quarta-feira, 30 de abril de 2014

Províncias – Crônicas da Alma Interiorana

Canellas, Marcelo. Províncias – Crônicas da Alma Interiorana. Editora Globo. São Paulo / SP; 2013; 224 páginas.

Breve relato do autor:

Marcelo Canellas é um jornalista brasileiro que iniciou sua carreira profissional como repórter de polícia, no jornal A Razão. Pouco tempo depois, fez um teste e foi contratado pela afiliada da Rede Brasil Sul de Comunicação (RBS) de Santa Maria. No telejornal local, trabalhou na criação de pautas, na produção e na edição.

Dados da obra:

Com uma trajetória de mais de 25 anos como repórter, rodando pelo mundo, Marcelo Canellas testemunhou diversos fatos da nossa história, mas carregando sempre consigo aquela alma interiorana do Rio Grande do Sul. No livro ele reúne 70 crônicas curtas em que a cidade transparece nos mais inusitados lugares em que esteve fazendo reportagens.

Passagens:

Tudo era mais demorado, mais difícil, mais trabalhoso. Então por que mal engolimos o almoço? Então por que estamos sempre atrasados? Então por que ninguém mais bota cadeiras na calçada? Alguém pode me explicar onde foi parar o tempo que ganhamos?

Só consigo me orientar caminhando. Cidades são decifradas a pé. Zanzo a esmo quando quero entendê-las ou, ao menos, fazer o meu próprio retrato de um recanto urbano. E sou detalhista, me embrenho nos becos, subo ladeiras, corto terrenos baldios, sigo gatos e cães vadios, meus guias involuntários nas trilhas aleatórias que desenho.

Livre, o guri faminto se aproxima. Preso, o elefante saciado espera. Então, o moleque estica o braço, tromba de menino. O bicho estende a tromba, braço de elefante. Os dois se tocam com curiosidade e ternura mútua. O guri pensa ouvir uns muxoxos muito humanos do hálito irracional que emana da jaula. Afinidade inexplicável. Espiritual?

Mas, quando nos aproximamos, serpenteando em volta do morro, a casa vai assumir seu tamanho real. Ou talvez seja mesmo ínfima, já que as crianças aumentam tudo. Partimos. O motorista zanzou serra acima, serra abaixo. Varri o olhar pelo morro inteiro. A casinha estava mais escondida do que nunca. Ou será que foi demolida? Ou será que nunca existiu? Só então fui tomado pelo assombro de uma súbita revelação: cheguei atrasado. Olhei pelo retrovisor o reflexo da placa indicando o impossível caminho: CASINHA ESCONDIDA: ENTRAR TRINTA ANOS ATRÁS.

De cabeça quente, fui tentar dormir, mas não consegui. Fiquei pensando em gatinhos com frio e com fome. Levantei, peguei o conta-gotas e fui ao galinheiro. Entre ninhos e poleiros e com os bichinhos no colo, achei que ovo demais pode aumentar a minha taxa de colesterol. O que é que têm os gatos que nos humaniza tanto?

Olhar as placas é uma diversão. Saio da BR-232 e entro em Vitória do Santo Antão. No entroncamento, encontro a indicação para Paudalho. Mais adiante, as setas para Chã de Alegria, Carpina, Lagoa de Itaenga e Glória do Goitá. Paudalho é a compactação de pau-d´alho, imagino, árvore comum na zona da mata pernambucana. Chã é palavra que não se usa mais, sinônimo para planície ou platô, e que torno a ver em outra placa grafada como Chan, de um português arcaico teimosamente vivo também no falar dos lavradores. Quando pergunto como chego a Glória do Goitá, uma senhora de mil anos, curvada ao peso de uma enxada de mil quilos, aponta para a subida íngreme de chã batido.
– Mecê arribe acolá.

Guardo comigo, dentro de um livro, a foto do homem da floresta. Sempre que acho que a cidade me oprime, que a humanidade está desamparada, que os justos estão perdendo a guerra pela decência e pela equidade, abro o livro e vejo a face borrada do homem da floresta olhando para cima, intuindo todos os tormentos dos quais está livre na prisão verde de sua solidão.

Foi num bistrô de esquina. Comida boa. Depois do jantar, eu pedi um pudim de pão. Não sabia o porquê. Adoro pudim de pão, mas tem que ser de leite, maciço e cremoso. Areado, nunca. Então o que me atraiu na sobremesa esdrúxula do cardápio? A primeira colherada aclarou tudo: aquele era o pudim do trem Húngaro. No meio do restaurante, ouvi o apito, aspirei o cheiro de fumaça, senti o reclinar da poltrona acolchoada. Em meu devaneio, vi o tapete do restaurante virar trilho e dormente. O garçom já era o bilheteiro. No quepe achatado, a sigla: RFFSA.

O mar de Pernambuco, cálido e translúcido, é o mar de um outro mundo, cuja perfeição de cor e temperatura sempre foi o contraponto irreal do mar feioso e barrento de minha infância, o mar gelado do Rio Grande do Sul, sem baías nem enseadas, litoral rabiscado em linha reta num cochilo de Deus, que tanto se esmerara em esculpir reentrâncias do Pará a Santa Catarina, mas que optara pela monotonia da costa gaúcha, para, não sei por que castigo, só voltar à graça das curvas em território cisplatino.

Prosear à toa é uma instituição brasileira. A deliciosa expressão “jogar conversa fora” presume um traço cultural de nosso povo, mas, ao contrário do caráter descartável que ela exprime, bate-papos despretensiosos costumam sanear grandes pendências pessoais e coletivas. Cadeiras na calçada são como divãs interioranos. Fala-se de tudo, e para tudo há remédio, seja em caso de dor de amor seja de pedra nos rins.

