terça-feira, 29 de outubro de 2013

Notícia de um sequestro

Marquez, Gabriel García. Notícia de um sequestro. Record. Rio de Janeiro / RJ; 1996; 318 páginas.

Breve relato do autor:

É um escritor, jornalista, editor, ativista e político colombiano. Recebeu o Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, que entre outros livros inclui o aclamado Cem Anos de Solidão. Responsável por criar o realismo mágico na literatura latino-americana.

Dados da obra:

Livro-reportagem em Marquez relata o drama de sequestros ocorridos na Colômbia em 1990, por meio de depoimentos de dezenas de pessoas envolvidas. Mesclando histórias reais com ficção, o livro tem o objetivo de mostrar as diversas facetas da dramática situação vivida na Colômbia, especificamente a guerra do tráfico de drogas.

Passagens:

Maruja abriu os olhos e lembrou um velho ditado espanhol: “Que Deus nos dê o que somos capazes de suportar.” Haviam transcorrido dez dias desde o sequestro, e tanto Beatriz como ela começavam a se acostumar a uma rotina que na primeira noite parecia inconcebível. Os sequestradores haviam repetido com frequência que aquela era uma operação militar, mas o regime de cativeiro era pior que o carcerário. Só podiam falar para questões urgentes e sempre em sussurros. Não podiam levantar do colchão que servia de cama comum, e tudo o que necessitassem devia ser pedido aos dois vigias que não as perdiam de vista nem quando estavam dormindo: licença para se sentar, para esticar as pernas, para falar com Marina, para fumar. Maruja tinha que tapar a boca com um travesseiro para amortecer os ruídos da tosse.

Diana Turbay Quintero tinha, como seu pai, um sentido intenso e apaixonado do poder e uma vocação de liderança que determinaram sua vida. Cresceu entre os grandes nomes da política, e era difícil que a partir de então não fosse essa a sua perspectiva do mundo. “Diana era um homem de Estado – disse uma amiga que a compreendeu e amou. – E a maior preocupação de sua vida era uma obstinada vontade de serviço ao país.” Mas o poder – como o amor – tem dois gumes: exercemos e padecemos. Ao mesmo tempo que gera um estado de levitação pura, gera também seu avesso: a busca de uma felicidade irresistível e fugidia, só comparável à busca de um amor idealizado, que se anseia mas se teme, se persegue mas não se alcança. Diana sofria isso com uma voracidade insaciável de saber tudo, de estar a par de tudo, de descobrir o por quê e o como das coisas e a razão de sua vida. Alguns que conviveram com ela e a amaram de perto perceberam isso nas incertezas de seu coração, e pensam que muito poucas vezes ela foi feliz.

 – Você não imagina como foi triste ver aquela senhora jogada no capim, coitada – disse a florista. – Precisava só ver a sua roupa íntima, seu jeito de grande dama, seu cabelo branco, as mãos tão finas e com as unhas tão bem cuidadas.

A distribuidora, alarmada pela sua prostração, deu a ela um analgésico para a dor de cabeça, aconselhou-a a não pensar em coisas tristes e, sobretudo, a não sofrer por problemas alheios. Nem uma nem outra perceberiam até uma semana mais tarde que haviam vivido um episódio inverossímil. Pois a distribuidora era Marta de Pérez, a esposa de Luis Guilhermo Pérez, filho de Marina.

Uma droga mais daninha que as mal chamadas em espanhol de heroicas se introduziu na cultura nacional: o dinheiro fácil. Prosperou a ideia de que a lei é o maior obstáculo para a felicidade, que aprender a ler e a escrever não serve para nada, que se vive melhor e com mais segurança como delinquente do que como pessoa de bem. Em síntese: o estado de perversão social próprio de toda guerra incipiente e intermitente.

Com a fortuna e a clandestinidade, Escobar tornou-se dono do território e se transformou numa lenda que, das sombras, dominava tudo. Seus comunicados de estilo exemplar e cautelas perfeitas chegaram a se parecer tanto com a verdade que se confundiam com ela. No auge de seu esplendor foram erguidos altares com seu retrato e lhe dedicaram círios nas comunidades de Medellín. Chegou-se a dizer que fazia milagres. Nenhum colombiano em toda a história havia tido e exercido um talento como o dele para condicionar a opinião pública. Nenhum outro teve maior poder de corrupção. A condição mais inquietante e devastadora de sua personalidade era que carecia por completo da indulgência para distinguir entre o bem e o mal.

A imagem de Marina caminhando às cegas com o capuz ao contrário para um sítio imaginário ia perseguir Maruja por muitas noites de insônia. Mais do que a própria morte, o que ela temia era a lucidez do momento final. A única coisa que lhe dava algum consolo foi a caixa de comprimidos soníferos que tinha economizado como se fossem pérolas preciosas, para engolir um punhado antes de se deixar arrastar ao matadouro.

