quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A morte de Ivan Ilitch


Tolstói, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Editora 34. São Paulo/SP; 2006; 96 páginas.
 
Breve relato do autor:
  
Lev Tolstói foi um escritor russo, conhecido também por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e ideias contrastavam com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. Junto a Dostoiévski, Turgueniev, Gorki e Tchecov, Tolstói foi um dos grandes mestres da literatura russa do século XIX.

Dados da obra:
 
 É um romance publicado pela primeira vez em 1886. Trata-se sobre a morte do juiz Ivan Ilitch, sua vida antes e durante. Segundo Paulo Rónai, muitos críticos consideram-na como "a novela mais perfeita da literatura mundial; a agonia de um burocrata insignificante serve de pretexto ao autor para nos contar uma história que diz respeito ao destino de cada um de nós e que é impossível ler sem um frêmito de angústia e de purificação".
 
Passagens:
 
Piotr Ivânovitch sabia que, assim como antes fora necessário fazer o sinal da cruz, agora era preciso apertar aquela mão, suspirar e dizer: “Creia-me!”. E foi o que fez. E, depois de fazê-lo, sentiu que obtivera o efeito desejado: ambos ficaram comovidos.
  
Morria aos quarenta e cinco anos, juiz do Foro Criminal. Era filho de um funcionário, que fizera em Petersburgo, em diferentes ministérios e departamentos, aquele tipo de carreira que leva as pessoas a uma situação da qual elas, por mais evidente que seja a sua incapacidade para qualquer função de efetiva importância, não podem ser expulsas, em virtude dos muitos anos de serviço e dos postos alcançados, por este motivo, recebem cargos inventados, fictícios, e uns não fictícios milhares de rublos, de seis a dez, com que vivem até a idade provecta.
  
... Ivan Ilitch jamais abusou desta sua autoridade e, pelo contrário, procurava atenuar a sua manifestação; mas a consciência dessa autoridade e a possibilidade de atenuá-la constituíam para ele o interesse principal e a atração do seu novo encargo...
  
Na realidade, havia ali o mesmo que há em casa de todas as pessoas não muito ricas, mas que desejam parecê-lo e por isto apenas se parecem entre si: damascos, pau-preto, flores, tapetes e bronzes, matizes escuros e brilhantes; enfim, aquilo que todas as pessoas de determinado tipo fazem para se parecer com todas as pessoas de determinado tipo. E em casa dele, a semelhanças era tamanha que não se chegava mesmo a percebê-lo, mas tudo isso parecia-lhe algo peculiar...
  
“Eu não existirei mais, o que existirá então?
Não existirá nada. Onde estarei então, quando não existir mais? Será realmente a morte?
Não, não quero.”... “Para quê? Tanto faz – disse a si mesmo, perscrutando a treva, os olhos abertos. – A morte. Sim, a morte. E nenhum deles sabe nem quer saber, e nem lamenta isso. Ocupam-se de música. (Ouvia, atrás da porta, distantes, o retumbar de uma voz, acompanhado de ritornelos). Para eles, tanto faz, mas também eles hão de morrer. Bobalhões. Eu vou primeiro, eles depois, hão de passar pelo mesmo que eu. E, no entanto, estão alegres. Animais!”. Sufocava de raiva. Teve uma sensação penosa, torturante, intolerável. Não podia ser verdade que todos estivessem condenados para sempre a este medo terrível. Levantou-se.”
 
A partir de então, Ivan Ilitch chamava às vezes Guerássim, fazendo-o segurar os seus pés sobre os ombros, e gostava de conversar com ele. Guerássim fazia isto com leveza, de bom grado, com simplicidade e uma bondade que deixava Ivan Ilitch comovido. A saúde, a força, a vitalidade de todas as demais pessoas ofendiam Ivan Ilitch; somente a força e a vitalidade de Guerássim não o entristeciam, e sim acalmavam-no.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

eles eram muitos cavalos


Ruffato, Luiz. eles eram muitos cavalos. Boitempo Editorial. São Paulo/SP; 2001; 150 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Luiz Ruffato é um escritor brasileiro que ganhou os prêmios APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional com o romance eles eram muitos cavalos.
 
Dados da obra:
 
Primeiro romance do autor foi publicado em 2001. Toda a ação do livro se passa num só dia, 9 de maio de 2000. Por meio de fragmentos, flashes, poemas, receitas, bulas, listas, o autor faz um recorte aéreo da cidade de São Paulo. Cenas de amor, ódio, violência, paixão, fé, esperança, tristeza, enfim, todo o caos da cidade está presente no livro.
 
