quarta-feira, 27 de março de 2013

O Aleph


Borges, Jorge Luis. O Aleph. Companhia das Letras. São Paulo/SP; 2008; 156 páginas.

Breve relato do autor:
 
Jorge Luis Borges foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.
 
Dados da obra:
 
O livro traz histórias curtas contendo, entre outros, o conto que dá nome ao livro. O escritor aborda vários pontos paradoxais como a imortalidade, a identidade, o duplo, a eternidade, o tempo, a soberba, a condição humana e suas crenças, com um alto grau de criatividade e escrita superior, com elevadíssimo grau cultural, submetendo o leitor a um intrincado labirinto de ideias e reflexões.
 
Passagens:
 
... Deixei o caminho ao arbítrio de meu cavalo. No alvorecer, o horizonte ficou enricado de pirâmides e torres. Sonhei, insuportavelmente, com um labirinto exíguo e nítido: no centro havia um cântaro; minhas mãos quase o tocavam, meus olhos o viam, mas tão intricadas e perplexas eram as curvas, que eu sabia que ia morrer antes de alcançá-lo.
 
... De início cautelosamente, depois com indiferença, enfim com desespero, errei por escadas e pavimentos do inextricável palácio. (Depois averiguei que eram inconstantes a extensão e a altura dos degraus, fato que me fez compreender o singular casaco que me deram.) “Este palácio é obra dos deuses”, pensei primeiro. Explorei os recintos desabitados e corrigi: “Os deuses que o construíram morreram”. Notei suas peculiares e disse: “Os deuses que o construíram estavam loucos”.
 
Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuir que nada é real...
 
... O ato de um só homem (afirmou) pesa mais que os nove céus concêntricos e imaginar que ele possa se perder e voltar é uma esplêndida frivolidade. O tempo não refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o pra a glória e também para o fogo...
 
... Um motivo notório me impede de relatar a luta. Basta lembrar que o desertor feriu de morte ou matou vários dos homens de Cruz. Este, enquanto combatia na escuridão, começou a compreender. Compreendeu que um destino não é melhor que outro, mas que todo homem deve acatar o que traz dentro de si. Compreendeu que as divisas e o uniforme o estorvavam. Compreendeu seu íntimo destino de lobo, não de cão gregário, compreendeu que o outro era ele. Amanhecia na planície desmensurada; Cruz jogou no chão o quepe, gritou que não ia consentir o crime de que matassem um valente e se pôs a lutar contra os soldados, junto do desertor Martin Fierro.
 
... Os fatos graves estão fora do tempo, seja porque neles o passado imediato fica truncado do futuro, seja porque as partes que os formam nãoparecem consecutivas.
 
... Modificar o passado não é modificar um fato só; é anular suas consequências, que tendem a ser infinitas...
 
... Morrer por uma religião é mais simples que vivê-la na plenitude; batalhar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um ato é menos que todas as horas de um home. A batalha e a glória são facilidades; mais árdua que a empreitada de Napoleão foi a de Raskolnikov...

... O Corão (disse) é um dos atributos de Deus, como Sua piedade; pode ser copiado num livro, pronunciado com a língua, recordado no coração, e o idioma e os signos e a escrita são obra dos homens, mas o Corão é irrevogável e eterno.
 
Unwin, cansado, interrompeu-o.
– Não multiplique os mistérios – disse-lhe. – Eles devem ser simples. Lembre-se da carta roubada de Poe, do quarto fechado de Zangwill.
– Ou complexos – replicou Dunraven. – Lembre-se do universo.
 
Dunraven, versado em obras policiais, pensou que a solução do mistério sempre é inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e até do divino; a solução, da prestidigitação...
 
... Naquela noite dormiu o rei, o valente, e ficou velando Said, o covarde. Dormir é distrair-se do universo, e a distração é difícil para quem sabe que o perseguem com espadas nuas...
 
... anos de solidão haviam lhe ensinado que os dias, na memória, tendem a ser iguais, mas que não há um só dia, nem sequer de prisão ou de hospital, que não traga surpresas...

quarta-feira, 13 de março de 2013

Reparação


McEwan, Ian. Reparação. Companhia das Letras. São Paulo/SP; 2002; 444 páginas.

Breve relato do autor:

Ian McEwan é um escritor britânico, chamado por vezes de “Ian Macabro”, devido à natureza das suas primeiras obras, e que de romance a romance se tem convertido em um dos mais conhecidos da sua geração.