Pela primeira vez desde o sequestro Villamizar foi a uma festa de amigos, e ninguém entendeu que estivesse tão contente com alguma coisa que afinal não passava de uma promessa vaga como tantas outras de Pablo Escobar. Àquelas horas o padre García Herreros tinha dado a volta completa por todos os noticiários do país – vistos, ouvidos ou escritos. Pediu que fossem tolerantes com Escobar. “Se não o frustrarmos, ele se tornará um grande construtor da paz”, dizia. E acrescentava, sem citar Rousseau: “Os homens em sua intimidade são todos bons, embora algumas circunstâncias os tornem malignos.” E no meio de um emaranhado de microfones, disse sem maiores reservas:
– Escobar é um homem bom.

... Quando o helicóptero pousou no prado intacto, destacaram-se do grupo uns quinze seguranças que caminharam ansiosos até o helicóptero, ao redor de um homem que não podia passar despercebido. Tinha o cabelo comprido até os ombros, uma barba muito negra, espessa e áspera, que chegava até o peito, e a pele parda e curtida por um sol de páramo. Era rechonchudo, usava tênis e uma jaqueta azul-claro de algodão ordinário, e se movia com uma andadura fácil e uma tranquilidade arrepiante. Villamizar reconheceu-o à primeira vista só porque era diferente de todos os homens que havia visto na vida.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A menina que roubava livros

Zusak, Markus. A menina que roubava livros. Intrínseca. Rio de Janeiro / RJ; 2010; 478 páginas.
 
Breve relato do autor:

Markus Zusak é um jovem escritor australiano.

Dados da obra:

 A história se passa entre 1939 a 1943 e é narrada pela morte. A menina é Liesel, enviada pela mãe, junto com o irmão, para uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. É o primeiro de uma série que a menina vai roubar ao longo dos anos. Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade. A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História.

Passagens:
 
Quando viesse a escrever sua história, ela se perguntaria exatamente quando os livros e as palavras haviam começado a significar não apenas alguma coisa, mas tudo. Teria sido ao pôr os olhos pela primeira vez na sala com estantes e mais estantes deles? Ou quando Max Vandenburg chegara à Rua Himmel, carregando as mãos cheias de sofrimento e o Mein Kampf de Hitler? Teria sido durante a leitura nos abrigos? Na última parada para Dachau? Teria sido A Sacudidora de Palavras? Talvez nunca houve uma resposta exata sobre onde e quando isso havia ocorrido...
 
O som do acordeão, na verdade, era também o anúncio da segurança. Do dia. Durante o dia, era impossível ela sonhar com o irmão. Liesel sentia sua falta e, muitas vezes, chorava no banheiro minúsculo, o mais baixo possível, mas também ficava contente por estar acordada. Na primeira noite com os Hubermann, ela havia escondido seu último vínculo com o irmão – O Manual do Coveiro – embaixo do colchão, e vez por outra o tirava de lá e o segurava. Fitando as letras da capa e tocando o texto impresso na parte interna, ela não fazia a menor ideia do que o livro dizia. A questão é que o assunto do livro não tinha mesmo importância. O mais importante era o que ele significava.
 
... Segundo ela sentia um orgulho evidente do papel de Hans Hubermann em sua educação. Talvez você não imagine, escreveu, mas não foi tanto a escola que me ajudou a ler. Foi papai. As pessoas acham que ele não é inteligente, e é verdade que ele não lê muito depressa, mas eu não tardaria a saber que as palavras e a escrita tinham salvado sua vida, uma vez. Ou, pelo menos, as palavras e um homem que lhe ensinara o acordeão...

Não é hora de atenção parcial, nem de virar as cosas e ir dar uma olhada no fogão – porque, quando a menina que roubava livros roubou seu segundo livro, não só houve muitos fatores implicados em sua ânsia de fazê-lo, como o ato de furtá-lo desencadeou o ponto crucial do que estava por vir. Isso lhe proporcionaria uma abertura para o roubo contínuo de livros. Inspiraria Hans Hubermann a conceber um plano para ajudar o lutador judeu. E mostraria a mim, mais uma vez, que uma oportunidade conduz diretamente a outra, assim como o risco leva a mais risco, a vida, a mais vida, e a morte, a mais morte.
 
A sala foi encolhendo sem parar, até que a menina que roubava livros pôde tocar nas estantes, a poucos passinhos de distância. Correu o dorso da mão pela primeira prateleira, ouvindo o arrastar de suas unhas deslizar pela espinha dorsal de cada livro. Soava como um instrumento, ou como as notas de pés em correria. Ela usou as duas mãos. Passou-as correndo. Uma estante encostada em outra. E riu. Sua voz se espalhava, aguçada na garganta, e quando ela enfim parou e ficou postada no meio do cômodo, passou vários minutos olhando das estantes para os dedos, e de novo para as prateleiras.
Em quantos livros tinha tocado?
Quantos havia sentido?