Passagens:
 
“Eles eram muitos cavalos,
mas ninguém mais sabe os seus nomes,
sua pelagem, sua origem...” – Cecília Meireles
 
A vizinhança espreguiça-se
                    uma discussão, logo abortada
                    uma porta que se fecha
                    um rádio ligado
                    cachorros que latem
                    a porta de aço descerrada da padaria
                    passos rápidos na calçada
                    um bebê que esgoela
                    uma sirene, longe “Polícia?”
          o ônibus encosta, os passageiros apressam-se, arranca
          e eu decidi que não quero mais essa vida pra mim não não quero.
 
...Toma o ônibus até a estação Saúde do metrô, baldeia na Sé para a estação República. Da escada-rolante emerge, o Edifício Itália funda-se nos seus ombros, a fumaça de carros e caminhões tachos de acarajés coxinhas quibes pastéis, vozes atropelam-se, amalgamam-se, aniquilam-se, em bancas revistas, jornais, livros usados, pulseiras brincos colares gargantilhas anéis, lã em gorros ponches blusas mantas xales, pontos de ônibus lotados, trombadinhas, engraxates, carrinhos de pipoca, doces caseiros, vagabundos, espalhados caídos arrastando-se bêbados mendigos meninos drogados aleijados.
 
 ...virou assim um dia, deu horário, a filha de onze anos não chegou da escola, o rosto esbaforido na cozinha, mãe!, a noite, a madrugada, a colcha o lençol engomado, dia seguinte também não, nem no outro, nada nada nada e humilhou-se delegacias de polícia hospitais febens pronto-socroros IMLs perambulou o trajeto casa-escola-escola-casa questionadeira porta em porta pista indícios intuições...
 
No minúsculo cômodo cheirando a doença expõem-se: sobre a mesinha de cabeceira um abajur de cúpula azul, o retrato de um bebê holocáustico, um copo americano vazio, cartelas de remédio; os brancos braços magros de um cristo de gesso contrastam com a verdescura parede úmida, um frágil guarda-roupa de compensado; um tapete de barbante espichado no chão de tacos banguela. E, sob rústicos lençóis de saco-de-estopa, abandonada, esqueleto estufando a pele cinzenta, rija, ela.
 
 Suspirosa, Idalina na pele cinza do rosto macilento o algodão desliza a base espalha o creme aviva o pó compacto o blush os olhos sombreia de azul batom vermelho delineador lápis rímel
Aos poucos a amiga, tão vaidosa, abduz dos doze anos a alegre menina que sonhava casar e ser médica “para ajudar os semelhantes.”
 
 ... Desci do norte de pau-de-arara. Se o senhor soubesse o que era aquilo... Um caminhão velho, lonado, umas tábuas atravessadas na carroceria, servindo de assento, a matula no bornal, rapadura e farinha, dias e dias de viagem, meu deus do céu! Mas posso reclamar não. São Paulo, uma mãe pra mim. Logo que cheguei arrumei serviço, fui trabalhar de faxineiro numa autopeças em Santo André. Depois fui subindo de vida, porque aqui antigamente era assim, quem gostasse de trabalhar tinha tudo, ao contrário de hoje, que até dá pena, não tem emprego pra ninguém...
 
A adolescente rente ao corredor
madorna desordenados fascículos de cursinho pré-vestibular derramam-se pelos braços vez em vez escorrega para os lados da velha que sobressaltada se desculpa
(ajeita-se ainda mais para o canto)
Tenta impossíveis olhos abertos acorda cedo meio expediente no balcão de uma agência de viagens o cursinho fim de tarde volta hora e meia de ônibus a mãe pergunta minha filha tanto sacrifício vale a pena?
E migalhas de seus sonhos esparramam-se sobre os ombros da velha.
 
 – Tarcísio... você lembra do assalto?, daquele assalto lá em casa? Pois então: um era esse, cara... Um era esse! E eu não vou salvar ele não, cara, não vou mesmo! Não vou mexer uma palha pra salvar ele... Ele quase fodeu minha vida, cara, quase fodeu... Eu não vou operar ele não, estão me ouvindo? Não vou operar ele não! Se vocês quiserem, chamem outro, me denunciem pro CRM, façam o que vocês quiserem, não estou nem aí, eu não estou nem aí, estão me entendendo?, nem aí!
E desapareceu por detrás do vidro da sala de cirurgia.
O silêncio encalavou-se no anestesista.
Os olhos da instrumentadora hipnotizados pelas horas na parede.
O residente monitora os impulsos do coração do paciente agora respiração convulsa.
 
