quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Carta ao pai

Kafka, Franz. Carta ao Pai. Editora Martin Claret. São Paulo / SP; 2012; 112 páginas.

Breve relato do autor:
 
Franz Kafka foi um dos maiores escritores de ficção do século XX. De origem judaica, ele nasceu em Praga, Áustria-Hungria (atual República Checa), e escrevia em língua alemã. O conjunto de seus textos – na maioria incompletos e publicados postumamente – situa-se entre os mais influentes da literatura ocidental.

Dados da obra:
 
Publicado postumamente, Carta ao Pai é uma carta que Kafka escreveu para seu pai e que nunca chegou a ser enviada. Foi escrita em 1919 e revisada diversas vezes antes da morte do autor; nela, discorre sobre a relação conturbada com o pai, um comerciante judeu, autoritário e de personalidade forte, que sempre impôs aos filhos sua visão de mundo e que despertava em Kafka um conjunto de emoções conflitantes, do ódio pungente à mais profunda admiração.
 
Passagens:
 
“Querido pai:
Perguntaste-me certa vez porque motivo eu afirmava que te temia. Como de hábito, não soube o que te responder, em parte exatamente pelo temor que me infundes, e em parte porque os pormenores que contribuem para o fundamento desse temor são em demasia para que os possa manter reunidos, nem mesmo pela metade, durante a palestra. E mesmo essa tentativa de responder-te por escrito ficará inconclusa, porque, também ao escrever, o temor e os seus efeitos inibem-me diante de ti, e a magnitude do tema está além de minha memória e compreensão...”
 
Com mais acerto dirigias tua antipatia contra o fato de eu escrever e tudo quanto, desconhecido para ti, se relacionava com essa atividade. Nela realmente, me tinha eu tornado independente e afastado parcialmente de ti, mesmo quando a situação fazia lembrar um verme que, amassado com o pé em sua parte traseira, parte com a anterior e se arrasta para um lado. Sentia-me de certo modo seguro, podia respirar, a aversão que logicamente sentias contra meus escritos me era extremamente grata...

Voo em português

Von, Cristina. Voo em Português. Instituto Callis. São Paulo / SP; 2012; 184 páginas.

Breve relato da autora:
 
Cristina Von é formada em Publicidade e Propaganda na Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP e durante anos trabalhou como designer gráfica. Aos 35 anos escreveu seus primeiros livros infantis. Depois disso não parou mais. Já publicou mais de 40 livros, entre livros adultos e infanto-juvenis.
 
Dados da obra:
 
O livro conta a história de Miguel, um jovem simpático e sonhador, que mora em Bragança Paulista, no estado de São Paulo, e se divide entre a paixão pela terra e pelo ar. Assim, se forma em veterinária e aprende a pilotar avião. No aeroclube da cidade, sua imaginação alça um grande voo: comprar um avião para fazer uma viagem por todos os lugares onde o português é falado. Seu sonho se torna realidade e ele consegue adquirir um avião, o "Corisco”, partindo assim em sua viagem.
 
Passagens:
 
Vocês pensam que a língua portuguesa é usada somente no Brasil e em Portugal? Pois saibam que ela é um dos idiomas mais falados do mundo! É a língua oficial em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e em lugares como Macau, Damião e Diu e Goa.
– Goa? Onde fica isso? – perguntou Juarez.
– Na Índia!
 
Em Macau, Camões continuou os seus escritos, vivendo em uma gruta. Dizem que o escritor naufragou na foz do rio Mekong e que, entre salvar a sua companheira chinesa, Dinamene, celebrada em sonetos, preferiu salva os manuscritos de Os Lusíadas...
– E sua amada morreu? – perguntou Miguel perplexo.
– Faleceu. Em benefício da língua português, diga-se de passagem.
 
A cozinha goesa tem sabor de cravo-da-índia, açafrão e pimenta-do-reino. De entrada, Miguel escolheu bolinhos chamados boojés e pastéis triangulares, as chamuças. No menu principal, pratos à base de peixe, camarão ou frango e um sarapatel feito com carne e miúdos de porco ao molho de masala (uma mistura de todos os temperos fortes da Índia, incluindo cravo, pimenta, cominho, coentro e canela).
Depois experimentou uma sobremesa típica: a bebinca, um tipo de bolo com sabor de leite de coco e cardamomo, uma rara especiaria da família do gengibre.
 