Meu objeto de desejo pôde, enfim, encontrar sossego, escorando um Simões Lopes Neto na prateleira dos meus autores prediletos, o que, aliás, acabou dando razão à Maria. A chaleira é velha o suficiente para ter aquentado a água do chimarrão do vaqueano Blau Nunes. Antes que o leitor reclame de mais uma de minha bobagem, eu peço a condescendência de uma licença poética: todos os personagens inventados pelos gênios da literatura são reais. E se Blau toma chimarrão, é numa chaleira igual à minha.

Quando estou numa cidade estranha, gosto de caminhar a esmo. O acaso é um cicerone engenhoso. De vez em quando, ele me leva a uma praça, belo presente fortuito. Praças dizem muito sobre uma cidade. Se estão limpas, com um jardinzinho florido, então se vê que a vizinhança é saudável, que as pessoas não perderam o viço da convivência.

A província tem cheiro de carne de panela, de café feito no bule, de bolinho frito na banha. A província é feita de gentilezas, cumprimentos e afeições, por desconhecidos que se tornam íntimos de tanto se cruzar na rua a caminho do trabalho. Aqui o medo não invade a minha casa como um trem de passageiros desgovernado. Trem? Mas que tolice a minha, as cidades cresceram e acabaram com os seus trens de passageiros. Não na minha crônica provinciana. Aqui, ainda estou na gare da vila, à espera da locomotiva. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O oceano no fim do caminho

Gaiman, Neil. O oceano no fim do caminho. Intrínseca. Rio de Janeiro / RJ; 2013; 208 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Neil Gaiman é um escritor inglês de romances e quadrinhos, autor da conhecida série em HQ Sandman.
 
Dados da obra:
 
O livro é sobre um homem e suas lembranças de infância. Mas mais do que as aventuras de um garotinho de sete anos, é sobre amizade, confiança e mudanças, e a forma como vemos o mundo. O olhar de uma criança sobre o mundo adulto.
 
Passagens:
 
Eu me lembro perfeitamente da minha infância... Eu sabia de coisas terríveis. Mas tinha consciência de que não deveria deixar que os adultos descobrissem que eu sabia. Eles ficariam horrorizados.
(Maurice Sendak, em conversa com Art Spielgman, na edição de 27 de setembro de 1993 da revista The New Yorker).
 
... Eu já estivera ali, não estivera, muito tempo atrás? Tinha certeza que sim. As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois, como brinquedos antigos esquecidos no fundo do armário abarrotado de um adulto, mas nunca se perdem por completo...
 
Quando envelhecemos, ficamos iguais aos nossos pais; viva o suficiente e verá os rostos se repetirem com o tempo. Eu me lembrava da sra. Hempstock, mãe da Lettie, como uma mulher corpulenta. A senhora na minha frente era magra, franzina e tinha uma aparência frágil. Era igual à mãe dela, que eu conhecera como a velha sra. Hempstock.
Às vezes, quando me olho no espelho, vejo o rosto do meu pai, não o meu, e me lembro do jeito como ele sorria sozinho, diante do espelho, antes de sair de casa. “Que bela figura”, dizia ao próprio reflexo, a título de aprovação. “Que bela figura”.
 
... Estava triste por ninguém ter ido à minha festa, mas feliz por ganhar um boneco do Batman, e ainda havia um presente de aniversário esperando para ser lido: a coleção completa de As crônicas de Nárnia, que levei para o meu quarto. Deitei na cama e me perdi nas histórias.
 
Em casa, meu pai comia todas as torradas mais queimadas. “Humm!”, dizia. “Carvão! Bom para a saúde!”, “Torrada queimada” Minha preferida!”, e devorava tudo. Quando eu já era bem mais velho, ele me confessou que jamais gostou de torrada queimada, só comia para não desperdiçar, e, por uma fração de segundo, minha infância inteira pareceu uma grande mentira: foi como se um dos pilares de fé sobre os quais meu mundo fora erigido tivesse se desfeito em pó.
 
– Sinto muito – lamentou Lettie. Nós andávamos sob um dossel de macieiras em flor, e o mundo cheirava a mel.  – Esse é o problema das coisas vivas. Não duram muito. Gatinhos num dia, gatos velhos no outro. E depois ficam só as lembranças. E as lembranças desvanecem e se confundem, viram borrões...
 
Crianças pequenas acham que são deuses, ou pelo menos algumas acreditam nisso e só ficam satisfeitas quando o resto do mundo concorda com seu jeito de ver as coisas. Eu adorava mitos. Não eram histórias para adultos e não eram histórias para crianças. Eram melhores que isso. Simplesmente eram.
 
Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos por seguir o mesmo trajeto, centenas de vezes, ou milhares, talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos, rastejar por baixo dos rododendros, encontrar os vãos entre as cercas. Eu era criança, o que significa que conhecia dezenas de modos diferentes de sair do nosso terreno e ir para a rua, modos que não incluíam descer pela entrada de carros na frente da casa.
 
A mão de Lettie Hempstock na minha me deu um pouco de coragem. Mas Lettie era só uma menina, mesmo sendo grande, mesmo tendo onze anos, mesmo tendo onze anos havia muito tempo. Ursula Monkton era adulta. Não importava, naquele momento, o fato de ela ser cada monstro, cada bruxa, cada pesadelo personificado. Ela era adulta, e, quando os adultos entram em guerra com as crianças, eles sempre vencem.
 
Ela chorava e aquilo me deixou constrangido. Eu não sabia o que fazer quando os adultos choravam. Era algo que eu só tinha visto duas vezes na vida: eu vi meus avós chorarem quando minha tia morreu, no hospital, e vi minha mãe chorar. Eu sabia que adultos não deveriam chorar. Eles não tinham mães que os consolassem.
 