... As poesias foram escritas não pra ficar sepultadas nas páginas dos livros, mas pra se tornarem parte da nossa memória coletiva... Eu avivo todo o meu conhecimento de moleque míope que ficava em casa lendo, enquanto a molecada ia pro campinho jogar futebol...
 
Instalei-me num quarto, você se lembra?
Sexta-feira à noite, Hotel Amazonas, Ave
nida Vieira de Carvalho, lá embaixo, barulho
um restaurante italiano,
outro, comida rápida árabe,
carros,
ônibus,
lá embaixo,
nas ruas transversais,
eu sabia das prostitutas,
           dos meninos fumando crack,
          dos assaltantezinhos pé-de-chinelo,
eu sabia da noite
e deitei, mas não era alívio que sentia,
nem remorso, era não sei o quê, saudade,
talvez,
ia sentir falta das crianças, pijamas amontoados correndo, suados, na sala minúscula do apartamento ridiculamente pequeno em que morávamos e que você vivia implicando, dizendo que tínhamos de sair dali,
          tínhamos de sair dali,
                    sair dali,...
 
Não gosta de recordações. Anda pelas ruas como em um labirinto. Em todas surpreende-se, é surpreendido. Que adiantam as lembranças? Tempos... Espaços... Nada... A memória não reconstrói o passado... reaviva dores... apenas... O que fizemos... O que não...
 
Quando conheceu o futuro marido, num cult9o dominical na Casa da Benção, não escondia qualquer ilusão, uma moça velha de felicidades lasseada. E assim foi, a festa de casamento, a desmudança – estranhou: o mesmo espaço de sempre não era o mesmo espaço de sempre, mas pouco ocupou disso suas horas, o engravidamento, para honra e glória do Senhor, atropelou-a e o vômito e as tonteiras e as pernas inchadas e a rabugice e a tristeza e a alegria varreram suas preocupações...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A casa dos espíritos



Allende, Isabel. A Casa dos Espíritos. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro/RJ; 2010; 448 páginas.
Breve relato da autora:
 
Isabel Allende é uma jornalista e escritora chilena. Apesar de ter nascido em Lima, no Peru, sua família voltou logo para ao Chile, sua terra natal. Atualmente vive nos Estados Unidos.

Dados da obra:
 
Relata a vida de Esteban Trueba, família e descendentes legítimos e ilegítimos, por todo o século XX, no Chile, acompanhando sua evolução social e política. A escritora se baseou na história de sua família, misturando realidade com ficção. Três personagens femininas se destacam: Clara, a “clarividente”, sua filha Blanca e a neta Alba.

Passagens:

Esteban Trueba recostou-se no banco forrado de veludo vermelho e agradeceu a iniciativa dos ingleses de construir carruagens de primeira classe, onde se podia viajar como um cavalheiro sem ter que suportar as galinhas, as canastras, os pacotes de papelão amarrados com barbante e o choramingar de crianças. Felicitou-se pela decisão de comprar uma passagem mais cara, pela primeira vez na vida, e concluiu que era nos detalhes que estava a diferença entre um cavalheiro e um camponês. Por isso, embora em má situação, desse dia em diante iria gastar dinheiro nas pequenas comodidades que o faziam sentir-se rico.

... Pancha García não se defendeu, não se queixou, não fechou os olhos. Ficou de costas, fixando o céu com uma expressão apavorada, até sentir o homem desabar com um gemido a seu lado. Então começou a chorar suavemente. Antes dela, sua mãe e, antes de sua mãe, sua avó tinham cumprido o mesmo destino de cadela...

Férula sobressaltou-se, perguntando-se se seriam certos os boatos sobre a habilidade de Clara para ler o pensamento alheio. Sua primeira reação foi de orgulho e teria recusado a oferta apenas pela beleza do gesto, mas Clara não lhe deu tempo. Inclinou-se e beijou-a na face com tanta candura, que Férula perdeu o controle e começou a chorar. Fazia muito tempo que não derramava uma lágrima e comprovou, assombrada, quanta falta lhe fazia um gesto de ternura. Não se lembrava da última vez que alguém a havia tocado espontaneamente. Chorou longo tempo, libertando-se de muitas tristezas e solidões passadas, da mão de Clara, que a ajudava a assoar-se e entre dois soluços lhe dava mais pedaços de bolo e goles de chá. Ficaram chorando e falando até as oito horas da noite e nessa tarde no Hotel Francês selaram um pacto de amizade que durou muitos anos.