Conta a lenda que, certo dia, uma rapaz ajudou um crocodilo a atravessar a lago para entrar no mar. O crocodilo ficou grato e prometeu que se lembraria dele para sempre. Algum tempo depois, o rapaz foi à beira do mar e chamou o crocodilo. Sentou-se nas costas do animal e os dois viajaram juntos durante anos. Embora fossem amigos, um dia crocodilo sentiu uma vontade irresistível de devorar o rapaz, mas envergonhados, desistiu da ideia.
Quando ficou velho, o animal disse ao amigo: “Em breve morrerei e formarei uma terra para ti e para todos os teus descendentes”. Então, quando morreu, o crocodilo transformou-se na ilha de Timor, dando a ela a sua forma. É por essa razão que o povo de Timor chama o crocodilo de “Avô”.
 
A primeira impressão que teve, ao ver anúncios e cartazes em português e entender o que ouvia as pessoas dizerem nas ruas, era de que não estava longe de casa. Tudo era estranhamente conhecido e, ao mesmo tempo, estranhamente novo. Andando pela capital, ficou impressionado ao perceber que era possível misturar a tradição e o passado à modernidade cosmopolita, sem que uma coisa agredisse a outra.
 
Com o passar do tempo, algumas comunidades falantes de português na África e na Ásia desenvolveram as suas línguas em vários crioulos. Com isso, muitas palavras foram acrescentadas ao vocabulário português, oriundas não só dos povos das colônias como de todas as terras com as quais Portugal teve contato. Por exemplo: gengibre e sândalo (do sânscrito); sapato (do indonésio); jangada e queijo (do malaio); mesa (do suaíli africano); chá nanquim (do chinês); gueixa e samurai (do japonês), etc.
 
... Florbela Espanca (1894-1930)
O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa, sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... sei lá de quê!
 
A Língua Portuguesa é um vínculo histórico e patrimônio dos países que, embora se localizam geograficamente distantes, se identificam pelo idioma comum. Hoje, no mundo, mais de 200 milhões de pessoas falam o português.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Watchmen

Moore, Alan; Gibbons, Dave. Watchmen. Panini Books. Barueri / SP; 2005; 412 páginas.
 
Breve relato dos autores:
 
Alan Moore é um autor britânico de histórias em quadrinhos. E Dave Gibbons é um artista, também britânico, de história em quadrinhos.
 
Dados da obra:
 
Watchmen é uma série de história em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons. A trama é situada nos Estados Unidos de 1985, um país no qual aventureiros fantasiados seriam realidade. O país estaria vivendo um momento delicado no contexto da Guerra Fria e em via de declarar uma guerra nuclear contra a União Soviética. Watchmen retrata os super-heróis como indivíduos verossímeis, que enfrentam problemas éticos e psicológicos, lutando contra neuroses e defeitos, e procurando evitar os arquétipos e super-poderes tipicamente encontrados nas figuras tradicionais do gênero.
 
Passagens:
 
Um corpo vivo e um morto contém o mesmo número de partículas.
Estruturalmente não há diferença discernível.
Vida e morte são abstrações não quantificáveis, por que eu deveria me importar?
 
Olha – eu disse – não faço ideia de como é escrever um livro. Tenho um monte de coisas na cabeça que quero pôr no papel, mas o que eu abordo primeiro? Por onde começar?
Sem levantar os olhos das caixas de detergente nas quais estava colando as etiquetas de preço, Denise, de bom grado, ofereceu-me uma pérola de acumulada sabedoria em sua voz repleta de entediada, mas benigna, condescendência:
– Comece pela coisa mais triste que você possa imaginar e conquiste logo a compaixão do leitor. Depois disso, vá por mim, tudo o mais fluirá sem esforço.
 
... Se podemos aceitar que partes flutuantes de um fuzil são reais, também temos ciência de que tudo que sabíamos ser verdadeiro talvez possa provavelmente ser irreal. Essa intranquilidade peculiar é alguma coisa com a qual a maioria de nós aprendeu a viver no decorrer dos anos, e ainda se faz presente.
 