Lettie Hempstock parecia feita de seda branca e chamas de velas. Fiquei me perguntando qual seria minha aparência aos olhos dela, naquele lugar, e soube que mesmo estando num lugar que era só conhecimento, aquela era a única coisa que eu não saberia. Se eu olhasse para dentro só veria espelhos infinitos, olhando para o meu interior por toda a eternidade.
 
Eu era uma criança normal. O que significa dizer que eu era egoísta e não estava totalmente convencido da existência de coisas que não eram eu, e tinha certeza, uma certeza sólida e inabalável, de que eu era a coisa mais importante da criação. Não havia nada mais importante para mim do que eu.
 
Quão longe cheguei? Não muito, imagino, numa situação dessas, Lettie Hempstock gritava para eu parar, mas mesmo assim, eu corri e atravessei o terreno da fazenda, onde cada folha de grama, cada pedra na estrada, cada salgueiro-chorão e cerca de aveleiras cintilava de dourado e eu corri em direção à escuridão além do terreno. Corri e me odiei por correr, do mesmo jeito que me odiei da vez que pulei do trampolim mais alto da piscina. Sabia que não tinha volta, que não havia outro jeito de aquilo acabar senão em dor, e sabia que daria minha vida pelo mundo.
 
Um lampejo de ressentimento. Já é difícil o bastante estar vivo, tentando sobreviver no mundo e encontrar o seu lugar nele, fazer as coisas de que se precisa para seguir em frente, sem se perguntar se aquilo que você acabou de fazer, o que quer que tenha sido, foi o suficiente para a pessoa que, se não morrera, desistira da própria vida. Não era justo.
– A vida não é justa – comentou Ginnie, como se eu tivesse dito aquilo em voz alta.
A velha sra. Hempstock deu de ombros.

– O que você lembrou? Provavelmente. Mais ou menos. Pessoas diferentes se lembram das coisas de jeitos diferentes, e você nunca vai ver duas pessoas se lembrando de uma coisa da mesma forma, estivessem elas juntas ou não. Se elas estiverem uma ao lado da outra ou do outro lado do mundo, isso não faz a menor diferença.

segunda-feira, 31 de março de 2014

A máquina de Joseph Walser

Tavares, Gonçalo. A máquina de Joseph Walser. Companhia das Letras. São Paulo / SP; 2010; 163 páginas. 
 
Breve relato do autor:
 
Gonçalo M. Tavares é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.
 
Dados da obra:
 
É o segundo romance da série O Reino. O pacato funcionário Joseph Walser leva uma vida previsível, enquadrada pelos movimentos repetitivos da máquina industrial que opera. Entretanto, Walser tem uma paixão secreta - a enorme coleção que mantém fechada à chave, protegida até mesmo dos olhares de Margha, sua calada mulher.
 
Passagens:
 
A felicidade foi já reduzida a um sistema que as máquinas entendem, e no qual podem participar e intervir. Já nenhuma felicidade individual é independente da tecnologia, amigo Walser. Se quiser números podemos brincar aos números: a felicidade individual de um dia depende, vá lá, 70% da eficácia material das máquinas. Que a felicidade invisível esteja submetida a uma felicidade concreta, a uma felicidade de materiais em diálogo, de peças metálicas que encaixam um nas outras e resolvem problemas fazendo determinadas tarefas; pode parecer estranho, mas é o século.
Ser feliz já não depende de coisas que vulgarmente associamos a palavra Espírito. Depende de matérias concretas. A felicidade humana é um mecanismo.
 
Atenção exacta resuma assim o que era necessário para o ofício de Joseph Walser: ser um animal perfeito, um animal não animalesco, não imprevisível, um organismo sem flutuações, um organismo que conseguisse manter-se idêntico, imitável, durante todo o tempo em que estivesse defronte da máquina. Porque aquela máquina exigia a cada um dos funcionários um conjunto de gestos determinados, repetidos, e de sequência constante. Qualquer desvio ao gesto exacto, ao gesto decorrente da atenção exacta exigida, qualquer desvio teria como consequência uma perturbação na eficácia d máquina e portanto uma menor uma menor produção, ou mesmo uma avaria.
 
Joseph Walser sentia-se de facto, observado por ela, pela “sua” máquina. Eram para ele claras as hierarquias das duas existências: a maquina era uma hierarquia superior: poderia salvá-lo ou destruí-lo; poderia fazer a sua vida repetir-se, quase infinitamente, ou poderia, pelo contrário, de um momento para o outro, provocar uma alteração súbita nos seus dias. Joseph Walser nunca percebia melhor o seu papel de empregado, a sua existência subserviente em relação ao exterior do que em frente à máquina, em plena execução do seu ofício. A subserviência que se poderia notar nele face ao encarregado Klober era perfeitamente insignificante quando comparada com a que exibia no seu trabalho, encostado à máquina, abraçando-a ou combatendo-a (de acordo com o ponto de vista). Nunca o exterior o dominava tanto, nunca a sua energia se dirigia para fora como nessa situação.
 
Não era da guerra, há muito havia decidido manter-se neutro. O exército já entrara na cidade, mas tal não era um assunto seu. Via a guerra como uma ciência que não dominava: não percebia o que era, não entendia os métodos, as estratégias, as formas de calcular. Não devo falar do que não entendo, dizia a si próprio Walser, muito menos devo agir sob re o que não entendo. Deve assistir-se aquilo que não se entende. Apenas.
 