Dados da obra:

Na tarde mais quente do verão de 1935, na Inglaterra, a adolescente Briony Tallis vê uma cena que vai atormentar a sua imaginação: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, tira a roupa e mergulha, apenas de calcinha e sutiã, na fonte do quintal da casa de campo. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a menina, que nutre a ambição de ser escritora, constrói uma história fantasiosa sobre uma cena que presencia. Comete um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família e passa o resto de sua existência tentando desfazer o mal que causou.

Passagens:

Uma história era algo direto e simples, que não permitia que nada se intrometesse entre ela e seu leitor – nenhum intermediário incompetente e cheio de ambições próprias, nenhuma pressão do tempo, nenhuma limitação de recursos. Na história era só querer, era só escrever e ter um mundo inteiro, numa peça era necessário utilizar o que estava disponível: não havia cavalos, não havia ruas, não havia mar. Não havia cortina...”.

Não eram só o mal e as tramoias que tornavam as pessoas infelizes; era a confusão, eram os mal-entendidos; acima de tudo, era a incapacidade de apreender a verdade simples de que as outras pessoas são tão reais quanto nós. E somente numa história seria possível incluir essas três mentes diferentes e mostrar como elas tinham o mesmo valor. Essa era a única moral que uma história precisava ter.

A excitação que ele sentia assemelhava-se a dor e era exacerbada pela pressão das contradições: Cecília era familiar como uma irmã, exótica como uma amante; ele sempre a conhecera, ele não sabia nada sobre ela; ela era feia, ela era bela; era forte – com que facilidade se defendera do irmão – e, vinte minutos antes, havia chorado; a carta idiota de Robbie a repugnara, porém tivera o efeito de libertá-la. Ele lamentava seu erro, ele exultava por tê-lo cometido...

Os gêmeos não corriam perigo; Cecília estava com Leon, e ela, Briony, tinha liberdade de andar pelo parque escuro e pensar sobre o dia extraordinário que tivera. Sua infância chegara ao fim – decidiu enquanto voltava da piscina, no momento em que rasgou o cartaz. Havia deixado para trás os contos de fadas, e no intervalo de umas poucas horas havia testemunhado mistérios, lido uma palavra indizível, interrompido uma brutalidade e, tornando-se alvo do ódio de um homem em quem todos até então confiavam, passara a participar do drama da vida adulta...

Estavam se aproximando das últimas casas da vila. Num campo mais adiante, Turner viu um homem e seu collie caminhando atrás de um arado puxado por um cavalo. Tal como as mulheres na sapataria, o fazendeiro parecia não se dar conta da presença da coluna. Essas vidas eram vividas em paralelo – a guerra era um hobby para entusiastas, e nem por isso deixava de ser uma coisa séria. Tal como, no momento mais intenso de uma caçada, quando os cães se preparavam para lançar-se sobre a presa, do outro lado da sebe passa um automóvel no qual, no banco de trás, uma mulher faz tricô, e no jardim de uma casa nova um homem ensina o filho a chutar a bola. O fazendeiro continuaria a arar o campo, depois haveria alguém para fazer a colheita, alguém para processar o trigo no moinho, outras pessoas comeriam o pão, e nem todo mundo estaria morto...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A morte de Ivan Ilitch


Tolstói, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Editora 34. São Paulo/SP; 2006; 96 páginas.
 
Breve relato do autor:
  
Lev Tolstói foi um escritor russo, conhecido também por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e ideias contrastavam com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. Junto a Dostoiévski, Turgueniev, Gorki e Tchecov, Tolstói foi um dos grandes mestres da literatura russa do século XIX.

Dados da obra:
 
 É um romance publicado pela primeira vez em 1886. Trata-se sobre a morte do juiz Ivan Ilitch, sua vida antes e durante. Segundo Paulo Rónai, muitos críticos consideram-na como "a novela mais perfeita da literatura mundial; a agonia de um burocrata insignificante serve de pretexto ao autor para nos contar uma história que diz respeito ao destino de cada um de nós e que é impossível ler sem um frêmito de angústia e de purificação".
 
Passagens:
 
Piotr Ivânovitch sabia que, assim como antes fora necessário fazer o sinal da cruz, agora era preciso apertar aquela mão, suspirar e dizer: “Creia-me!”. E foi o que fez. E, depois de fazê-lo, sentiu que obtivera o efeito desejado: ambos ficaram comovidos.
  
Morria aos quarenta e cinco anos, juiz do Foro Criminal. Era filho de um funcionário, que fizera em Petersburgo, em diferentes ministérios e departamentos, aquele tipo de carreira que leva as pessoas a uma situação da qual elas, por mais evidente que seja a sua incapacidade para qualquer função de efetiva importância, não podem ser expulsas, em virtude dos muitos anos de serviço e dos postos alcançados, por este motivo, recebem cargos inventados, fictícios, e uns não fictícios milhares de rublos, de seis a dez, com que vivem até a idade provecta.
  
