desse desenho. É um traço rude e torcido, mas nenhuma pincelada é inútil. No dia em que meu avô derrubou sua avó, Pancha García, nos matagais do rio, acrescentou outro degrau a uma cadeia de fatos que deveriam ser cumpridos. Depois, o neto da mulher violada repete o gesto com a neta do violador, e, dentro de 40 anos, talvez meu neto derrube a neta dele entre as matas do rio, e, assim, pelos séculos vindouros, numa história infindável de dor, sangue e amor...

... Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil, e o transcurso de uma vida, muito breve, e tudo acontece tão depressa, que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos atos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as três irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas... Por isso, minha avó Clara escrevia em seus cadernos para ver as coisas em sua dimensão real e driblar a sua péssima memória...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Um erro emocional


Tezza, Cristovão. Um erro emocional. Record. Rio de Janeiro/RJ; 2010; 191 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Cristovão Tezza é romancista e professor universitário. Nascido em Lages, Santa Catarina, ele mudou-se para Curitiba (PR) aos oito anos, sendo esta cidade palco de boa parte de sua literatura.
 
Dados da obra:

 O romance narra a história de amor entre uma revisora de textos, Beatriz, e um escritor, Antonio Donetti. Quando eles se conhecem, Donetti declara que cometeu um erro emocional ao se apaixonar por ela e pede que o ajude no novo romance que está escrevendo. Eles poucos falam ou conversam, mas passam e repassam suas vidas nas lembranças de cada um, desenvolvendo uma ligação forte.

Passagens:

Sombras escurecem o mundo sem ocupá-lo, são entidades inexpugnáveis, duplos deformados e perenes, vencidos apenas pela escuridão, de que fugimos.
 
Era preciso mesmo repetir o pai, o seu maldito modelo de referência: Não procure uma mulher semelhante a você, que trabalhe na mesma área. Num momento ela vai querer ser melhor que você. Os fundamentalistas têm razão para temerem profundamente as mulheres. O mundo se transformou numa máquina feminina porque as mulheres são melhores que os homens em tudo – metódicas, sistemáticas, aplicadas, obedientes, básicas, eficientes, sensíveis, atentas, objetivas, educadas, receptivas e atraentes. Nenhum homem consegue ser tudo isso ao mesmo tempo. O pai poderia ter acrescentado: E você nunca foi alguém forte. Você vai ser esmagado. Quando se der conta, não terá mais ar para respirar.
 
... Talvez dizer agora a Beatriz, nitidamente, para que ela não se engane sobre o que vê: não, eu não quero dar sentido ao mundo, eu não quero juntar pedaço de coisa nenhuma, o que eu quero é tirar o sentido do mundo, é justo o contrário, eu quero desmontar esse senso de ordem até a última rosca, mas também isso restava incoerente, o mero impulso irracional disfarçado de atitude ou de olhar crítico; um arrogante é, basicamente, um conservador, política e psicologicamente; cada coisa no seu lugar imutável, e o meu é lá em cima...
 
...Beatriz nunca teve propriamente apelido, apenas breves resumos, Bea, Bia – e gostava, criança pequena, da expressão por um triz, que sempre provocava risadas: Por um triz, Beatriz! Pequenos cromos de infância que precisavam ser protegidos a todo custo – a representação da infância feliz, por um triz, Beatriz!

Mas o seu pai era racista? – perguntou o analista, e ele custou a responder, não certamente não; ele apenas sentiria horror de apresentar essa questão à mesa como uma variável a ser pensada; a raça como refúgio, qualquer uma, é a desistência da condição humana que o Ocidente criou a duríssimas penas, mas isso sou eu que digo – meu pai não teria esse vocabulário – tinha pose e uma retórica de chavões, o clássico mulato pernóstico em que rutilavam os olhos verdes de sararás holandeses; quanto a mim, e Donetti continuava sorrindo, eu sou apenas escuro.
 