A maldade é uma categoria do raciocínio. Não é uma invenção sobrenatural, nem cresce a partir de substâncias inscritas nos vegetais comestíveis. A maldade é uma categoria do instinto sim, mas também do raciocínio, da inteligência. Como se fosse uma etapa do percurso que o cérebro matemático faz quando pretende resolver problemas numéricos. Dedução, indução e maldade.
 
... Enquanto a sombra repetir no chão o teu corpo inteiro eis que te encontras vivo e completo.
 
Joseph Walser envelhece, mas mantém a adoração pela “sua” máquina de trabalho e por todos os mecanismos. Em diversos momentos o som do motor e o seu trepidar confundem-se com o bater cardíaco, pois ambos os “órgãos” estão em pleno funcionamento, em plena excitação e encostados um ao outro misturam-se, provocando em Walser, por vezes, sobressaltos ridículos quando, a horas certas, às horas exactamente planeadas, o motor da máquina subitamente cessa. É aí que Walser percebe a ligação que existe entre o seu corpo e a máquina. O cessar repentino provoca na sua pele um frio instantâneo, uma sensação rápida e tão desagradável que o faz, por exemplo, procurar em livros científicos a descrição pormenorizada do que sentem alguém quando o coração falha. Walser tenta perceber se a separação brutal entre o funcionamento do motor da máquina não é algo semelhante à separação entre o coração de um homem e esse mesmo homem. Tinha lido que um ataque cardíaco não mortífero era relatado assim: o órgão afasta-se de nós, a grande velocidade... mas depois regressa.
 
O coração afasta-se do resto do corpo. Afasta-se, esta palavra era o fundamental. Havia uma distância percorrida nos acidentes cardíacos, uma distância percorrida internamente: um dos órgãos essenciais afastava-se, caminhava no sentido oposto ao resto do corpo. E era isso que Walser sentia quando estava excitado e engolido pelo funcionamento da sua máquina e esta parava de repente; e parava não por uma razão obscura, não por algo que merecesse raciocínio para ser compreendido, parava simplesmente porque eram doze horas, e às dozes horas o motor de cada máquina era desligado na central da fábrica.
 
A coleção tornara-se uma obsessão tal que, mal Walser via uma peça metálica com as condições exigidas, não desligava a sua atenção, que se poderia designar como predadora (atenção predadora, de caça). Não a desligava até conseguir um momento de desatenção dos outros que lhe permitisse pegar na peça ou roubá-la (poderá utilizar-se esta palavra, pois era isso que sucedia).
 
Cada acontecimento individual poderia assim ser, não reduzido mas assemelhado – era o sinal de igual, de idêntico, e não um diminuição, não um roubo, poderia ser assemelhado então a um somatório de gestos, tal como uma máquina, por mais complexa que fosse, e por mais espantosas que fossem as suas ações, não deixava de ser um somatório de peças que sob determinadas circunstâncias agiam. Ele não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação as máquinas. Conseguir distanciar-se do mecanismo que o constitui não faz o mecanismo deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório simples. Era o sinal mais que predominava em qualquer ser vivo, e a morte era espantosamente assustadora precisamente porque representava a interrupção abrupta de um somatório que, a certa altura, todos eram levados a pensar ser interminável. Como se cada um, a dado momento, considerasse o seu corpo, por outras palavras: um somatório imortal de comportamentos. Ninguém, neste século, depois de sucessivas gerações terem desaparecido – e mesmo em plena guerra, onde a morte era mais visível que nunca –, deixava ainda de ser surpreendido (estava disso convencido Walser) pela sua própria morte. Somos sempre surpreendidos! Como se nos considerássemos no direito, depois de tantos dias de existência, de não sermos interrompidos; no direito, no fundo, de pertencermos a uma outra espécie, à tal espécie interminável. Mas de uma eternidade individual, aqui se trata, de uma eternidade com o nosso nome, que se fixa na nossa existência.
 
Agir com um sentido importante era a normalidade do tempo de guerra e a preguiça era o seu oposto. Ver alguém a não fazer nada e não querer fazer nada causaria tanta estranheza e, provavelmente, tanto repúdio como ver em pleno jardim, na Primavera, um louco a repetir movimentos bruscos e acelerados: arrancando flores com violência, pisando canteiros, abrindo buracos na terra com os dedos. Em tempos de grande intensidade alguém que não soubesse para onde caminhava ou para que fazia aquilo que fazia, estaria louco pois estaria abstraído dos acontecimentos. Afundar-se no mundo abstracto em períodos de guerra – momento absoluto do concreto, da matéria e das forças que chocam e combatem – era o mais violento dos actos. Talvez mesmo o mais imoral.
 
... E, meu amigo, não poderia ter existido maior exactidão na sua máquina: em plena guerra, o que é que ela lhe fez, a sua máquina? Apenas isto: levou-lhe o dedo mais útil, o que dispara, o dedo que faz a última contracção antes de alguém à sua frente desaparecer. Troçaram de si, meu caro. Devemos recear as máquinas, já lhe tinha falado isto. Elas são demasiado exactas na maldade. Nunca conseguiremos fazer igual.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Castelo


Kafka, Franz. O Castelo. Livros do Brasil. Castelo Branco / Portugal; 1946; 406 páginas.

Breve relato do autor:

Franz Kafka foi um dos maiores escritores de ficção do século XX. De origem judaica, ele nasceu em Praga, Áustria-Hungria (atual República Checa), e escrevia em língua alemã. O conjunto de seus textos— na maioria incompletos e publicados postumamente — situa-se entre os mais influentes da literatura ocidental.