Um mundo cresce ao meu redor. Será que eu o estou moldando ou seus contornos predeterminados guiam minha mão?
Em 1945, bombas caem no Japão, engrenagens no Brooklyn, sementes do futuro são plantadas negligentemente...
Sem mim as coisas teriam sido diferentes. Se o gordo não tivesse esmagado o relógio, se eu não o tivesse deixado na câmara... Sou eu o culpado, então? Ou o gordo? Ou meu pai por escolher minha carreira? Qual de nós é responsável? Quem fez o mundo?
Talvez o mundo não seja feito. Talvez nada seja feito. Talvez nada seja feito. Talvez simplesmente seja, tenha sido, será eternamente...
... Um relógio sem artesão.
 
Tigre, Tigre
ardente açoite
Nas florestas
da noite.
Que imortal olho ou guia
Pode captar-te a terrível simetria?
(William Blake)
 
Mas ele não disse o que o compele. Não é sua infância, sua mãe ou Kitty Genovese. Essas coisas apenas o fizeram reagir à injustiça do mundo.
Nada disso o fez cruzar o limite.
Nada disso o transformou em Rorschach.
É como se o contato contínuo com os elementos mais deploráveis da sociedade o tivesse tornado ainda mais deplorável, ainda pior.
Se eu pudesse convencê-lo de que a vida não é assim, de que o mundo não é assim...
Eu sei que não é.
 
A existência é aleatória, sem padrão, a não ser o que imaginamos depois de ficar olhando por muito tempo. Sem sentido, a não ser o que decidimos dar.
Não são forças metafísicas vagas que moldam este mundo. Não é Deus quem mata as crianças. Não é o destino que as trucida ou a sina que as dá de comer aos cães.
Somos nós.
Só nós.
 
Eu me sento.
Olha a mancha de Rorschach.
Tentei fingir que parecia uma árvore frondosa, com sombras sobre ela, mas não consegui.
A imagem lembrava o gato morto que um dia encontrei, as larvas gordas e cegas que se rastejavam, abrindo túneis freneticamente para longe da luz.
Mas mesmo essa imagem é para evitar o verdadeiro horror.
O horror é este: ao final tudo não passa de uma imagem de escuridão, vazia e sem sentido.
Estamos sozinhos.
Não existe mais nada.
 
Não enfrentes monstros sob pena de te tornares um deles, e se contemplas o abismo, a ti o abismo também contempla.
(Friedrich Wilheim Nietzsche)
 
Eu questionava o sentido de tanta labuta, o propósito do esforço sem fim, que leva a nada, deixando as pessoas vazias e desiludidas...
... deixando-as alquebradas.
Tudo bem, admito que muita gente teve vida azarada, não realizou nada palpável, mas... mas será que nós temos importância no conjunto do universo? Só a existência da vida já não é algo significativo?
Em minha opinião, ela é um fenômeno exageradamente valorizado. Marte se dá muito bem sem um único microorganismo.
 
Mas o mundo é tão cheio de pessoas, tão repleto desses milagres que eles se tornam lugar-comum e nós os esquecemos...
Eu esqueci.
Nós contemplamos continuamente o mundo e ele se torna opaco às nossas percepções. No entanto, encarado de um novo ponto de vista, ele ainda pode ser impressionante.
 
Vamos. Enxugue as lágrimas, porque você é vida, mais rara do que um quark e mais imprevisível do que qualquer sonho de Heisenberg. A argila na qual as forças que moldam a existência deixam suas impressões digitais mais claras.
Enxugue as lágrimas...
... E vamos para casa.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A história sem fim

Ende, Michel. A história sem fim. Martins Fontes / Editorial Presença. São Paulo / SP; 1985; 392 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Michel Ende foi um escritor alemão de romances sobre fantasia e livros infantis e parte de um movimento antroposófico (estudo do homem sob o ponto de vista moral e intelectual).
 
Dados da obra:
 
“A História Sem Fim” conta a aventura de um garoto solitário que através das páginas de um livro passa para o reino da fantasia. Nesta terra imaginária, numa busca cheia de perigos, Bastian descobre a verdadeira medida de sua própria coragem e sua capacidade para amar.
 
