quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O edifício

Eisner, Will. O edifício. Editora Abril; São Paulo / SP; 1987.
 
Breve relato do autor:
 
Will Eisner foi um famoso e renomado quadrinista americano, que durante seus mais de 70 anos de carreira, atuou em diversas áreas que incluem como desenhista, roteirista, arte-finalista, editor, cartunista, empresário e publicitário.
 
Dados da obra:
 
O edifício é uma metáfora sobre a própria vida. As trajetórias de quatro personagens – Monroe Mensh, Gilda Green, Antonio Tonatti e P.J. Hammond – se misturam com a existência de um determinado edifício localizado em Nova York. O enredo fala dos dramas, desilusões e anseios desses personagens.
 
Passagens:
 
Depois de muitos anos vivendo numa cidade grande, gradualmente desenvolvemos um senso de assombro. Isto porque muito do que acontece ao nosso redor é inexplicável e, ao mesmo tempo, mágico. Enquanto eu crescia em meio à turbulência da vida urbana, era preciso apenas um estado de alerta superficial para enfrentar o ritmo das mudanças e experiências que se desenrolavam. Havia pouco tempo para questionar a rápida substituição de pessoas e de edifícios.
Tais coisas deviam ser aceitas como normais. À medida que fui envelhecendo e acumulando recordações, passei a me sensibilizar mais e mais com o desaparecimento de pessoas e referências urbanas. Para mim, eram especialmente perturbadoras as inexplicáveis demolições de prédios. Eu sentia como se, de alguma forma, eles tivessem alma.
Agora, estou certo de que essas estruturas marcadas por risos e manchadas de lágrimas são mais do que edifícios inertes. É impossível pensar que, ao fazerem parte da vida, não tenham absorvido as radiações provenientes da interação humana.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Antes de nascer o mundo

Couto, Mia. Antes de nascer o mundo. Companhia das Letras; São Paulo / SP; 2009; 277 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Mia Couto nasceu em Moçambique. Estudou medicina antes de se formar em biologia. Atualmente dedica-se a estudos de impacto ambiental. Em 1999, recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto da obra; em 2007, o prêmio União Latina de Literatura Românicas.
 
Dados da obra:
 
Esgueirando-se entre o sonho e a realidade, entre a prosa e a poesia, Antes de nascer o mundo retrata uma realidade de dimensões míticas na qual os homens de alguma forma conseguem superar o desespero e resgatar uma esperança que resiste à voragem da terra e da história.
 
Passagens:
 
A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: “Jesusalém”. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final.
 
... Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
 
O tal camião – a nova Arca de Noé – chegou ao destino, mas desfaleceu para sempre, à porta daquilo que viria a ser a nossa casa. Ali apodreceu, ali se converteu no meu favorito brinquedo, meu refúgio de sonhar. Sentado ao volante da falecida máquina, eu podia ter inventado viagens infinitas, vencido distâncias e cercos. Como faria outra qualquer criança, poderia ter dado a volta ao planeta, até que o universo inteiro me obedecesse. Mas isso nunca sucedeu: o meu sonho não aprendera a viajar. Quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar com outros lugares.
 
– Mas, pai, nos conte. Como faleceu o mundo?
– Na verdade, já não me lembro.
– Mas o Tio Aproximado.
– O Tio conta muita história...
– Então, pai, nos conte o senhor.
– O caso foi o seguinte: o mundo acabou mesmo antes do fim do mundo.
Terminara o universo sem espetáculo, sem rasgão nem clarão. Por definhamento, exaurido em desespero. E assim, vagamente, meu pai derivava sobre a extinção do cosmos. Primeiro, começaram a morrer os lugares-fêmeas: as nascentes, as praias, as lagoas. Depois, morreram os lugares-machos: os povoados, os caminhos, os portos.
Sobreviveu apenas este lugar. É aqui que vivemos de vez.
 
Silvestre fez de conta que não escutou e, impassível, prosseguiu:
– Esperas. É isso que a estrada traz. E são as esperas que fazem envelhecer.
 