... Ivan Ilitch jamais abusou desta sua autoridade e, pelo contrário, procurava atenuar a sua manifestação; mas a consciência dessa autoridade e a possibilidade de atenuá-la constituíam para ele o interesse principal e a atração do seu novo encargo...
  
Na realidade, havia ali o mesmo que há em casa de todas as pessoas não muito ricas, mas que desejam parecê-lo e por isto apenas se parecem entre si: damascos, pau-preto, flores, tapetes e bronzes, matizes escuros e brilhantes; enfim, aquilo que todas as pessoas de determinado tipo fazem para se parecer com todas as pessoas de determinado tipo. E em casa dele, a semelhanças era tamanha que não se chegava mesmo a percebê-lo, mas tudo isso parecia-lhe algo peculiar...
  
“Eu não existirei mais, o que existirá então?
Não existirá nada. Onde estarei então, quando não existir mais? Será realmente a morte?
Não, não quero.”... “Para quê? Tanto faz – disse a si mesmo, perscrutando a treva, os olhos abertos. – A morte. Sim, a morte. E nenhum deles sabe nem quer saber, e nem lamenta isso. Ocupam-se de música. (Ouvia, atrás da porta, distantes, o retumbar de uma voz, acompanhado de ritornelos). Para eles, tanto faz, mas também eles hão de morrer. Bobalhões. Eu vou primeiro, eles depois, hão de passar pelo mesmo que eu. E, no entanto, estão alegres. Animais!”. Sufocava de raiva. Teve uma sensação penosa, torturante, intolerável. Não podia ser verdade que todos estivessem condenados para sempre a este medo terrível. Levantou-se.”
 
A partir de então, Ivan Ilitch chamava às vezes Guerássim, fazendo-o segurar os seus pés sobre os ombros, e gostava de conversar com ele. Guerássim fazia isto com leveza, de bom grado, com simplicidade e uma bondade que deixava Ivan Ilitch comovido. A saúde, a força, a vitalidade de todas as demais pessoas ofendiam Ivan Ilitch; somente a força e a vitalidade de Guerássim não o entristeciam, e sim acalmavam-no.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

eles eram muitos cavalos


Ruffato, Luiz. eles eram muitos cavalos. Boitempo Editorial. São Paulo/SP; 2001; 150 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Luiz Ruffato é um escritor brasileiro que ganhou os prêmios APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional com o romance eles eram muitos cavalos.
 
Dados da obra:
 
Primeiro romance do autor foi publicado em 2001. Toda a ação do livro se passa num só dia, 9 de maio de 2000. Por meio de fragmentos, flashes, poemas, receitas, bulas, listas, o autor faz um recorte aéreo da cidade de São Paulo. Cenas de amor, ódio, violência, paixão, fé, esperança, tristeza, enfim, todo o caos da cidade está presente no livro.
 
Passagens:
 
“Eles eram muitos cavalos,
mas ninguém mais sabe os seus nomes,
sua pelagem, sua origem...” – Cecília Meireles
 
A vizinhança espreguiça-se
                    uma discussão, logo abortada
                    uma porta que se fecha
                    um rádio ligado
                    cachorros que latem
                    a porta de aço descerrada da padaria
                    passos rápidos na calçada
                    um bebê que esgoela
                    uma sirene, longe “Polícia?”
          o ônibus encosta, os passageiros apressam-se, arranca
          e eu decidi que não quero mais essa vida pra mim não não quero.
 
...Toma o ônibus até a estação Saúde do metrô, baldeia na Sé para a estação República. Da escada-rolante emerge, o Edifício Itália funda-se nos seus ombros, a fumaça de carros e caminhões tachos de acarajés coxinhas quibes pastéis, vozes atropelam-se, amalgamam-se, aniquilam-se, em bancas revistas, jornais, livros usados, pulseiras brincos colares gargantilhas anéis, lã em gorros ponches blusas mantas xales, pontos de ônibus lotados, trombadinhas, engraxates, carrinhos de pipoca, doces caseiros, vagabundos, espalhados caídos arrastando-se bêbados mendigos meninos drogados aleijados.
 