Passagens:
 
Bastian deu-se conta de que durante todo o tempo estivera olhando fixamente o livro que o sr. Koreander tinha nas mãos e que se encontrava agora sobre a poltrona de couro. Era como se o livro tivesse uma espécie de magnetismo que o atraía irresistivelmente.
Aproximou-se da poltrona, estendeu a mão devagar, e tocou o livro – e no mesmo instante ouviu dentro de si um “clique”, como se tivesse sido pego em uma ratoeira. Bastian teve a estranha sensação de que aquele toque desencadeara qualquer coisa que agora devia forçosamente seguir seu curso.
... Em suma, as paixões são tão diferentes quanto o são as pessoas.
A paixão de Bastian Baltasar Bux eram os livros.
 
Quem nunca passou tardes inteiras diante de um livro com as orelhas ardendo e o cabelo caído sobre o rosto, esquecido de tudo o que o rodeia e sem se dar conta de que está com fome ou com frio...
Quem nunca se escondeu embaixo dos cobertores lendo um livro à luz de uma lanterna, depois de o pai ou a mãe ou qualquer outro adulto lhe ter apagado a luz, com o argumento bem-intencionado de que já é hora de ir para a cama, pois no dia seguinte é preciso levantar cedo...
Quem nunca chorou, às escondidas ou na frente de todo mundo, lágrimas amargas porque uma história maravilhosa chegou ao fim e é preciso dizer adeus às personagens na companhia das quais se viveram tantas aventuras, que foram amadas e admiradas, pelas quais se temeu ou ansiou, e sem cuja companhia a vida parece vazia e sem sentido...
Quem não conhece tudo isto por experiência própria provavelmente não poderá compreender o que Bastian fez em seguida.
Olhou fixamente o título do livro e sentiu, ao mesmo tempo, arrepios de frio e uma sensação de calor. Ali estava uma coisa com a qual ele já havia sonhado muitas vezes, que tinha desejado muitas vezes desde que dele se apoderara aquele paixão secreta: uma história que nunca acabasse! O livro dos livros!
Tinha de o conseguir a qualquer custo!
 
“Gostaria de saber”, disse para si mesmo, “o que se passa dentro de um livro quando ele está fechado. É claro que lá dentro só há letras impressas..., mas, apesar disso, deve acontecer alguma coisa, porque quando o abro, existe ali uma história completa. Lá dentro há pessoas que ainda não conheço e toda a espécie de aventuras, feitos e combates – e muitas vezes há tempestades no mar, ou alguém vai a países e cidades exóticos. Tudo isso, de algum modo, está dentro do livro. É preciso lê-lo para o saber, é claro. Mas antes disso, já está lá dentro. Gostaria de saber como...”
 
Não gostava dos livros que, com mau humor e acidamente, narravam acontecimentos absolutamente vulgares. Conhecia muito bem tudo isso da sua vida real, por isso não precisava ler essas coisas. Além disso, detestava quando queriam convencê-lo a fazer alguma coisa. E esses livros queriam sempre convencer as pessoas de alguma coisa, de uma maneira mais ou menos óbvia. Bastian preferia os livros emocionantes, ou divertidos, ou que falavam à imaginação: livros que contavam as aventuras fabulosas de criaturas fantásticas e em que se podia imaginar tudo o que se quisesse.
 
– Você é novo, menino. Nós somos velhas. Se você fosse velho como nós, saberia que não há nada senão tristeza. Veja uma coisa. Por que não haveríamos de morrer, você, eu, a imperatriz Criança, todos, todos? Tudo é aparência, tudo é um jogo do Nada. Tudo vai dar exatamente no mesmo. Deixe-nos em paz, menino, vá embora.
 
Naquele momento, Bastian fez uma importante descoberta: podemos estar convencidos durante muito tempo – anos talvez – de que queremos alguma coisa, se soubermos que nosso desejo é irrealizável. Porém, se de súbito nos vemos diante da possibilidade de este desejo ideal se transformar em realidade, passamos a desejar apenas uma coisa: nunca tê-lo desejado.
 
Começaram a ver ao longe o castelo de Horok que se erguia em meio à Floresta das Orquídeas. Parecia efetivamente uma mão gigante, com os cinco dedos levantados e estendidos.
– Mas há uma coisa que tem de ficar bem clara, disse Bastian repentinamente. Estou decidido a não voltar ao meu mundo. Ficarei para sempre em Fantasia. Sinto-me muito bem aqui. Por isso, não me custa nada renunciar a todas as minhas recordações. E quanto ao futuro de Fantasia, não há problemas: posso dar mil novos nomes à Imperatriz Criança. Já não precisamos do mundo dos homens!
 