Mais um passo atrás e Ntunzi se desamparou num abismo e ainda hoje ele está tombando, tombando, tombando. Para meu irmão o ensinamento era claro. A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo.
– Mulheres são como as ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor.
 
... E me falaram, então, do que havia sucedido no dia em que minha mãe fora a enterrar. “Enterrar” é apenas um modo de dizer. Afinal, nunca há terra suficiente para enterrar uma mãe.
  
Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão em tua boca.
 
– Nós, mulheres. Por que aceitamos tanto, tudo?
– Porque temos medo.
O nosso medo maior é o da solidão. Uma mulher não pode existir sozinha, sob o risco de deixar de ser mulher. Ou se converte, para tranquilidade de todos, numa outra coisa: numa louca, numa velha, numa feiticeira. Ou, como diria Silvestre numa puta. Tudo menos mulher. Foi isto que eu disse a Noci, neste mundo só somos alguém se formos esposa. É o que agora sou, mesmo sendo viúva. Sou a esposa de um morto.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A peste

Camus, Albert. A peste. Editora Record. Rio de Janeiro / RJ; 1947; 269 páginas.
 
Breve relato do autor:

Albert Camus foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra. Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor. Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957.

Dados da obra:

A Peste é considerada a obra máxima de Albert Camus. Publicada 1947, conta a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade em meio a uma peste que assola a cidade de Oran, na Argélia. Questiona diversos assuntos relacionados a natureza do destino e da condição humana. Os personagens do livro ajudam a mostrar os efeitos que o flagelo causa na sociedade.

Passagens:

Dir-se-á sem dúvida que nada disso é peculiar à nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem da manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viverem. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeita que exista mais alguma coisa. Isso em geral não lhes modifica a vida simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente moderna. Não é necessário, portanto, define a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoravam rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Também isso não é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.

Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como nossos concidadãos; é necessário compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: “Não vai durar muito, seria idiota! E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós.
 
... E uma tranquilidade tão pacífica e tão indiferente negava quase sempre esforço as velhas imagens de flagelo: Atenas empestada e abandonada pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos, os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seus mendigos horrendos; os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspenso por ganchos; o carnaval dos médicos mascarados durante a Peste Negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda a parte e sempre cheios dos gritos intermináveis dos homens...
 
Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Este próprio passado sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou aquela que esperavam – assim como a todas as circunstâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamos-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano faz viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campanha que, no entanto, se obstinava no silêncio.
 
Provavelmente, Jeanne tinha sofrido. Contudo, ficara: acontece que se sofre muito tempo sem saber. Os anos tinham passado. Mais tarde, ela partira. Na verdade, não partira só: “Gostei muito de você, mas agora estou cansada... Não me sinto feliz por partir, mas não é necessário ser feliz para recomeçar.”
 
... O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade. Os homens são mais bons que maus, e na verdade a questão não é essa. Mas ignoram mais ou menos e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza, então a matar. A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.
 
... Sem memória e sem esperança, instalavam-se no presente. Na verdade, tudo se tornava presente para eles. A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo a amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.
 
Durante alguns minutos, avançaram com a mesma cadência e o mesmo vigor, solitários, longe do mundo, libertados enfim da cidade e da peste. Rieux foi o primeiro a parar e voltaram lentamente, a não ser num momento em que entraram numa corrente gelada sem nada dizerem, ambos aceleraram os movimentos fustigados por esta surpresa do mar. Novamente vestidos, partir, sem terem pronunciado uma palavra. Mas entendiam-se, era suave a lembrança dessa noite. Quando viram de longe a sentinela da peste, Rieux sabia que Tarrou dizia para si próprio, como ele, que a doença acabava de esquecê-los, que isso era bom, e que agora era preciso recomeçar.
 
Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se de que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a Peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Cândido ou o otimismo

Voltaire. Cândido ou o otimismo. Peguim Classics Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2011; 179 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Voltaire foi um escritor, ensaísta e filósofo iluminista francês. Conhecido pela sua perspicácia e espirituosidade na defesa das liberdades civis, inclusive liberdade religiosa e livre comércio.
 
Dados da obra:
 
É um conto filosófico em tom de sátira publicado pela primeira vez em 1759 e que narra a história de um jovem, Cândido, vivendo num paraíso edênico e recebendo ensinamentos do otimismo de Leibniz através de seu mentor, Pangloss. A obra retrata a abrupta interrupção deste estilo de vida quando Cândido se desilude ao testemunhar e experimentar eminentes dificuldades no mundo.
 
Passagens:
 
“Está demonstrado”, dizia ele, “que as coisas não podem ser de outro jeito: pois tudo sendo feito para um fim, tudo é necessariamente pra o melhor fim. Notem que os narizes foram feitos para carregar óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para usar calças, e nós temos calças. As pedras foram formadas para ser tralhadas e para fazer castelos; assim meu senhor tem um belíssimo castelo; o maior barão da província deve ser o mais bem alojado; e os porcos sendo feitos para serem comidos, comemos porcos durante o ano todo; por conseguinte, aqueles que afirmaram que tudo está bem disseram uma bobagem; era preciso dizer que tudo está o melhor”.
 
 “Quê? Não tendes monges que ensinam, que disputam, que governam, que intrigam e que mandam queimar as pessoas que não compartilham as suas opiniões?” “Era preciso que fôssemos loucos”, disse o ancião. “Aqui somos todos da mesma opinião, e não entendemos o que nos dizeis com os vossos monges.” Cândido, com todos esses discursos, permanecia em êxtase, e dizia consigo mesmo: “Isto aqui é bem diferente da Westfália e do castelo do senhor barão: se o nosso amigo Pangloss tivesse visto o Eldorado, nunca mais teria dito que o castelo de Thunder-tem-tronckh era o que havia de melhor sobre a terra; é certo que é preciso viajar”.
 
... “Quando trabalhamos nos engenhos de açúcar e amó nos pega o dedo, cortam-nos a mão; quando queremos fugir, cortam-nos a perna: eu me encontrei nos dois casos. É a esse preço que vós comeis açúcar na Europa. Entretanto quando minha mãe me vendeu por dois escudos patagões na costa da Guiné, ela me dizia: ‘Meu filho, abençoa os nossos fetiches, adora-os sempre, eles te farão viver feliz, tens a honra de ser escravo de nossos senhores brancos, e faz com isso a fortuna do teu pai e da tua mãe’. Lamentável! Não sei se fiz a fortuna deles, mas eles fizeram a minha. Os cães, os macacos e os papagaios são mil vezes menos infelizes que nós. Os fetiches holandeses que me converteram me dizem todos os domingos que somos todos filhos de Adão, brancos e negros. Eu não sou genealogista, mas, se esses pregadores estão dizendo a verdade, somos todos primos provindos de germanos. Ora, haveis de concordar que não se pode tratar os parentes de maneira mais horrível”.
 
“Ó Pangloss!”, exclamou Cândido, “não tinhas adivinhado esta abominação; acabou-se, será preciso que afinal eu renuncie ao teu otimismo”. “O que é otimismo?”, dizia Cocambo. “Lamentável!”, disse Cândido, “é a fúria de sustentar que tudo está bem quando se está mal...”.
 
“Deveis ter”, disse Cândido ao turco, “uma vasta e magnífica terra?” “Tenho apenas uns vinte alqueires”, respondeu o turco; “eu os cultivo com meus filhos; o trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade”.
 
“mas é preciso cultivar o nosso jardim”.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Livraria Limítrofe - O adeus

Medeiros, Alfer. Livraria Limítrofe – O adeus. Editora Estronho. Belo Horizonte / MG; 2011; 190 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Alexandre J. F. Medeiros (Alfer Medeiros), é profissional de TI. Além de Livraria Limítrofe já participou dos projetos UFO – Contos Não-Identificados, Fúria Lupina Brasil e Asgard – A saga dos nove reinos, Cursed City.
 