Dados da obra:

Escrito durante cerca de seis meses em 1922, O Castelo foi lançado somente depois da morte de Kafka. O livro consiste na história de um agrimensor chamado K. que é chamado por um conde de um local não especificado para prestar seus serviços. Contudo, por mais que tente, não consegue entrar no castelo, ficando na vila de fora do castelo ao longo da narração. Os monólogos do livro são vários (o livro possui mais de 400 páginas) e as personagens muitas vezes desmentem-se ou mostram variadas interpretações de um mesmo fato, o que provoca um clima de confusão ou simples falta de informação. As interpretações do livro são muitas, desde simplesmente uma crítica à burocracia estatal até uma visão religiosa, mais especificamente judaica. Há também uma visão psicológica dizendo que o castelo seria o inconsciente de K. e a vila sua consciência.

Passagens:

... E agora o senhor: quem é o senhor, junto de quem tão humildemente lutamos por conseguir a anuência a um pedido de casamento? O senhor não é do Castelo, o senhor não é da aldeia, o senhor não é nada! Mas, infelizmente, o senhor é alguma coisa: um estrangeiro; alguém que está a mais; um empecilho a estorvar todos os caminhos: alguém que está sempre a causar-me maçadas e nos obriga a desalojar as crianças; alguém que veio seduzir a nossa pequena Frieda muito amada e a quem agora, infelizmente, nós a temos de dar em casamento.

– Minha senhora – disse K. –, não entendo porque é que a senhor se humilha, e só por uma coisa destas, ao ponto de me dirigir rogos. Se, como diz, é de todo em todo impossível eu falar com Klamm, então não o conseguirei mesmo, quer me dirijam rogos quer não. Mas dado o caso de ser possível eu falar com ele: porque o não hei-de fazer? Tanto mais que, firmada nesse caso a sua principal objeção, todos os seus outros receios se tornam duvidosos. Concedo que sou ignorante, é uma verdade que, em todo o caso, permanece válida, o que já jê bem triste para mim; mas também tem uma vantagem: quem ignora ousa mais – e por isso estou disposto a suportar de bom grado por mais algum tempo, até onde as forças me chegarem, o fardo da minha ignorância com todo o rol das suas consequências, bem más por certo.

 – O senhor é rigoroso – disse o regedor. – Mas multiplique por mil o seu rigor e o resultado ainda não será nada em comparação com o rigor que as autoridades se impõem a si mesmas. Só um estrangeiro como o senhor pode fazer uma pergunta dessas. Se existem órgãos de fiscalização? Mas se só existem órgãos de fiscalização! A sua finalidade, porém, não é descobrir erros no sentido grosseiro da palavra, pois erros é algo que não ocorre nunca, e mesmo quando ocorre, como no seu caso, quem é que se pode arrogar o direito de afirmar em definitivo que se trata, realmente de um erro?

Ainda não teria dado dois passos na estrada quando viu duas luzinhas vacilarem ao longe; trouxe-lhe alegria aquele sinal de vida, e ele foi ao encontro delas, assim como elas, por sua vez, vinham flutuando ao encontro dele. Não soube explicar o seu desapontamento ao reconhecer os ajudantes. Pois não vinham eles ao seu encontro, enviados provavelmente, por Frieda? E não eram dele aquelas lanternas que o vinham salvar da escuridão agressivamente ululante à sua volta? Apesar disso, ficara decepcionado: esperara estranhos, sim, não aqueles seus velhos conhecidos que lhe eram um fardo. Mas não eram só os ajudantes: de entre eles, da escuridão, surgiu Barnabás.

... o fato de ela ter perguntado por K. não significava que fosse uma exceção à regra: pelo contrário, justamente ao mencioná-lo, tivera ela oportunidade de exprimir o desejo de o ver; não o fizera, porém, e dera assim a entender claramente a sua vontade. Ela queria apenas ouvir falar dele, não falar com ele.

... Barnabás é recebido normalmente numa grande sala de chancelaria; mas não é a chancelaria de Klamm, nem é sequer a chancelaria de um só funcionário. Acha-se dividida em duas partes, a todo o comprimento, por uma estante de uma só peça, que vai de parede a parede: numa parte estreita em que duas pessoas mal podem passar uma pela outra, é o espaço reservado aos funcionários, e numa outra larga, é o espaço destinado às partes em litígio, aos espectadores, aos criados, aos mensageiros. Sobre essa estante há grandes livros aberto, um a seguir ao outro, e diante da maior parte deles estão postados funcionários e leem. Mas não ficam sempre diante do mesmo livro, mudam, porém, não os livros mas os lugares, e é esta mudança de lugares o que mais espanta Barnabás, eles apertam-se então muito ao passarem uns pelos outros, justamente por causa da estreiteza do espaço. À frente, rente à estante, há mesinhas baixas, sentados a elas estão escrivães que escrevem o que os funcionários lhes ditam quando estes assim o desejam.

... Sem dúvida, este estar parado inutilmente, este esperar inutilmente, dia após dia, e o eterno recomeçar, sem nunca ver esboçar-se uma mudança, isto arrasa os nervos, torna as pessoas céticas e incapazes, por fim.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Malagueta, Perus e Bacanaço

Antonio, João. Malagueta, Perus e Bacanaço. Cosac Naify. São Paulo / SP; 2004; 222 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
João Antonio foi um jornalista e escritor paulistano, criador do conto-reportagem no jornalismo brasileiro, que se tornou conhecido por retratar os proletários e marginais que habitam as periferias das grandes cidades.
 
Dados da obra:
 
Publicado em 1963, o livro atingiu imediatamente sucesso de público e crítica. Recebeu inúmeros prêmios, entre eles o Prêmio Jabuti, nas categorias "Revelação" e "Melhor livro de contos", e o Prêmio Fabio Prado. É o primeiro livro do autor e trata de um conto longo, dividido em seis partes que recebem os nomes dos locais por onde passam os personagens: Lapa, Água Branca, Barra Funda, Cidade, Pinheiros e, por último, e de novo, Lapa. A narrativa transcorre em uma única noite, num bar, no velho salão de sinuca onde se encontram os três parceiros.
 