... a infância é um bom tempo não em si, poderia acrescentar, mas só quando vista de longe. Em si, é uma sucessão fragmentária de sentimentos fortíssimos sem ligação uns com os outros, e alguns deles apavorantes até o fim dos dias, cromos que se colam na memória para todo o sempre, com seu poder escravizante...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

1984


Orwell, George. 1984. Companhia das Letras. São Paulo/SP; 2009; 414 páginas.
 
Breve relato do autor:
George Orwell foi um escritor e jornalista inglês. Sua obra é marcada por uma inteligência perspicaz e bem-humorada, uma consciência profunda das injustiças sociais, uma intensa oposição ao totalitarismo e uma paixão pela clareza da escrita.
 
Dados da obra:
O personagem principal, Winston Smith vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. No controle, o Grande Irmão, personificação de um poder cínico e cruel ao infinito.
Passagens:
O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio não era o fato de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos, já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia circular pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a berrar, rostos deformados pela fúria.
 
Curiosamente, o anúncio das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Era um fantasma solitário afirmando uma verdade de que ninguém jamais ouvira falar. Só que, enquanto a afirmasse, de alguma maneira obscura a continuidade não se romperia. Não era fazendo-se ouvir, mas mantendo a sanidade mental que a pessoa transmitia sua herança humana. Voltou para a mesa, molhou a pena da caneta e escreveu:
Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós – a um tempo em que a verdade exista e em que o que foi feito não possa ser desfeito:
Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensamento – saudações!
 
Duplipensamento significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. O intelectual do partido sabe em que direção suas memórias precisam ser alteradas, em consequência, sabe que está manipulando a realidade; mas, graças ao exercício do duplipensamento, ele também se convence de que realidade não está sendo violada. O processo precisa ser consciente, do contrário não seria conduzido com a adequada precisão, mas também precisa ser inconsciente, do contrário traria consigo um sentimento de falsidade e, portanto, de culpa...
... Mesmo o nome dos quatro ministérios que nos governam exibem uma espécie de descaramento uma inversão deliberada dos fatos. O Ministério da Paz cuida dos assuntos de guerra; o Ministério da Verdade trata das mentiras; o Ministério do Amor pratica a tortura; e o Ministério da Pujança lida com a escassez de alimentos. Essas contradições não são acidentais e não resultam da mera hipocrisia: são exercícios deliberados de duplipensamento. Pois somente reconciliando contradições é possível exercer o poder de modo indefinido. É a única maneira de quebrar o antigo ciclo. Se quisermos evitar para sempre o advento da igualdade entre os homens – se quisermos que os Altos, como os chamamos, mantenham para sempre suas posições –, o estado mental predominante dever ser forçosamente, o da insanidade controlada.
 
Winston ficou pensando se ela seria uma lavadeira profissional ou simplesmente escrava de vinte ou trinta netos. Agora Julia estava a seu lado; juntos, olhavam com uma espécie de fascínio para a figura robusta lá embaixo. Ao observá-la em sua pose característica, braços grossos erguidos para alcançar ao varal, nádegas protuberantes lembrando as ancas de uma égua, Winston percebeu pela primeira vez que a mulher era bonita. Nunca lhe ocorrera que o corpo de uma mulher de cinquenta anos, de dimensões assustadoras devido à maternidade, um corpo que o trabalho tornara rijo e grosseiro e que acabara adquirindo a textura vulgar de um nabo maduro demais pudesse ser bonito. Mas assim era, e afinal de contas refletiu ele, por que não haveria de ser? Aquele corpo sólido, sem contornos, semelhante a um bloco de granito, e a pele vermelha e áspera, estavam para o corpo da garota como as bagas das roseiras bravas estavam para as rosas. Mas por que a fruta devia ser considerada inferior à flor?
A luz ficou mais clara e ele pôde ver os dois olhos olhando para ele. O guarda ria de suas contorções. Pelo menos uma das perguntas estava respondida. Nunca, por nenhuma razão neste mundo, seria possível desejar um acréscimo de dor. Quanto à dor, só era possível desejar uma coisa: que ela cessasse. Nada no mundo era tão ruim quanto a dor física. Diante da dor não há heróis, não há heróis, pensava uma e outra vez, contorcendo-se no chão e segurando inutilmente o braço inutilizado.
 