Dados da obra:

Livraria Limítrofe trata-se de um espaço diferente, que não tem endereço fixo e raramente é encontrada mais de uma vez. Ela surge no momento certo e oferece às pessoas comuns, amantes da leitura, outras nem tanto, o ambiente perfeito para atender suas necessidades. Pode-se dizer que é uma livraria personalizada, em que cada leitor encontrará livros de autores preferidos, acomodados em um ambiente de dimensões grandes ou pequenas, com decoração característica das obras.

Passagens:

Daqui você verá prateleiras de livros cobrindo todas as paredes deste piso térreo, e as obras nelas contidas foram selecionadas por mim e pela minha senhora. Você virá a conhecê-la em momento oportuno. Não me canso de apreciar a visão das belas lombadas coloridas formando esse arco-íris literário, um convite à boa leitura. Quando saio dos meus aposentados e adentro este recinto, tenho a impressão de ser saudado por um grande sorriso, vindo de todos os lados.

Ali traços carregados e repletos de tons de cinza e negro representavam uma cena de dramaticidade intensa. Homens com roupas militares fitavam impassivelmente uma mulher ajoelhada, abraçada aos seus dois filhos, um menino e uma menina. Seu rosto era uma máscara modelada sobre puro sofrimento. Ela deveria tomar uma decisão terrível, e isso a consumia de uma maneira profunda, machucava a alma. Seu desespero era quase palpável. Rapidamente Victoria dobrou esse lado da página, ocultando esta última ilustração e calando o choro da mãe. Lágrimas insinuavam-se novamente nos olhos da mulher sentada na cama e os cantos da sua boca direcionavam-se para baixo, aliados a um beicinho bem sutil.
Algumas vezes na vida, temos de tomar decisões parecidas com a dela, não é mesmo? – falou, com a voz embargada, segurando minha mão.  – Onde todos saem perdendo.
 
A utilização foi um pouco tímida no início, por pura falta de prática. Ao me acostumar com os comandos simples de seleção de obras e de navegação pelo conteúdo, pude notar que o aparelho era prático e agradável aos olhos. Claro, eu nunca trocaria o bom e velho livro de papel por esse aparato, mas pensei nessa nova geração de leitores, uma garotada já nascida em meio ao ambiente totalmente informatizado. Para eles, seria supernatural utilizar um desses leitores eletrônicos para apreciação de obras literárias.

Ah, então foi por isso que eles estavam tão paradões no início da conversa, e desembestaram a falar repentinamente! Beleza! Foi muito divertido vir até aqui. Até mais, amigo. E foi isso! Bacana, né? Sempre que posso, pego um dos livros que ganhei na loja e leio um continho, imaginando o próprio escritor narrando o texto para mim. Você enxerga o livro de outra forma, quando conhece pessoalmente o autor da obra!

Antes de ir, gostaria de deixar três citações, para que elas sirvam de inspiração nos seus dias de agradável labuta literária:
“Uma vida não basta ser apenas vivida. Também precisa ser sonhada”.
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
“Não entre em pânico!”

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O advogado do diabo

West, Morris. O advogado do diabo. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro / RJ; 1963; 302 páginas.

Breve relato do autor:
 
Morris Langlo West foi um escritor australiano, filho de um caixeiro-viajante e de uma irlandesa católica. Formou-se em 1937 na Universidade de Melbourne e trabalhou muitos anos como professor. Passou 12 anos de sua vida em um mosteiro, mas não chegou a se ordenar padre. Em seus livros, West revela seus interesses no catolicismo romano, falando inclusive de muitos papas, e revela também um interesse na política internacional. Escreveu O advogado do diabo, As sandálias do pescador e mais 25 livros, além de peças de teatro e programas de rádio.
 