Passagens:
 
Andando tão devagar. Procurava alguma coisa na tarde. O vento esfriou. Não sabia bem o que, era um vazio tremendo. Mas estava procurando. Os ônibus passavam carregando gente que volta do cinema. Para essa gente de subúrbio mesquinho, semana brava suada nas filas, nas conduções cheias, difíceis, cinema à tarde, pelo domingo, me grande coisa. Viaja-se encolhido, apertado. Os ônibus se enchem.
 
... Parece-me que procurava conversa, por causa dum Huxley que viu repousando nos meus joelhos. Eu, Huxley e tampinhas somos coincidências. Que se encontraram e que se dão bem. Perguntou o que eu fazia na vida. A pergunta veio com jeito, boas palavras, delicada, talvez não querendo ofender o silêncio em que eu me fechava. Quase respondi...
– Olhe: sou um cara que trabalho muito mal. Assobia sambas de Noel com alguma bossa. Agora, minha especialidade, meu gosto, meu jeito mesmo, é chutar tampinhas de rua. Não conheço chutador mais fino.
 
Quem poderia entender aquele homem?
Agora a caminho da subsistência. À Lapa, buscar pão e carne na subsistência, viagem de todas as manhãs. Eu gostava do volante, adorava o volante. E mais, gostava daquelas idas à Lapa, porque me deixavam sozinho, atravessando a cidade toda, todinha. E bairros, e bairro, lá ia eu, Santa Cecília, Perdizes, Pompéia, ia tão contente no caminhão, que o caminhão parecia meu.
 
Quis seguir estrada, o atalho me surpreendeu. Uns dez minutos e estaria na vila. Sapos nas pocinhas das beirada do campo de futebol. Até há pouco, aquilo era do futebol da molecada. Indústrias querem surgir acompanhando a estrada de ferro, acompanhando tudo, provavelmente serão usinas de concreto. Várzea escura, breu. Meu pai disse-me que, quando menino na Europa, transpunha vales escuros, para pastoreio, onde lobos uivavam. Aqui há mosquitos e fartum do curtume próximo. Luzes ao longe, luzes da serraria. Posso caminhar olhando-as. Ás vezes, faço de conta que são guias, que eu sigo para alcançar a vila. Pena não encontrar Carlinhos, não estaria tateando este breu.
 
Ó Deus, como... por que é que certos tipos se metiam a jogar o joguinho? Meus olhos se entristeciam, meus olhos gozavam. Mas havendo entusiasmo, minha vida ferveu. Conheci vadios e vadias. Dei-me com toda a canalha. Aos catorze, num cortiço da Lapa-de-baixo conheci a primeira mina. Mulatinha, empregadinha, quente. Ela gostava da minha charla, a gente se entendia. Eu me lembro muito bem. Ás quintas-feiras, quatro pancadas secas na porta. Duas a duas.
 
Estavam os três quebrados, quebradinhos. Mas imaginavam marotagens, concluios, façanhas, brigas, fugas, prisões – retratos no jornal e todo o resto –, safadezas, tramoias; arregos bem arrumados com caguetes, trampolinagens, armações de jogos que lhes dariam um tufo de dinheiro; patrões caros aos quais fariam marmelo, traição; imaginavam jogos longínquos, lá pelos longes dos subúrbios, naquelas bocas do inferno nem sabidas pela polícia; principalmente imaginavam jogos caros, parceirinhos fáceis, que deixariam falidos, de pernas para o ar. E em pensamento funcionavam. E os três comendo as bolas, fintando, ganhando, beliscando, furtando, quebrando, entortando, mordendo, estraçalando...
 
O Mova para Cornélio e uma quina para Bacanaço. E os três iriam firmes, à grande e de enfiada, afiados como piranhas. Bacanaço chefiando. Vasculhariam todos os muquinfos, rodariam Água Branca, Pompeia, Pinheiros, Mooca, Penha, Limão, Tucuruvi, Osasco... Rodariam e se atirariam e iriam lá. Três tacos, direitinhos como relógios, levantariam no fogo do jogo um tufo de dinheiro, Ti8nham a noite e a madrugada. Virariam São Paulo de pernas para o ar.
 
Cada um tem a sua bola numerada e que não pode ser embocada. Cada um defende a sua e atira na do outro. Aquele se defende e atira na do outro. Assim, assim, vão os homens nas bolas. Forma-se a roda com cinco, seis, sete e até oito homens. O bolo. Cada homem tem uma bola que em duas vidas. Se a bola cai o homem perde uma vida. Se perder as duas vidas poderá recomeçar com o dobro da casada. Mas ganha uma vida só...
Fervia no Joana d´Arc o jogo triste da vida.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Jogo da Amarelinha

Cortázar, Julio. O Jogo da Amarelinha. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro / RJ; 1987; 521 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Julio Cortázar foi um escritor e intelectual argentino, é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo. Mestre no conto e na narrativa curta.
 
Dados da obra:
 
O Jogo da Amarelinha é considerado a obra máxima do autor. Original e inovador, o livro traz a possibilidade de o leitor começar do capítulo 1 e ir até o 56, tendo assim uma bem construída história sobre um triângulo amoroso. Ou pode optar por começar no capítulo 73, e começar a seguir a ordem indicada por Cortázar. Na segunda opção, aparecem acontecimentos de Maga, Oliveira, o Clube da Serpente e o narrador, além de citações de grandes autores, textos debatendo a literatura atual, artigos sobre os personagens, recortes de um texto maior.
 