A mulher do prefeito, depois de deixar a menina entrar pela quarta vez, sentou-se à escrivaninha, simplesmente olhando para os livros. Na segunda visita, dera permissão para que Liesel tirasse um deles da estante e o folheasse, o que levara a outro e mais outros, até que havia uma dúzia de livros grudados nela, ou presos embaixo de um braço, ou na pilha que subia cada vez mais na mão restante.

Por algum tempo, ela vagou para dentro e para fora do sono, já não sabendo ao certo se havia sonhado com a entrada de Max.
De manhã, ao acordar e ser virar na cama, viu as páginas descansando no chão. Estendeu a mão e pegou-as, escutando o papel encrespar-se em suas mãos de manhãzinha.
Toda a minha vida, tive medo de homens velando sobre mim...
Ao virá-las, as páginas eram barulhentas, feito estática em volta da história escrita.
Três dias, disseram-me... E o que encontrei ao acordar?
Lá estavam as páginas apagadas de Mein Kampf, amordaçadas, sufocando sob a tinta enquanto eram viradas.
Isso me fez compreender que o melhor vigiador que eu conheci...

Antes que entrassem em suas respectivas casas, Rudy parou por um instante e disse:
Até logo, Saumensch – e riu. – Boa noite, roubadora de livros.
Era a primeira vez que Liesel se via marcada por seu título, e não pôde esconder que isso lhe agradou muito. Como nós dois sabemos, ela já tinha furtado livros, mas, no fim de outubro de 1941, a coisa se tornou oficial. Nessa noite, Liesel Meminger transformou-se verdadeiramente na menina que roubava livros.
 
Digo o nome d´Ele na vão tentativa de compreender. “Mas não é sua função compreender.” Essa sou eu respondendo. Deus nunca diz nada. Você acha que é a única pessoa a quem Ele nunca responde? “Sua tarefa é...” E eu paro de me escutar, porque para dizê-lo curto e grosso, eu canso a mim mesma. Quando começo a pensar desse jeito, fico inteiramente exausta e não tenho o luxo de me entregar à fadiga. Sou obrigada a continuar, porque, embora isso não se aplique a todas as pessoas da Terra, é verdade para a vasta maioria: a morte não espera por ninguém – e, quando espera, em geral não é por muito tempo.
 
Rosa soltou-a e, para se reconfortar, para isolar a algazarra do porão, Liesel abriu um de seus livros e começou a ler. O livro no topo d pilha era O Assobiador, e ela falou em voz alta, para ajudar sua própria concentração. O parágrafo inicial entorpeceu-se em seus ouvidos.
– O que você disse? – rugiu a mãe, mas Liesel a ignorou. Continuou concentrada na primeira página.
Quando ela virou a página dois, foi Rudy quem notou. Atentou diretamente para o que Liesel estava lendo e deu um tapinha no irmão e nas irmãs, dizendo-lhes para fazerem o mesmo. Hans Hubermann aproximou-se e convocou a todos e, em pouco tempo, uma quietude começou a escoar pelo porão apinhado. Na página três, todos estavam calados, menos Liesel.
A menina não se atreveu a levantar os olhos, mas sentiu os olhares assustados prenderem-se a ela, enquanto ia puxando as palavras e exalando-as. Uma voz tocava as notas dentro dela. Este é o seu acordeão, dizia.

O som da página virada cortou-os ao meio.
Liesel continuou a ler.
Arrancou uma página do livro e a rasgou ao meio.
Depois, um capítulo.
Em pouco tempo, não restava nada senão tiras de palavras, derramadas feito lixo entre suas pernas e em toda a sua volta. As palavras. Por que tinham que existir? Sem elas, não haveria nada disso. Sem as palavras, o Fuhrer não era nada. Não haveria prisioneiros, claudicantes, nem necessidade de consolo ou de truques mundanos para fazer com que nos sentíssemos melhor.
De que adiantavam as palavras?
Dessa vez ela o disse em voz alta, para a sala iluminada de laranja.
- De que servem as palavras?
 
ÚMA ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA
Os seres humanos me assombram.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A máquina de fazer espanhóis

Mãe, Valter Hugo. A máquina de fazer espanhóis. Cosac Naify. São Paulo / SP; 2011; 256 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Valter Hugo Mãe é um escritor nascido em Angola, de nacionalidade portuguesa. Atua também como editor, artista plástico e cantor português.
 
Dados da obra:
 
A história gira em torno de António Jorge da Silva, um barbeiro que acaba de completar 84 anos, e depois de perder a mulher, é entregue a um asilo. O personagem, que viveu sob o peso de Salazar, nos tempos em que as ditaduras regiam tudo, coloca o passado e suas ações em perspectiva, não sem notar que o pessimismo sobre o papel do país no mundo exacerbou-se ainda mais. Portugal se transformou numa máquina geradora de sentimento de inferioridade, uma máquina especializada em produzir entre os nascidos no país à vontade de deixá-lo.
 