Você acha que a realidade é uma coisa objetiva, externa, algo que existe por conta própria. Também acredita que a natureza da realidade é autoevidente. Quando se deixa levar pela ilusão de que vê alguma coisa, supõe que todos os outros veem o mesmo que você. Mas eu lhe garanto Winston, a realidade não é externa. A realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar. Não na mente individual, que está sujeita a erros e que, de toda maneira, logo perece. A realidade existe apenas na mente do Partido, que é coletiva e imortal. Tudo o que o Partido reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a realidade se não for pelos olhos do Partido...
À vista do rosto rude e enrugado, tão feio e tão inteligente, seu coração parecia renovar-se. Caso pudesse mover-se, teria pousado a mão sobre o braço de O´Brien. Nunca o amou tão profundamente quanto naquele momento, e não apenas porque ele estancara a dor. Reavivara-se em seu íntimo o velho sentimento de que no fundo não importava se O´Brien era amigo ou inimigo. O´Brien era alguém com quem se podia conversar. Talvez fosse mais importante ser compreendido do que amado...
 
Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto de nós em matéria de métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer as próprias motivações. Diziam, e talvez até acreditassem, que tinham tomado o poder contra a vontade e por um tempo ilimitado. E que na primeira esquina da história surgiria um paraíso em que todos os seres humanos seriam livres e iguais. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas um fim. Não se estabelece uma ditadura para proteger uma revolução. Faz-se a revolução para instalar a ditadura. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder. Agora você está começando a me entender?
Em certo sentido (o livro) não lhe dizia nada de novo, o que era parte do fascínio. Dizia o que ele teria dito, se tivesse a capacidade de organizar seus pensamentos dispersos. Era o que produto de uma mente semelhante à dele, porém muitíssimo mais poderosa, mais sistemática, menos amedrontada. Os melhores livros, compreendeu, são aqueles que lhe dizem o que você já sabe.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A invenção de Hugo Cabret



Selznick, Brian. A invenção de Hugo Cabret. Edições SM; São Paulo / SP; 2009; 533 páginas.
Breve relato do autor:
Brian Selznick é um premiado autor norte-americano e ilustrador de livros infantis.
Dados da obra:
Hugo Cabret é um menino órfão que vive escondido na central de trem de Paris dos anos 1930. Esgueirando-se por passagens secretas, Hugo cuida dos gigantescos relógios do lugar. A sobrevivência dele depende do anonimato: Hugo tenta se manter invisível porque guarda um incrível segredo, que é posto em risco quando o severo dono da loja de brinquedos da estação e sua afilhada cruzam o caminho do garoto.
Um desenho enigmático, um caderno valioso, uma chave roubada e um homem mecânico estão no centro desta intrincada e imprevisível história, que, narrada por texto e imagens, mistura elementos dos quadrinhos e do cinema, oferecendo uma diferente e emocionante experiência de leitura.
Passagens:
O cineasta Georges Méliès começou sua carreira como mágico e possuía um teatro de mágicas em Paris. Essa ligação com a magia o ajudou a perceber imediatamente o potencial do novo suporte que era o cinema. Foi um dos primeiros a demonstrar que os filmes não tinham que refletir a vida real. Logo se deu conta de que o cinema tinha o poder de capturar sonhos. Méliès é amplamente reconhecido como o aperfeiçoador do truque da substituição, que tornava possível fazer as coisas aparecer e desaparecer na tela, como por magia. Isso mudou para sempre a cara do cinema.
 
 Leia em voz alta!
Isabelle leu as histórias para Hugo, e ele se lembrou de ter ouvido alguns dos mitos quando estava na escola. Ela leu sobre o monte Olimpo e sobre criaturas como a quimera e a fênix, e depois leu a história de Prometeu. Hugo ficou sabendo que Prometeu tinha feito os seres humanos com argila e que, em seguida, roubou o fogo dos deuses e deu de presente ao povo que criara, para que a humanidade pudesse sobreviver.
 