 ...virou assim um dia, deu horário, a filha de onze anos não chegou da escola, o rosto esbaforido na cozinha, mãe!, a noite, a madrugada, a colcha o lençol engomado, dia seguinte também não, nem no outro, nada nada nada e humilhou-se delegacias de polícia hospitais febens pronto-socroros IMLs perambulou o trajeto casa-escola-escola-casa questionadeira porta em porta pista indícios intuições...
 
No minúsculo cômodo cheirando a doença expõem-se: sobre a mesinha de cabeceira um abajur de cúpula azul, o retrato de um bebê holocáustico, um copo americano vazio, cartelas de remédio; os brancos braços magros de um cristo de gesso contrastam com a verdescura parede úmida, um frágil guarda-roupa de compensado; um tapete de barbante espichado no chão de tacos banguela. E, sob rústicos lençóis de saco-de-estopa, abandonada, esqueleto estufando a pele cinzenta, rija, ela.
 
 Suspirosa, Idalina na pele cinza do rosto macilento o algodão desliza a base espalha o creme aviva o pó compacto o blush os olhos sombreia de azul batom vermelho delineador lápis rímel
Aos poucos a amiga, tão vaidosa, abduz dos doze anos a alegre menina que sonhava casar e ser médica “para ajudar os semelhantes.”
 
 ... Desci do norte de pau-de-arara. Se o senhor soubesse o que era aquilo... Um caminhão velho, lonado, umas tábuas atravessadas na carroceria, servindo de assento, a matula no bornal, rapadura e farinha, dias e dias de viagem, meu deus do céu! Mas posso reclamar não. São Paulo, uma mãe pra mim. Logo que cheguei arrumei serviço, fui trabalhar de faxineiro numa autopeças em Santo André. Depois fui subindo de vida, porque aqui antigamente era assim, quem gostasse de trabalhar tinha tudo, ao contrário de hoje, que até dá pena, não tem emprego pra ninguém...
 
A adolescente rente ao corredor
madorna desordenados fascículos de cursinho pré-vestibular derramam-se pelos braços vez em vez escorrega para os lados da velha que sobressaltada se desculpa
(ajeita-se ainda mais para o canto)
Tenta impossíveis olhos abertos acorda cedo meio expediente no balcão de uma agência de viagens o cursinho fim de tarde volta hora e meia de ônibus a mãe pergunta minha filha tanto sacrifício vale a pena?
E migalhas de seus sonhos esparramam-se sobre os ombros da velha.
 
 – Tarcísio... você lembra do assalto?, daquele assalto lá em casa? Pois então: um era esse, cara... Um era esse! E eu não vou salvar ele não, cara, não vou mesmo! Não vou mexer uma palha pra salvar ele... Ele quase fodeu minha vida, cara, quase fodeu... Eu não vou operar ele não, estão me ouvindo? Não vou operar ele não! Se vocês quiserem, chamem outro, me denunciem pro CRM, façam o que vocês quiserem, não estou nem aí, eu não estou nem aí, estão me entendendo?, nem aí!
E desapareceu por detrás do vidro da sala de cirurgia.
O silêncio encalavou-se no anestesista.
Os olhos da instrumentadora hipnotizados pelas horas na parede.
O residente monitora os impulsos do coração do paciente agora respiração convulsa.
 
... As poesias foram escritas não pra ficar sepultadas nas páginas dos livros, mas pra se tornarem parte da nossa memória coletiva... Eu avivo todo o meu conhecimento de moleque míope que ficava em casa lendo, enquanto a molecada ia pro campinho jogar futebol...
 
Instalei-me num quarto, você se lembra?
Sexta-feira à noite, Hotel Amazonas, Ave
nida Vieira de Carvalho, lá embaixo, barulho
um restaurante italiano,
outro, comida rápida árabe,
carros,
ônibus,
lá embaixo,
nas ruas transversais,
eu sabia das prostitutas,
           dos meninos fumando crack,
          dos assaltantezinhos pé-de-chinelo,
eu sabia da noite
e deitei, mas não era alívio que sentia,
nem remorso, era não sei o quê, saudade,
talvez,
ia sentir falta das crianças, pijamas amontoados correndo, suados, na sala minúscula do apartamento ridiculamente pequeno em que morávamos e que você vivia implicando, dizendo que tínhamos de sair dali,
          tínhamos de sair dali,
                    sair dali,...
 
Não gosta de recordações. Anda pelas ruas como em um labirinto. Em todas surpreende-se, é surpreendido. Que adiantam as lembranças? Tempos... Espaços... Nada... A memória não reconstrói o passado... reaviva dores... apenas... O que fizemos... O que não...
 