Clara recompôs-se do duplo parto com rapidez. Entregou a criação dos meninos a sua cunhada e à Nana, que, depois da morte dos antigos patrões, se empregou na casa dos Trueba, para continuar servindo o mesmo sangue, com dizia. Nascera para embalar filhos alheios, usar roupa que os outros dispensavam, comer suas sobras, viver de sentimentos e tristezas emprestados, envelhecer sob teto alheio, morrer um dia em seu cubículo do último pátio, em cama que não era sua, e ser enterrada na vala comum do Cemitério Central.

Um dia Pedro García, o velho, contou a Blanca e a Pedro Terceiro a história das galinhas que se puseram de acordo para enfrentar um raposo que todas as noites entrava no galinheiro para roubar os ovos e devorar os pintinhos. As galinhas decidiram que já estavam fartas de aguentar a prepotência do raposo, esperaram-no organizadas e, quando ele entrou no galinheiro, fecharam-lhe em cima a bicadas até deixá-lo mais morto do que vivo.
– E, então, o raposo fugiu com o rabo entre as pernas, perseguido pelas galinhas – terminou o velho.
Blanca riu com a história e comentou que isso era impossível, porque as galinhas nascem estúpidas e débeis, e os raposos nascem astutos e fortes, mas Pedro Terceiro não riu. Ficou toda a tarde pensativo, ruminando a história do raposo e das galinhas, e talvez tenha sido esse o instante em que o menino começou a fazer-se homem.

Durante a viagem de trem, Clara atualizou sua filha sobre as novidades da família e a saúde de seu pai, esperando que Blanca lhe fizesse a única pergunta que sabia que ela desejava fazer, mas Blanca não mencionou Pedro Terceiro, e Clara não se atrevia a fazê-lo. Acreditava que, ao nomear os problemas, eles se materializavam e já não era possível ignorá-los; por outro lado, se ficam no limbo das palavras não ditas, podem desaparecer sozinhos, com o decorrer do tempo...

– Pedro Terceiro García não fez nada que você mesmo não tenha feito – disse Clara, quando pôde interrompê-lo. – Você também se deitou com mulheres solteiras que não são da sua classe. A diferença é que ele o fez por amor. E Blanca também.

Era a única pessoa de toda a casa que tinha uma chave para entrar no túnel de livros de seu tio e autorização para pegá-los e lê-los. Blanca acreditava que deveriam dosar a leitura, porque havia coisas que não eram adequadas à sua idade, mas seu tio Jaime afirmara que só se lê o que interessa, e se interessa, é porque já se tem maturidade para fazê-lo...

– Tal como no momento de vir ao mundo, ao morrer temos medo do desconhecido. Mas o medo é algo interior, que nada tem a ver com a realidade. Morrer é como nascer: apenas uma mudança – tinha-lhe dito Clara.

Blanca preferia aqueles furtivos encontros com seu amante em hospedarias à rotina de uma vida em comum, ao cansaço de um casamento e ao pesadelo de envelhecer juntos, compartilhando as penúrias do final do mês, o mau hálito da boca ao acordar, o tédio dos domingos e os achaques da idade. Era uma romântica incurável.

O país encheu-se de fardas, máquinas bélicas, bandeiras, hinos e desfiles, porque os militares conheciam a necessidade de o povo ter seus próprios símbolos e ritos. O senador Trueba que, por princípio, detestava essas coisas, compreendeu o que os amigos do clube tinham querido dizer quando lhe haviam assegurado que o marxismo não tinha a menor oportunidade na América Latina, porque não contemplava o lado mágico das coisas. “Pão, circo e algo para venerar é tudo de que necessitam”, concluiu o senador, lamentando no seu íntimo que faltasse o pão.

As pessoas caminhavam em silêncio. Subitamente, alguém gritou, rouco, o nome do Poeta e uma só voz, saída de todas as gargantas, respondeu: “Presente! Agora e sempre!”. Foi como se tivessem aberto uma válvula, e toda a dor, o medo e a raiva daqueles dias saíssem dos peitos e rodassem pela rua, e subissem num terrível clamor até as nuvens negras do céu. Outro gritou: “Companheiro presidente!”. Pouco a pouco, o funeral do Poeta transformou-se no ato simbólico de enterrar a liberdade.

Ficamos conversando o resto da noite. Era uma daquelas mulheres estoicas e práticas de nosso país, que têm um filho de cada homem que passa por suas vidas e que, além disso, recolhem em seu lar as crianças que outros abandonam, os parentes mais pobres e qualquer pessoa que necessite de uma mãe, uma irmã, uma tia, mulheres que são o pilar central de muitas vidas alheias, que criam filhos para vê-los ir embora depois e que também veem seus homens partirem, sem se permitir um queixume, porque têm outras urgências maiores com que se ocupar.