Dados da obra:

O advogado do diabo foi publicado em 1959 com uma adaptação cinematográfica produzida em 1978. Na trama, durante processo de canonização da Igreja Católica o advogado do diabo, padre que vai investigar a vida do suposto “santo”, visita uma cidade na região pobre do sul da Itália e descobre alguns problemas que poderiam impedir a canonização, mas pondera sobre o bem que poderia fazer para a comunidade. Por outro lado, sabendo que está prestes a morrer de uma doença muito grave, o padre enfrenta sérios conflitos pessoais para tomar a sua decisão.

Passagens:

Agora, estava sentado, ao sol, num banco de jardim, com o ar pleno de primavera e o futuro apenas uma breve, vazia perspectiva; a derramar-se na eternidade. Certa vez, em seus dias de estudante, ouviu um velho missionário pregar acerca da ressurreição de Lázaro: como Cristo se detivera diante do sepulcro selado e ordenara que o mesmo fosse aberto, para que o cheiro da podridão se desfizesse no ar parado e seco do verão; como Lázaro, atendendo ao chamado, saíra para fora, a tropeçar na mortalha, e ficara de pé, a piscar sob o sol. Que sentira ele naquele momento, indagara o velho? Que preço havia ele pago por aquela volta ao mundo dos vivos? Acaso continuou para sempre, depois, estropiado, de modo que cada rosa lhe cheirasse a podridão e cada jovem dourada lhe parecesse um esqueleto desengonçado? Ou caminhou cheio de deslumbramento diante da novidade das coisas o coração terno de piedade e amor pela família humana?

Olhando-os, Blaise Meredith sentiu-se tocado pela vaga nostalgia de um passado que jamais lhe pertencera. Que conhecera ele do amor exceto uma definição teológica e uma culpa sussurrada no confessionário? Que significado tinham os seus conselhos diante dessa franca, erótica comunhão, que, por disposição divina, era o começo da vida e a garantia da continuidade da espécie humana? Logo, talvez naquela mesma noite, aqueles dois corpos jazeriam juntos na pequena morte da qual surgiria uma nova vida – um novo corpo, uma nova alma. Mas Blaise Meredith dormiria sozinho, com todos os mistérios do universo reduzido a um silogismo escolástico dentro do seu crânio. Quem estava certo – ele ou eles? Quem se aproximava mais da perfeição do desígnio divino? Eugênio Marotta tinha razão. Ele se afastara do convívio da família humana. Aquelas duas criaturas arremetiam para a frente, a fim de renová-la, perpetuá-la.

Meredith sentiu-se comovido. O cru dilema em que se encontrava o homem era assustador. Pela primeira vez em sua vida sacerdotal, ele começou a compreender o problema real do arrependimento, o qual não é o problema do pecado em si, mas as consequências que proliferam dele, como parasitos numa árvore. A árvore não tem outro remédio senão continuar a alimentar o parasito, adquirindo beleza dele, mas, ao mesmo tempo, morrendo lentamente, à falta de um jardineiro esclarecido...

... – Aceitarei o “se” – respondeu Meredith, com tranquilo interesse. – Se não existe Deus, então o universo é um caos sem sentido algum. Vive-se nele tão longa e agradavelmente quanto se puder, tirando-se o melhor proveito dele. O senhor pode apanhar o seu Paolo e desfrutá-lo... se a polícia e os costumes sociais permitirem. Nada tenho a discutir com o senhor. Mas se existe um Deus – e creio que existe – então...

... Cristo fizera bispos e um Papa – mas jamais um cardeal. A própria palavra contém mais do que uma sugestão de ilusão: cardo, gonzo. Como se eles fossem os gonzos sobre os quais foram colocadas as portas do céu. Talvez pudessem ser gonzos, mas os gonzos eram metal inútil, a menos que firmemente gravados na estrutura viva da Igreja, cujas pedras eram os pobres, os humildes, os ignorantes, os que pecavam e os que amavam, os esquecidos dos príncipes, mas jamais os esquecidos de Deus.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Ensaio sobre a lucidez

Saramago, José. Ensaio sobre a Lucidez Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2004; 325 páginas.