– Então escute, ó Grande Sábio, a nossa pergunta: o que é Fantasia?
– Fantasia é a História Sem Fim.
 
Bastian viu que, no meio do caminho, estava sentada uma mulher que tentava apanhar as ervilhas de um prato com uma agulha de costura.
– Como chegaram aqui? O que fazem?, perguntou Bastian.
– Ora, sempre tem havido seres humanos que não encontraram o caminho de volta para seu mundo explicou Argax. Primeiro não queriam e agora... digamos... já não podem.
 
Passado o perigo, todos os Iskalnari vieram outra vez para cima e recomeçaram a viagem com seu canto e sua dança, como se nada tivesse acontecido. Sua harmonia não fora perturbada, não se lamentaram. Nem se queixaram e não trocaram uma única palavra sobre o acidente.
– Não, disse um deles quando Bastian tocou no assunto. Não falta ninguém. Por que haveríamos de nos lamentar?
O indivíduo não contava para eles. E, dado que eram todos iguais, ninguém era insubstituível.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O coronel e o lobisomem

Carvalho, José Cândido. O coronel e o lobisomem. José Olympio Editora. Rio de Janeiro/RJ; 2007; 399 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
José Cândido Carvalho foi um advogado, jornalista e escritor brasileiro, nascido em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro, e conhecido pela  obra O coronel e o lobisomem.
 
Dados da obra:
 
Lançado em 1964, é o segundo livro de José Cândido de Carvalho, sendo lançado em 1964. Conta a história do coronel Ponciano de Azeredo Furtado, membro da Guarda Nacional, de menino a herdeiro, de Mata-Cavalo (alusão à casa de Dom Casmurro) e Sobradinho, entre outras propriedades, a especulador de açúcar e cavaleiro quixotesco, além do amor por Esmeraldina. É narrado pelo próprio Coronel, de forma que é a sua visão dos acontecimentos.
 
Passagens:
 
Simeão deu todo poder de mando a Francisquinha, negra de confiança, vinda dos tempos apagados de meu avô rapazola. Pois digo que essa amizade calhava a contento. A velha sabia dar ordem na cozinha, governar sala e saleta. Morava no meio de um bando de negrinhas e afilhadas. Conhecedora da minha fama de maluco por perna, trancava todas elas nos compartimentos mais protegidos de tramela. Lacrava as portas com esta ponderação severista:
– Cuidado com o menino!
 
E aproveitei para dar um balanço no caso da pintada. Medi, ponderei e, ao perceber a pata da nefasta arranhar a janela, tratei de ganhar praça, sempre recuando em ordem, como competia a quem levava aprendizado militar. Bem guarnecida andava a parte dos fundos, onde a velha Francisquinha dormia trancada com suas agregadas. Onça por mais que fosse não ia chegar a recinto fechado. Certo dessa segurança, fui pedir asilo ao sótão de armas, compartimento reforçado, sortido de bacamartes e pólvora. Talvez que a carnicenta tivesse intenção, sei lá o que pensa cabeça de onça, de pernoitar na cadeira de meu descanso, agasalhada de chuva e vento. Se eu não tivesse preparo de coragem, talqualmente um Saturnino ou João Ramalho, saía no burro de acordar léguas de pasto. Sem gabolismo, digo e provo que procedi dentro da prudência e o resto da noite passei na vigília das armas. Madrugada rompida, canto do galo de fora, onça recolhida, deixei de velar a segurança do Sobradinho. E, ao abrir do café, soltei a língua viperina no lombo de todo mundo, tirante a velha Francisquinha, de meu especial respeito. Que marca de gente era essa que comia de meu feijão e bebia de minha água? Enfrentava eu dez braças de onça e ninguém para dizer coronel estou-aqui.
– Ninguém!
 