... Agora, porém, duvido de meu ódio. Em poucas semanas, desde que estou nesta casa, parece ter-se diluído, ter perdido seus nítidos contornos. Desconfio de que tudo que aconteceu não seja fortuito, mas que corresponda a um destino traçado antes de meu nascimento e que Esteban García seja parte desse desenho. É um traço rude e torcido, mas nenhuma pincelada é inútil. No dia em que meu avô derrubou sua avó, Pancha García, nos matagais do rio, acrescentou outro degrau a uma cadeia de fatos que deveriam ser cumpridos. Depois, o neto da mulher violada repete o gesto com a neta do violador, e, dentro de 40 anos, talvez meu neto derrube a neta dele entre as matas do rio, e, assim, pelos séculos vindouros, numa história infindável de dor, sangue e amor...

... Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil, e o transcurso de uma vida, muito breve, e tudo acontece tão depressa, que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos atos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as três irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas... Por isso, minha avó Clara escrevia em seus cadernos para ver as coisas em sua dimensão real e driblar a sua péssima memória...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Um erro emocional


Tezza, Cristovão. Um erro emocional. Record. Rio de Janeiro/RJ; 2010; 191 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Cristovão Tezza é romancista e professor universitário. Nascido em Lages, Santa Catarina, ele mudou-se para Curitiba (PR) aos oito anos, sendo esta cidade palco de boa parte de sua literatura.
 
Dados da obra:

 O romance narra a história de amor entre uma revisora de textos, Beatriz, e um escritor, Antonio Donetti. Quando eles se conhecem, Donetti declara que cometeu um erro emocional ao se apaixonar por ela e pede que o ajude no novo romance que está escrevendo. Eles poucos falam ou conversam, mas passam e repassam suas vidas nas lembranças de cada um, desenvolvendo uma ligação forte.

Passagens:

Sombras escurecem o mundo sem ocupá-lo, são entidades inexpugnáveis, duplos deformados e perenes, vencidos apenas pela escuridão, de que fugimos.
 
Era preciso mesmo repetir o pai, o seu maldito modelo de referência: Não procure uma mulher semelhante a você, que trabalhe na mesma área. Num momento ela vai querer ser melhor que você. Os fundamentalistas têm razão para temerem profundamente as mulheres. O mundo se transformou numa máquina feminina porque as mulheres são melhores que os homens em tudo – metódicas, sistemáticas, aplicadas, obedientes, básicas, eficientes, sensíveis, atentas, objetivas, educadas, receptivas e atraentes. Nenhum homem consegue ser tudo isso ao mesmo tempo. O pai poderia ter acrescentado: E você nunca foi alguém forte. Você vai ser esmagado. Quando se der conta, não terá mais ar para respirar.
 
... Talvez dizer agora a Beatriz, nitidamente, para que ela não se engane sobre o que vê: não, eu não quero dar sentido ao mundo, eu não quero juntar pedaço de coisa nenhuma, o que eu quero é tirar o sentido do mundo, é justo o contrário, eu quero desmontar esse senso de ordem até a última rosca, mas também isso restava incoerente, o mero impulso irracional disfarçado de atitude ou de olhar crítico; um arrogante é, basicamente, um conservador, política e psicologicamente; cada coisa no seu lugar imutável, e o meu é lá em cima...
 
...Beatriz nunca teve propriamente apelido, apenas breves resumos, Bea, Bia – e gostava, criança pequena, da expressão por um triz, que sempre provocava risadas: Por um triz, Beatriz! Pequenos cromos de infância que precisavam ser protegidos a todo custo – a representação da infância feliz, por um triz, Beatriz!

Mas o seu pai era racista? – perguntou o analista, e ele custou a responder, não certamente não; ele apenas sentiria horror de apresentar essa questão à mesa como uma variável a ser pensada; a raça como refúgio, qualquer uma, é a desistência da condição humana que o Ocidente criou a duríssimas penas, mas isso sou eu que digo – meu pai não teria esse vocabulário – tinha pose e uma retórica de chavões, o clássico mulato pernóstico em que rutilavam os olhos verdes de sararás holandeses; quanto a mim, e Donetti continuava sorrindo, eu sou apenas escuro.
 
... a infância é um bom tempo não em si, poderia acrescentar, mas só quando vista de longe. Em si, é uma sucessão fragmentária de sentimentos fortíssimos sem ligação uns com os outros, e alguns deles apavorantes até o fim dos dias, cromos que se colam na memória para todo o sempre, com seu poder escravizante...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

1984


Orwell, George. 1984. Companhia das Letras. São Paulo/SP; 2009; 414 páginas.
 