Breve relato do autor:

José Saramago foi um escritor, argumentista, teatrólogo, ensaísta, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 e o Prêmio Camões.

Dados da obra:

O livro retoma personagens de “Ensaio sobre a cegueira”, como uma continuação deste. Numa manhã de votação que parecia como todas as outras, na capital de um país imaginário, verifica-se uma opção radical pelo voto em branco. Usando o símbolo máximo da democracia - o voto -, os eleitores parecem questionar profundamente o sistema de sucessão governamental em seu país.  A trama narra as providências de governo, polícia e imprensa para entender as razões da "epidemia branca" - ações estas que levam rapidamente a um devaneio autoritário -, o autor faz uma alegoria da fragilidade dos rituais democráticos, do sistema político e das instituições que nos governam.

Passagens:

Os títulos de abertura atraíam a atenção dos curiosos, eram enormes, garrafais, outros nas páginas inferiores, de tamanho normal, mas todos pareciam ter nascido da cabeça de um mesmo gênio da síntese titulativa, aquela que permite dispensar sem remorso a leitura da notícia que vem a seguir. Havia-os sentimentais como A Capital Amanheceu Órfã, irônicos como A Castanha Rebentou Na Boca Dos Provocadores ou O Voto Branco Saiu-Lhes Preto, pedagógicos como O Estado Dá Uma Lição À Capital Insurrecta, vingativos como Chegou A Hora do Ajuste De Contas, proféticos como Tudo Será Diferente A Partir De Agora ou A Partir De Agora Nada Será Igual, alarmistas como A Anarquia À Espreita ou Movimentações Suspeitas Na Fronteira, retóricos como Um Discurso Histórico Para Um Momento Histórico, bajuladores como A Dignidade Do Presidente Desafia A Cidade, objectivos como A Retirada Dos órgãos De Poder Fez-Se Sem Incidentes, radicais como A Câmara Municipal Deve Assumir Toda A Autoridade, tácticos como A Solução Está Na Tradição Municipalista. Referências à estrela maravilhosa, a dos vinte e sete braços de luz, foram poucas e mesmo essas metidas a trouxe-mouxe no meio das notícias, sem a graça atractiva de um título, ainda que fosse irônico, ainda que fosse sarcástico, do gênero E Ainda Se Queixam De Que A Electricidade Está Cara.

O editorial foi lido, a rádio repetiu as passagens principais, a televisão entrevistou o director, e nisto se estava quando, meio-dia exacto era, de todas as casas da cidade saíram mulheres armadas de vassouras, baldes e pás, e, sem uma palavra, começaram a varrer as testadas dos prédios em que viviam, desde a porta até o meio da rua, onde se encontravam com outras mulheres que, do outro lado, para o mesmo fim e com as mesmas armas, haviam descido. Afiram os dicionários que a testada é a parte de uma rua ou estrada que fica à frente de um prédio, e nada há de mais certo, mas também dizem, dizem-no pelo menos alguns, que varrer a sua testada significa afastar de si alguma responsabilidade ou culpa. Grande engano o vosso, senhores filólogos e lexicólogos distraídos, varrer a sua testada começou ser precisamente o que estão a fazer agora estas mulheres da capital, como no passado também o haviam feito, nas aldeias, as suas mães e avós, e não o faziam elas, como o não fazem estas, para afastar de si uma responsabilidade, mas para assumi-la. Possivelmente foi pela mesma razão que ao terceiro dia saíram à rua os trabalhadores de limpeza. Não traziam uniformes, vestiam à civil. Disseram que os uniformes é que estavam em greve, não eles.