Passagens:
 
O lar não suporta mais do que noventa e três pessoas, e, para que uma entre, outra tem de sair. a saída é dolorosa mas rápida. rodam-se alguns velhos pelos quartos fora. eventualmente um que esteja acamado vai para a ala esquerda, já muito vizinho dos mortos, e outro entrará de novo no quarto vago com vista para o jardim. é frequente que os que sobrevivem chorem diante das portas dos quartos, sabendo que no interior já não estão os anteriores inquilinos. é frequente que, nas primeiras semanas, alguém rejeite o novo residente, como se a urgência de este entrar operasse no cosmos uma pressa em tirar a vida ao outro, e é como se isso fosse culpável.
 
... a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. a esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige. e quando eu fico bloqueado, tão irritado com isso sem dúvida, não é por estar imaturo e esperar vir a ser melhor, é por estar maduro de mais e ir como que apodrecendo, igual aos frutos. nós sabemos que erramos e sabemos que, na distração cada vez maior, na perda de reflexos e de agilidade mental, fazemos coisas sem saber e não as fazemos por estupidez. Fazemos por descoordenação entre o que está certo e o que nos parece certo e até sabemos que isso de certo ou errado é muito relativo. É tudo mais forte do que nós.
  
... a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida. um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido. tenho até inveja de si, senhor silva, porque eu tenho trinta e um anos e estou por aqui solteiro, já não vou a tempo de ter cinquenta nos de uma grande paixão.
  
quando dizemos que antigamente é que era bom estamos só a ter saudades, queremos na verdade dizer que antigamente éramos novos, reconhecíamos o mundo como nosso e não de nós próprios, e não exatamente do regime e menos ainda de salazar.
 
... quem fomos há de sempre estar contido em quem somos, por mais que mudemos ou aprendamos coisas novas.
  
... podíamos ir observando o que faziam e diziam os outros velhos. observávamos e sentíamos-nos distantes e, ao mesmo tempo, presos ali como com ferros. caramba, uma sensação de impotência terrível, a de estarmos sentados numas cadeiras quietas, quietos, a sermos apanhados à bruta pela idade, a sermos apanhados à bruta pelas doenças e pelo cínico de quem ainda é jovem e manda em tudo e nos menospreza como gente a ficar deficiente. progressivamente, como se a glória da vida se consumasse na maior das humilhações. observávamos os outros velhos e não sabíamos muito sobre as suas experiências. mas víamos-lhes os rostos e estes espelhavam as mesmas dores que os nossos.
 
depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade.
 
nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. Não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Infâmia

Machado, Ana Maria. Infâmia. Alfguara. Rio de Janeiro / RJ; 2011; 277 páginas.
 
Breve relato da autora:
 
Ana Maria Machado é uma jornalista, professora, pintora e escritora brasileira, que atua intensivamente na promoção da leitura e fomento do livro.
 
Dados da obra:
 
Em Infâmia, a autora questiona os artifícios e as calúnias que com tanta frequência encobrem a verdade no mundo atual. O romance narra a história de um embaixador que vê sua vida virar de cabeça para baixo ao receber um envelope contendo documentos sobre sua filha, a qual foi encontrada morta em um contexto intrigante e enigmático. Em outra parte da trama o empregado de um setor público é falsamente considerado corrupto. Estes casos, baseados na realidade de um mundo globalizado e cada vez mais atrelado ao universo virtual no qual as notícias se propagam velozmente, possibilitam à autora discorrer sobre a linha sutil que se interpõe entre o verdadeiro e o falso.
 
Passagens:
 
O critério da fonte fidedigna. Respeitável. Dava para Vilhena explicar por aí, agora que se sentia um pouco fisgado pela conversa. Mas só quando acabasse a série de exercícios. Aquela era a final, ele sabia. Já fazia parte do alongamento. Não dava para se concentrar numa atividade física, sentir dor e discutir filosoficamente sobre a verdade ao mesmo tempo. Essa garotada de hoje se acostumou a fazer dever de casa enquanto ouve música e, ainda por cima, a televisão está ligada em desenho animado. E, como se não bastasse, manda mensagem pelo celular no meio de tudo isso. Desde pequenos, todos eles dispersivos. Tudo fragmentado demais. Para ele, não dava. Uma coisa de cada vez. Agora ia acabar a série que estava fazendo. No máximo, trocaria umas frases cordiais com Jorjão. Mas tinha de ficar na superfície. Depois conversariam.
 
... Ser intruso em muitas histórias lidas, ao longo de muitos anos, colabora para desenvolvermos uma certa esperteza. Sagacidade leitora. Ajuda a desenvolver a capacidade de perceber lacunas ou incoerências em narrativas que tentam nos impingir versões espúrias a ocultar indícios significativos. A experiência acumulada nos dá a sensação de que aquilo não faz sentido totalmente. Como diz a linguagem popular, podemos desconfiar de que aquela história está mal contada.
 