Encontrei o capitãozinho na lavagem, a cabeça empapada de sanativos. Mirou o dono com olho tristento de quem estivesse dizendo adeus-vou-embora, pedindo desculpas por tão grande desgosto. Digo que fiquei de coração quebrado e estive a ponto de verter lágrimas no peitinho dele. Ia fazer essa vergonha, retirar o galo da demanda, quando vi Sinhozinho em discussão ferrada no meio de um povaréu de boiadeiros. Não podia desmerecer da confiança do velho, pelo que mandei Antão Pereira deixar Vermelhinho por minha conta:
– Quero ter um particular com esta mimosura.
 
– Que é isso, Fonseca? A gente não caiu, homem de Deus. A gente só tropeçou.
Feiçãozinha triste, rosto desgastado, nem respondeu. Saí da rua do Gás roído de mágoa, contraído de nó de choro que sufocava a minha garganta. Em poder da moça teúda e manteúda deixei dois contos de réis. Era tudo o que restava de Mata-Cavalo.
 
Sem medo, peito estofado, cocei a garrucha e risquei, com a roseta, a barriga da mulinha de São Jorge. A danada, boca de seda, obedeceu a minha ordem. O luar caía a pino do alto do céu. Em pata de nuvem, mais por cima dos arvoredos do que um passarinho, comecei a galopar. Embaixo da sela passavam os banhados, os currais, tudo que não tinha mais serventia para quem ia travar luta mortal contra o pai de todas as maldades. Um clarão escorria de minha pessoa. Do lado do mar vinha vindo um canto de boniteza nunca ouvido. Devia ser o canto da madrugada que subia.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Antes do baile verde

Telles, Lygia Fagundes. Antes do Baile Verde. Nova Fronteira. Rio de Janeiro/RJ; 1986; 208 páginas.
 
Breve relato da autora:

Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira, que recebeu o Prémio Camões em 2005. É membro da Academia Paulista de Letras desde 1982, da Academia Brasileira de Letras desde 1985 e da Academia das Ciências de Lisboa desde 1987.

Dados da obra:

Reunião de narrativas escritas entre 1949 e 1969, Antes do baile verde é considerado por muitos críticos o livro de contos literariamente mais bem-sucedido de Lygia Fagundes Telles. As situações narradas são as mais diversas.

Passagens:

Eu sei. Mas para que serve? – insistiu. E apressando-se antes de ser interrompido: – Veja, Lorena, aqui na mesa este anjinho vale tanto quanto o peso de papel ou aquele cinzeiro sem cinza, quer dizer, não tem sentido nenhum. Quando olhamos para as coisas, quando tocamos nelas é que começam a viver como nós, muito mais importantes do que nós, porque continuam. O cinzeiro recebe a cinza e fica cinzeiro, o vidro pisa o papel e se impõe...
 
– Não, não adianta. – Colocou o anjo na mesa. E apertou os olhos molhados de lágrimas, de costas para ela e inclinado para o abajur. – Veja, Lorena, veja... Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito? – perguntou e tomou a adaga entre as mãos...
 
... As unhas de Francisca eram curtas, unhas de mãos eficientes, com uma discreta camada de esmalte incolor. Unhas e mãos de velha, incrível como as mãos envelheceram antes. Depois foram os cabelos. Podia ter reagido. Não reagiu. Parecia mesmo satisfeita em se entregar, pronto, agora vou ficar velha. E ficou...

... Tinha juventude. “Ju-ven-tu-de...” – murmurou, voltando o olhar mortiço em direção ao espelho. Ela adorava espelhos, dezenas de espelhos por toda a casa. Aquele ali então era o pior, aquele que apanhava o corpo inteiro, sem deixar escapar nada. Com ele aprendera que envelhecer é ficar fora de foco: os traços vão ficando imprecisos e o contorno do rosto acaba por se decompor como um pedaço de pão a se dissolver na água.

... Sentira-se um outro homem. Outro homem. Que anúncio usava essa frase? “Fiquei um outro homem”. O anúncio estava num bonde, devia ser de um xarope. Fazia tanto tempo. Saudade de andar de bonde, ir lendo os anúncios, os avisos tão cordiais, tão prudentes: “Espera até o bonde parar”. Tempo de prudência, tempo da consideração. Era bom deslizar pelas ruas desertas, cochilar naquele balanço para a direita, para a esquerda, como num berço...

Fixei-me nas nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter participado deles realmente. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, e ainda via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Intocável? Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos e aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma obscura irritação me fez sorrir.