Passagens:
 
Preferíamos o encontro casual na ponte, no terraço de um café num cine-clube ou, talvez, curvados sobre um gato em qualquer pátio do bairro latino. Andávamos por Paris sem nos procurarmos, mas sabendo sempre que andávamos para nos encontrar.
E repare, Maga, que acabávamos de travar conhecimento e a vida já tramava o necessário para que nos desencontrássemos minuciosamente. Como você não sabia dissimular, descobri quase imediatamente que, para vê-la como eu queria, era necessário começar por fechar os olhos e, então, surgiam coisas, primeiro como estrelas amarelas (movendo-se como gelatina de veludo), depois como cachoeiras vermelhas de jovialidade e das horas, ingresso paulatino num mundo-Maga que era a falta de jeito e a confusão, mas também levando a assinatura da aranha Klee, do circo Miró, dos espelhos cinzentos Vieira da Silva, num mundo onde você se movia como um cavalo de xadrez que se movesse como uma torre que se movesse como um bispo.
 
Nunca consegui resistir ao desejo de chamá-la para o meu lado, sentindo-a cair pouco a pouco sobre mim, desdobrar-se outra vez, depois d ter estado por um momento tão só e tão apaixonada diante da eternidade do seu corpo.
 
... Tinha a felicidade de poder acreditar sem ver, de poder formar um corpo com a duração, com o contínuo da vida. Tinha a felicidade de se encontrar dentro do quarto, de ter direito de cidadania em tudo o que tocava e em todos aqueles com quem convivia, peixe nadando no rio, folha na árvore, nuvem no céu, imagem no poema. Peixe, folha, nuvem, imagem: exatamente isso, a não ser que...
 
A Maga desconfiava um pouco. Admirava imensamente Oliveira e Etienne, capazes de discutir durante três horas sem parar. Em volta de Etienne e Oliveira, havia algo como um círculo de giz e ela queria entrar nesse circulo, compreender por que razão o princípio da indeterminação era tão importante na literatura, por que motivo Morelli, sobre quem eles tanto falavam, a quem tanto admiravam, pretendia fazer do seu livro uma bola de cristal, no qual o micro e o macrocosmo se uniam numa visão aniquilante.
 
... Entre a Maga e eu cresce um canavial de palavras, estamos separados só por algumas horas e alguns quarteirões e já a minha pena se chama pena, meu amor se chama meu amor... Irei sentindo cada vez menos e recordando cada vez mais, mas o que é recordação, afinal, senão o idioma dos sentimentos, um dicionário de rostos e dias e perfumes que voltam como os verbos e os adjetivos no discurso, adiantando-se disfarçados, à coisa em si, ao presente puro, entristecendo-nos ou lecionando-nos vicariamente até que o próprio ser se torna vigário, o rosto que olha para trás abre muito os olhos, o verdadeiro rosto se mancha pouco a pouco como nas velhas fotografias e Jano, de repente, é igual a qualquer um de nós.
 
– Como é larga esta rua – exclamou Talita, olhando para baixo. – É muito mais larga do que quando a olhamos da janela.
– As janelas são os olhos da cidade – comentou Traveler – e naturalmente deformam tudo o que vêm. Agora, você está num ponto de grande pureza, e talvez esteja vendo as coisas como um pombo ou um cavalo que não sabem que têm olhos.
 
... Você compreende, de vez em quando ocorre-me que lhe poderia dizer... Não sei, talvez no momento as palavras servissem de alguma coisa, nos servissem. Mas como não são as palavras da vida cotidiana e do mate no pátio, do bate-papo lubrificado, a gente recua, o melhor amigo é aquele a quem menos se podem dizer coisas assim. Nunca lhe aconteceu confiar-se muito mais a um outro cara qualquer?
– É possível – concordou Traveler, afinando a guitarra. – O ruim é que com esses princípios já não se sabe para que servem os amigos.
– Servem para estar aí e, um dia, quem sabe?
 
Longo bate-papo com Traveler sobre a loucura. Falando dos sonhos, demo-nos conta, quase ao mesmo tempo, de que certas estruturas sonhadas seriam formas correntes de loucura, a menos que continuassem na vigília. Quando sonhamos nos é dado exercitar de graça nossa aptidão para a loucura. Suspeitamos, ao mesmo tempo, que toda loucura é um sonho que se fixa.
Sabedora do povo: “É um pobre louco, um sonhador...”
 
Uma mesma situação e duas versões... Fico pensando em todas as folhas que serei eu a não ver o coletor de folhas secas, em tanta casa que haverá no ar e que estes olhos não veem, pobres morcegos de romances e cinemas e flores dissecadas. Por todos os lados haverá abajures, haverá folhas que não verei.
 
Outra maneira de tentar dizê-lo: O defectivo sente-se mais como uma pobreza intuitiva do que como uma mera falta de experiência. Na verdade, não me aflijo muito por não ter lido toda a obra de Jouhandeau, sinto no máximo a melancolia de uma vida demasiado curta para tantas bibliotecas, etc. A falta de experiência é inevitável, quando leio Joyce estou sacrificando automaticamente outro livro e vice-versa, etc.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Tia Julia e o Escrevinhador

Llosa, Mario Vargas. Tia Julia e o Escrevinhador. Alfaguara-Objetiva. Rio de Janeiro / RJ; 20077; 359 páginas.
 
Breve relato do autor:
 
Mario Vargas Llosa é um escritor, jornalista, ensaísta e político peruano, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2010. Ele ganhou notoriedade literária com a publicação do romance A Cidade e os Cães (1961). Mudou para Paris nos anos de 1960, e lecionou em diversas universidades americanas e europeias, ao longo dos anos.
 
Dados da obra:
 
Mesclando humor e romance, o escritor narra a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos 50, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até o dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens.
 