Quando conheceu o futuro marido, num cult9o dominical na Casa da Benção, não escondia qualquer ilusão, uma moça velha de felicidades lasseada. E assim foi, a festa de casamento, a desmudança – estranhou: o mesmo espaço de sempre não era o mesmo espaço de sempre, mas pouco ocupou disso suas horas, o engravidamento, para honra e glória do Senhor, atropelou-a e o vômito e as tonteiras e as pernas inchadas e a rabugice e a tristeza e a alegria varreram suas preocupações...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A casa dos espíritos



Allende, Isabel. A Casa dos Espíritos. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro/RJ; 2010; 448 páginas.
Breve relato da autora:
 
Isabel Allende é uma jornalista e escritora chilena. Apesar de ter nascido em Lima, no Peru, sua família voltou logo para ao Chile, sua terra natal. Atualmente vive nos Estados Unidos.

Dados da obra:
 
Relata a vida de Esteban Trueba, família e descendentes legítimos e ilegítimos, por todo o século XX, no Chile, acompanhando sua evolução social e política. A escritora se baseou na história de sua família, misturando realidade com ficção. Três personagens femininas se destacam: Clara, a “clarividente”, sua filha Blanca e a neta Alba.

Passagens:

Esteban Trueba recostou-se no banco forrado de veludo vermelho e agradeceu a iniciativa dos ingleses de construir carruagens de primeira classe, onde se podia viajar como um cavalheiro sem ter que suportar as galinhas, as canastras, os pacotes de papelão amarrados com barbante e o choramingar de crianças. Felicitou-se pela decisão de comprar uma passagem mais cara, pela primeira vez na vida, e concluiu que era nos detalhes que estava a diferença entre um cavalheiro e um camponês. Por isso, embora em má situação, desse dia em diante iria gastar dinheiro nas pequenas comodidades que o faziam sentir-se rico.

... Pancha García não se defendeu, não se queixou, não fechou os olhos. Ficou de costas, fixando o céu com uma expressão apavorada, até sentir o homem desabar com um gemido a seu lado. Então começou a chorar suavemente. Antes dela, sua mãe e, antes de sua mãe, sua avó tinham cumprido o mesmo destino de cadela...

Férula sobressaltou-se, perguntando-se se seriam certos os boatos sobre a habilidade de Clara para ler o pensamento alheio. Sua primeira reação foi de orgulho e teria recusado a oferta apenas pela beleza do gesto, mas Clara não lhe deu tempo. Inclinou-se e beijou-a na face com tanta candura, que Férula perdeu o controle e começou a chorar. Fazia muito tempo que não derramava uma lágrima e comprovou, assombrada, quanta falta lhe fazia um gesto de ternura. Não se lembrava da última vez que alguém a havia tocado espontaneamente. Chorou longo tempo, libertando-se de muitas tristezas e solidões passadas, da mão de Clara, que a ajudava a assoar-se e entre dois soluços lhe dava mais pedaços de bolo e goles de chá. Ficaram chorando e falando até as oito horas da noite e nessa tarde no Hotel Francês selaram um pacto de amizade que durou muitos anos.

Clara recompôs-se do duplo parto com rapidez. Entregou a criação dos meninos a sua cunhada e à Nana, que, depois da morte dos antigos patrões, se empregou na casa dos Trueba, para continuar servindo o mesmo sangue, com dizia. Nascera para embalar filhos alheios, usar roupa que os outros dispensavam, comer suas sobras, viver de sentimentos e tristezas emprestados, envelhecer sob teto alheio, morrer um dia em seu cubículo do último pátio, em cama que não era sua, e ser enterrada na vala comum do Cemitério Central.

Um dia Pedro García, o velho, contou a Blanca e a Pedro Terceiro a história das galinhas que se puseram de acordo para enfrentar um raposo que todas as noites entrava no galinheiro para roubar os ovos e devorar os pintinhos. As galinhas decidiram que já estavam fartas de aguentar a prepotência do raposo, esperaram-no organizadas e, quando ele entrou no galinheiro, fecharam-lhe em cima a bicadas até deixá-lo mais morto do que vivo.
– E, então, o raposo fugiu com o rabo entre as pernas, perseguido pelas galinhas – terminou o velho.
Blanca riu com a história e comentou que isso era impossível, porque as galinhas nascem estúpidas e débeis, e os raposos nascem astutos e fortes, mas Pedro Terceiro não riu. Ficou toda a tarde pensativo, ruminando a história do raposo e das galinhas, e talvez tenha sido esse o instante em que o menino começou a fazer-se homem.

