quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O sol é para todos

Lee, Harper. O sol é para todos. Editora Círculo do Livro S.A.; São Paulo / SP; 317 páginas.

Dados da obra:

O tema infância e o drama do racismo, numa história de agrado geral. Com um fundo social e psicológico, o romance apresenta três crianças de uma cidade do Alabama, que vão descobrindo a vida entre lances de coragem e medo. Sua consciência é despertada e elas entram no mundo adulto, quando o pai de duas delas, advogado, defende um negro da acusação de ter violentado uma mulher branca.

Breve relato da autora:

Escritora norte-americana, Harper Lee é ganhadora do Prêmio Pulitzer em 1961 pela obra O sol é para todos. Em 2007 foi premiada com a "Medalha Presidencial da Liberdade dos EUA" por suas contribuições à literatura.

Passagens:

"Murmurei umas desculpas e calei-me, meditando sobre o meu crime. Eu nunca aprendera deliberadamente a ler, mas quem sabe se não andei olhando demais as notícias dos jornais? As longas horas passadas na igreja... será que aprendi aí? Eu sabia ler todos os hinos. Agora sendo obrigada a pensar no assunto, concluía que ler fora algo que me acontecera espontaneamente, como aprender a abotoar os fundilhos do pijama, ou dar laços nos sapatos sem olhar. Não conseguia me lembrar quando as linhas apontadas por Atticus se dividiram em palavras, mas todas as noites de que tinha lembrança eu as acompanhara ouvindo as notícias do dia, os projetos de lei, o diário de Lorenzo Dow – qualquer coisa que Atticus por acaso estivesse lendo quando eu me acomodava em seu colo à noite. Até sentir medo de perdê-la, eu não amava a leitura. Não se ama a respiração."

"– Talvez eu possa lhe explicar – retorquiu Mrs. Maudie. – Se algo pode ser dito a respeito de Atticus é que ele é um homem civilizado. Pontaria certeira é um dom de Deus, um talento natural... Certo, é preciso praticar para aperfeiçoá-la, mas atirar é diferente de tocar piano e coisas assim. Acho que ele desistiu de atirar quando compreendeu que Deus lhe concedera uma vantagem desleal sobre os outros seres vivos. Ele deve ter decidido só usar uma arma quando fosse necessário, e foi o que aconteceu hoje."

"... – Era, sim. Tinhas suas próprias opiniões, talvez muito diferentes das minhas... Filho, eu disse que, se você não tivesse perdido a cabeça, eu teria lhe pedido para ler para ela, mesmo assim, não foi? É que eu queria que você aprendesse uma coisa com ela... Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homeme com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer. Mrs. Dubose venceu, com seus oitenta e oito anos. Segundo suas convicções, morreu sem estar presa a nada e a ninguém. Ela era a pessoa mais corajosa que eu já conheci."

"Ele ainda estava encostado na parede. Quando eu entrara no quarto estava com os braços cruzados à altura do peito, mas quando apontei ele baixou os braços e pressionou a parede com as palmas das mãos. Essas eram brancas, mas de uma brancura doentia de quem nunca via o sol, tão brancas que pareciam fantasmagóricas contra a parede creme, à luz fraca do quarto de Jem. Das suas mãos, meus olhos passaram às suas calças cáqui, sujas de terra, e subiram pelo talhe fino até a camisa rasgada. Seu rosto era tão branco quando as mãos, a não ser por uma mancha no queixo saliente. As faces eram tão magras a ponto de serem quase cadavéricas, a boca era larga, as têmporas tinham delicadas reentrâncias e seus olhos cinzentos eram tão claros que pensei que ele fosse cego. Os cabelos eram sem vida e muito finos, quase uma penugem no topo de sua cabeça. Quando apontei para ele, suas palmas escorregaram na superfície da parede, deixando marcas de umidade, e ele enfiou os polegares no cinto. Um pequeno e insólito espasmo sacudiu-o como se ele tivesse ouvido um giz arranhar uma lousa, mas, enquanto eu o fitava admirada, a tensão deixou subitamente o seu rosto. Seus lábios separaram-se num tímido sorriso e a imagem do nosso vizinho enevoou-se com minhas súbitas lágrimas.
– Olá, Boo – disse eu."

"Chegamos ao posto da esquina e pensei nas vezes em que Dill estivera ali, abraçado ao posto, espiando, esperando, sonhando, e nas vezes em que Jem e eu tínhamos passado por ali. Pela segunda vez em minha vida, entrei pelo portão dos Radley. Boo e eu subimos os degraus da varanda e seus dedos encontraram a maçaneta. Gentilmente ele soltou a minha mão, abriu a porta, entrou e fechou a porta atrás de si. Nunca mais tornei a vê-lo."

"Os vizinhos trazem flores nas mortes, comida nas doenças e pequenas oferendas nos intervalos. Boo era nosso vizinho. Ele deu-nos dois bonecos, um relógio quebrado e uma corrente, um par de moedas da sorte, e nossas vidas. Mas vizinhos também retribuem as dádivas. Nós nunca colocamos de volta naquela árvore o que tiramos dela: nunca tínhamos lhe dado nada, e isso me deixou triste."

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