Breve relato do autor:
George Orwell foi um escritor e jornalista inglês. Sua obra é marcada por uma inteligência perspicaz e bem-humorada, uma consciência profunda das injustiças sociais, uma intensa oposição ao totalitarismo e uma paixão pela clareza da escrita.
 
Dados da obra:
O personagem principal, Winston Smith vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. No controle, o Grande Irmão, personificação de um poder cínico e cruel ao infinito.
Passagens:
O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio não era o fato de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos, já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia circular pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a berrar, rostos deformados pela fúria.
 
Curiosamente, o anúncio das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Era um fantasma solitário afirmando uma verdade de que ninguém jamais ouvira falar. Só que, enquanto a afirmasse, de alguma maneira obscura a continuidade não se romperia. Não era fazendo-se ouvir, mas mantendo a sanidade mental que a pessoa transmitia sua herança humana. Voltou para a mesa, molhou a pena da caneta e escreveu:
Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós – a um tempo em que a verdade exista e em que o que foi feito não possa ser desfeito:
Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensamento – saudações!
 
Duplipensamento significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. O intelectual do partido sabe em que direção suas memórias precisam ser alteradas, em consequência, sabe que está manipulando a realidade; mas, graças ao exercício do duplipensamento, ele também se convence de que realidade não está sendo violada. O processo precisa ser consciente, do contrário não seria conduzido com a adequada precisão, mas também precisa ser inconsciente, do contrário traria consigo um sentimento de falsidade e, portanto, de culpa...
... Mesmo o nome dos quatro ministérios que nos governam exibem uma espécie de descaramento uma inversão deliberada dos fatos. O Ministério da Paz cuida dos assuntos de guerra; o Ministério da Verdade trata das mentiras; o Ministério do Amor pratica a tortura; e o Ministério da Pujança lida com a escassez de alimentos. Essas contradições não são acidentais e não resultam da mera hipocrisia: são exercícios deliberados de duplipensamento. Pois somente reconciliando contradições é possível exercer o poder de modo indefinido. É a única maneira de quebrar o antigo ciclo. Se quisermos evitar para sempre o advento da igualdade entre os homens – se quisermos que os Altos, como os chamamos, mantenham para sempre suas posições –, o estado mental predominante dever ser forçosamente, o da insanidade controlada.
 
Winston ficou pensando se ela seria uma lavadeira profissional ou simplesmente escrava de vinte ou trinta netos. Agora Julia estava a seu lado; juntos, olhavam com uma espécie de fascínio para a figura robusta lá embaixo. Ao observá-la em sua pose característica, braços grossos erguidos para alcançar ao varal, nádegas protuberantes lembrando as ancas de uma égua, Winston percebeu pela primeira vez que a mulher era bonita. Nunca lhe ocorrera que o corpo de uma mulher de cinquenta anos, de dimensões assustadoras devido à maternidade, um corpo que o trabalho tornara rijo e grosseiro e que acabara adquirindo a textura vulgar de um nabo maduro demais pudesse ser bonito. Mas assim era, e afinal de contas refletiu ele, por que não haveria de ser? Aquele corpo sólido, sem contornos, semelhante a um bloco de granito, e a pele vermelha e áspera, estavam para o corpo da garota como as bagas das roseiras bravas estavam para as rosas. Mas por que a fruta devia ser considerada inferior à flor?
A luz ficou mais clara e ele pôde ver os dois olhos olhando para ele. O guarda ria de suas contorções. Pelo menos uma das perguntas estava respondida. Nunca, por nenhuma razão neste mundo, seria possível desejar um acréscimo de dor. Quanto à dor, só era possível desejar uma coisa: que ela cessasse. Nada no mundo era tão ruim quanto a dor física. Diante da dor não há heróis, não há heróis, pensava uma e outra vez, contorcendo-se no chão e segurando inutilmente o braço inutilizado.
 
Você acha que a realidade é uma coisa objetiva, externa, algo que existe por conta própria. Também acredita que a natureza da realidade é autoevidente. Quando se deixa levar pela ilusão de que vê alguma coisa, supõe que todos os outros veem o mesmo que você. Mas eu lhe garanto Winston, a realidade não é externa. A realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar. Não na mente individual, que está sujeita a erros e que, de toda maneira, logo perece. A realidade existe apenas na mente do Partido, que é coletiva e imortal. Tudo o que o Partido reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a realidade se não for pelos olhos do Partido...
À vista do rosto rude e enrugado, tão feio e tão inteligente, seu coração parecia renovar-se. Caso pudesse mover-se, teria pousado a mão sobre o braço de O´Brien. Nunca o amou tão profundamente quanto naquele momento, e não apenas porque ele estancara a dor. Reavivara-se em seu íntimo o velho sentimento de que no fundo não importava se O´Brien era amigo ou inimigo. O´Brien era alguém com quem se podia conversar. Talvez fosse mais importante ser compreendido do que amado...
 
Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto de nós em matéria de métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer as próprias motivações. Diziam, e talvez até acreditassem, que tinham tomado o poder contra a vontade e por um tempo ilimitado. E que na primeira esquina da história surgiria um paraíso em que todos os seres humanos seriam livres e iguais. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas um fim. Não se estabelece uma ditadura para proteger uma revolução. Faz-se a revolução para instalar a ditadura. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder. Agora você está começando a me entender?
Em certo sentido (o livro) não lhe dizia nada de novo, o que era parte do fascínio. Dizia o que ele teria dito, se tivesse a capacidade de organizar seus pensamentos dispersos. Era o que produto de uma mente semelhante à dele, porém muitíssimo mais poderosa, mais sistemática, menos amedrontada. Os melhores livros, compreendeu, são aqueles que lhe dizem o que você já sabe.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A invenção de Hugo Cabret



Selznick, Brian. A invenção de Hugo Cabret. Edições SM; São Paulo / SP; 2009; 533 páginas.
Breve relato do autor:
Brian Selznick é um premiado autor norte-americano e ilustrador de livros infantis.
Dados da obra:
Hugo Cabret é um menino órfão que vive escondido na central de trem de Paris dos anos 1930. Esgueirando-se por passagens secretas, Hugo cuida dos gigantescos relógios do lugar. A sobrevivência dele depende do anonimato: Hugo tenta se manter invisível porque guarda um incrível segredo, que é posto em risco quando o severo dono da loja de brinquedos da estação e sua afilhada cruzam o caminho do garoto.
Um desenho enigmático, um caderno valioso, uma chave roubada e um homem mecânico estão no centro desta intrincada e imprevisível história, que, narrada por texto e imagens, mistura elementos dos quadrinhos e do cinema, oferecendo uma diferente e emocionante experiência de leitura.
Passagens:
O cineasta Georges Méliès começou sua carreira como mágico e possuía um teatro de mágicas em Paris. Essa ligação com a magia o ajudou a perceber imediatamente o potencial do novo suporte que era o cinema. Foi um dos primeiros a demonstrar que os filmes não tinham que refletir a vida real. Logo se deu conta de que o cinema tinha o poder de capturar sonhos. Méliès é amplamente reconhecido como o aperfeiçoador do truque da substituição, que tornava possível fazer as coisas aparecer e desaparecer na tela, como por magia. Isso mudou para sempre a cara do cinema.
 
 Leia em voz alta!
Isabelle leu as histórias para Hugo, e ele se lembrou de ter ouvido alguns dos mitos quando estava na escola. Ela leu sobre o monte Olimpo e sobre criaturas como a quimera e a fênix, e depois leu a história de Prometeu. Hugo ficou sabendo que Prometeu tinha feito os seres humanos com argila e que, em seguida, roubou o fogo dos deuses e deu de presente ao povo que criara, para que a humanidade pudesse sobreviver.
 
– Você já parou pra pensar que todas as máquinas são feitas por algum motivo? – ele perguntou a Isabelle.
– Elas são feitas pra fazer a gente rir, como esse ratinho, ou indicar a hora, como os relógios, ou pra maravilhar a gente, como o autômato. Deve ser por isso que qualquer máquina quebrada sempre me deixa meio triste, porque ela não pode cumprir o seu destino.
Isabelle pegou o ratinho, deu corda novamente e pôs de volta no balcão.
– Vai ver que com as pessoas é a mesma coisa – continuou Hugo. – Se você perder a sua motivação... é como se estivesse quebrado.
 
– Como é lindo! – exclamou Isabelle. – Parece que a cidade é toda feita de estrelas!
– Ás vezes eu venho aqui, de noite, mesmo quando não estou cuidando dos relógios, só pra olhar a cidade. Sabe, as máquinas nunca têm peças sobrando. Elas têm o número e o tipo exato de peças que precisam. Então, eu imagino que, se o mundo inteiro é uma grande máquina, eu devo estar aqui por algum motivo. E isso quer dizer que você, também, deve estar aqui por algum motivo.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Um homem: Klaus Klump


Tavares, Gonçalo M. Um homem.: Klaus Klump. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2007; 115 páginas.