Durante a viagem de trem, Clara atualizou sua filha sobre as novidades da família e a saúde de seu pai, esperando que Blanca lhe fizesse a única pergunta que sabia que ela desejava fazer, mas Blanca não mencionou Pedro Terceiro, e Clara não se atrevia a fazê-lo. Acreditava que, ao nomear os problemas, eles se materializavam e já não era possível ignorá-los; por outro lado, se ficam no limbo das palavras não ditas, podem desaparecer sozinhos, com o decorrer do tempo...

– Pedro Terceiro García não fez nada que você mesmo não tenha feito – disse Clara, quando pôde interrompê-lo. – Você também se deitou com mulheres solteiras que não são da sua classe. A diferença é que ele o fez por amor. E Blanca também.

Era a única pessoa de toda a casa que tinha uma chave para entrar no túnel de livros de seu tio e autorização para pegá-los e lê-los. Blanca acreditava que deveriam dosar a leitura, porque havia coisas que não eram adequadas à sua idade, mas seu tio Jaime afirmara que só se lê o que interessa, e se interessa, é porque já se tem maturidade para fazê-lo...

– Tal como no momento de vir ao mundo, ao morrer temos medo do desconhecido. Mas o medo é algo interior, que nada tem a ver com a realidade. Morrer é como nascer: apenas uma mudança – tinha-lhe dito Clara.

Blanca preferia aqueles furtivos encontros com seu amante em hospedarias à rotina de uma vida em comum, ao cansaço de um casamento e ao pesadelo de envelhecer juntos, compartilhando as penúrias do final do mês, o mau hálito da boca ao acordar, o tédio dos domingos e os achaques da idade. Era uma romântica incurável.

O país encheu-se de fardas, máquinas bélicas, bandeiras, hinos e desfiles, porque os militares conheciam a necessidade de o povo ter seus próprios símbolos e ritos. O senador Trueba que, por princípio, detestava essas coisas, compreendeu o que os amigos do clube tinham querido dizer quando lhe haviam assegurado que o marxismo não tinha a menor oportunidade na América Latina, porque não contemplava o lado mágico das coisas. “Pão, circo e algo para venerar é tudo de que necessitam”, concluiu o senador, lamentando no seu íntimo que faltasse o pão.

As pessoas caminhavam em silêncio. Subitamente, alguém gritou, rouco, o nome do Poeta e uma só voz, saída de todas as gargantas, respondeu: “Presente! Agora e sempre!”. Foi como se tivessem aberto uma válvula, e toda a dor, o medo e a raiva daqueles dias saíssem dos peitos e rodassem pela rua, e subissem num terrível clamor até as nuvens negras do céu. Outro gritou: “Companheiro presidente!”. Pouco a pouco, o funeral do Poeta transformou-se no ato simbólico de enterrar a liberdade.

Ficamos conversando o resto da noite. Era uma daquelas mulheres estoicas e práticas de nosso país, que têm um filho de cada homem que passa por suas vidas e que, além disso, recolhem em seu lar as crianças que outros abandonam, os parentes mais pobres e qualquer pessoa que necessite de uma mãe, uma irmã, uma tia, mulheres que são o pilar central de muitas vidas alheias, que criam filhos para vê-los ir embora depois e que também veem seus homens partirem, sem se permitir um queixume, porque têm outras urgências maiores com que se ocupar.

... Agora, porém, duvido de meu ódio. Em poucas semanas, desde que estou nesta casa, parece ter-se diluído, ter perdido seus nítidos contornos. Desconfio de que tudo que aconteceu não seja fortuito, mas que corresponda a um destino traçado antes de meu nascimento e que Esteban García seja parte desse desenho. É um traço rude e torcido, mas nenhuma pincelada é inútil. No dia em que meu avô derrubou sua avó, Pancha García, nos matagais do rio, acrescentou outro degrau a uma cadeia de fatos que deveriam ser cumpridos. Depois, o neto da mulher violada repete o gesto com a neta do violador, e, dentro de 40 anos, talvez meu neto derrube a neta dele entre as matas do rio, e, assim, pelos séculos vindouros, numa história infindável de dor, sangue e amor...

... Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil, e o transcurso de uma vida, muito breve, e tudo acontece tão depressa, que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos atos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente, como diziam as três irmãs Mora, que eram capazes de ver no espaço os espíritos de todas as épocas... Por isso, minha avó Clara escrevia em seus cadernos para ver as coisas em sua dimensão real e driblar a sua péssima memória...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Um erro emocional


Tezza, Cristovão. Um erro emocional. Record. Rio de Janeiro/RJ; 2010; 191 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Cristovão Tezza é romancista e professor universitário. Nascido em Lages, Santa Catarina, ele mudou-se para Curitiba (PR) aos oito anos, sendo esta cidade palco de boa parte de sua literatura.
 