A história da literatura lhe comprovava isso. Autores cegos que puderam iluminar seus leitores e revelar o real, mesmo sem enxergar nada ou vendo mal, eram exemplos que se sucediam pelos séculos, nas diferentes culturas de Homero ou Milton ao cego Aderaldo. Ainda outro dia estivera conversando sobre isso com Camila, que lhe falara num estudo recente sobre cegueira e literatura. Examinando as citações artísticas de Jorge Luis Borges, James Joyce e João Cabral de Melo Neto. Sem esquecer o belo romance de Saramago disfarçado de ensaio, ou o filme nele inspirado, a que não assistira, mas que Mila comentara, ao lhe trazer a fala de um personagem:  A única coisa mais terrível que a cegueira é ser a única pessoa que consegue ver.
 
Junto a esse Ulisses, Vilhena nunca chegara a se sentir intruso. Lera o livro mal e mal, nunca relera inteiro. Reconhecia sua importância, mas o achava confuso. Tinha admiração por ele, não amor. Muito diferente do sentimento que tinha pelo Ulisses original de Homero, esse sim, objeto de fascínio e paixão durante toda a vida. Começo de toda a literatura ocidental. Poderia também ser o seu começo de releituras daí a alguns dias, depois da operação. Uma alegria tentadora: folhear de novo as páginas da velha história grega, entre os dedos cor-de-rosa da autora e as tempestades marítimas desencadeadas pelos deuses. Boa lembrança. Excelente meta.
 
Eu, simplesmente Manuel, tenho de sair da redoma. Descer do pedestal. Não me omitir. Não compartilhar mais com os Xavieres da vida esses lugares protegidos. Não desviar o olhar. Ser capaz de não me excluir do real ao ser intruso no fictício.
Posso, sim, trazer para os dias que me restam a memória do vivido, do lido e do relido, mas sem deixar de fora as emoções destiladas gota a gota, que eu sempre deveria ter percebido e tantas vezes me recusei a olhar, para não ver.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O mar

Banville, John. O mar. Editora Nova Fronteira; Rio de Janeiro / RJ; 2007; 222 págs.

Breve relato do autor:
 
John Banville é autor irlandês cuja obra combinam-se dicção exuberante, marcada pelo lirismo e por jogos de linguagem, com enredos complexos. Seu maior sucesso O mar (2005) lhe rendeu o Man Booker Prize. Sob o pseudônimo de Benjamin Black, publicou ainda mais sete romances policiais que compõem uma intrincada teia de adultérios envolvendo o protagonista.
 
Dados da obra:
 
Em O mar, John Banville constrói uma narrativa emocionante, trabalhando a linguagem como um grande artista. O livro conta uma história com vários momentos, na qual o narrador, Max Morden, procura viver o presente e o futuro no passado, na busca por recuperar-se da constante presença da morte.
 
Passagens:
 
Mr. Todd se virou um pouco na cadeira, remexendo os documentos contidos naquela pasta de papelão rosa-claro que me fez lembrar das frias manhãs de volta às aulas, depois das férias de verão, da sensação dos livros novos e do cheiro de certo modo repleto de presságios da tinta e dos lápis recém-apartados. Incrível como a mente vagueia, mesmo nas situações mais intensas...

Acabei de perceber que dia é hoje. Está fazendo exatamente um ano daquela visita que Anna e eu fomos obrigados a fazer a Mr. Todd em seu consultório. Que coincidência... Ou talvez não. Existem coincidências no reino de Plutão, por cujos ermos vaguei perdido, como um Orfeu sem lira? E já se passaram doze meses! Devia ter escrito um diário. O meu diário de um ano catastrófico.
 
Cismei que ia entrar naquela casa, andar por onde Mrs. Grace andava, sentar onde ela sentava, tocar nos objetos em que ela tocava. Para conseguir o meu intento, decidi me aproximar de Chloe e de seu irmão. Isso era fácil, como são essas coisas na infância, mesmo para uma criança retraída como eu. Nessa idade não precisamos puxar conversa nem lançar mão de qualquer ritual para uma aproximação ou um encontro educados; basta ficar por perto e esperar para ver o que acontece...
 
... Portanto, o que antevia em termos de futuro era, na verdade, se é que a verdade tem alguma coisa a ver com isso, uma representação daquilo que só podia ser um passado imaginado. Pode-se dizer que eu não estava exatamente antecipando um futuro, mas, antes, assumindo uma atitude nostálgica com relação a ele, um vez que, nos meus sonhos, o que estava por vir era aquilo que já tinha passado. E, de repente, isso vem mostrar, agora, como alguma coisa de certa forma significativa. Será que era mesmo pelo futuro que eu estava ansiando, ou seria algo que estivesse além dele?

 .. Mas não havia dor alguma, ainda não; só aquilo que ela descrevia como uma sensação generalizada de desassossego, uma espécie de efervescência interior, como se o seu corpo desconcertado estivesse vasculhando dentro de si mesmo, tentando desesperadamente armar defesas contra um invasor que já havia conseguido penetrar ali por alguma passagem secreta, estalando as suas negras tenazes.