É interessante como levamos todos os dias da vida a despedir-nos, dizendo e ouvindo dizer até amanhã, e, fatalmente, em um desses dias, o que foi último para alguém, ou já não está aquele a quem o dissemos, ou já não estamos nós que o tínhamos dito. Veremos se neste amanhã de hoje, a que também costumamos chamar o dia seguinte, encontrando-se uma vez mais o presidente da câmara e o seu motorista particular, serão eles capazes de compreender até que ponto é extraordinário, até que ponto foi quase um milagre terem dito até amanhã e verem que se cumpriu com certeza o que não havia sido mais que uma problemática possibilidade.

Brancoso fui, brancoso não serei, que me perdoe a pátria, que me perdoe o rei.

... Tem de haver uma cabeça, isto não são movimentos que se organizem por si mesmos, a geração espontânea não existe, e muito menos em acções de massa com esta envergadura, Não tinha sucedido até hoje, Quer então dizer que não acredita que tenha sido espontâneo o movimento do voto em branco, É abusivo pretender inferir uma coisa da outra, Tenho a impressão de que sabe muito mais deste assunto do que quer fazer parecer, Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos...

O que o senhor primeiro-ministro crê, pelos vistos, é algo parecido à ideia de que o que faz que a morte exista é o nome que tem, que as coisas não têm existência real se não tivermos um nome para lhes dar, Há inúmeras coisas de que desconheço o nome, animais, vegetais, instrumentos e aparelhos de todas as formas e tamanhos e para todas as serventias, Mas sabe que o têm, e isso dá-lhe tranquilidade. Estamos a afastar-nos do assunto, Sim senhor primeiro-ministro, afastamo-nos do assunto, eu só disse que há quatro anos estivemos cegos e agora digo que provavelmente cegos continuamos.

Neste caso, permita-me que o interrompa, senhor primeiro-ministro, quero que fique claro que a responsabilidade das mudanças de lugar e de sentido das minhas é unicamente sua, eu não meti para aí prego nem estopa, Digamos que pões a estopa e eu contribuí com o prego, e que a estopa e o prego juntos me autorizam a afirmar que o voto em branco é uma manifestação de cegueira tão destrutivo como a outra, Ou de lucidez, disse o ministro da justiça, Quê, perguntou o ministro do interior, que julgou ter ouvido mal, Disse que o voto em branco poderia ser apreciado como uma manifestação de lucidez por parte de quem o usou.

... E não tem medo de que o café que lhe vou trazer seja já um passo no caminho da corrupção, Lembro-me de lhe ter ouvido que isso só acontece ao terceiro café, Não, o que eu disse é que com o terceiro café fica consumado de vez o processo corruptor, o primeiro abriu a porta, o segundo segurou-a para que o aspirante à corrupção entrasse sem tropeçar, o terceiro fechou-a definitivamente, ...

... Olhava-me simplesmente a direito, de frente, com o seu único olho, como se estivesse a ver-me por dentro, Ilusão sua, Não senhor comissário, a partir de agora fiquei a saber que um olho vê melhor que dois porque, não tendo o outro para o ajudar, terá de fazer o trabalho todo, Talvez seja por isso que se diz que na terra dos cegos quem tem um olho é rei ...

... Posso fazer uma pergunta, albatroz, Faça-a que eu responderei, papagaio-do-mar, sempre fui bom a dar respostas, Que acontecerá se não se encontrarem provas da culpabilidade, O mesmo que aconteceria se não se encontrassem provas da inocência, Como devo entendê-lo, albatroz, Que há casos em que a sentença já está escrita antes do crime...

... Uma quadrilha é um grupo, Sim, albatroz, mas nem todos os grupos são quadrilhas.

Por que está a fazer isto por nós, por que nos ajuda, Simplesmente por causa de uma pequena frase que encontrei num livro, há muitos anos, e de que me tinha esquecido, mas que me regressou à memória num destes dias, Que frase, Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim...

Desculpe a rudeza da pergunta, quem é o senhor, O meu nome está aí a assinar a carta, Sim, bem vejo, há aqui um nome, mas um nome não é mais que uma palavra, não explica nada sobre quem é a pessoa.

... É como a vida, minha filha, começa não se sabe para quê e termina não se sabe porque...