– Você já parou pra pensar que todas as máquinas são feitas por algum motivo? – ele perguntou a Isabelle.
– Elas são feitas pra fazer a gente rir, como esse ratinho, ou indicar a hora, como os relógios, ou pra maravilhar a gente, como o autômato. Deve ser por isso que qualquer máquina quebrada sempre me deixa meio triste, porque ela não pode cumprir o seu destino.
Isabelle pegou o ratinho, deu corda novamente e pôs de volta no balcão.
– Vai ver que com as pessoas é a mesma coisa – continuou Hugo. – Se você perder a sua motivação... é como se estivesse quebrado.
 
– Como é lindo! – exclamou Isabelle. – Parece que a cidade é toda feita de estrelas!
– Ás vezes eu venho aqui, de noite, mesmo quando não estou cuidando dos relógios, só pra olhar a cidade. Sabe, as máquinas nunca têm peças sobrando. Elas têm o número e o tipo exato de peças que precisam. Então, eu imagino que, se o mundo inteiro é uma grande máquina, eu devo estar aqui por algum motivo. E isso quer dizer que você, também, deve estar aqui por algum motivo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um homem: Klaus Klump


Tavares, Gonçalo M. Um homem.: Klaus Klump. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2007; 115 páginas.

Breve relato do autor:

Gonçalo M. Tavares é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.

Dados da obra:

É o primeiro livro da série “O Reino”, cujo tema central é o mal. É uma perturbadora alegoria sobre a vida em tempos de guerra e de paz, sobre a ditadura e a democracia. Klaus Klump é editor, mas se mantém neutro com relação à situação do país, até que Johana, sua amante, é violentada por um soldado. Ele então vira guerrilheiro e refugia-se na floresta com outros combatentes.
 
Passagens:
 
Com força arrancou do solo um cão. Não era uma pequena árvore, era um cão.
Os animais não resistem como o mundo botânico, nem como um chapéu. O chapéu voa com o vento, o cão não, a árvore nunca. Mas por vezes vem uma perturbação média e a natureza mostra um dos seus luxos: a maldade. Voa o chapéu, os cães, e ainda as árvores.
 
Se tu não fosses tão alto, não te teria visto por cima da sebe.
E Klaus dizia a Johana:
Se tu não fosse tão alto, a sebe seria mais baixa.
Klaus acreditava mais no destino do que Johana.
Porém nunca há duas mudanças no mundo para um único efeito. Se Klaus fosse mais baixo, isso constituiria uma mudança no mundo. Se a sebe fosse também mais baixa, seriam duas mudanças no mundo. Se existissem dois factos diferentes no passado então não poderia ter sucedido o mesmo. O destino tem uma lógica própria. São necessários cálculos complexos para perceber o que poderia ter acontecido em vez do que realmente aconteceu. Há demasiadas possibilidades para que aconteça sempre o mesmo. O mundo tem variedade e é longo. O mundo deveria ser um túnel, onde entravas de manhã e saías de noite. Sem ramificações. Uma canalização orientada, como existe nas casas.
 
Herói de guerra, citava frases de filósofos, e versos.
Tinha sido ferido várias vezes pelos elementos da resistência. Quando a ferida não atinge a memória é insignificante, dizia. Os homens lembravam-se de o ouvir na enfermaria, sempre que era atingido, a recitar poemas inteiros que sabia desde a infância. Resistia à dor exercitando a memória. Era o seu método. Não parar de pensar – se além de sair sangue do nosso corpo, deixarmos de pensar: morremos.
 
De repente Klaus viu o que parecia ser uma claridade intrusa na sua noite individual, mas não. Era um som. Era o som de Alof a tocar. No meio da massa negra. Terá música luz, perguntou-se Klaus. Não uma luz de eletricidade, não uma luz de máquina, mas uma luz orgânica: como certos animais que deitam luzinhas das ancas; os pirilampos, certos peixes: terá a música uma luz orgânica? É que a música de noite é mais nítida, toda a gente o percebe. Ou então as formas quando visíveis diminuem a nitidez da música. Uma competição entre formas sólidas e as formas aéreas do som.
 