Eu me lembro de Anna; a nossa filha, inimagináveis gerações. Eu me lembro de Anna; a nossa filha, Claire, vai se lembrar de Anna e de mim; depois, Claire vai embora e haverá aqueles que vão se lembrar dela, mas não de nós, e esta será a nossa dissolução final. Alguma coisa de nós vai permanecer, sem dúvida: uma fotografia desbotada, uma mecha de cabelo, algumas impressões digitais, uma garoa de átomos no ar do quarto onde demos o último suspiro. Mesmo assim, nada disso será nós, nada disso será aquilo que somos e que fomos, mas apenas a poeira dos mortos.

Em outras épocas, bem que gostava do que via no espelho, mas isso não acontece mais. Agora, fico espantado, mais do que espantado, diante do rosto que surge ali, de forma tão abrupta, e que nunca é o que estava esperando encontrar. Fui substituído por uma paródia de mim mesmo, uma figura lamentavelmente desgrenhada, usando uma máscara de halloween feita de borracha flácida e de um cinza meio rosado, que tem apenas uma ligeira semelhança com a lembrança do que eu era antes e que, só de teimoso, insisto em conservar na memória.
 
... A escada era mais íngreme, o patamar mais acanhado, a janela do banheiro não dava para a rua, como eu pensava, mas sim para os fundos, para o lado do Campo. Tive uma sensação quase de pânico quando o real, esse real indelicadamente complacente, se apoderou das coisas de que eu pensava me lembrar e deu a elas o formato que bem quis. Algo precioso estava se desmanchando e escorria por entre os meus dedos. E, no entanto, com que facilidade deixei que aquilo tudo se fosse... O passado, quero dizer, o passado de verdade, tem muito menos importância do que acreditamos...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A vida privada das árvores



Zambra, Alejandro. A vida privada das árvores. Cosac Naify. São Paulo / SP; 2013; 93 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Alejandro Zambra é um poeta e contista chileno, selecionado em 2007 pelo Festival de Hay como um dos escritores latino-americanos mais importantes e eleito em 2010 pela revista Granta entre os 22 melhores escritores de língua espanhola com menos de 35 anos.
 
Dados da obra:
 
A vida privada das árvores é a história de uma espera. Julián, um professor de literatura e aspirante a escritor, aguarda a chegada de Verónica, sua mulher. Mas ela não chega e a espera se alonga. Junto com a enteada, a pequena Daniela, Julián distrai as horas contando histórias de árvores para a menina. Enquanto a mulher não chega, Julián recompõe na memória seu passado e, na imaginação, inventa um futuro possível no qual sua companheira já não existe.
 
Passagens:
 
Leu atentamente Ungaretti, Montale, Pavese, Pasolini, e poetas mais recentes, como Patrizia Cavalli e Valerio Magrelli, mas de maneira nenhuma é especialista em poesia italiana. Além do mais, no Chile não é tão grave dar aulas de poesia italiana sem saber italiano porque Santiago está cheia de professores de inglês que não sabem inglês, de dentistas que mal sabem extrair um dente e de personal trainers com sobrepeso, e de professores de ioga que não conseguiram dar aulas sem generosa dose prévia de ansiolíticos.
 
... Julián não queria recuperar o amor, pois deixara de amá-la havia muito tempo. Deixara de amá-la um segundo antes de começar a amá-la. Soa estranho, mas é assim que ele sente: em vez de amar Karla, ele amara a possibilidade do amor. Amara a ideia de um vulto se movendo entre lençóis brancos e sujos.
 
Verónica é uma mulher que não chega, Karla é uma mulher que não estava.
A mãe de Karla é uma mulher que foi embora e que voltou quando ninguém a esperava.
Karla é uma mulher que não esteve.
Karla é uma mulher que esteve, mas não esteve. Saiu, foi procurar sua mãe, do mesmo modo que outros saem para caçar.
Saiu, foi comprar cigarros. Karla não esteve, não estava: saiu para comprar cigarros, foi procurar a mãe, foi à caça.
O pneu de Verónica furou. Ela sabe que não posso ir procurá-la. Não posso deixar a menina sozinha. Verónica vai trocar o pneu.
Verónica é uma mulher no meio da avenida trocando um pneu. Centenas de carros passam a cada minuto, mas ninguém se detém para ajudá-la. É isso que está acontecendo, pensa Julián, que r
resolve se apegar a imagem de Verónica perdida, trocando pneu, sozinha, numa avenida distante.
 
... Fecha os olhos e pressiona as pálpebras durante vinte, trinta segundos. E volta, com cuidado, com medo, a este relato de contornos fixos, que às vezes se assemelha a um livro que ensina a pintar. Há três lugares, e três pequenas bibliotecas populares: azul, branco, verde, bege, vermelho e café. A literatura chilena é cor de café. A sala é branca e talvez a neve também seja branca. As ruas não são brancas: as ruas são azul claro ou azul escuro, verde-água, verde-esmeralda, vermelhas, rosadas, amarelas: Ahumada é vermelha, Recoleta é rosada, e Tobalada, a rua paralela à passagem onde vive agora, é azul celeste, como a Bilbao. Diez de Julio e Vicuña Mackenna são ruas cor de laranja.
 