Dados da obra:

 O romance narra a história de amor entre uma revisora de textos, Beatriz, e um escritor, Antonio Donetti. Quando eles se conhecem, Donetti declara que cometeu um erro emocional ao se apaixonar por ela e pede que o ajude no novo romance que está escrevendo. Eles poucos falam ou conversam, mas passam e repassam suas vidas nas lembranças de cada um, desenvolvendo uma ligação forte.

Passagens:

Sombras escurecem o mundo sem ocupá-lo, são entidades inexpugnáveis, duplos deformados e perenes, vencidos apenas pela escuridão, de que fugimos.
 
Era preciso mesmo repetir o pai, o seu maldito modelo de referência: Não procure uma mulher semelhante a você, que trabalhe na mesma área. Num momento ela vai querer ser melhor que você. Os fundamentalistas têm razão para temerem profundamente as mulheres. O mundo se transformou numa máquina feminina porque as mulheres são melhores que os homens em tudo – metódicas, sistemáticas, aplicadas, obedientes, básicas, eficientes, sensíveis, atentas, objetivas, educadas, receptivas e atraentes. Nenhum homem consegue ser tudo isso ao mesmo tempo. O pai poderia ter acrescentado: E você nunca foi alguém forte. Você vai ser esmagado. Quando se der conta, não terá mais ar para respirar.
 
... Talvez dizer agora a Beatriz, nitidamente, para que ela não se engane sobre o que vê: não, eu não quero dar sentido ao mundo, eu não quero juntar pedaço de coisa nenhuma, o que eu quero é tirar o sentido do mundo, é justo o contrário, eu quero desmontar esse senso de ordem até a última rosca, mas também isso restava incoerente, o mero impulso irracional disfarçado de atitude ou de olhar crítico; um arrogante é, basicamente, um conservador, política e psicologicamente; cada coisa no seu lugar imutável, e o meu é lá em cima...
 
...Beatriz nunca teve propriamente apelido, apenas breves resumos, Bea, Bia – e gostava, criança pequena, da expressão por um triz, que sempre provocava risadas: Por um triz, Beatriz! Pequenos cromos de infância que precisavam ser protegidos a todo custo – a representação da infância feliz, por um triz, Beatriz!

Mas o seu pai era racista? – perguntou o analista, e ele custou a responder, não certamente não; ele apenas sentiria horror de apresentar essa questão à mesa como uma variável a ser pensada; a raça como refúgio, qualquer uma, é a desistência da condição humana que o Ocidente criou a duríssimas penas, mas isso sou eu que digo – meu pai não teria esse vocabulário – tinha pose e uma retórica de chavões, o clássico mulato pernóstico em que rutilavam os olhos verdes de sararás holandeses; quanto a mim, e Donetti continuava sorrindo, eu sou apenas escuro.
 
... a infância é um bom tempo não em si, poderia acrescentar, mas só quando vista de longe. Em si, é uma sucessão fragmentária de sentimentos fortíssimos sem ligação uns com os outros, e alguns deles apavorantes até o fim dos dias, cromos que se colam na memória para todo o sempre, com seu poder escravizante...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

1984


Orwell, George. 1984. Companhia das Letras. São Paulo/SP; 2009; 414 páginas.
 
Breve relato do autor:
George Orwell foi um escritor e jornalista inglês. Sua obra é marcada por uma inteligência perspicaz e bem-humorada, uma consciência profunda das injustiças sociais, uma intensa oposição ao totalitarismo e uma paixão pela clareza da escrita.
 
Dados da obra:
O personagem principal, Winston Smith vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. No controle, o Grande Irmão, personificação de um poder cínico e cruel ao infinito.
Passagens:
O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio não era o fato de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos, já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia circular pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a berrar, rostos deformados pela fúria.
 
Curiosamente, o anúncio das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Era um fantasma solitário afirmando uma verdade de que ninguém jamais ouvira falar. Só que, enquanto a afirmasse, de alguma maneira obscura a continuidade não se romperia. Não era fazendo-se ouvir, mas mantendo a sanidade mental que a pessoa transmitia sua herança humana. Voltou para a mesa, molhou a pena da caneta e escreveu:
Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós – a um tempo em que a verdade exista e em que o que foi feito não possa ser desfeito:
Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensamento – saudações!
 