Breve relato do autor:

Gonçalo M. Tavares é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.

Dados da obra:

É o primeiro livro da série “O Reino”, cujo tema central é o mal. É uma perturbadora alegoria sobre a vida em tempos de guerra e de paz, sobre a ditadura e a democracia. Klaus Klump é editor, mas se mantém neutro com relação à situação do país, até que Johana, sua amante, é violentada por um soldado. Ele então vira guerrilheiro e refugia-se na floresta com outros combatentes.
 
Passagens:
 
Com força arrancou do solo um cão. Não era uma pequena árvore, era um cão.
Os animais não resistem como o mundo botânico, nem como um chapéu. O chapéu voa com o vento, o cão não, a árvore nunca. Mas por vezes vem uma perturbação média e a natureza mostra um dos seus luxos: a maldade. Voa o chapéu, os cães, e ainda as árvores.
 
Se tu não fosses tão alto, não te teria visto por cima da sebe.
E Klaus dizia a Johana:
Se tu não fosse tão alto, a sebe seria mais baixa.
Klaus acreditava mais no destino do que Johana.
Porém nunca há duas mudanças no mundo para um único efeito. Se Klaus fosse mais baixo, isso constituiria uma mudança no mundo. Se a sebe fosse também mais baixa, seriam duas mudanças no mundo. Se existissem dois factos diferentes no passado então não poderia ter sucedido o mesmo. O destino tem uma lógica própria. São necessários cálculos complexos para perceber o que poderia ter acontecido em vez do que realmente aconteceu. Há demasiadas possibilidades para que aconteça sempre o mesmo. O mundo tem variedade e é longo. O mundo deveria ser um túnel, onde entravas de manhã e saías de noite. Sem ramificações. Uma canalização orientada, como existe nas casas.
 
Herói de guerra, citava frases de filósofos, e versos.
Tinha sido ferido várias vezes pelos elementos da resistência. Quando a ferida não atinge a memória é insignificante, dizia. Os homens lembravam-se de o ouvir na enfermaria, sempre que era atingido, a recitar poemas inteiros que sabia desde a infância. Resistia à dor exercitando a memória. Era o seu método. Não parar de pensar – se além de sair sangue do nosso corpo, deixarmos de pensar: morremos.
 
De repente Klaus viu o que parecia ser uma claridade intrusa na sua noite individual, mas não. Era um som. Era o som de Alof a tocar. No meio da massa negra. Terá música luz, perguntou-se Klaus. Não uma luz de eletricidade, não uma luz de máquina, mas uma luz orgânica: como certos animais que deitam luzinhas das ancas; os pirilampos, certos peixes: terá a música uma luz orgânica? É que a música de noite é mais nítida, toda a gente o percebe. Ou então as formas quando visíveis diminuem a nitidez da música. Uma competição entre formas sólidas e as formas aéreas do som.
 
... Não entendia as coisas naturais que o rodeavam e sabia que também não era entendido. E se em tempo de paz tinham sido os livros a barreira: porque atraído pela literatura tinha-se afastado dos sons a que chamava primitivos, esses sons que vêm do exterior e de longe, quando se abre a janela, se em tempo de paz haviam sido os livros, em tempo de guerra eram as máquinas, neste caso as pequenas máquinas que eram as armas, que o haviam afastado da natureza. Porque o barulho das balas das granadas: nada desses sons disformes tem sequer o mínimo de vestígio verbal: não é humano, claramente, esse som...
 
Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audição é praticamente desprezável. Porque agir é estar próximo das coisas e ouvir é estar afastado das coisas. Alguém que apenas ouve nunca será considerado um intruso no mundo, a Natureza não se sentirá ameaçada. Quem ouve poderá acumular conhecimentos, mas essa acumulação não lutará com a Natureza. Esta resiste bem à inteligência, ao raciocínio e à memória do Homem: todas estas qualidades intelectuais são assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que ameaça a Natureza são as acções: os momentos em que os humanos abandonam a audição, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o sentido do tacto: o único que pode alterar as coisas...
 
Certos índices para a paz. Os homens juntam-se menos, há menos grupos. É um facto: a solidão aumenta nas nações pacíficas. Aproximamo-nos dos outros para nos defendermos. Por egoísmo nos juntamos.
 
A boca é importante em tempo de guerra: as pessoas têm fome: em tempo de democracia os lábios mantêm a importância, mas agora são ocupados pelos discursos. A linguagem é mais utilizada em tempo de paz, sobre isso não há dúvida: em tempo de guerra não há conversas, apenas informações. Frases rápidas e curtas.