Não pode negar gosta cada vez mais da solidão; as semanas com Ernesto, por sua vez, têm sido travadas, ásperas. Não que haja violência ou tédio. É uma espécie de falha, uma velatura que alguém espalhou sobre a tela onde Ernesto e Daniela posam para a posteridade. Sabe que muito breve Ernesto não voltará mais. Imagina-se desconcertada, e depois furiosa, e finalmente invadida por uma decisiva quietude. Tudo bem, era sem compromisso, como deve ser: ama-se para deixar-se de amar e se deixa de amar para começar a amar outros, ou para ficar sozinho, por um tempo ou para sempre. Esse é o dogma. O único dogma.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Ladrão de cadáveres

Melo, Patrícia. Ladrão de cadáveres. Editora Rocco. Rio de Janeiro / RJ; 2010; 205 páginas.

Breve relato do autor:
 
Patrícia Melo é roteirista, dramaturga e escritora, e em 1999 a Time Magazine a incluiu entre os 50 líderes latino-americanos do novo milênio. É autora de Acqua Toffana, O matador – vencedor do Prêmio Deux Océans e Deutsch Krimi, Elogio da mentira, Inferno – vencedor do Prêmio Jabuti, Valsa Negra, Mundo perdido e Jonas e o copromanta. Ladrão de Cadáveres é o seu oitavo romance.
 
Dados da obra:
 
Em Ladrão de cadáveres, o narrador-protagonista do romance é um ex-gerente de uma central de telemarketing, despedido depois de agredir uma funcionária que acabou cometendo suicídio. Deprimido, ele troca São Paulo por Corumbá a convite de um primo. A trama começa quando o protagonista testemunha a queda de um avião no rio Paraguai. Dentro da cabine, o piloto está morto. Ao lado do corpo, uma mochila com um pacote de cocaína. A partir daí, o que se vê é o despertar do pior lado de um ser humano, em uma história que mistura ganância, crime, sexo e mentiras.
 
Passagens:
 
A primeira coisa que me ocorreu naquele momento foi que a gente nunca entende como um cidadão responsável e trabalhador saca uma arma e mata um motorista numa briga de trânsito. É muito simples, na verdade. Acontece da mesma forma que eu estapeei minha funcionária. A arma está ali, no porta-luvas. De repente, um rapaz te fecha num cruzamento, você salta do carro e dá um tiro na testa dele. É simples assim.
 
Mais do que a imagem do cadáver abandonado no rio, o que me angustiava era pensar no que se passava no interior daquela casa. Temos certeza de que ele está bem, dissera a namorada na televisão. A mãe chorando. Disso eu entendia, câmbio. De mães que se acabam assim, podres de tanto chorar. Antes de aprender que as pessoas morrem, aprendi que elas desaparecem. Saem de casa e evaporam. Nos deixam atônitos, observando a cama vazia, que é quase um grito, uma porrada, pela manhã. Você sonha com elas todas as noites. Sonha que elas estão vivas, sonha que elas telefonam, sonha que elas voltam para casa. São sempre os mesmos sonhos, você acaba mesmo acreditando que elas estão vivas. E tem também as pesquisas, que dizem que setenta por cento dos desaparecidos voltam. Você pode até não acreditar mais em Deus, mas acredita nas pesquisas. Agarra-se àquelas porcentagens como se fossem uma oração. E aqueles números, mais aqueles sonhos, fazem com que aquela pessoa vire uma espécie de morto-vivo. Um zumbi. Tudo isso eu conhecia muito bem.
 
... O que importava se eu abandonara o cadáver no rio? Não matei ninguém, câmbio. Ainda que tivesse arrancado o rapaz do avião e o carregado no lombo até a cidade, nada iria mudar. Estaria morto do mesmo jeito. Todos vamos morrer um dia. Que importava se eu tinha afanado a cocaína? Que atire a primeira pedra, câmbio. Todos nós roubamos alguma coisa, em algum momento. Quase todos. Pelo menos uma vez.
Ou vamos roubar. O Brasil é cheio de gente escrota, essa é a verdade.
 
... Na vida real, você não entra. Em compensação, faz coisas piores. Você assalta um cadáver. Você contrata um índio fodido para vender o pó que roubou do cadáver. Fode-se com a mulher do seu primo. Você faz tudo isso porque acha que pode cometer um erro, só um, mais um só, e mais outro, só mais uma cagada de nada e depois é só voltar e continuar o seu caminho, o seu filme, porque a trilha da vida continua lá, imóvel, esperando você fazer suas cagadas para depois voltar.

Não havia ninguém na igreja. Só o frescor, a penumbra, e ela, ajoelhada, rezando. Fiquei com pena, com vontade de encurtar o caminho que ela teria de percorrer. Pensei que se eu contasse que o rapaz estava morto, se a levasse lá e mostrasse o cadáver e ela o enterrasse como manda o figurino, com velório e flores, se ela chorasse no túmulo, não teria, como minha mãe, que manter a caçarola quente por muito tempo. A morte, crua, não é o mais difícil. Pior é o mistério. A dúvida. Eles é que acabam conosco.