Passagens:
 
Escrevo. Escrevo que escrevo. Mentalmente me vejo escrever que escrevo e também posso me ver a me ver escrevendo. Lembro de mim já escrevendo e também me vendo escrever. E me vejo lembrando que me vejo escrever e me lembrando que me vejo lembrando que escrevia e escrevo me vendo escrever que me lembro de ter me visto escrever que me via escrevendo que lembrava de ter me visto escrever que escrevia e que escrevia que escrevo que escrevia. Também posso me imaginar escrevendo que já havia escrito que me imaginaria escrevendo que havia escrito que imaginava a mim escrevendo que me vejo escrever que escrevo.
Salvador Elizondo, o grafógrafo.
 
Tentei uma investigação parecida em outras casas de parentes e os resultados foram vagos.  As tias Gaby, Laura, Olga e Hortensia gostavam das novelas porque eram divertidas, tristes ou fortes, porque as distraíam e faziam sonhar, viver coisas impossíveis na vida real, porque mostravam algumas verdades ou porque sempre se tinha um pouquinho de espírito romântico. Quando perguntei por que gostavam mais que dos livros, protestaram: que bobagem, como dá para comparar, livros eram cultura, as novelas simples disparates para passar o tempo. Mas o certo é que viviam grudadas no rádio e que eu nunca tinha visto nenhuma delas abrir um livro...
 
... O mecânico tinha batido na porta assim, e, quando ela abriu, tinha olhado para ela assim e falado assim, e depois tinha se ajoelhado assim, jurando que a amava assim. Aturdidos, hipnotizados, o juiz e o secretário viam a menina-mulher adejar como uma ave, empinar como uma bailarina, agachar-se e subir, sorrir e zangar-se, modificar a voz e duplicá-la, imitando a si mesma e a Gumercindo Tello e, por fim, cair de joelhos e declarar (-se, -lhe) seu amor...
 
Esses encontros nos cafés do centro de Lima eram pouco pecaminosos, longas conversas muito românticas, “fazendo empanadinhas”, nos olhando nos olhos e, se a topografia do local permitia, roçando os joelhos. Só nos beijávamos quando ninguém podia nos ver, o que raramente acontecia, porque a essas horas os cafés estavam sempre cheios de grossos funcionários de escritório. Falávamos de nós, claro, dos perigos que corríamos de ser surpreendidos por algum membro da família, da maneira de evitar essas perigos, contávamos um ao outro, com riqueza de detalhes, tudo o que tínhamos feito desde o último encontro (quer dizer, algumas horas antes ou no dia anterior), mas, por outro lado, jamais fazíamos nenhum projeto para o futuro. O porvir era um assunto tacitamente abolido de nossas conversas, sem dúvida porque, tanto ela como eu, estávamos convencidos de que nossa relação não tinha nenhum. Porém, penso que isso que havia começado como uma brincadeira foi se tornando coisa séria nos castos encontros dos cafés enfumaçados do centro de Lima. Foi aí que, sem nos darmos conta, fomos nos apaixonando.
 
Prometi fazer o possível, mas sem muitas esperanças porque o escriba era um homem de convicções inflexíveis. Eu tinha chegado a me sentir amigo dele; além da curiosidade entomológica que me inspirava, tinha apreço por ele. Mas seria recíproco? Pedro Camacho não parecia capaz de perder seu tempo, sua energia, na amizade nem em nada que o distraísse de sua arte, isto é, seu trabalho ou vício, essa urgência que eliminava homens, coisas, apetites. Embora fosse verdade que a mim tolerava mais que a outros. Tomávamos café (ele hortelã com erva-cidreira) e eu ia a seu cubículo e lhe servia de pausa entre duas páginas. Escutava-o com suma atenção e isso talvez o lisonjeasse; talvez me tivesse por um discípulo, ou, simplesmente, era para ele o que é o cachorrinho de colo para a solteirona e as palavras cruzadas para o aposentado: alguém, ou alguma coisa com que preencher os vazios.
 
Ele começou com quatro novelas por dia, mas em vista do sucesso, foram aumentando até dez, que eram transmitidas de segunda a sábado, com Curaçao de meia hora cada capítulo (na verdade, 23 minutos, pois a publicidade açambarcava sete). Como dirigia e interpretava todos, devia permanecer no estúdio umas sete horas diárias, calculando que o ensaio e a gravação de cada programa durassem quarenta minutos (entre dez e 15 para sua arenga e os ensaios). Escrevia as novelas à medida que iam sendo transmitidas; constatei que cada capítulo lhe tomava o dobro do tempo de sua interpretação, uma hora. O que significava, de qualquer modo, umas dez horas na máquina de escrever. Isso diminuía um pouco graças aos domingos, seu dia livre, que ele, claro, passava no seu cubículo, adiantando o trabalho da semana. Seu horário era, portanto, de 15 a 16 horas de segunda a sábado e de oito a dez nos domingos. Todas elas praticamente produtivas, de rendimento artístico sonante.
 
– Meus escritos se conservam num lugar mais indelével do que os livros – me instruiu, no ato: – A memória dos ouvintes.
 
A lavadeira Teresita praticava uma filosofia de criação intuitivamente inspirada em Esparta ou em Darwin que consistia em fazer saber a seus filhos que, se tinham interesse em continuar nesta selva, tinham de aprender a receber e dar mordidas, e que essa história de tomar leite e comer era assunto que dizia respeito inteiramente a eles desde os 3 anos de idade, porque, lavando roupa dez horas por dia e distribuindo-a por Lima outras oito horas, só conseguiam sobreviver ela e as crias que não tinham completado a idade mínima para dançar com as próprias pernas.