O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltra-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Deslimites - Metáforas do Cotidiano


Damante, Juliana. Deslimites. Ed. Do Autor. Campinas /SP; 2012; 187 páginas.

Breve relato da autora:

Juliana Damante é jornalista e pós-graduada em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário.

Dados da obra:

Olhares a respeito de alguns segundos: parar e reparar. O livro traz um cotidiano de narrativas da vida real, histórias autobiográficas e visões de uma realidade rabiscada a partir de relatos mais humanos e sensíveis.

Passagens:

Terça é Feira. Enquanto as frutas estão novas e com gotículas da água que o feirante jogou por cima, para que os vegetais fiquem com ar de frescos e convidativos, os senhores e senhoras arrastam os carrinhos, de feira. A criança corre atrás da pomba, gritando para que voe, voe logo, bem alto. Depois ri... O óleo dos pastéis está borbulhante e muitos escolhem-no para forrar o estômago de café da manhã. Outros caminham, caminham, circulam, olham o morango vermelho por cima e verde por baixo, a manga cheirosa, o abacaxi já cortado em fatias suculentamente ácido, as maças tão perfeitas quanto a da Branca de Neve, o cheiro forte do peixe fresco já com as moscas a rondar, os queijos e laticínios naturais sem soda caústica, a banana amarela cheia de pintas no ponto, a melancia vermelha inteira por dentro e verde listrada por fora.

Mal terminou de dizer a última sílaba e eu sorri ao mesmo tempo em que meus olhos se fecharam por segundos, na doce lembrança do que não vivi, ouvi, nem vi na infância, mas rememorei dos registros em preto e branco dos livros e dos arquivos da TV e recordei do esplendoroso sorriso das mãos dançantes de Carmem Miranda. Carmem da audácia e brasilidade de mulher. Hoje, ligo as rádios e não encontro nem as Carmens, nem as Mirandas, nem a Conceição.

Olhei pra ele e agradeci duas vezes. Uma pela gentileza, outra por ter reparado que alguém precisava de ajuda.
Rodoviária é assim, histórias que se cruzam, caminhos que vão e partem, saudades, lembranças, gentes, mentirosos, loucos, mas o melhor: muita bagagem.

Passa-se mais horas em frente ao computador.
Menos horas em frente aos olhos de alguém.
Isso, por um lado, significam algumas virtudes, bastante trabalho.
Mas o balanço e o equilíbrio são essenciais.
Tá tudo longe.
Todos virtualmente vivendo, apenas.
E só.
E assim, bastam-se comentários, conversas, observações, lembretes, sonhos, ideais, vontades.
Ciber-espaço
Cold-play.

A pessoa é para o que nasce.
Transbordei.
Têm dias que você procura um filme e não acha.
Têm dias que os filmes procuram você e não encontram.
Ás vezes estão escondidos nas prateleiras ou a película derreteu.
Ás vezes me jogo dentro de mim e não me acho, mas achei e me acharam. As três senhorinhas desse longa.
“A pessoa é para o que nasce”.
Vale a pena sentir.
Manoel de Barros também me achou.
Estávamos brincado de esconde-esconde.
Há tempo o queria mais perto, aqui comigo.
De sebo em sebo não cheguei perto.
Mas em uma livraria ouvi meu nome, olhei para trás, era ele. Em duas versões. “Memórias inventadas...”

Quando meu avô foi pro céu, há 12 anos, eu achava que ele ia.
Quando minha avó foi pro céu, há uma semana, eu também achava que ela ia.
Quando meu avô chegou, ele recebeu um pacote de pururuca e uma pinguinha.
Quando minha avó chegou, ela recebeu um abraço do meu avô, e um caderninho com probleminhas de matemática.
Aí os dois se abraçaram, e voltaram a viver juntos...
... A vida vem,
a vida vai
Quando vem é tão bonita.
Quando vai é tão triste.
Infeliz o ocidental que inventou velar algo já ido.
Feliz a alma que sabe sorrir a expectativa da não dor.
O material fica, é pueril.
A alma que vai, é sutil.
Roda mundo, roda gigante.
 
... Reinventar
Sabe? Reviver, todos os dias.
É por isso que escolhi ser jornalista. Como diz minha querida Eliane Brum, se eu não sair de uma entrevista transformada, é melhor eu escolher outra profissão.