Eu mesmo me sentia contaminado. Na minha opinião, era também um surto o que estávamos vivendo em Corumbá. De outro tipo, mas igualmente perverso. Em todos os jornais, no rádio, na televisão, só se falava no acidente do piloto. A diferença é que ninguém se matava. Dava pena ver a dona Lu. Emagreceu um bocado. Eu tinha praticamente que carregá-la até o carro, nas vezes em que íamos para a igreja. E nessas ocasiões, os urubus a cercavam, quase pediam autógrafo. Está doendo muito? , era o que eles queriam saber. Quanto dói ter um filho desaparecido? Bandos atrás de carniça. Gostavam de sentir dó daquela mulher rica e bonita, que estava bem fodida, apesar de ser rica e bonita. Sentiam-se bem com isso. A desgraça de dona Lu permitia que eles se sentissem piedosos. Esse, aliás, é outro sintoma da epidemia. A bondade patológica que surge na comunidade. Em vez da febre e da diarreia, de repente, aparece esse sintoma, a compaixão.
 
Pensei no quanto minha própria mãe teria sido feliz se um dia alguém tivesse nos telefonado do necrotério, se tivéssemos ido até lá, reconhecido o cadáver do meu pai, para depois enterrá-lo e acabar com o assunto. É esse o significado da palavra enterrar. Colocar ponto final. Enterrem os mortos e cuidem dos vivos, quem disse isso? Enquanto não enterramos os mortos, os vivos ficam lá, sangrando. Acabam conosco os mortos. Com a dona Lu. Eu havia notado que nos últimos dias, ela não se importava mais em encontrar o filho vivo. O cadáver do filho já bastava. Estava naquele ponto em que o cadáver era melhor que nada. Antes o cadáver. Era assim mesmo que as coisas se davam. Eu sabia disso por experiência própria, há momentos que até uma péssima notícia é bem-vinda. Achamos um braço. Um pedaço do crânio. Achamos o assassino. A cova. Qualquer coisa serve.

Uma coisa é você saber que o presidente é corrupto, que o governador é corrupto, que o secretário é corrupto. Mas o cara que trabalha com você há sete anos? Ali do seu lado? Que almoça, que janta com você? Que frequenta sua casa? O Joel? Que me ensinou tudo? Eu colocaria minha mão no fogo por Joel. Se Joel, o Tranqueira, que me chama de Doçura, é corrupto, se é assim, todo mundo naquela delegacia deve levar grana. Hoje em dia, não existe mais um ladrão sem parceiro, corrupção é um negócio em rede, uma matilha. Por que então me preocupar se meu namorado rouba um quilo de pó de alguém que já morreu?...

... Você nunca ouvir dizer que “o homem só começa a ser homem quando enterra seus cadáveres”? É a mais pura verdade. Não há civilização sem os rituais da morte. Sem enterros. Sem eles, voltamos para a caverna. Sem eles, você não honra o defunto, a memória, você não presta homenagem a ele, você não tem túmulo para visitar. Viramos uma espécie de zumbi se deixamos nossos cadáveres por aí, apodrecendo sobre a Terra. No plano pessoal, a tragédia é maior. Lembro que num dia de finados, encontrei minha mãe chorando na cozinha e ela me disse: “se ao menos houvesse um túmulo para visitarmos.” Minha mãe não sofria porque meu pai tinha morria. Sofria porque não podia decretar aquela morte.
 
Durante muito tempo, acreditei que a maldade era um aprendizado lento. Naqueles dias, compreendi finalmente que é a bondade que se aprende com dificuldade, com exercícios diários, que as pessoas, por vezes, chama de Deus ou de Buda, dependendo de suas crenças. A maldade, essa, já nascemos com ela inoculada dentro de nós, como um vírus inativo, que apenas espera o momento de aflorar. De outra forma, como explicar o meu comportamento e o de Sulamita? Como explicar que duas pessoas boas possam agir de forma tão escabrosa?
 
Quem não passou por isso, expliquei para Sulamita mais de cem vezes, não entende. Você não faz a mínima ideia do que é uma morte sem corpo. Claro que faço, ela disse, é como um crime sem corpo: não existe. É mais, eu falei, é como estar no purgatório. Há dias em que você aceita que aquela pessoa morreu. Então você chora e reza. Em outros, você ouve um barulho na porta e tem certeza de que ela está voltando. Você corre para a sala e não há ninguém ali. E se o telefone toca no meio da noite, você sai correndo, cheio de esperança. E você nunca para de sofrer. Nem de acreditar. A vida não interessa muito, mas você também não pode morrer completamente, porque há sempre a possibilidade da porta se abrir ou o telefone tocar. E você quer estar ali quando isso acontecer.