... Não entendia as coisas naturais que o rodeavam e sabia que também não era entendido. E se em tempo de paz tinham sido os livros a barreira: porque atraído pela literatura tinha-se afastado dos sons a que chamava primitivos, esses sons que vêm do exterior e de longe, quando se abre a janela, se em tempo de paz haviam sido os livros, em tempo de guerra eram as máquinas, neste caso as pequenas máquinas que eram as armas, que o haviam afastado da natureza. Porque o barulho das balas das granadas: nada desses sons disformes tem sequer o mínimo de vestígio verbal: não é humano, claramente, esse som...
 
Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve nunca será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o sentido do tacto: o único que pode alterar as coisas...
 
Certos índices para a paz. Os homens juntam-se menos, há menos grupos. É um facto: a solidão aumenta nas nações pacíficas. Aproximamo-nos dos outros para nos defendermos. Por egoísmo nos juntamos.
 
A boca é importante em tempo de guerra: as pessoas têm fome: em tempo de democracia os lábios mantêm a importância, mas agora são ocupados pelos discursos. A linguagem é mais utilizada em tempo de paz, sobre isso não há dúvida: em tempo de guerra não há conversas, apenas informações. Frases rápidas e curtas.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A paixão segundo G.H.


Lispector, Clarice. A paixão segundo G.H. Francisco Alves Editora; Rio de Janeiro / RJ; 1990; 183 páginas.
 
Breve relato do autor:
Clarice Lispector foi uma escritora e jornalista brasileira. Nascida na Ucrânia, naturalizou-se brasileira.
Dados da obra:
Publicado em 1964, o livro trata de uma mulher identificada apenas por G. H. Depois de demitir a empregada, ela tenta limpar o quarto, onde se depara com uma barata dentro do guarda-roupa. Desse encontro, ela tece reflexões e, após esmagar a barata na porta do armário, relata a perda da individualidade.
Passagens:
Os traços – descobri sem prazer – eram traços de rainha. E também a postura: o corpo erecto, delgado, duro, liso, quase sem carne, ausência de seios e de ancas. E sua roupa? Não era de surpreender que eu a tivesse usado como se ela não tivesse presença; sob o pequeno avental, vestia-se sempre de marrom escuro ou de preto, o que a tornava toda escura e invisível – arrepiei-me ao descobrir que até agora eu não havia percebido que aquela mulher era invisível. Janair tinha quase que apenas a forma exterior, os traços que ficavam dentro de sua forma eram tão apurados que mal existiam: ela era achatada como um baixo-relevo preso a uma tábua.
Não fora eu quem repelira o quarto, como havia por um instante sentido à porta. O quarto, com sua barata secreta, é que me repelira. De início eu fora rejeitada pela visão de uma nudez tão forte como o de uma miragem, pois não fora a miragem de um oásis que eu tivera, mas a miragem de um deserto. Depois eu fora imobilizada pela mensagem dura na parede: as figuras de mão espalmada haviam sido um dos sucessivos vigias à entrada do sarcófago. E agora eu entendia que a barata e Janair eram os verdadeiros habitantes do quarto.
A barata é um ser feio e brilhante. A barata é pelo avesso. Não, não, ela mesma não tem lado direito nem avesso: ela é aquilo. O que nela é exposto fiz o meu avesso ignorado. Ela me olhava. E não era um rosto. Era uma máscara. Uma máscara de escafandrista. Aquela gema preciosa ferruginosa. Os dois olhos eram vivos como dois ovários. Ela me olhava com a fertilidade cega de seu olhar. Ela fertilizava a minha fertilidade morta. Seriam salgados os seus olhos? Se eu os tocasse – já que cada vez mais imunda eu gradualmente ficava – se eu os tocasse com boca, eu os sentiria salgados?
Pela primeira vez eu sentia com sofreguidão infernal a vontade de ter tido filhos que eu nunca tivera: eu queria que se tivesse reproduzido, não em três ou quatro filhos, mas em vinte mil a minha orgânica infernalidade cheia de prazer. Minha sobrevivência futura em filhos é que seria a minha verdadeira atualidade, que é, não apenas eu, mas minha prazerosa espécie a nunca se interromper. Não ter tido filhos me deixava espasmódica como diante de um vício negado.
Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois “eu” é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Memorial do convento