Duplipensamento significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. O intelectual do partido sabe em que direção suas memórias precisam ser alteradas, em consequência, sabe que está manipulando a realidade; mas, graças ao exercício do duplipensamento, ele também se convence de que realidade não está sendo violada. O processo precisa ser consciente, do contrário não seria conduzido com a adequada precisão, mas também precisa ser inconsciente, do contrário traria consigo um sentimento de falsidade e, portanto, de culpa...
... Mesmo o nome dos quatro ministérios que nos governam exibem uma espécie de descaramento uma inversão deliberada dos fatos. O Ministério da Paz cuida dos assuntos de guerra; o Ministério da Verdade trata das mentiras; o Ministério do Amor pratica a tortura; e o Ministério da Pujança lida com a escassez de alimentos. Essas contradições não são acidentais e não resultam da mera hipocrisia: são exercícios deliberados de duplipensamento. Pois somente reconciliando contradições é possível exercer o poder de modo indefinido. É a única maneira de quebrar o antigo ciclo. Se quisermos evitar para sempre o advento da igualdade entre os homens – se quisermos que os Altos, como os chamamos, mantenham para sempre suas posições –, o estado mental predominante dever ser forçosamente, o da insanidade controlada.
 
Winston ficou pensando se ela seria uma lavadeira profissional ou simplesmente escrava de vinte ou trinta netos. Agora Julia estava a seu lado; juntos, olhavam com uma espécie de fascínio para a figura robusta lá embaixo. Ao observá-la em sua pose característica, braços grossos erguidos para alcançar ao varal, nádegas protuberantes lembrando as ancas de uma égua, Winston percebeu pela primeira vez que a mulher era bonita. Nunca lhe ocorrera que o corpo de uma mulher de cinquenta anos, de dimensões assustadoras devido à maternidade, um corpo que o trabalho tornara rijo e grosseiro e que acabara adquirindo a textura vulgar de um nabo maduro demais pudesse ser bonito. Mas assim era, e afinal de contas refletiu ele, por que não haveria de ser? Aquele corpo sólido, sem contornos, semelhante a um bloco de granito, e a pele vermelha e áspera, estavam para o corpo da garota como as bagas das roseiras bravas estavam para as rosas. Mas por que a fruta devia ser considerada inferior à flor?
A luz ficou mais clara e ele pôde ver os dois olhos olhando para ele. O guarda ria de suas contorções. Pelo menos uma das perguntas estava respondida. Nunca, por nenhuma razão neste mundo, seria possível desejar um acréscimo de dor. Quanto à dor, só era possível desejar uma coisa: que ela cessasse. Nada no mundo era tão ruim quanto a dor física. Diante da dor não há heróis, não há heróis, pensava uma e outra vez, contorcendo-se no chão e segurando inutilmente o braço inutilizado.
 
Você acha que a realidade é uma coisa objetiva, externa, algo que existe por conta própria. Também acredita que a natureza da realidade é autoevidente. Quando se deixa levar pela ilusão de que vê alguma coisa, supõe que todos os outros veem o mesmo que você. Mas eu lhe garanto Winston, a realidade não é externa. A realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar. Não na mente individual, que está sujeita a erros e que, de toda maneira, logo perece. A realidade existe apenas na mente do Partido, que é coletiva e imortal. Tudo o que o Partido reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a realidade se não for pelos olhos do Partido...
À vista do rosto rude e enrugado, tão feio e tão inteligente, seu coração parecia renovar-se. Caso pudesse mover-se, teria pousado a mão sobre o braço de O´Brien. Nunca o amou tão profundamente quanto naquele momento, e não apenas porque ele estancara a dor. Reavivara-se em seu íntimo o velho sentimento de que no fundo não importava se O´Brien era amigo ou inimigo. O´Brien era alguém com quem se podia conversar. Talvez fosse mais importante ser compreendido do que amado...
 
Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto de nós em matéria de métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer as próprias motivações. Diziam, e talvez até acreditassem, que tinham tomado o poder contra a vontade e por um tempo ilimitado. E que na primeira esquina da história surgiria um paraíso em que todos os seres humanos seriam livres e iguais. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas um fim. Não se estabelece uma ditadura para proteger uma revolução. Faz-se a revolução para instalar a ditadura. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder. Agora você está começando a me entender?
Em certo sentido (o livro) não lhe dizia nada de novo, o que era parte do fascínio. Dizia o que ele teria dito, se tivesse a capacidade de organizar seus pensamentos dispersos. Era o que produto de uma mente semelhante à dele, porém muitíssimo mais poderosa, mais sistemática, menos amedrontada. Os melhores livros, compreendeu, são aqueles que lhe dizem o que você já sabe.