Saramago, José. Memorial do Convento. Bertrand Brasil; Rio de Janeiro / RJ; 2002; 352 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
José Saramago foi um escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 e o Prêmio Camões.
 
Dados da obra:
 
Romance histórico, cuja ação decorre no início do século XVIII, durante o reinado de D. João V e da Inquisição. Este manda construir o Palácio Nacional de Mafra, mais conhecido por convento, em resultado de uma promessa que fez para garantir a sucessão do trono. Um dos personagens que ajudam na construção é Baltasar, que tem a alcunha de Sete-Sóis, porque apenas consegue ver à luz. Ele vive um romance com Blimunda, chamada de Sete-Luas, porque consegue ver no escuro.
Passagens:
 

Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltazar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz e então, sendo tanta caridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntastes o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se não, se com ela não pudestes falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizestes, vieste e não perguntastes porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estas a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.
Não dormiu ele, ela não dormiu. Amanheceu, e não se levantaram, Baltasar apenas para comer uns torresmos frios e beber um púncaro de vinho, mas depois tornou a deitar-se, Blimunda quieta, de olhos fechados, alargando o tempo de jejum para se lhe aguçarem as lancetas dos olhos, estiletes finíssimos quando enfim saírem para a luz do sol, porque este é o dia de ver, não o de olhar, que esse pouco é o que fazem os que, olhos tendo, são outra qualidade de cegos.
 
... Este ferro não serve, tem uma racha por dentro, Como é que sabes, Foi Blimunda que viu, o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro e declarou, Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem baptizada estava, que o baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um. Dormiram esta noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.
 
 
... Minha mãe, esta é minha mulher, o nome dela é Blimunda de Jesus. Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será, mas outro é o costume, quem foram os seus pais, onde nasceu, que idade tem, e com isto se julga ficar a saber mais, e às vezes tudo...
 
... Blimunda não é judia nem cristã-nova, isto do Santo Ofício, do cárcere e do degredo foi coisa de visões que a mãe dela dizia que tinha, e revelações, e que também ouvia vozes, Não há mulher nenhuma que não tenhas visões e revelações, e que não ouça vozes, ouvimo-las o dia todo, para isso não é preciso ser feiticeira, Minha mãe não era feiticeira, nem eu o sou. Também têm visões, Só as que todas as mulheres têm, minha mãe, Ficas a ser minha filha, Sim, minha mãe,...
... Quando Baltasar entra em casa, ouve o múrmuro que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma , ora outra, mal se conhecem e têm tanto par dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fossem falarem as mulheres uma com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta. Deite-me a sua benção, minha mãe, Deus te abençoe meu filho, não falou Blimunda, não lhe falou Baltasar, apenas se olharam, olharem-se era a casa de ambos.
 
Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu.
Em baixo, começavam os homens a descer para os caboucos, onde mal se via ainda. Disse o padre, Dentro de nós existem vontade e alma, a alma retira-se com a morte, vai lá para onde as almas esperam o julgamento, ninguém sabe, mas a vontade ou se separou do homem estando ele vivo, ou a separa dele a morte, é ela o éter, é portanto a vontade dos homens que segura as estrelas, é a vontade dos homens que Deus respira...
           
Nessa noite, Domenico Scarlatti ficou na quinta, tocando oras e horas, até de madrugada, já Blimunda estava de olhos abertos, corriam-lhes devagar as lágrimas, se aqui estivesse um médico diria que ela purgava os humores do nervo óptico ofendido, talvez tivesse razão, talvez as não seja mais que isso, o alívio duma ofensa.